Saul foi morto porque consultou a necromante e não ao SENHOR. Porém,
assim mesmo Samuel apareceu
Assim, morreu Saul por causa da sua transgressão cometida contra o SENHOR, por causa da palavra do SENHOR, que ele não guardara; e também porque interrogara e consultara uma necromante e não ao SENHOR, que, por isso, o matou e transferiu o reino a Davi, filho de Jessé (1Cr 10.13, 14).
Baseando-se nesses dois versículos, é argumentado que Samuel não poderia ter aparecido:
Se Saul consultou a feiticeira e não a Deus, então não foi Samuel que apareceu naquela sessão mediúnica... Saul não consultou o Senhor. Ele consultou uma necromante. Portanto, não foi Samuel quem apareceu naquela sessão espírita... O registro bíblico declara que Deus o matou porque ele consultou uma necromante e não o Senhor (1Cr 10.13, 14). Se Saul tivesse consultado Samuel, Deus não teria negado esse fato nem o matado por causa disso... A Bíblia afirma claramente que o Senhor matou Saul porque ele consultou uma feiticeira. Como Deus faria isso se tivesse permitido que Samuel aparecesse naquela sessão de feitiçaria?21
Porém, essas duas objeções ao aparecimento de Samuel são infundadas. Na primeira delas, o erro reside no fato de que, apesar de Saul ter consultado a necromante e não a Deus, assim mesmo Samuel apareceu. 1Samuel 28 não diz que Saul consultou a necromante e que, por causa disso, Samuel não apareceu. Pelo contrário, esse texto diz abertamente que foi “Samuel” quem apareceu e falou a Saul. Desse modo, o que o autor da objeção transcrita acima precisa explicar é o fato de Saul ter consultado a necromante e Samuel ter aparecido. Como que essa aparição pôde ter ocorrido? Teria Deus trazido Samuel para falar com Saul? É isso o que precisa ser explicado, pois é justamente isso o que o texto de 1Samuel 28 diz clara e repetidamente. Negar a aparição de Samuel com base no fato de Saul ter consultado a necromante, e não a Deus, é uma tentativa disfarçada de contornar aquilo que 1Samuel 28 diz tão nitidamente: que o falecido “Samuel” apareceu e conversou com Saul. Ao lançar esse argumento, no final a pessoa acaba deixando o texto de 1Samuel 28 de lado, sem analisá-lo frontalmente e com profundidade.
Por último, se Samuel ou um demônio tivesse aparecido em En-Dor, daria no mesmo: Deus teria matado Saul da mesma forma. Afinal, Saul foi morto porque “interrogara e consultara uma necromante” (como 1Cr 10.13, 14 diz claramente), e não porque Samuel apareceu! Ou será que uma autêntica aparição de Samuel anularia o pecado de Saul de ter recorrido àquela necromante, de modo que Deus não mais poderia matá-lo? Logo, essa segunda objeção mostra- se equivocada e sem sentido.
Dessa forma, 1Crônicas 10.13, 14 apenas diz que a consulta que Saul fez àquela pitonisa de En-Dor agravou ainda mais sua situação. Se ele já estava em falta perante Deus, essa consulta foi a gota d’água para a decretação de sua morte e fim de seu reinado, razão pela qual Deus enviou Samuel com aquela terrível mensagem. Porém, de forma alguma esse texto pode ser usado para negar a aparição de Samuel. Enquanto 1Samuel 28 fala da consulta que Saul fez àquela necromante e da aparição de Samuel, 1Crônicas 10.13, 14 diz que essa consulta custou-lhe a vida. Ora, em que essas informações de 1Crônicas depõem contra a aparição de Samuel? Resposta: em absolutamente nada! Esses dois versículos de 1Crônicas dizem que a consulta de Saul à pitonisa foi uma das razões pelas quais Deus o matou, e não que Samuel não apareceu em En- Dor.
ANÁLISE DO TEXTO DE 1SAMUEL 28
A IDENTIFICAÇÃO DE SAMUEL (28.12-14)
Depois dessas importantíssimas considerações iniciais, agora entraremos diretamente na análise do texto de 1Samuel 28. Como os leitores perceberão, não há dificuldade alguma para compreender esse capítulo, de modo que uma leitura simples, porém atenta, de seu conteúdo já será mais que suficiente para fazer a identificação daquele ser espiritual que falou com Saul. Só precisaremos deixar que o texto bíblico fale por si mesmo, naturalmente, sem querer forçá-lo a dizer aquilo que queremos. Após ler 1Samuel 28 com essa postura, faremos três perguntas bastante simples, contudo estratégicas, ao texto. As respostas que o próprio texto nos dará farão com que a identidade daquele ser espiritual que apareceu venha à tona.
Em nossa opinião, o trecho de 1Samuel 28.12-14 é a chave para resolver essa discussão em torno de quem teria aparecido em En-Dor. E por quê? Porque esses são os únicos versículos de todo o relato que foram escritos com o propósito de fazer, especificamente, a identificação daquele ser espiritual. Uma interpretação correta de 1Samuel 28, portanto, primeiramente examinará o que diz esse trecho, pois é nele que a identidade daquela criatura espiritual é revelada.
Dizemos isso porque nossos irmãos que negam que Samuel apareceu não dão muita atenção ao trecho de 1Samuel 28.12-14. Na maioria das vezes, fazem uma leitura bastante superficial e desatenta desses três versículos, pois seus esforços estão mais voltados às palavras que aquele ser disse a Saul (vs. 15-20), nas quais procuram apontar supostos erros e contradições. Tudo isso serviria para provar que aquele ser não era Samuel, mas um espírito maligno. Enfim, eles procuram identificar aquele ser espiritual principalmente a partir da análise das palavras que ele pronunciou.
