Uma Defesa da Visão Confessional ( Imagem de Deus)

Ademais, fora a simplória objeção de que essa visão da imagem divina seja luterana, duas acusações contra essa visão confessional são feitas. Em primeiro lugar, alega-se que três passagens das Escrituras ensinam que o homem caído se insere na imagem de Deus em certo sentido. Berkhof pode ser visto como o representante dessa visão: “Percebe-se que o homem, mesmo após a queda, não se importando com a sua condição espiritual, ainda está retratado como a imagem de Deus, Gênesis 9:6; 1 Coríntios 11:7; Tiago 3:9."

O primeiro desses, 1 Coríntios 11:7, diz,“O varão, pois, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do varão.”

O argumento para a defesa dos sentidos amplo e restritivo da imago Dei é este: o“varão” é descrito aqui. Isso se refere a todos os homens sem exceção. Portanto, todos os homens são a imagem de Deus de alguma forma. Entretanto, o
significado deste versículo é claro a todos os que acreditam que um texto deve ser compreendido em seu contexto. Paulo está falando sobre a oração (vs. 4-5) na instituição da Igreja (v. 16). Assim, 1 Coríntios 11:7 não está lidando com
descrentes, mas sim com os “irmãos” do apóstolo (v. 2), os quais são imitadores dele na mesma medida em que ele imita a Cristo (v. 1). É simplesmente falso dizer para outras pessoas, senão àqueles renovados na imagem de Deus pela
regeneração (Ef 4:24 c/c 1Co 11:1) que “o cabeça de todo varão é Cristo” (v. 3).

Dessa forma, 1 Coríntios 11:7 não provê apoio para a imagem divina em todos os homens, cabeça por cabeça. Por causa disso, alguns acadêmicos astutos incluíram
apenas Gênesis 9:6 e Tiago 3:9 como fundamento Bíblico para a visão ampla/restrita da imagem de Deus.

O segundo texto ao qual se apela para se sustentar a imagem de Deus em todos os homens é Gênesis 9:6:

“Quem derramar o sangue do homem, pelo homem o seu sangue será derramado; porque Deus fez o homem conforme a Sua
imagem.”

Os expoentes da visão tradicional estão corretos em sua asserção de que esse texto fala de toda a humanidade, não somente dos crentes. Eles estão errados, contudo, ao afirmarem que o versículo afirme que todos os homens estão agora inseridos na imagem de Deus. O texto simplesmente não diz isso, pois ele meramente reitera que em Gênesis 1:26-27, Deus fez o homem conforme a Sua imagem, apontando-nos assim ao sexto dia da semana da criação. Na queda, Adão perdeu a imago Dei, e gerou filhos à sua imagem (Gn 5:1-3), a imagem do diabo (Cânones III/IV:1-2). Então, como a criação do homem à imagem de Deus pode ser uma razão para a pena capital de assassinos? O homem — diferente de todas as outras criaturas — foi criado à imagem de Deus como coroa da criação. O homem — como uma criatura racional/moral — mostra, diversamente das feras, que possui uma constituição capaz de portar a imagem divina de conhecimento, justiça e santidade. Qualquer pessoa que assassinar um humano, ataca a Deus, porque a imagem divina foi concedida à raça humana na criação, e não a macacos ou formigas. Portanto, a visão confessional, ao invés do que as assertivas de John Murray dizem, faz total justiça à “gravidade da ofensa do assassinato,” “gravidade da pena,” sendo a “razão para o castigo do último”.

O terceiro versículo, Tiago 3:9, proporciona um pouco mais de dificuldade para a visão confessional. David Cairns, que afirma que a “humanidade em geral” porta a imagem de Deus, atesta que “a referência mais direta [para dizer que todos os homens portam a imagem divina no Novo Testamento], e que é oblíqua, é Tiago 3:9.” Acerca da língua do crente, as Escrituras inspiradas dizem,“Com ela bendizemos a Deus e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, [que são] feitos à semelhança de Deus.”

A posição tradicional diz que “homens” no versículo é de uso geral, incluindo todos os homens, não só os crentes. Tomando esse texto de modo isolado, esse poderia ser o caso. Certamente os comentaristas parecem pensar desse jeito. No mais, o verbo gegonotas, traduzido como "são feitos” na Versão Autorizada, está no tempo presente, indicando assim uma ação passada com efeitos no presente. Logo, os “homens” em nosso texto são aqueles que foram feitos e, portanto, estão atualmente inseridos na imagem de Deus. Obviamente, a explanação de Tiago 3:9 não pode se dar pela mesma lógica que Gênesis 9:6, particularmente porque o texto fala de Adão como um ser criado. Por isso, não seria o caso de que se realmente esteja se falando de todos os homens em algum sentido? Dois pontos devem ser
ressaltados aqui. Primeiro, o grego (tous anthropous tous kath homoiosin theou gegonotas) traduzido como "homens, que são feitos à semelhança de Deus,” literalmente fala de amaldiçoar “os homens, aqueles feitos à semelhança de Deus,” ou seja, “os feitos à semelhança de Deus homens.” O texto não diz que todos os homens estão inseridos na imagem de Deus. Por si mesma, a expressão poderia ser universal, referindo-se a todos os homens cabeça por cabeça, ou restritivamente, tratando somente dos regenerados. Segundo, o ensino sistemático da Escritura e o contexto devem determinar sobre qual dos dois se está falando.

