AS PALAVRAS DE SAMUEL (28.15-20)
Como já foi demonstrado anteriormente, aqueles que defendem a aparição de um demônio concentram seus esforços especialmente nas palavras proferidas por aquele ser espiritual. E, a partir delas, apontam incoerências e erros supostamente cometidos por aquele ser. “Se foi mesmo Samuel quem apareceu, então por que ele errou e foi contraditório nalgumas de suas declarações? A Bíblia diz que nenhuma das palavras de Samuel caiu por terra (1Sm 3.19). Contudo, por que a profecia daquele ser, relativa à sorte final de Saul, não se cumpriu? Portanto, não foi Samuel quem apareceu em En-Dor e conversou com Saul, mas um espírito maligno”.
Entretanto, se vimos na análise de 1Samuel 28.12-14 que o narrador inspirado identificou aquele ser que a pitonisa viu como o falecido “Samuel”, então essas acusações não têm fundamento algum. Nesse caso, a análise das palavras de Samuel, que será realizada a seguir, deve estar em perfeita harmonia com a análise na qual fizemos a identificação desse profeta.
Vejam abaixo o diálogo entre Samuel e Saul.
(v. 15) Samuel disse a Saul: Por que me inquietaste, fazendo-me subir? Então, disse Saul: Mui angustiado estou, porque os filisteus guerreiam contra mim, e Deus se desviou de mim e já não me responde, nem pelo ministério dos profetas, nem por sonhos; por isso, te chamei para que me reveles o que devo fazer.
(v. 16) Então, disse Samuel: Por que, pois, a mim me perguntas, visto que o SENHOR te desamparou e se fez teu inimigo?
(v. 17) Porque o SENHOR fez para contigo como, por meu intermédio, ele te dissera; tirou o reino da tua mão e o deu ao teu companheiro Davi.
(v. 18) Como tu não deste ouvidos à voz do SENHOR e não executaste o que ele, no furor da sua ira, ordenou contra Amaleque, por isso, o SENHOR te fez, hoje, isto.
(v. 19) O SENHOR entregará também a Israel contigo nas mãos dos filisteus, e, amanhã, tu e teus filhos estareis comigo; e o acampamento de Israel o SENHOR entregará nas mãos dos filisteus. (v. 20) De súbito, caiu Saul estendido por terra e foi tomado de grande medo por causa das palavras de Samuel; e faltavam-lhe as forças, porque não comera pão todo aquele dia e toda aquela noite.
Foi o narrador inspirado quem afirmou que “Samuel” conversou com Saul (vs.15, 16, 20)
Assim como foi o narrador inspirado quem afirmou, na terceira pessoa, que o ser que a necromante viu era “Samuel” (v. 12), também foi ele quem declarou que o ser que falou com Saul era “Samuel”: “Samuel disse a Saul” (v. 15); “Então, disse Samuel” (v. 16); “caiu Saul estendido por terra e foi tomado de grande medo por causa das palavras de Samuel” (v. 20).
Portanto, tudo aquilo que foi dito na análise de 1Samuel 28.12 também se aplica às declarações acima citadas. Em outras palavras, o escritor bíblico, ao narrar na terceira pessoa, deu o seu parecer inspirado e infalível, afirmando que foi o falecido Samuel quem conversou com Saul. Negar isso, além de acarretar sérios problemas à exegese bíblica, inevitavelmente leva à rejeição da inspiração divina da Bíblia.
A expressão “Por que me inquietaste, fazendo-me subir?” (v. 15)
Há quem alegue que as palavras acima seriam um indício de que não foi Samuel quem apareceu, pois aquele ser espiritual sentiu-se irritado ao conversar com Saul. “Se Deus realmente tivesse enviado Samuel para entregar uma mensagem a Saul, então esse profeta deveria ter vindo alegremente e de bom grado cumprir essa missão, em vez de demonstrar irritação”. Essa irritação também indicaria que o descanso dos salvos que já partiram pode ser interrompido pelos vivos. “É inconcebível que o repouso dos justos que estão no Paraíso possa ser interrompido por alguém que esteja vivo! Logo, não foi Samuel quem apareceu, mas um demônio”.
Embora a princípio pareçam intransponíveis, essas duas objeções carecem de lógica e fundamentação bíblica. Em resposta à primeira, é evidente que Samuel só poderia ter demonstrado irritação ao estar perante Saul. Aqueles que apresentam essa objeção queriam o quê? Que Samuel aparecesse perante Saul completamente feliz e, em seguida, entusiasticamente lhe dissesse: “Saudações, amado Saul! Saul, hoje é o dia mais feliz de minha vida, pois estou diante de você, um rei pecador e desobediente a Deus!”? Logo, é óbvio que Samuel (ou qualquer outro profeta de Deus) só poderia ter sentido irritação ao encontrar-se com Saul. Alegria que ele jamais poderia ter sentido! A irritação de Samuel não foi em relação a Deus, por Ele tê-lo incumbido daquela missão, mas em relação a Saul. (Vejam como o versículo 15 é claríssimo em dizer que quem inquietou Samuel foi Saul, não Deus.) Até nós (assim como aqueles que negam que Samuel apareceu), caso fôssemos enviados por Deus para entregar aquela mensagem a Saul, ficaríamos irritados ao nos encontrar com um rei como esse!
