Para sintetizar tudo aquilo que foi dito nessas três considerações, acompanhem as perguntas e respostas abaixo, que seguem a seqüência de dias da semana empregada no quadro cronológico apresentado anteriormente.
1. Em que dia da semana os filisteus chegaram a Suném? Resposta: chegaram na terça-feira.
2. Davi estava em Suném, junto com os filisteus? Resposta: Sim (1Sm 29.11).
3. Onde os filisteus estavam acampados, quando Saul os viu (28.5)? Resposta: estavam acampados em “Suném” (28.4a).
4. Ao ver os filisteus em Suném, em que dia Saul decidiu visitar a pitonisa de En-Dor? Resposta: Saul visitou a pitonisa na noite do mesmo dia em que os filisteus chegaram a Suném (28.5-8), ou seja, visitou-a na terça- feira.
5. Após ouvir aquela profecia de Samuel, em que dia Saul retornou ao acampamento israelita, que ficava em Jezreel/Gilboa? Resposta: Saul retornou ao acampamento “naquela mesma noite” (28.25) de terça-feira.
6. Para não participar da batalha contra seus irmãos israelitas, em que dia Davi deixou a cidade de Suném, seguindo a recomendação do rei Aquis (29.10)? Resposta: Davi deixou Suném na madrugada da quarta-feira (29.11a).
7. Em que dia os filisteus “subiram a Jezreel” (29.11b), para iniciarem a batalha contra os israelitas (31.1-7)? Resposta: os filisteus foram para Jezreel na quarta-feira, ou seja, no mesmo dia em que Davi saiu do meio deles.
Ora, essa seqüência de perguntas e respostas leva-nos a duas constatações:
1. Os itens de 1 a 5 falam de eventos que ocorreram num mesmo dia: uma terça-feira. Ou seja, no mesmo dia em que Davi e os filisteus chegaram a Suném, Saul visitou a pitonisa de En-Dor.
2. Os itens 6 e 7 também falam de eventos que ocorreram num mesmo dia: uma quarta-feira. Ou seja, no mesmo dia em que Davi saiu do meio dos filisteus, estes deram início à batalha que resultou na morte de Saul.
Portanto, a profecia de Samuel, concernente à morte de Saul, cumpriu-se perfeitamente. Na terça-feira, à noite, Samuel disse que Saul morreria no dia seguinte: “amanhã [quarta-feira], tu e teus filhos estareis comigo” (1Sm 28.19). E as palavras do falecido profeta não caíram por terra: na quarta-feira, instantes após Davi ter saído do meio dos filisteus (29.11a), estes “subiram a Jezreel” (29.11b) e imediatamente iniciaram o combate no qual Saul morreu (31.1-7). O autor do livro de Eclesiástico tinha toda a razão ao declarar que “mesmo depois de sua morte, ele [Samuel] profetizou, predizendo ao rei [Saul] o seu fim” (Ecl 46.20)!
Somente um manuseio seletivo de 1Samuel 28—31, em que a ordem dos acontecimentos registrados nesses capítulos é convenientemente manipulada a fim de apoiar um ponto de vista particular, pode fazer alguém concluir que Saul morreu três, cinco, dez, quinze ou até dezoito dias após as predições de Samuel. A análise aqui apresentada contesta tal interpretação, comprovando que a batalha que resultou no falecimento de Saul ocorreu um dia após a visita que ele fez àquela pitonisa.
Samuel não disse que todos os filhos de Saul morreriam (v. 19)
Segundo os que negam que Samuel apareceu, ao ter vaticinado: “amanhã, tu e teus filhos estareis comigo”, aquela criatura espiritual teria errado, pois nem todos os filhos de Saul pereceram na batalha contra os filisteus:
Não morreram todos os filhos de Saul, como insinuava a tal profecia (1Sm 28.19). Ficaram vivos pelo menos três filhos de Saul: Isbosete (2Sm 2.8-10); Armoni e Mefibosete (2Sm 21.8). Apenas três morreram, como está registrado em 1Samuel 31.6 e 1Crônicas 10.2-6.34 (itálico acrescentado)
Ora, acaso Samuel disse que “todos” os filhos de Saul, sem uma única exceção, morreriam? É isso o que está escrito em 1Samuel 28.19? Acaso Samuel usou o pronome indefinido “todos”? É claro que não! Portanto, ao dizer “tu e teus filhos”, Samuel apenas disse que mais de um filho de Saul morreria (como de fato aconteceu), e não que todos eles tombariam no campo de batalhas.