Nós, porém, seguimos outro caminho, fazendo essa identificação diretamente nos versículos que foram escritos justamente com esse propósito. Somente depois disso passamos a examinar o teor das palavras ditas por aquela criatura espiritual. Dessa forma, se uma exegese de 1Samuel 28.12-14 identificar aquele ser como o falecido Samuel, então, sem dúvida, foi Samuel quem disse a Saul as palavras registradas nos versículos 15-20. Mas, se for identificado como um demônio, então seremos obrigados a reconhecer que as palavras que Saul ouviu vieram de um demônio. Abaixo os três versículos que fazem a identificação daquele ser:
(v. 12) Vendo a mulher a Samuel, gritou em alta voz; e a mulher disse a Saul: Por que me enganaste? Pois tu mesmo és Saul.
(v. 13) Respondeu-lhe o rei: Não temas; que vês? Então, a mulher respondeu a Saul: Vejo um deus que sobe da terra.
(v. 14) Perguntou ele: Como é a sua figura? Respondeu ela: Vem subindo um ancião e está envolto numa capa. Entendendo Saul que era Samuel, inclinou-se com o rosto em terra e se prostrou.
Foi o narrador inspirado quem afirmou que a necromante viu “Samuel” (v. 12)
Com base nesses três versículos, façamos três perguntas. Primeira: “Saul viu aquele ser que apareceu?” O texto deixa bem claro que a única pessoa que viu aquela criatura espiritual foi a necromante. O simples fato de Saul ter querido saber o que ela estava vendo (vs. 13a, 14a) já comprova isso. Saul não viu nada, apenas ouviu aquele ser espiritual falar.
Considerando que a mulher foi a única pessoa a ver aquele ser espiritual, deixamos a segunda pergunta: “A mulher disse a Saul que estava vendo ‘Samuel’?” Por não darem a devida atenção ao que 1Samuel 28.12-14 diz, muitas pessoas respondem “sim”. Porém, essa resposta está completamente errada, pois em momento algum a mulher disse que viu “Samuel”. Ao ser perguntada sobre o que via, ela respondeu: “Vejo um deus [heb. elohim] que sobe da terra” (v. 13b). Em seguida, quando Saul quis saber a aparência desse elohim, ela então lhe deu a descrição: “Vem subindo um ancião e está envolto numa capa” (v. 14b). Porém, notem os leitores que a mulher jamais disse a Saul que estava vendo “Samuel”. Embora tenha sido a única pessoa a ver aquele ser, a mulher apenas o descreveu. Em momento algum ela o identificou como “Samuel”. Para uma correta compreensão de 1Samuel 28, é fundamental que os leitores gravem bem este detalhe: a pitonisa viu e descreveu aquele ser, porém ela não sabia quem ele era. Esse detalhe, como veremos no próximo parágrafo e no decorrer deste livro, é extremamente importante para esse debate.
Finalmente, a terceira e decisiva pergunta: “Se a mulher não sabia quem era aquele ser que estava vendo, então quem o identificou como ‘Samuel’?” Resposta: o narrador inspirado. A declaração: “Vendo a mulher a Samuel” (v. 12a), que está na terceira pessoa, é a fala do narrador bíblico, na qual ele dá seu parecer inspirado e inerrante sobre a identidade daquele ser. A mulher não disse que viu “Samuel”, pois ela desconhecia a identidade daquele ser; porém, o escritor bíblico (a pessoa que Deus usou para registrar esse incidente na Bíblia), por ser inspirado por Deus, sabia quem ele era. Segundo ele, a criatura que a mulher viu era “Samuel”, o falecido profeta de Deus. Eis aí, portanto, a identidade daquele ser que apareceu em En-Dor! Foi o próprio Deus, usando o narrador inspirado, quem fez essa identificação.
Porém, surge um grande e sério problema para quem diz que um “demônio” apareceu em En-Dor: se aquela mulher viu, realmente, um espírito maligno, então isso indica que o narrador inspirado mentiu (ou errou, ou foi enganado por alguém) ao dizer que ela vira “Samuel”? Ora, admitir que ele mentiu seria o mesmo que acusar o próprio Deus de ter mentido, pois foi Ele quem inspirou o narrador a registrar essa declaração na Bíblia. Tal acusação, além de ser uma blasfêmia, ainda destruiria totalmente a inspiração divina da Bíblia, pois estaríamos dizendo que o escritor bíblico, quando está narrando na terceira pessoa, pode fazer declarações que não condizem com aquilo que realmente aconteceu. Ele escreveu que a mulher viu “Samuel”, mas na realidade ela teria visto um “demônio”. E agora? O narrador inspirado, ao narrar na terceira pessoa, pode mentir para nós, fazendo declarações que não expressam aquilo que de fato aconteceu?
Ora, é claro que ele não pode mentir! Afinal, em textos narrativos, aquilo que está escrito na terceira pessoa é a fala do narrador inspirado, na qual ele só relata as coisas como elas verdadeiramente aconteceram. Numa declaração desse tipo, o narrador, por ser inspirado, é onisciente; ou seja, ele tem ciência de tudo, inclusive dos pensamentos, sentimentos e desejos dos personagens envolvidos no evento narrado. Absolutamente nada escapa ao seu conhecimento. E por quê? Porque é o próprio Deus quem testemunha os acontecimentos, inspirando posteriormente Seus servos a registrá-los fielmente na Bíblia. Nesse caso, é impossível que o narrador inspirado, escrevendo na terceira pessoa, minta para nós ou relate um acontecimento que não condiz com aquilo que realmente aconteceu. Quando ele escreve na terceira pessoa, devemos ter em mente que é o próprio Deus quem está falando.
Dessa forma, o escritor inspirado, em 1Samuel 28.12, ao narrar na terceira pessoa, apenas registrou as coisas como elas realmente aconteceram. E se ele escreveu: “Vendo a mulher a Samuel”, então é porque aquela necromante viu, de fato, “Samuel”, o falecido servo de Deus. Se ele tivesse escrito: “Vendo a mulher um espírito mau”, então seríamos obrigados a acreditar que ela havia visto um espírito mau, um demônio. As teorias de que essa declaração na terceira pessoa não expressa a opinião infalível do escritor inspirado só ficam de pé se a inspiração divina das Escrituras cair, e vice-versa.
