"Muitos arminianos estão usando a ausência de referências à doutrina da eleição na igreja antiga para dizer que ela só surgiu com Agostinho. Esse é um dos erros mais grosseiros que já vi. Os pais apostólicos (século 2) se concentraram numa soteriologia ética, por causa da influência de filosofias como o estoicismo e se afastaram de temas biblicos como a salvação pela fé somente ou a doutrina da eleição divina. Nos séculos 3 a 5, os temas que agitavam os debates teológicos eram a natureza de Deus (sua unicidade, por exemplo) e a relação entre as duas naturezas de Cristo. Assim, os temas tratados pelos teólogos seguiam (e seguem) as necessidades e apelos da sua época. Atanásio teve que lidar com os erros dos arianos, não com os erros de Pelágio. Como esperar que ele tratasse de questões ligadas à eleição?
E mais: Dizer que uma doutrina não é bíblica porque os pais antenicenos não trataram dela é perigoso, pois equivale a buscar a validação da verdade na tradição e não na exegese. Uma doutrina é bíblica por estar na Bíblia, não por estar nos escritos de Inácio ou de Tertuliano. E a doutrina da eleição está na Bíblia sim! Os arminianos verdadeiros sabem disso e ensinam essa doutrina. Ainda que eles a concebam em termos distintos dos calvinistas, esses arminianos melhor informados sabem que a eleição é um tema paulino com o qual todo exegeta precisa lidar.
Se esse tema é difícil e não se encaixa em nossa mente finita, isso é outra história. O fato é que não sabemos sequer o número de nossos fios de cabelo. Ora, se não conhecemos o que há no exterior da nossa cabeça, como ousaremos perscrutar o que há no interior da cabeça de Deus? Por isso, ao lidar com as coisas difíceis da Escritura (como o mistério da eleição) a razão humana deve se curvar diante da revelação divina, dizendo ao Senhor: "Ainda que eu não os entenda, todos os seus caminhos são igualmente justos"."
Marcos Granconato
Perfil do Facebook do Autor
Comentários
Postar um comentário