Só mesmo uma leitura distorcida de 1Samuel 28.19, guiada por idéias pré- concebidas, pode levar alguém a concluir que a expressão “tu e teus filhos” é o mesmo que “tu e todos os teus filhos”. Indiscutivelmente, há uma diferença gigantesca entre essas duas expressões!
Saul foi, sim, entregue nas mãos dos filisteus (v. 19)!
Outra objeção bastante apresentada para dizer que aquele ser espiritual teria errado é com relação ao fato de Saul ter cometido suicídio (1Sm 31.4, 5; 1Cr 10.4, 5). “Se Saul se matou”, argumentam, “então ele não foi entregue nas mãos dos filisteus, como aquele falso Samuel predisse (1Sm 28.19)”. Para reforçarem esse raciocínio, ainda apontam para o fato de que o corpo de Saul foi parar nas mãos dos moradores da cidade de Jabes-Gileabe, e não nas dos filisteus. Tudo isso provaria, portanto, que o oráculo entregue a Saul teria fracassado.
Saul não foi entregue nas mãos dos filisteus (1Sm 28.19), mas se suicidou (1Sm 31.4), vindo parar mais tarde nas mãos dos homens de Jabes-Gileade (1Sm 31.11- 13).35
Porém, os dois relatos paralelos da morte de Saul (1Sm 31.1-10; 1Cr 10.1-10) rapidamente desfazem esses dois raciocínios, mostrando que tanto o exército de Israel quanto Saul e seus filhos foram entregues nas mãos dos filisteus. O fato de Saul ter se suicidado de forma alguma indica que ele não foi entregue nas mãos dos filisteus. E por quê? Ora, porque Saul se matou tão logo viu que ele e todo Israel tinham sucumbido diante das forças filistéias. Se Saul não foi entregue nas mãos dos filisteus, então por que ele se suicidou? Que outra razão o teria levado a tomar tal atitude, senão a certeza de que o SENHOR o havia, de fato, entregado nas mãos dos filisteus, como Samuel profetizara um dia antes?36 Se Saul não tivesse sido entregue nas mãos dos filisteus, então ele jamais teria se matado! Os leitores concordam?
Com relação ao fato de o corpo de Saul ter ido parar nas mãos dos moradores de Jabes-Gileade, temos aí mais um argumento precipitado e insustentável. Por quê? Porque a profecia de Samuel dizia que Saul seria entregue nas mãos dos filisteus, e não que o cadáver dele seria entregue nas mãos dos filisteus. O corpo de Saul foi parar nas mãos dos moradores de Jabes- Gileade; porém, isso só aconteceu porque antes Saul já havia sido entregue nas mãos dos filisteus (razão pela qual ele suicidou-se). Ou seja, a profecia de Samuel cumpriu-se à risca! Após Saul ter sido entregue nas mãos dos filisteus, pouco importava se o cadáver dele fosse parar nas mãos dos moradores de Jabes-Gileade, dos sírios, dos egípcios, das feras do campo, etc. O importante era que a profecia de Samuel já havia se cumprido antes.
Saul morreu e foi para o mesmo lugar onde Samuel estava (v. 19)? Sim!
Muitos alegam que ao ter declarado: “amanhã, tu e teus filhos estareis comigo” (1Sm 28.19), aquele ser espiritual teria errado, pois essas palavras indicam que Saul morreria e iria para o Paraíso, o mesmo lugar onde o espírito do justo Samuel estava. “Será que Saul, um homem que morreu sob perdição, foi para o mesmo lugar onde se encontrava Samuel, um homem salvo? Após a morte, salvos e perdidos partilham da mesma sorte, indo para o mesmo lugar?” Contudo, esse questionamento falha por ignorar que, até à ascensão de Jesus,os espíritos de salvos e perdidos, após a morte, iam para o mesmo lugar: o Sheol (= Hades). Porém, lá eles seguiam para compartimentos diferentes: os espíritos dos crentes iam para o Paraíso, onde eram consolados (Lc 16.22a, 25; 23.43; At 2.27, 31, etc.), ao passo que os dos incrédulos eram lançados num lugar de angústia e castigos (Sl 9.17; Lc 16.23-28, etc.).
Munidos dessas informações, agora fica fácil entender a expressão “estareis comigo” de 1Samuel 28.19. Aqui, Samuel estava dizendo que Saul morreria e iria para o mesmo lugar (o Sheol) onde ele (Samuel) estava. Porém, Samuel não mencionou nem o nome desse lugar para onde Saul iria após a morte, nem se esse lugar era dividido em compartimentos para salvos e perdidos.37 Sabemos desses detalhes acerca do destino de salvos e perdidos após a morte por meio de outros textos bíblicos (sobretudo do NT), e não por meio dessas poucas e curtas palavras de Samuel.