A expressão “vejo um deus que sobe da terra” (v. 13)
Os que rejeitam a aparição de Samuel argumentam que a declaração da pitonisa: “Vejo um deus [heb. elohim] que sobe da terra” (1Sm 28.13) comprova que aquele ser que apareceu não era Samuel, mas um demônio:
Em 1Samuel 28.13, a mulher diz: “Vejo deuses que sobem da terra”. Quem eram? Só podiam ser deuses do inferno.22
Todavia, não existe a menor possibilidade de o termo hebraico elohim,23 em 1Samuel 28.13, ter sido usado pela necromante com o sentido de “demônio” (ou “demônios”).24 E por quê? Ora, vejam que Saul, mesmo após a mulher ter-lhe dito que estava vendo elohim, ainda sim não foi capaz de identificar aquele ser espiritual.25 Ou seja, esse termo hebraico foi empregado com um sentido que impossibilitava a identificação daquela criatura espiritual, tanto por parte da necromante quanto por parte de Saul.
Diante disso, com qual sentido elohim foi empregado em 1Samuel 28.13? Ora, a melhor tradução para esse vocábulo, e que se encaixa perfeitamente a esse contexto, é: “Vejo um ser que sobe da terra”.26 E quem era esse elohim que a mulher viu mas desconhecia a identidade? Segundo o escritor inspirado, era “Samuel” (v. 12)! Desse modo, dependemos somente do escritor inspirado para saber, sem qualquer chance de erro, a identidade daquele elohim que a pitonisa viu.
Samuel jamais poderia ter descido do céu (v. 13)!
Com base na afirmação da pitonisa: “Vejo um deus que sobe da terra” (v. 13), é argumentado que aquele ser que surgiu em En-Dor era um espírito maligno:
O que Saul pediu para a necromante? Ele pediu para que ela fizesse subir a Samuel. O falso Samuel que apareceu na cena espírita subiu da terra (1Sm 28.11). Caso ele fosse o verdadeiro, teria de descer do céu... Ora, então, se Samuel fosse aparecer naquela sessão espírita, ele não iria subir, mas descer... quem apareceu naquela sessão mediúnica não foi Samuel, e sim um espírito enganador, procedente do abismo.27
Entretanto, esse argumento apenas revela ignorância acerca do estado intermediário dos mortos. Ou seja, daquilo que a Bíblia ensina sobre o destino da pessoa no período entre a morte e a ressurreição. À época em que Samuel e Saul morreram, os espíritos de salvos e perdidos iam para o mesmo lugar: o Sheol (= Hades). Porém, lá chegando eles seguiam para compartimentos distintos, onde recebiam tratamentos diferenciados (Sl 9.17; 16.10; Lc 16.22-31; 23.43; At 2.27, 31, etc.). Ou seja, os salvos (incluindo Samuel), naquele período, não “subiam ao céu”, como a objeção transcrita acima equivocadamente coloca, mas iam para o Sheol.
Desse modo, se Samuel, que morreu salvo, obrigatoriamente deveria ter descido do céu, então teríamos que admitir, absurdamente, que Saul morreria e também iria para o céu. Afinal, salvos e perdidos morriam e seguiam para o mesmo local. Logo, tanto Samuel quanto Saul morreram e foram para o Sheol, não para o céu.
Outro detalhe: notem os leitores que o próprio Saul pediu à pitonisa que lhe fizesse Samuel “subir” (1Sm 28.8, 11b). Ora, se Saul acreditasse que Samuel deveria “descer do céu” (pois somente os demônios subiriam da terra), então ele jamais teria feito esse pedido. Pelo contrário, ele teria solicitado à mulher: “Faze-me descer a Samuel”, em vez de: “Faze-me subir a Samuel”.28
Dessa forma, torna-se claro que justos e injustos, no tempo em que Samuel e Saul morreram, não iam para o céu, mas para o mundo inferior dos mortos, o Sheol. Dito isso, é óbvio que Samuel jamais poderia ter descido do céu!
O espírito de Samuel estava usando uma “capa” (v. 14)?
“Vem subindo um ancião envolto numa capa” (1Sm 28.14), disse a mulher a Saul ao descrever a aparência daquele ser que estava vendo. Segundo algumas pessoas, essa descrição seria um indício de que aquela criatura espiritual não era Samuel, mas um demônio. “Será que um espírito humano pode usar uma capa?”, astutamente indagam.
Entretanto, essa objeção é muito ingênua, sendo facilmente refutada por meio de outra pergunta: “Acaso um demônio, que é um ser espiritual, pode usar uma capa?” Portanto, torna-se notória a fragilidade desse tipo de raciocínio. O espírito de Samuel manifestou-se com uma capa; porém, é evidente que não era uma capa literal. A fim de facilitar o reconhecimento, aquela aparição carregou em si a imagem de como Samuel era, falava e se vestia enquanto estava vivo.
A expressão “entendendo Saul que era Samuel” (v. 14)
A palavra “entendendo” (1Sm 28.14), além de ser um dos argumentos mais importantes para tentar negar a aparição de Samuel, também é uma das palavras mais distorcidas de 1Samuel 28. Conforme aqueles que negam que Samuel apareceu, assim que ouviu a descrição dada pela necromante, Saul teria entendido, equivocadamente, que Samuel havia aparecido. Embora um “demônio” tivesse aparecido, Saul teria concluído que era “Samuel”.
Contudo, esse argumento só demonstra o quanto as pessoas, quando lêem um texto bíblico já predispostas a defender uma idéia particular, são capazes de distorcer seu sentido, chegando a conclusões equivocadas. Como assim? Ora, acaso a declaração: “Entendendo Saul que era Samuel”29 é o mesmo que: “Entendendo Saul, equivocadamente, que era Samuel”? Será que a palavra “entendendo”, sozinha, traz em si, implicitamente, o sentido de “entender equivocadamente”? É óbvio que não! Desse modo, a expressão “Entendendo Saul que era Samuel” de forma alguma pode ser usada para dizer que Saul entendeu incorretamente que Samuel aparecera. Se estivesse escrito: “Entendendo Saul, erroneamente, que era Samuel”, então aí sim seríamos obrigados a admitir que Samuel não havia aparecido, mas que Saul equivocara- se. Porém, não é isso o que está escrito em 1Samuel 28.14.