Nós vimos que a Bíblia apoia o sentido restritivo, e uma leitura mais cuidadosa indica que o contexto faz o mesmo também. Tiago 3:1 aborda a questão acerca daqueles que deveriam ser mestres (didaskoloi) nas Igrejas. Os cristãos devem ser “perfeitos” (teleios; v. 2) em suas palavras (vs. 2-12) e “sábios” (sophos; v. 13) em suas obras (vs. 13-16), e com muita segurança os mestres devem, portanto, ser qualificados. O capítulo 4 nos diz de forma direta que havia “guerras“ e “pelejas” nas Igrejas (v. 1), além de soberba no meio delas (vs. 5-10). A situação era tão ruim que esses “irmãos” estavam falando “mal um do outro” (v. 11), e assim “julg[ando] um ao outro” (v. 12). Destarte, podemos concluir com certeza que não devemos amaldiçoar
os nossos irmãos que foram criados — e portanto estão — imersos na imago Dei.
Sendo assim, podemos estabelecer que aqueles inseridos na imagem de Deus em Tiago 3:9 são crentes das Igrejas das “doze tribos que andam dispersas” (Tg 1:1).

A segunda acusação feita contra a visão confessional é que, diferente da visão tradicional, é que aquela não vê na imagem de Deus uma expressão de “humanidade do homem,” conforme utilizada por Francis Schaeffer. De acordo com James Orr, a imagem de Deus é “determinante para a ideia bíblica do homem.”Reymond vê a imagem divina como o elemento que separa homens de feras.

A resposta da Bíblia para as perguntas, “a raça humana é distinta das outras formas animadas de vida, se sim, de que maneira?” pode ser resumida em uma única frase:

“O homem, e somente ele, é a clara imagem de Deus (imago Dei).”


Berkhof vai mais além, usando a imagem para expressar o relacionamento do homem tanto com Deus e com a vida animal:

“A doutrina da imagem de Deus no homem é de suma importânciana teologia, pois essa imagem é a expressão do que é peculiar no homem e na sua relação com Deus. O fato de que o homem é a imagem de Deus diferencia ele dos animais e de qualquer outra criatura.”

Não se pode negar a atração por uma visão do ser humano à imagem de Deus que nos permita, conforme a expressão, retratar o lugar do homem no mundo vis-à-vis em relação a Deus e às feras. Com efeito, essa linguagem possui maior poder e grandeza do que falar do homem como uma “criatura racional-moral”.

Entretanto, como pudemos observar, as Escrituras e as confissões reformadas desconhecem o sentido amplo da imagem divina, o que faz com que esse ganho aparente tenha de ser abandonado, caso contrário, outras perdas de maior intensidade ocorrerão. Ainda assim, nos apressamos em dizer que a visão confessional da imago Dei não nega de maneira alguma o lugar único do homem no universo. Ela apenas faz isso em termos diferentes. A mesma Confissão Belga, que define a imagem divina em termos de virtudes espirituais (Art. 14), declara que Deus concedeu a todas as criaturas o "ser, a forma e aparência, além das suas variadas
funções especificas [...] para que sirvam ao homem, a fim de que o homem possa servir ao seu Deus.” (Art. 12). No documento referido, temos Deus, o homem e todas as criaturas em uma relação, sem qualquer referência ao aspecto amplo da imago Dei. Após limitar a imagem de Deus à justiça original do homem (III/IV:1), os Cânones de Dort não possuem qualquer dificuldade em falarem do homem caído como sendo este, ainda assim, um homem. O homem é um ser que consiste de corpo e alma (II:1), possuindo entendimento, coração, vontade, afeições e mente (III/IV:1), capaz de se reproduzir (III/IV:2). Demais disso, o home caído ainda tem uma consciência. Ele sabe quem Deus é, e que certas ações são boas e outras são ruins. Ele pode, até certo limite, entender as coisas naturais, tais como as artes e as
ciências. Ele consegue até mesmo perceber os benefícios da ordem civil (III/IV:4). O homem permanece detentor de uma constituição de homem, sendo ainda uma criatura racional-moral, natural e terrena (1 Coríntios 15:44-45). Nem o sentido amplo, tampouco a graça comum são necessários para essas coisas. Dessa forma, a visão confessional do homem pode — sem qualquer apelo à imago Dei — junto
com Schaeffer, insistir na humanidade do homem, e, com Calvino, tratar da importância das ciências e das artes liberais.