Portanto, se Saul morreu sob perdição, então é evidente que o espírito dele não foi para o compartimento dos salvos, o Paraíso, a parte aprazível do Sheol na qual estava Samuel. Porém, de certa forma o espírito de Saul certamente foi para o mesmo lugar onde Samuel estava, o Sheol, pois era para esse lugar que todos os mortos, salvos e perdidos, iam após deixarem esta vida. Como vimos, Samuel só não mencionou o nome do lugar para onde o espírito de Saul iria, nem se tal lugar possuía câmaras para justos e injustos.
Um demônio não traria uma mensagem negativa a Saul (vs. 16-20)
Se foi mesmo um demônio que apareceu em En-Dor, então ele não deveria ter trazido uma mensagem confortadora a Saul? Esse suposto espírito maligno não deveria ter consolado esse rei, dizendo que ele venceria os filisteus, ou que ele estava no caminho certo, que agradava a Deus? O fato de aquela criatura ter trazido palavras tão terríveis a Saul não reforça, ainda mais, a posição de que foi “Samuel” quem apareceu, ao mesmo tempo que enfraquece a idéia de que foi um “demônio”?
Vejam como o teor das palavras proferidas por aquele ser espiritual são totalmente incompatíveis com a tese de que um “demônio” apareceu, mas perfeitamente compatíveis com a idéia de que “Samuel” surgiu.
1. Saul estava incomodando Samuel (v. 15). Um demônio, passando-se pelo espírito de um morto, demonstraria irritação ao conversar com um consulente? Será que um filho, ao conversar com o suposto espírito de sua mãe querida que faleceu, ouviria algo do tipo: “Meu filho, por que você está me incomodando aqui nesta sessão espírita, fazendo-me sair de onde eu estava?” Se esse espírito dissesse isso, certamente desestimularia esse filho (ou qualquer outra pessoa) a buscar auxílio no espiritismo. Logo, isso sugere que tais palavras não procederam de um demônio, mas de Samuel.
2. Saul não deveria ter buscado auxílio em Samuel (v. 16). Será que um demônio, fingindo ser o espírito de um falecido, censuraria uma pessoa que lhe estivesse consultando, buscando ajuda? É evidente que não. Um demônio diria justamente o oposto: “Olá, fulano! Como é bom encontrá- lo aqui nesta reunião espírita! Em que posso ajudá-lo?” Sem dúvida, tal tratamento faria qualquer pessoa sentir-se mais amada, feliz e motivada a voltar outras vezes para comunicar-se com esse mesmo espírito.
3. Saul errou por não ter ouvido a voz do SENHOR (v. 18). Acaso um demônio repreende uma pessoa desobediente a Deus? Será que um anjo caído quer que as pessoas vivam em obediência ao SENHOR? Absolutamente! Um autêntico profeta como Samuel, contudo, seguramente censuraria uma pessoa que estivesse vivendo em rebeldia contra Deus.
4. A mensagem que aquele ser trouxe a Saul foi tão terrível e funesta, que “caiu Saul estendido por terra e foi tomado de grande medo por causa das palavras de Samuel; e faltavam-lhe as forças” (v. 20). Sinceramente, será que um demônio traria um recado tão macabro como esse para um consulente? Imaginem qual seria a reação de uma pessoa que ouvisse uma mensagem como essa, vinda do suposto espírito de um ente querido que faleceu?! Será que essa pessoa ainda teria coragem de voltar mais vezes para conversar com esse mesmo espírito? Será que ela aconselharia outras pessoas em dificuldades a também buscarem auxílio nos espíritos? Particularmente, o autor deste livro nunca mais participaria de uma sessão de necromancia.
Se foi mesmo um demônio que se manifestou naquela casa, então ele deveria ter trazido uma mensagem animadora, confortadora a Saul, pois esse rei recorreu à necromancia justamente para ser ajudado. Esse suposto demônio, sabendo desse desejo de Saul, deveria tê-lo ajudado, proferindo somente palavras de consolo e vitória. Ele deveria ter dito somente aquilo que Saul queria ouvir. Entretanto, nada disso aconteceu. Do começo ao fim, as palavras daquele ser espiritual são uma mescla de forte censura e morte inevitável. O teor dessa mensagem é cem por cento coerente com aquilo que o profeta Samuel diria a Saul. Afinal, Deus jamais enviaria Samuel para que ele entregasse uma mensagem positiva, vitoriosa, encorajadora a um rei como Saul. No entanto, tais palavras são completamente inconsistentes com as que um demônio diria a esse rei.