Por fim, o simples fato de ter sido o narrador inspirado quem declarou, na terceira pessoa, que Saul entendeu que era Samuel, demonstra que Saul estava certo nesse seu entendimento. Do contrário, certamente o narrador teria nos informado sobre isso em seu relato. Como já vimos, o narrador, quando escreve na terceira pessoa, apenas registra, fielmente, aquilo que realmente aconteceu. Logo, para ele Saul entendeu corretamente que Samuel estava presente naquela casa!
A força de atração e convencimento dessa “tradição da maioria” é tão poderosa, que as pessoas, inconscientemente, lêem o texto de 1Samuel 28 já inclinadas a atribuir sentidos estranhos e inexistentes às palavras. Pensamos que só isso poderia explicar como que elas conseguem, inacreditavelmente, concluir que a expressão “Entendendo Saul que era Samuel” significa “Entendendo Saul, equivocadamente, que era Samuel”. Inegavelmente, há um abismo intransponível que separa o sentido dessas duas expressões!
Saul não adorou Samuel (v. 14)
Devido à declaração: “Entendendo Saul que era Samuel, inclinou-se com o rosto em terra e se prostrou” (v. 14), há quem argumente que aquele ser não era Samuel, mas um demônio. E por quê? Porque Saul, ao prostrar-se perante aquela criatura, a teria adorado, sem, contudo, ter recebido censura alguma por esse ato. “Se aquele ser fosse Samuel, certamente teria repreendido Saul, pois apenas Deus é digno de adoração (cf. Ap 22.8, 9). Somente um demônio aceitaria ser adorado”.
Entretanto, onde está escrito em 1Samuel 28.14 que Saul “adorou” Samuel? Acaso o verbo “adorar” aparece nesse versículo? Será que a expressão “inclinou-se com o rosto em terra e se prostrou” revela um ato de adoração prestado por Saul a Samuel? É óbvio que não! Esse ato de Saul era totalmente normal entre os orientais quando queriam demonstrar reverência por outra pessoa que consideravam importante e superior (Gn 42.6; 1Sm 25.23; 2Sm 9.6; 24.20; 2Rs 2.14, 15, etc.), não tendo absolutamente nada a ver com qualquer atitude de adoração. Se Saul adorou Samuel só porque se prostrou ao perceber que esse profeta havia aparecido, então vejamos o que Davi fez num dado momento de sua vida: “Olhando Saul para trás, inclinou-se Davi e fez-lhe reverência, com o rosto em terra” (1Sm 24.8). Será que Davi, ao prostrar-se com o rosto em terra, estava adorando o rei Saul?
Portanto, uma exegese cuidadosa e detalhada de 1Samuel 28.12-14, o trecho que faz, especificamente, a identificação daquele ser espiritual, demonstra que foi mesmo Samuel quem apareceu em En-Dor. Desses três versículos, o décimo segundo é o mais importante, pois é nele que o escritor inspirado faz a identificação da criatura que a mulher viu. Como afirmamos no início desta análise, o fato de a pitonisa desconhecer a identidade daquela criatura também se reveste de grande importância nesse debate. Esse detalhe, aliado à declaração do narrador inspirado no versículo 12, na terceira pessoa, traz à luz a identidade daquele ser.
Para acreditar que a pitonisa viu o falecido Samuel, não dependemos da descrição que ela fez daquele ser ou daquilo que Saul entendeu. Dependemos somente da declaração: “Vendo a mulher a Samuel” (v. 12). Cem por cento de nossa convicção de que aquela criatura era Samuel repousa sobre essa declaração, na terceira pessoa, do versículo 12 (e, também, dos vs. 15, 16, 20). Se Deus, por meio do narrador inspirado, diz que o ser que aquela mulher viu era “Samuel”, quem somos nós para contrariá-Lo?
21 Hernandes Dias Lopes, É possível comunicar-se com os mortos?, Ed. Betânia, 1ª edição (2003), pgs. 43, 44, 46, 47.
22 Natanael Rinaldi e Paulo Romeiro, Desmascarando as Seitas, Ed. CPAD, 1ª edição (1996), pg. 208.
23 O vocábulo hebraico elohim é a forma plural de eloah, e é aplicado no AT ao Deus único e verdadeiro
(Gn 1; Is 40.28, etc.), a falsos deuses (Jz 11.24; 1Rs 11.5, etc.), a anjos (Sl 8.5; 104.4, etc.) e a juízes humanos (Ex 21.6; 22.8, 9; 1Sm 2.25, etc.).
24 Se a mulher tivesse pronunciado elohim com o sentido de “demônio” (ou “demônios”), então Saul
certamente lhe teria dito: “Eu não quero falar com um demônio, mas com Samuel!” Portanto, torna-se claro que elohim, aqui em 1Samuel 28.13, não tem esse significado.
25 Saul só percebeu que era Samuel quem estava presente depois que a mulher lhe disse que aquele ser (elohim) era um “ancião” que trajava uma “capa” (1Sm 28.14). Por causa desses detalhes, ele
imediatamente concluiu que Samuel havia aparecido, pois, quando vivo, esse velho profeta sempre trazia sobre si uma capa (15.27).
26 Outra tradução admissível é: “Vejo um espírito [elohim] que sobe da terra”.
27 Hernandes Dias Lopes, É possível comunicar-se com os mortos?, Ed. Betânia, 1ª edição (2003), pgs. 48, 49.
28 Era crença comum (e correta) no AT de que o espírito de todos os mortos (salvos e perdidos) ia para uma região inferior, o Sheol, localizada abaixo da terra. Vejam que a necromante (“Quem te farei subir?”,
1Sm 28.11a), Saul (“e me faças subir”, v. 8; “Faze-me subir Samuel”, v. 11b) e o próprio Samuel (“Por que me inquietaste, fazendo-me subir?”, v. 15a) criam dessa maneira. Logo, não há base bíblica alguma para afirmar que Samuel deveria ter vindo de cima, do céu.