O homem caído ainda é um homem, mas ele é um homem que porta a imago diaboli. O homem redimido ainda é um homem, um homem que porta a imago Dei. Ambos os homens crentes e descrentes são necessariamente portadores de imagem, contudo, diferem acerca de quem é a imagem que portam. Para uns, é a imagem de Deus; para outros, é a imagem de Satanás. Tanto os homens crentes,
como os descrentes brincam, se casam, procriam, governam, trabalham, estudam, pensam, desejam, falam etc. Todavia, eles fazem tudo isso a partir de dois princípios internos radicalmente diferentes, no serviço de dois mestres antagônicos entre si, em prol de dois alvos completamente distintos, pelo menos na medida em que o santo regenerado atua em consonância com a sua nova natureza. Os ímpios
odeiam a Deus de coração e servem ao diabo, colocando tudo a serviço do pecado e do egoísmo. Logo, eles espelham o pai deles, o diabo. Os justos, de acordo com o
grau de santificação deles e pela graça de Deus, servem ao Altíssimo, buscando a Sua glória e não a deles próprios. Nesse diapasão, eles refletem a glória do Pai deles no céu e são santos como Ele é Santo (1Pe 1:15-16). Portanto, devemos concordar de todo o coração com Anthony Hoekema: "a coisa mais importante sobre o homem é que ele inescapavelmente se relaciona com Deus.”
Por sua vez,a visão confessional acerca da imagem divina do descrente em relação a Deus é sempre a de um pecador rebelde que despreza o Seu Criador e que “é absolutamente incapaz de fazer qualquer bem, sendo inclinado para todo o tipo de mal.” Deus odeia ele em Seu eterno decreto de reprovação, tanto no tempo, como na sua punição eterna (Rm 9:13). Jeová sempre testemunha na consciência do
pecador que ele é culpado e condenado e que ele permanece exposto à ira de Deus. O inimigo do homem caído — O Deus Triúno todo poderoso — é o Seu criador, governador e juiz, Aquele diante de quem ele sempre permanece nu e culpado. Como Hoekema disse, mesmo o homem caído está “inescapavelmente relacionado com Deus.”


NOTAS:


107 Berkhof, Op. cit., p. 204. Van Oosterzee (Op. cit., p. 375), Strong (Op. cit., p. 315), Gentry (Op. cit.,

p. 179, n. 8), Kersten (Op. cit., p. 174), John Murray ("Man in the Image of God," in The Collected
Writings of John Murray, vol. 2 [Great Britain: Banner, 1977], pp. 35-37) e Blocher (Op. cit., p. 94)
também recorrem a esses três textos.
108 Vale dizer que este entendimento do texto poderia, todavia, ensinar que apenas os machos, e não
as fêmeas, estão inseridos na imagem de Deus.
109 E.g., Laidlaw, Op. cit., pp. 144-145.
110 Murray, Op. cit., p. 36. Homer C. Hoeksema apresenta outra interpretação de Gênesis 9:6,
negando, ainda assim, que o homem caído seja (hoje) a imagem de Deus. Homer Hoeksema
percebe que a imago Dei esteja se referindo ao executor do assassino (em vez da vítima do
assassino). O executor representa Deus porque Ele fez originalmente o homem conforme a Sua
imagem (Unfolding Covenant History, vol. 2 [Grand Rapids: RFPA, 2001], pp. 25-26. Uma visão
parecida com essa pode ser vista em Cornelius Hanko, "About the Image of God in Man," Standard
Bearer, vol. 56, issue 19 (1 August, 1980), pp. 444-446.
111 Cf. Hall, Op. cit., p. 218, n. 24; itálico meu. Hall também mantém que o sentido amplo da imago Dei
seja uma ideia "secundária" no ensino da Bíblia sobre o tema (p. 218, n. 24).
112 James B. Anderson em seu The New International Commentary on the New Testament escreve
sobre Tiago (3:9) que "a imago Dei não está totalmente destruída.” A partir dessa visão errônea da
imagem de Deus, ele nega a depravação total (todos os homens são completamente maus em
vontade e intelecto), advogando a existência apenas de uma depravação parcial, pela qual “não há
parte do nosso ser que não esteja, em alguma medida [isto é, não totalmente, mas sim parcialmente]
infectada pelo pecado" (The Epistle of James [Grand Rapids: Eerdmans, 1976], p. 146 e n. 31).
Dessa maneira, Anderson, como Timothy Ware e Harry Boer, usa o suposto sentido amplo da imago
Dei para negar a depravação total.
113 Consequentemente, o significado de Tiago 3:9 é parecido com o de 1 João 4:20.
114 Assim, de modo contrário a John Murray, o qual diz que a referência àqueles “que são feitos à
semelhança de Deus” (Tiago 3:9) para os piedosos seja nada menos que “arbitrário” (Op. cit., p. 37).
É a visão tradicional que não presta a devida atenção ao contexto.
115 Orr, Op. cit., p. 54.
116 Reymond, Op. cit., p. 425.
117 Berkhof, Op. cit., p. 206.
118 Calvino, Institutas, pp. 53-54 (1.5.2), 112 (1.11.12).
119 Hoekema, God’s Image, p. 4.
120 Catecismo de Heidelberg, P. 8


Extraído de:A Imagem de Deus no Homem: Uma Reavaliação Reformada Rev. Angus Stewart

Via:cprf.co.uk

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