Além disso, sustentar que foi um demônio que falou com Saul leva-nos à estranha conclusão de que os demônios não querem que as pessoas se envolvam com as práticas espíritas. Afinal, quem, após ouvir uma mensagem como aquela que Saul ouviu, voltaria novamente para consultar os mortos?
Por fim, se um demônio apareceu e enganou Saul ao passar-se por Samuel, então por que esse ser maligno já não fez um “serviço completo” e tratou esse rei com alegria e presteza, falando-lhe mentiras e demonstrando o firme propósito de ajudá-lo? Que sentido haveria em esse demônio fingir ser Samuel, mas em seguida tratar Saul com extrema irritação, dizendo-lhe a mais pura e dura verdade? (Afinal, vimos que aquele ser em momento algum mentiu para Saul; suas palavras não contêm qualquer inconsistência ou erro; e sua profecia sobre a sorte final de Saul, seus filhos e Israel cumpriu-se perfeitamente.) Portanto, acreditar que um demônio apareceu, fingiu ser Samuel e enganou Saul fica sem sentido quando analisamos o conteúdo da mensagem que aquele ser espiritual entregou a esse monarca. Entretanto, essa mensagem encaixa-se como uma luva no ponto de vista segundo o qual Samuel realmente apareceu e disse somente a verdade a Saul!
Podemos resumir este tópico dizendo que, se fizermos uma análise com base na proporcionalidade, veremos que a identidade daquele ser que apareceu pode ser determinada pelo tom da mensagem que ele trouxe a Saul. Ou seja, quanto mais desencorajadora, macabra e negativa fosse a mensagem que Saul recebesse, maior a certeza de que aquele ser espiritual era Samuel. Porém, quanto mais encorajadora, abençoadora e positiva fosse a mensagem que Saul ouvisse, maior a certeza de que aquele ser era um demônio. Portanto, só podemos concluir que as duríssimas palavras que Saul ouviu vieram do falecido profeta Samuel, e não de um anjo mau!
Ao final desta análise do texto de 1Samuel 28, constatamos a existência de uma perfeita harmonia entre o trecho que faz a identificação daquele ser espiritual (1Sm 28.12-14) e o trecho que traz as palavras pronunciadas por ele (1Sm 28.15-20). As declarações do narrador inspirado na terceira pessoa: “Vendo a mulher a Samuel” (v. 12) e “Samuel disse...” (vs. 15, 16, 20), são a prova irrefutável de que aquela pitonisa viu o falecido Samuel, e de que foi esse profeta quem conversou com Saul. Negar isso, além de trazer sérios problemas à interpretação bíblica, inescapavelmente força-nos a negar a inspiração divina da Bíblia. Esse é o altíssimo preço a ser pago caso neguemos aquilo que o texto de 1Samuel 28 diz tão clara e repetidamente.
Portanto, quando defendemos que foi o falecido Samuel quem falou com Saul, na realidade estamos salvaguardando a total inspiração divina das Escrituras. Em nosso entendimento, é impossível negar que Samuel apareceu e falou com Saul sem destruir a inspiração divina da Bíblia.
Continua.....
34 Natanael Rinaldi e Paulo Romeiro, Desmascarando as Seitas, Ed. CPAD, 1ª edição (1996), pg. 207.
35 ibid., pg. 207.
36 A expressão “ser entregue nas mãos de” não significa, necessariamente, que Saul haveria de morrer pelas mãos de um guerreiro filisteu, vitimado por uma flecha ou golpe de espada, por exemplo. Ela apenas indica que Saul (assim como seus filhos e todo o Israel) seria derrotado pelos filisteus, pois o SENHOR não estaria ao seu lado naquela batalha. Ou seja, Samuel disse, em 1Samuel 28.19, que Deus abandonara Saul. De forma alguma essa expressão indica que a pessoa que fosse entregue nas mãos do inimigo seria, obrigatoriamente, morta por esse inimigo (v. Jz 16.23,24; 1Rs 8.46-50; 2Rs 13.1-5; Ed 5.12; Is 19.4; Jr 43.3, etc.).
37 Ao contrário de Samuel, Jesus mencionou o nome do compartimento do Hades (= Sheol) para onde o
ladrão arrependido da cruz iria após a morte: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23.43). Aqui, fica claro que o espírito daquele ladrão ingressaria na porção bem-aventurada do Hades, o “paraíso” dos salvos, o mesmo compartimento onde o espírito de Jesus ficou durante três dias. Porém,
Samuel não disse a Saul: “amanhã, tu e teus filhos estareis comigo no paraíso”. Se tivesse dito isso, então aí sim poderíamos dizer que ele havia errado, pois teria dito que Saul morreria e seguiria para o compartimento dos salvos, o Paraíso.