29 A palavra portuguesa “entendendo” traduz o vocábulo hebraico yada, que significa “conhecer na prática ou na experiência”, “perceber”, “entender”, “reconhecer”.
assim mesmo Samuel apareceu
Assim, morreu Saul por causa da sua transgressão cometida contra o SENHOR, por causa da palavra do SENHOR, que ele não guardara; e também porque interrogara e consultara uma necromante e não ao SENHOR, que, por isso, o matou e transferiu o reino a Davi, filho de Jessé (1Cr 10.13, 14).
Baseando-se nesses dois versículos, é argumentado que Samuel não poderia ter aparecido:
Se Saul consultou a feiticeira e não a Deus, então não foi Samuel que apareceu naquela sessão mediúnica... Saul não consultou o Senhor. Ele consultou uma necromante. Portanto, não foi Samuel quem apareceu naquela sessão espírita... O registro bíblico declara que Deus o matou porque ele consultou uma necromante e não o Senhor (1Cr 10.13, 14). Se Saul tivesse consultado Samuel, Deus não teria negado esse fato nem o matado por causa disso... A Bíblia afirma claramente que o Senhor matou Saul porque ele consultou uma feiticeira. Como Deus faria isso se tivesse permitido que Samuel aparecesse naquela sessão de feitiçaria?21
Porém, essas duas objeções ao aparecimento de Samuel são infundadas. Na primeira delas, o erro reside no fato de que, apesar de Saul ter consultado a necromante e não a Deus, assim mesmo Samuel apareceu. 1Samuel 28 não diz que Saul consultou a necromante e que, por causa disso, Samuel não apareceu. Pelo contrário, esse texto diz abertamente que foi “Samuel” quem apareceu e falou a Saul. Desse modo, o que o autor da objeção transcrita acima precisa explicar é o fato de Saul ter consultado a necromante e Samuel ter aparecido. Como que essa aparição pôde ter ocorrido? Teria Deus trazido Samuel para falar com Saul? É isso o que precisa ser explicado, pois é justamente isso o que o texto de 1Samuel 28 diz clara e repetidamente. Negar a aparição de Samuel com base no fato de Saul ter consultado a necromante, e não a Deus, é uma tentativa disfarçada de contornar aquilo que 1Samuel 28 diz tão nitidamente: que o falecido “Samuel” apareceu e conversou com Saul. Ao lançar esse argumento, no final a pessoa acaba deixando o texto de 1Samuel 28 de lado, sem analisá-lo frontalmente e com profundidade.
Por último, se Samuel ou um demônio tivesse aparecido em En-Dor, daria no mesmo: Deus teria matado Saul da mesma forma. Afinal, Saul foi morto porque “interrogara e consultara uma necromante” (como 1Cr 10.13, 14 diz claramente), e não porque Samuel apareceu! Ou será que uma autêntica aparição de Samuel anularia o pecado de Saul de ter recorrido àquela necromante, de modo que Deus não mais poderia matá-lo? Logo, essa segunda objeção mostra- se equivocada e sem sentido.
Dessa forma, 1Crônicas 10.13, 14 apenas diz que a consulta que Saul fez àquela pitonisa de En-Dor agravou ainda mais sua situação. Se ele já estava em falta perante Deus, essa consulta foi a gota d’água para a decretação de sua morte e fim de seu reinado, razão pela qual Deus enviou Samuel com aquela terrível mensagem. Porém, de forma alguma esse texto pode ser usado para negar a aparição de Samuel. Enquanto 1Samuel 28 fala da consulta que Saul fez àquela necromante e da aparição de Samuel, 1Crônicas 10.13, 14 diz que essa consulta custou-lhe a vida. Ora, em que essas informações de 1Crônicas depõem contra a aparição de Samuel? Resposta: em absolutamente nada! Esses dois versículos de 1Crônicas dizem que a consulta de Saul à pitonisa foi uma das razões pelas quais Deus o matou, e não que Samuel não apareceu em En- Dor.
ANÁLISE DO TEXTO DE 1SAMUEL 28
A IDENTIFICAÇÃO DE SAMUEL (28.12-14)
Depois dessas importantíssimas considerações iniciais, agora entraremos diretamente na análise do texto de 1Samuel 28. Como os leitores perceberão, não há dificuldade alguma para compreender esse capítulo, de modo que uma leitura simples, porém atenta, de seu conteúdo já será mais que suficiente para fazer a identificação daquele ser espiritual que falou com Saul. Só precisaremos deixar que o texto bíblico fale por si mesmo, naturalmente, sem querer forçá-lo a dizer aquilo que queremos. Após ler 1Samuel 28 com essa postura, faremos três perguntas bastante simples, contudo estratégicas, ao texto. As respostas que o próprio texto nos dará farão com que a identidade daquele ser espiritual que apareceu venha à tona.
Em nossa opinião, o trecho de 1Samuel 28.12-14 é a chave para resolver essa discussão em torno de quem teria aparecido em En-Dor. E por quê? Porque esses são os únicos versículos de todo o relato que foram escritos com o propósito de fazer, especificamente, a identificação daquele ser espiritual. Uma interpretação correta de 1Samuel 28, portanto, primeiramente examinará o que diz esse trecho, pois é nele que a identidade daquela criatura espiritual é revelada.
Dizemos isso porque nossos irmãos que negam que Samuel apareceu não dão muita atenção ao trecho de 1Samuel 28.12-14. Na maioria das vezes, fazem uma leitura bastante superficial e desatenta desses três versículos, pois seus esforços estão mais voltados às palavras que aquele ser disse a Saul (vs. 15-20), nas quais procuram apontar supostos erros e contradições. Tudo isso serviria para provar que aquele ser não era Samuel, mas um espírito maligno. Enfim, eles procuram identificar aquele ser espiritual principalmente a partir da análise das palavras que ele pronunciou.
Nós, porém, seguimos outro caminho, fazendo essa identificação diretamente nos versículos que foram escritos justamente com esse propósito. Somente depois disso passamos a examinar o teor das palavras ditas por aquela criatura espiritual. Dessa forma, se uma exegese de 1Samuel 28.12-14 identificar aquele ser como o falecido Samuel, então, sem dúvida, foi Samuel quem disse a Saul as palavras registradas nos versículos 15-20. Mas, se for identificado como um demônio, então seremos obrigados a reconhecer que as palavras que Saul ouviu vieram de um demônio. Abaixo os três versículos que fazem a identificação daquele ser:
(v. 12) Vendo a mulher a Samuel, gritou em alta voz; e a mulher disse a Saul: Por que me enganaste? Pois tu mesmo és Saul.