1. Em que dia da semana os filisteus chegaram a Suném? Resposta: chegaram na terça-feira.
2. Davi estava em Suném, junto com os filisteus? Resposta: Sim (1Sm 29.11).
3. Onde os filisteus estavam acampados, quando Saul os viu (28.5)? Resposta: estavam acampados em “Suném” (28.4a).
4. Ao ver os filisteus em Suném, em que dia Saul decidiu visitar a pitonisa de En-Dor? Resposta: Saul visitou a pitonisa na noite do mesmo dia em que os filisteus chegaram a Suném (28.5-8), ou seja, visitou-a na terça- feira.
5. Após ouvir aquela profecia de Samuel, em que dia Saul retornou ao acampamento israelita, que ficava em Jezreel/Gilboa? Resposta: Saul retornou ao acampamento “naquela mesma noite” (28.25) de terça-feira.
6. Para não participar da batalha contra seus irmãos israelitas, em que dia Davi deixou a cidade de Suném, seguindo a recomendação do rei Aquis (29.10)? Resposta: Davi deixou Suném na madrugada da quarta-feira (29.11a).
7. Em que dia os filisteus “subiram a Jezreel” (29.11b), para iniciarem a batalha contra os israelitas (31.1-7)? Resposta: os filisteus foram para Jezreel na quarta-feira, ou seja, no mesmo dia em que Davi saiu do meio deles.
Ora, essa seqüência de perguntas e respostas leva-nos a duas constatações:
1. Os itens de 1 a 5 falam de eventos que ocorreram num mesmo dia: uma terça-feira. Ou seja, no mesmo dia em que Davi e os filisteus chegaram a Suném, Saul visitou a pitonisa de En-Dor.
2. Os itens 6 e 7 também falam de eventos que ocorreram num mesmo dia: uma quarta-feira. Ou seja, no mesmo dia em que Davi saiu do meio dos filisteus, estes deram início à batalha que resultou na morte de Saul.
Portanto, a profecia de Samuel, concernente à morte de Saul, cumpriu-se perfeitamente. Na terça-feira, à noite, Samuel disse que Saul morreria no dia seguinte: “amanhã [quarta-feira], tu e teus filhos estareis comigo” (1Sm 28.19). E as palavras do falecido profeta não caíram por terra: na quarta-feira, instantes após Davi ter saído do meio dos filisteus (29.11a), estes “subiram a Jezreel” (29.11b) e imediatamente iniciaram o combate no qual Saul morreu (31.1-7). O autor do livro de Eclesiástico tinha toda a razão ao declarar que “mesmo depois de sua morte, ele [Samuel] profetizou, predizendo ao rei [Saul] o seu fim” (Ecl 46.20)!
Somente um manuseio seletivo de 1Samuel 28—31, em que a ordem dos acontecimentos registrados nesses capítulos é convenientemente manipulada a fim de apoiar um ponto de vista particular, pode fazer alguém concluir que Saul morreu três, cinco, dez, quinze ou até dezoito dias após as predições de Samuel. A análise aqui apresentada contesta tal interpretação, comprovando que a batalha que resultou no falecimento de Saul ocorreu um dia após a visita que ele fez àquela pitonisa.
Samuel não disse que todos os filhos de Saul morreriam (v. 19)
Segundo os que negam que Samuel apareceu, ao ter vaticinado: “amanhã, tu e teus filhos estareis comigo”, aquela criatura espiritual teria errado, pois nem todos os filhos de Saul pereceram na batalha contra os filisteus:
Não morreram todos os filhos de Saul, como insinuava a tal profecia (1Sm 28.19). Ficaram vivos pelo menos três filhos de Saul: Isbosete (2Sm 2.8-10); Armoni e Mefibosete (2Sm 21.8). Apenas três morreram, como está registrado em 1Samuel 31.6 e 1Crônicas 10.2-6.34 (itálico acrescentado)
Ora, acaso Samuel disse que “todos” os filhos de Saul, sem uma única exceção, morreriam? É isso o que está escrito em 1Samuel 28.19? Acaso Samuel usou o pronome indefinido “todos”? É claro que não! Portanto, ao dizer “tu e teus filhos”, Samuel apenas disse que mais de um filho de Saul morreria (como de fato aconteceu), e não que todos eles tombariam no campo de batalhas.
Só mesmo uma leitura distorcida de 1Samuel 28.19, guiada por idéias pré- concebidas, pode levar alguém a concluir que a expressão “tu e teus filhos” é o mesmo que “tu e todos os teus filhos”. Indiscutivelmente, há uma diferença gigantesca entre essas duas expressões!
Saul foi, sim, entregue nas mãos dos filisteus (v. 19)!
Outra objeção bastante apresentada para dizer que aquele ser espiritual teria errado é com relação ao fato de Saul ter cometido suicídio (1Sm 31.4, 5; 1Cr 10.4, 5). “Se Saul se matou”, argumentam, “então ele não foi entregue nas mãos dos filisteus, como aquele falso Samuel predisse (1Sm 28.19)”. Para reforçarem esse raciocínio, ainda apontam para o fato de que o corpo de Saul foi parar nas mãos dos moradores da cidade de Jabes-Gileabe, e não nas dos filisteus. Tudo isso provaria, portanto, que o oráculo entregue a Saul teria fracassado.
Saul não foi entregue nas mãos dos filisteus (1Sm 28.19), mas se suicidou (1Sm 31.4), vindo parar mais tarde nas mãos dos homens de Jabes-Gileade (1Sm 31.11- 13).35
Porém, os dois relatos paralelos da morte de Saul (1Sm 31.1-10; 1Cr 10.1-10) rapidamente desfazem esses dois raciocínios, mostrando que tanto o exército de Israel quanto Saul e seus filhos foram entregues nas mãos dos filisteus. O fato de Saul ter se suicidado de forma alguma indica que ele não foi entregue nas mãos dos filisteus. E por quê? Ora, porque Saul se matou tão logo viu que ele e todo Israel tinham sucumbido diante das forças filistéias. Se Saul não foi entregue nas mãos dos filisteus, então por que ele se suicidou? Que outra razão o teria levado a tomar tal atitude, senão a certeza de que o SENHOR o havia, de fato, entregado nas mãos dos filisteus, como Samuel profetizara um dia antes?36 Se Saul não tivesse sido entregue nas mãos dos filisteus, então ele jamais teria se matado! Os leitores concordam?
Com relação ao fato de o corpo de Saul ter ido parar nas mãos dos moradores de Jabes-Gileade, temos aí mais um argumento precipitado e insustentável. Por quê? Porque a profecia de Samuel dizia que Saul seria entregue nas mãos dos filisteus, e não que o cadáver dele seria entregue nas mãos dos filisteus. O corpo de Saul foi parar nas mãos dos moradores de Jabes- Gileade; porém, isso só aconteceu porque antes Saul já havia sido entregue nas mãos dos filisteus (razão pela qual ele suicidou-se). Ou seja, a profecia de Samuel cumpriu-se à risca! Após Saul ter sido entregue nas mãos dos filisteus, pouco importava se o cadáver dele fosse parar nas mãos dos moradores de Jabes-Gileade, dos sírios, dos egípcios, das feras do campo, etc. O importante era que a profecia de Samuel já havia se cumprido antes.
Saul morreu e foi para o mesmo lugar onde Samuel estava (v. 19)? Sim!
Muitos alegam que ao ter declarado: “amanhã, tu e teus filhos estareis comigo” (1Sm 28.19), aquele ser espiritual teria errado, pois essas palavras indicam que Saul morreria e iria para o Paraíso, o mesmo lugar onde o espírito do justo Samuel estava. “Será que Saul, um homem que morreu sob perdição, foi para o mesmo lugar onde se encontrava Samuel, um homem salvo? Após a morte, salvos e perdidos partilham da mesma sorte, indo para o mesmo lugar?” Contudo, esse questionamento falha por ignorar que, até à ascensão de Jesus,os espíritos de salvos e perdidos, após a morte, iam para o mesmo lugar: o Sheol (= Hades). Porém, lá eles seguiam para compartimentos diferentes: os espíritos dos crentes iam para o Paraíso, onde eram consolados (Lc 16.22a, 25; 23.43; At 2.27, 31, etc.), ao passo que os dos incrédulos eram lançados num lugar de angústia e castigos (Sl 9.17; Lc 16.23-28, etc.).
Munidos dessas informações, agora fica fácil entender a expressão “estareis comigo” de 1Samuel 28.19. Aqui, Samuel estava dizendo que Saul morreria e iria para o mesmo lugar (o Sheol) onde ele (Samuel) estava. Porém, Samuel não mencionou nem o nome desse lugar para onde Saul iria após a morte, nem se esse lugar era dividido em compartimentos para salvos e perdidos.37 Sabemos desses detalhes acerca do destino de salvos e perdidos após a morte por meio de outros textos bíblicos (sobretudo do NT), e não por meio dessas poucas e curtas palavras de Samuel.