(v. 13) Respondeu-lhe o rei: Não temas; que vês? Então, a mulher respondeu a Saul: Vejo um deus que sobe da terra.
(v. 14) Perguntou ele: Como é a sua figura? Respondeu ela: Vem subindo um ancião e está envolto numa capa. Entendendo Saul que era Samuel, inclinou-se com o rosto em terra e se prostrou.
Foi o narrador inspirado quem afirmou que a necromante viu “Samuel” (v. 12)
Com base nesses três versículos, façamos três perguntas. Primeira: “Saul viu aquele ser que apareceu?” O texto deixa bem claro que a única pessoa que viu aquela criatura espiritual foi a necromante. O simples fato de Saul ter querido saber o que ela estava vendo (vs. 13a, 14a) já comprova isso. Saul não viu nada, apenas ouviu aquele ser espiritual falar.
Considerando que a mulher foi a única pessoa a ver aquele ser espiritual, deixamos a segunda pergunta: “A mulher disse a Saul que estava vendo ‘Samuel’?” Por não darem a devida atenção ao que 1Samuel 28.12-14 diz, muitas pessoas respondem “sim”. Porém, essa resposta está completamente errada, pois em momento algum a mulher disse que viu “Samuel”. Ao ser perguntada sobre o que via, ela respondeu: “Vejo um deus [heb. elohim] que sobe da terra” (v. 13b). Em seguida, quando Saul quis saber a aparência desse elohim, ela então lhe deu a descrição: “Vem subindo um ancião e está envolto numa capa” (v. 14b). Porém, notem os leitores que a mulher jamais disse a Saul que estava vendo “Samuel”. Embora tenha sido a única pessoa a ver aquele ser, a mulher apenas o descreveu. Em momento algum ela o identificou como “Samuel”. Para uma correta compreensão de 1Samuel 28, é fundamental que os leitores gravem bem este detalhe: a pitonisa viu e descreveu aquele ser, porém ela não sabia quem ele era. Esse detalhe, como veremos no próximo parágrafo e no decorrer deste livro, é extremamente importante para esse debate.
Finalmente, a terceira e decisiva pergunta: “Se a mulher não sabia quem era aquele ser que estava vendo, então quem o identificou como ‘Samuel’?” Resposta: o narrador inspirado. A declaração: “Vendo a mulher a Samuel” (v. 12a), que está na terceira pessoa, é a fala do narrador bíblico, na qual ele dá seu parecer inspirado e inerrante sobre a identidade daquele ser. A mulher não disse que viu “Samuel”, pois ela desconhecia a identidade daquele ser; porém, o escritor bíblico (a pessoa que Deus usou para registrar esse incidente na Bíblia), por ser inspirado por Deus, sabia quem ele era. Segundo ele, a criatura que a mulher viu era “Samuel”, o falecido profeta de Deus. Eis aí, portanto, a identidade daquele ser que apareceu em En-Dor! Foi o próprio Deus, usando o narrador inspirado, quem fez essa identificação.
Porém, surge um grande e sério problema para quem diz que um “demônio” apareceu em En-Dor: se aquela mulher viu, realmente, um espírito maligno, então isso indica que o narrador inspirado mentiu (ou errou, ou foi enganado por alguém) ao dizer que ela vira “Samuel”? Ora, admitir que ele mentiu seria o mesmo que acusar o próprio Deus de ter mentido, pois foi Ele quem inspirou o narrador a registrar essa declaração na Bíblia. Tal acusação, além de ser uma blasfêmia, ainda destruiria totalmente a inspiração divina da Bíblia, pois estaríamos dizendo que o escritor bíblico, quando está narrando na terceira pessoa, pode fazer declarações que não condizem com aquilo que realmente aconteceu. Ele escreveu que a mulher viu “Samuel”, mas na realidade ela teria visto um “demônio”. E agora? O narrador inspirado, ao narrar na terceira pessoa, pode mentir para nós, fazendo declarações que não expressam aquilo que de fato aconteceu?
Ora, é claro que ele não pode mentir! Afinal, em textos narrativos, aquilo que está escrito na terceira pessoa é a fala do narrador inspirado, na qual ele só relata as coisas como elas verdadeiramente aconteceram. Numa declaração desse tipo, o narrador, por ser inspirado, é onisciente; ou seja, ele tem ciência de tudo, inclusive dos pensamentos, sentimentos e desejos dos personagens envolvidos no evento narrado. Absolutamente nada escapa ao seu conhecimento. E por quê? Porque é o próprio Deus quem testemunha os acontecimentos, inspirando posteriormente Seus servos a registrá-los fielmente na Bíblia. Nesse caso, é impossível que o narrador inspirado, escrevendo na terceira pessoa, minta para nós ou relate um acontecimento que não condiz com aquilo que realmente aconteceu. Quando ele escreve na terceira pessoa, devemos ter em mente que é o próprio Deus quem está falando.
Dessa forma, o escritor inspirado, em 1Samuel 28.12, ao narrar na terceira pessoa, apenas registrou as coisas como elas realmente aconteceram. E se ele escreveu: “Vendo a mulher a Samuel”, então é porque aquela necromante viu, de fato, “Samuel”, o falecido servo de Deus. Se ele tivesse escrito: “Vendo a mulher um espírito mau”, então seríamos obrigados a acreditar que ela havia visto um espírito mau, um demônio. As teorias de que essa declaração na terceira pessoa não expressa a opinião infalível do escritor inspirado só ficam de pé se a inspiração divina das Escrituras cair, e vice-versa.