Portanto, se Saul morreu sob perdição, então é evidente que o espírito dele não foi para o compartimento dos salvos, o Paraíso, a parte aprazível do Sheol na qual estava Samuel. Porém, de certa forma o espírito de Saul certamente foi para o mesmo lugar onde Samuel estava, o Sheol, pois era para esse lugar que todos os mortos, salvos e perdidos, iam após deixarem esta vida. Como vimos, Samuel só não mencionou o nome do lugar para onde o espírito de Saul iria, nem se tal lugar possuía câmaras para justos e injustos.
Um demônio não traria uma mensagem negativa a Saul (vs. 16-20)
Se foi mesmo um demônio que apareceu em En-Dor, então ele não deveria ter trazido uma mensagem confortadora a Saul? Esse suposto espírito maligno não deveria ter consolado esse rei, dizendo que ele venceria os filisteus, ou que ele estava no caminho certo, que agradava a Deus? O fato de aquela criatura ter trazido palavras tão terríveis a Saul não reforça, ainda mais, a posição de que foi “Samuel” quem apareceu, ao mesmo tempo que enfraquece a idéia de que foi um “demônio”?
Vejam como o teor das palavras proferidas por aquele ser espiritual são totalmente incompatíveis com a tese de que um “demônio” apareceu, mas perfeitamente compatíveis com a idéia de que “Samuel” surgiu.
1. Saul estava incomodando Samuel (v. 15). Um demônio, passando-se pelo espírito de um morto, demonstraria irritação ao conversar com um consulente? Será que um filho, ao conversar com o suposto espírito de sua mãe querida que faleceu, ouviria algo do tipo: “Meu filho, por que você está me incomodando aqui nesta sessão espírita, fazendo-me sair de onde eu estava?” Se esse espírito dissesse isso, certamente desestimularia esse filho (ou qualquer outra pessoa) a buscar auxílio no espiritismo. Logo, isso sugere que tais palavras não procederam de um demônio, mas de Samuel.
2. Saul não deveria ter buscado auxílio em Samuel (v. 16). Será que um demônio, fingindo ser o espírito de um falecido, censuraria uma pessoa que lhe estivesse consultando, buscando ajuda? É evidente que não. Um demônio diria justamente o oposto: “Olá, fulano! Como é bom encontrá- lo aqui nesta reunião espírita! Em que posso ajudá-lo?” Sem dúvida, tal tratamento faria qualquer pessoa sentir-se mais amada, feliz e motivada a voltar outras vezes para comunicar-se com esse mesmo espírito.
3. Saul errou por não ter ouvido a voz do SENHOR (v. 18). Acaso um demônio repreende uma pessoa desobediente a Deus? Será que um anjo caído quer que as pessoas vivam em obediência ao SENHOR? Absolutamente! Um autêntico profeta como Samuel, contudo, seguramente censuraria uma pessoa que estivesse vivendo em rebeldia contra Deus.
4. A mensagem que aquele ser trouxe a Saul foi tão terrível e funesta, que “caiu Saul estendido por terra e foi tomado de grande medo por causa das palavras de Samuel; e faltavam-lhe as forças” (v. 20). Sinceramente, será que um demônio traria um recado tão macabro como esse para um consulente? Imaginem qual seria a reação de uma pessoa que ouvisse uma mensagem como essa, vinda do suposto espírito de um ente querido que faleceu?! Será que essa pessoa ainda teria coragem de voltar mais vezes para conversar com esse mesmo espírito? Será que ela aconselharia outras pessoas em dificuldades a também buscarem auxílio nos espíritos? Particularmente, o autor deste livro nunca mais participaria de uma sessão de necromancia.
Se foi mesmo um demônio que se manifestou naquela casa, então ele deveria ter trazido uma mensagem animadora, confortadora a Saul, pois esse rei recorreu à necromancia justamente para ser ajudado. Esse suposto demônio, sabendo desse desejo de Saul, deveria tê-lo ajudado, proferindo somente palavras de consolo e vitória. Ele deveria ter dito somente aquilo que Saul queria ouvir. Entretanto, nada disso aconteceu. Do começo ao fim, as palavras daquele ser espiritual são uma mescla de forte censura e morte inevitável. O teor dessa mensagem é cem por cento coerente com aquilo que o profeta Samuel diria a Saul. Afinal, Deus jamais enviaria Samuel para que ele entregasse uma mensagem positiva, vitoriosa, encorajadora a um rei como Saul. No entanto, tais palavras são completamente inconsistentes com as que um demônio diria a esse rei.