A expressão “vejo um deus que sobe da terra” (v. 13)
Os que rejeitam a aparição de Samuel argumentam que a declaração da pitonisa: “Vejo um deus [heb. elohim] que sobe da terra” (1Sm 28.13) comprova que aquele ser que apareceu não era Samuel, mas um demônio:
Em 1Samuel 28.13, a mulher diz: “Vejo deuses que sobem da terra”. Quem eram? Só podiam ser deuses do inferno.22
Todavia, não existe a menor possibilidade de o termo hebraico elohim,23 em 1Samuel 28.13, ter sido usado pela necromante com o sentido de “demônio” (ou “demônios”).24 E por quê? Ora, vejam que Saul, mesmo após a mulher ter-lhe dito que estava vendo elohim, ainda sim não foi capaz de identificar aquele ser espiritual.25 Ou seja, esse termo hebraico foi empregado com um sentido que impossibilitava a identificação daquela criatura espiritual, tanto por parte da necromante quanto por parte de Saul.
Diante disso, com qual sentido elohim foi empregado em 1Samuel 28.13? Ora, a melhor tradução para esse vocábulo, e que se encaixa perfeitamente a esse contexto, é: “Vejo um ser que sobe da terra”.26 E quem era esse elohim que a mulher viu mas desconhecia a identidade? Segundo o escritor inspirado, era “Samuel” (v. 12)! Desse modo, dependemos somente do escritor inspirado para saber, sem qualquer chance de erro, a identidade daquele elohim que a pitonisa viu.
Samuel jamais poderia ter descido do céu (v. 13)!
Com base na afirmação da pitonisa: “Vejo um deus que sobe da terra” (v. 13), é argumentado que aquele ser que surgiu em En-Dor era um espírito maligno:
O que Saul pediu para a necromante? Ele pediu para que ela fizesse subir a Samuel. O falso Samuel que apareceu na cena espírita subiu da terra (1Sm 28.11). Caso ele fosse o verdadeiro, teria de descer do céu... Ora, então, se Samuel fosse aparecer naquela sessão espírita, ele não iria subir, mas descer... quem apareceu naquela sessão mediúnica não foi Samuel, e sim um espírito enganador, procedente do abismo.27
Entretanto, esse argumento apenas revela ignorância acerca do estado intermediário dos mortos. Ou seja, daquilo que a Bíblia ensina sobre o destino da pessoa no período entre a morte e a ressurreição. À época em que Samuel e Saul morreram, os espíritos de salvos e perdidos iam para o mesmo lugar: o Sheol (= Hades). Porém, lá chegando eles seguiam para compartimentos distintos, onde recebiam tratamentos diferenciados (Sl 9.17; 16.10; Lc 16.22-31; 23.43; At 2.27, 31, etc.). Ou seja, os salvos (incluindo Samuel), naquele período, não “subiam ao céu”, como a objeção transcrita acima equivocadamente coloca, mas iam para o Sheol.
Desse modo, se Samuel, que morreu salvo, obrigatoriamente deveria ter descido do céu, então teríamos que admitir, absurdamente, que Saul morreria e também iria para o céu. Afinal, salvos e perdidos morriam e seguiam para o mesmo local. Logo, tanto Samuel quanto Saul morreram e foram para o Sheol, não para o céu.
Outro detalhe: notem os leitores que o próprio Saul pediu à pitonisa que lhe fizesse Samuel “subir” (1Sm 28.8, 11b). Ora, se Saul acreditasse que Samuel deveria “descer do céu” (pois somente os demônios subiriam da terra), então ele jamais teria feito esse pedido. Pelo contrário, ele teria solicitado à mulher: “Faze-me descer a Samuel”, em vez de: “Faze-me subir a Samuel”.28
Dessa forma, torna-se claro que justos e injustos, no tempo em que Samuel e Saul morreram, não iam para o céu, mas para o mundo inferior dos mortos, o Sheol. Dito isso, é óbvio que Samuel jamais poderia ter descido do céu!
O espírito de Samuel estava usando uma “capa” (v. 14)?
“Vem subindo um ancião envolto numa capa” (1Sm 28.14), disse a mulher a Saul ao descrever a aparência daquele ser que estava vendo. Segundo algumas pessoas, essa descrição seria um indício de que aquela criatura espiritual não era Samuel, mas um demônio. “Será que um espírito humano pode usar uma capa?”, astutamente indagam.
Entretanto, essa objeção é muito ingênua, sendo facilmente refutada por meio de outra pergunta: “Acaso um demônio, que é um ser espiritual, pode usar uma capa?” Portanto, torna-se notória a fragilidade desse tipo de raciocínio. O espírito de Samuel manifestou-se com uma capa; porém, é evidente que não era uma capa literal. A fim de facilitar o reconhecimento, aquela aparição carregou em si a imagem de como Samuel era, falava e se vestia enquanto estava vivo.
A expressão “entendendo Saul que era Samuel” (v. 14)
A palavra “entendendo” (1Sm 28.14), além de ser um dos argumentos mais importantes para tentar negar a aparição de Samuel, também é uma das palavras mais distorcidas de 1Samuel 28. Conforme aqueles que negam que Samuel apareceu, assim que ouviu a descrição dada pela necromante, Saul teria entendido, equivocadamente, que Samuel havia aparecido. Embora um “demônio” tivesse aparecido, Saul teria concluído que era “Samuel”.
Contudo, esse argumento só demonstra o quanto as pessoas, quando lêem um texto bíblico já predispostas a defender uma idéia particular, são capazes de distorcer seu sentido, chegando a conclusões equivocadas. Como assim? Ora, acaso a declaração: “Entendendo Saul que era Samuel”29 é o mesmo que: “Entendendo Saul, equivocadamente, que era Samuel”? Será que a palavra “entendendo”, sozinha, traz em si, implicitamente, o sentido de “entender equivocadamente”? É óbvio que não! Desse modo, a expressão “Entendendo Saul que era Samuel” de forma alguma pode ser usada para dizer que Saul entendeu incorretamente que Samuel aparecera. Se estivesse escrito: “Entendendo Saul, erroneamente, que era Samuel”, então aí sim seríamos obrigados a admitir que Samuel não havia aparecido, mas que Saul equivocara- se. Porém, não é isso o que está escrito em 1Samuel 28.14.