Além disso, sustentar que foi um demônio que falou com Saul leva-nos à estranha conclusão de que os demônios não querem que as pessoas se envolvam com as práticas espíritas. Afinal, quem, após ouvir uma mensagem como aquela que Saul ouviu, voltaria novamente para consultar os mortos?
Por fim, se um demônio apareceu e enganou Saul ao passar-se por Samuel, então por que esse ser maligno já não fez um “serviço completo” e tratou esse rei com alegria e presteza, falando-lhe mentiras e demonstrando o firme propósito de ajudá-lo? Que sentido haveria em esse demônio fingir ser Samuel, mas em seguida tratar Saul com extrema irritação, dizendo-lhe a mais pura e dura verdade? (Afinal, vimos que aquele ser em momento algum mentiu para Saul; suas palavras não contêm qualquer inconsistência ou erro; e sua profecia sobre a sorte final de Saul, seus filhos e Israel cumpriu-se perfeitamente.) Portanto, acreditar que um demônio apareceu, fingiu ser Samuel e enganou Saul fica sem sentido quando analisamos o conteúdo da mensagem que aquele ser espiritual entregou a esse monarca. Entretanto, essa mensagem encaixa-se como uma luva no ponto de vista segundo o qual Samuel realmente apareceu e disse somente a verdade a Saul!
Podemos resumir este tópico dizendo que, se fizermos uma análise com base na proporcionalidade, veremos que a identidade daquele ser que apareceu pode ser determinada pelo tom da mensagem que ele trouxe a Saul. Ou seja, quanto mais desencorajadora, macabra e negativa fosse a mensagem que Saul recebesse, maior a certeza de que aquele ser espiritual era Samuel. Porém, quanto mais encorajadora, abençoadora e positiva fosse a mensagem que Saul ouvisse, maior a certeza de que aquele ser era um demônio. Portanto, só podemos concluir que as duríssimas palavras que Saul ouviu vieram do falecido profeta Samuel, e não de um anjo mau!
Ao final desta análise do texto de 1Samuel 28, constatamos a existência de uma perfeita harmonia entre o trecho que faz a identificação daquele ser espiritual (1Sm 28.12-14) e o trecho que traz as palavras pronunciadas por ele (1Sm 28.15-20). As declarações do narrador inspirado na terceira pessoa: “Vendo a mulher a Samuel” (v. 12) e “Samuel disse...” (vs. 15, 16, 20), são a prova irrefutável de que aquela pitonisa viu o falecido Samuel, e de que foi esse profeta quem conversou com Saul. Negar isso, além de trazer sérios problemas à interpretação bíblica, inescapavelmente força-nos a negar a inspiração divina da Bíblia. Esse é o altíssimo preço a ser pago caso neguemos aquilo que o texto de 1Samuel 28 diz tão clara e repetidamente.
Portanto, quando defendemos que foi o falecido Samuel quem falou com Saul, na realidade estamos salvaguardando a total inspiração divina das Escrituras. Em nosso entendimento, é impossível negar que Samuel apareceu e falou com Saul sem destruir a inspiração divina da Bíblia.
Continua.....
34 Natanael Rinaldi e Paulo Romeiro, Desmascarando as Seitas, Ed. CPAD, 1ª edição (1996), pg. 207.
35 ibid., pg. 207.
36 A expressão “ser entregue nas mãos de” não significa, necessariamente, que Saul haveria de morrer pelas mãos de um guerreiro filisteu, vitimado por uma flecha ou golpe de espada, por exemplo. Ela apenas indica que Saul (assim como seus filhos e todo o Israel) seria derrotado pelos filisteus, pois o SENHOR não estaria ao seu lado naquela batalha. Ou seja, Samuel disse, em 1Samuel 28.19, que Deus abandonara Saul. De forma alguma essa expressão indica que a pessoa que fosse entregue nas mãos do inimigo seria, obrigatoriamente, morta por esse inimigo (v. Jz 16.23,24; 1Rs 8.46-50; 2Rs 13.1-5; Ed 5.12; Is 19.4; Jr 43.3, etc.).
37 Ao contrário de Samuel, Jesus mencionou o nome do compartimento do Hades (= Sheol) para onde o
ladrão arrependido da cruz iria após a morte: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23.43). Aqui, fica claro que o espírito daquele ladrão ingressaria na porção bem-aventurada do Hades, o “paraíso” dos salvos, o mesmo compartimento onde o espírito de Jesus ficou durante três dias. Porém,
Samuel não disse a Saul: “amanhã, tu e teus filhos estareis comigo no paraíso”. Se tivesse dito isso, então aí sim poderíamos dizer que ele havia errado, pois teria dito que Saul morreria e seguiria para o compartimento dos salvos, o Paraíso.
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