Por fim, o simples fato de ter sido o narrador inspirado quem declarou, na terceira pessoa, que Saul entendeu que era Samuel, demonstra que Saul estava certo nesse seu entendimento. Do contrário, certamente o narrador teria nos informado sobre isso em seu relato. Como já vimos, o narrador, quando escreve na terceira pessoa, apenas registra, fielmente, aquilo que realmente aconteceu. Logo, para ele Saul entendeu corretamente que Samuel estava presente naquela casa!
A força de atração e convencimento dessa “tradição da maioria” é tão poderosa, que as pessoas, inconscientemente, lêem o texto de 1Samuel 28 já inclinadas a atribuir sentidos estranhos e inexistentes às palavras. Pensamos que só isso poderia explicar como que elas conseguem, inacreditavelmente, concluir que a expressão “Entendendo Saul que era Samuel” significa “Entendendo Saul, equivocadamente, que era Samuel”. Inegavelmente, há um abismo intransponível que separa o sentido dessas duas expressões!
Saul não adorou Samuel (v. 14)
Devido à declaração: “Entendendo Saul que era Samuel, inclinou-se com o rosto em terra e se prostrou” (v. 14), há quem argumente que aquele ser não era Samuel, mas um demônio. E por quê? Porque Saul, ao prostrar-se perante aquela criatura, a teria adorado, sem, contudo, ter recebido censura alguma por esse ato. “Se aquele ser fosse Samuel, certamente teria repreendido Saul, pois apenas Deus é digno de adoração (cf. Ap 22.8, 9). Somente um demônio aceitaria ser adorado”.
Entretanto, onde está escrito em 1Samuel 28.14 que Saul “adorou” Samuel? Acaso o verbo “adorar” aparece nesse versículo? Será que a expressão “inclinou-se com o rosto em terra e se prostrou” revela um ato de adoração prestado por Saul a Samuel? É óbvio que não! Esse ato de Saul era totalmente normal entre os orientais quando queriam demonstrar reverência por outra pessoa que consideravam importante e superior (Gn 42.6; 1Sm 25.23; 2Sm 9.6; 24.20; 2Rs 2.14, 15, etc.), não tendo absolutamente nada a ver com qualquer atitude de adoração. Se Saul adorou Samuel só porque se prostrou ao perceber que esse profeta havia aparecido, então vejamos o que Davi fez num dado momento de sua vida: “Olhando Saul para trás, inclinou-se Davi e fez-lhe reverência, com o rosto em terra” (1Sm 24.8). Será que Davi, ao prostrar-se com o rosto em terra, estava adorando o rei Saul?
Portanto, uma exegese cuidadosa e detalhada de 1Samuel 28.12-14, o trecho que faz, especificamente, a identificação daquele ser espiritual, demonstra que foi mesmo Samuel quem apareceu em En-Dor. Desses três versículos, o décimo segundo é o mais importante, pois é nele que o escritor inspirado faz a identificação da criatura que a mulher viu. Como afirmamos no início desta análise, o fato de a pitonisa desconhecer a identidade daquela criatura também se reveste de grande importância nesse debate. Esse detalhe, aliado à declaração do narrador inspirado no versículo 12, na terceira pessoa, traz à luz a identidade daquele ser.
Para acreditar que a pitonisa viu o falecido Samuel, não dependemos da descrição que ela fez daquele ser ou daquilo que Saul entendeu. Dependemos somente da declaração: “Vendo a mulher a Samuel” (v. 12). Cem por cento de nossa convicção de que aquela criatura era Samuel repousa sobre essa declaração, na terceira pessoa, do versículo 12 (e, também, dos vs. 15, 16, 20). Se Deus, por meio do narrador inspirado, diz que o ser que aquela mulher viu era “Samuel”, quem somos nós para contrariá-Lo?
21 Hernandes Dias Lopes, É possível comunicar-se com os mortos?, Ed. Betânia, 1ª edição (2003), pgs. 43, 44, 46, 47.
22 Natanael Rinaldi e Paulo Romeiro, Desmascarando as Seitas, Ed. CPAD, 1ª edição (1996), pg. 208.
23 O vocábulo hebraico elohim é a forma plural de eloah, e é aplicado no AT ao Deus único e verdadeiro
(Gn 1; Is 40.28, etc.), a falsos deuses (Jz 11.24; 1Rs 11.5, etc.), a anjos (Sl 8.5; 104.4, etc.) e a juízes humanos (Ex 21.6; 22.8, 9; 1Sm 2.25, etc.).
24 Se a mulher tivesse pronunciado elohim com o sentido de “demônio” (ou “demônios”), então Saul
certamente lhe teria dito: “Eu não quero falar com um demônio, mas com Samuel!” Portanto, torna-se claro que elohim, aqui em 1Samuel 28.13, não tem esse significado.
25 Saul só percebeu que era Samuel quem estava presente depois que a mulher lhe disse que aquele ser (elohim) era um “ancião” que trajava uma “capa” (1Sm 28.14). Por causa desses detalhes, ele
imediatamente concluiu que Samuel havia aparecido, pois, quando vivo, esse velho profeta sempre trazia sobre si uma capa (15.27).
26 Outra tradução admissível é: “Vejo um espírito [elohim] que sobe da terra”.
27 Hernandes Dias Lopes, É possível comunicar-se com os mortos?, Ed. Betânia, 1ª edição (2003), pgs. 48, 49.
28 Era crença comum (e correta) no AT de que o espírito de todos os mortos (salvos e perdidos) ia para uma região inferior, o Sheol, localizada abaixo da terra. Vejam que a necromante (“Quem te farei subir?”,
1Sm 28.11a), Saul (“e me faças subir”, v. 8; “Faze-me subir Samuel”, v. 11b) e o próprio Samuel (“Por que me inquietaste, fazendo-me subir?”, v. 15a) criam dessa maneira. Logo, não há base bíblica alguma para afirmar que Samuel deveria ter vindo de cima, do céu.
29 A palavra portuguesa “entendendo” traduz o vocábulo hebraico yada, que significa “conhecer na prática ou na experiência”, “perceber”, “entender”, “reconhecer”.
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