Outro detalhe: o fato de aquele ser espiritual mostrar-se irritado perante Saul é um argumento que serve justamente para reforçar, ainda mais, a idéia de que foi Samuel quem apareceu, e não um demônio. Por quê? Ora, porque um demônio jamais demonstraria irritação ao comunicar-se com alguém numa sessão de necromancia. Essa atitude ríspida e mal-humorada certamente desestimularia qualquer pessoa a continuar recorrendo aos espíritos. Com certeza um demônio, fingindo ser o espírito de um morto, demonstraria alegria e boa vontade ao falar com um consulente, procurando ajudá-lo em seus problemas. Essa atitude positiva e amigável, sem dúvida, atrairia ainda mais essa pessoa às práticas espíritas. Dessa maneira, irritação era o único sentimento que poderíamos esperar que Samuel (ou qualquer outro profeta genuíno de Deus) demonstrasse ao deparar-se com Saul. Se aquele ser espiritual tivesse ficado feliz ao estar perante Saul, então aí sim teríamos todas as razões do mundo para dizer que ele era um demônio!
Com relação à segunda objeção, a de que o descanso de Samuel no além não poderia ter sido suspenso, ela igualmente é destituída de sentido e respaldo bíblico. Ora, acaso haveria algum problema se Deus interrompesse o descanso de Samuel no Paraíso por alguns momentos e, em seguida, o fizesse levar aquela mensagem a Saul? Deus estaria pecando, contradizendo-se, deixando de ser Deus ou indo contra a Bíblia se realizasse esse milagre? Se sim, então Jesus incorreu nessas falhas quando ressuscitou Lázaro (Jo 11). Afinal, o espírito de Lázaro já estava há quatro dias no Paraíso, descansando e desfrutando das alegrias reservadas aos justos. Porém, Jesus teria errado ao interromper esse descanso ao ressuscitá-lo. Nosso Senhor não deveria ter deixado o espírito de Lázaro descansando no Paraíso, em vez de quebrar esse repouso paradisíaco e trazê-lo novamente a este mundo para sofrer por alguns anos (Jo 12.9-11)? Portanto, o fato de o descanso de Samuel no Paraíso ter sido suspenso por alguns minutos não apresenta problema algum, nem para o próprio Samuel, nem tampouco para Deus.
Saul morreu no dia seguinte à profecia de Samuel (v. 19)
Um argumento muitíssimo apresentado para tentar negar que Samuel apareceu diz que aquele ser espiritual teria errado ao profetizar que Saul morreria no dia seguinte: “amanhã, tu e teus filhos estareis comigo” (28.19). E por quê? Porque Saul teria morrido diversos dias após essas palavras. Algumas pessoas, analisando 1Samuel 28—31, realizam cálculos e afirmam que Saul morreu três dias após essa profecia; outros cálculos, porém, chegam a elevar esse número de dias para até dezoito.30 E se aquele ser espiritual errou, então ele não poderia ser Samuel.
Porém, esse argumento é forçado e seletivo demais, pois os incidentes registrados nos capítulos 28—31 de 1Samuel não aconteceram, necessariamente, na seqüência em que estão dispostos. Alguns deles encontram-se sobrepostos, ou seja, aconteceram simultaneamente, enquanto outros, em dias diferentes. O escritor bíblico não quis ser cronologicamente rigoroso ao registrar os eventos desses quatro capítulos. Essa é uma prática bastante comum nas narrativas bíblicas.
A fim de entender perfeitamente os preparativos para a batalha, e a batalha em si, deve ser notado que a narrativa bíblica não se encontra em ordem cronológica exata, mas passa de evento para evento, a fim de manter um registro das atividades de Saul e Davi... A ordem apropriada dos eventos é: os filisteus se reuniram em Afeque na planície de Sarom, como era seu costume quando faziam suas campanhas para o norte (1Sm 29.1); dali os filisteus avançaram para Suném aos pés da colina de Moré [1Sm 28.4a], enquanto Saul dispunha o seu exército em posição oposta à deles no monte Gilboa [1Sm 28.4b], favorecendo a região montanhosa como mais conveniente para seus guerreiros que portavam armas leves. Ele acampou numa fonte perto de Jezreel [1Sm 29.1b]; foi dali que Saul procurou a médium de En-Dor na escuridão da noite [1Sm 28.7-25]. No dia seguinte ele teve a morte de um herói no monte Gilboa [1Sm 31.1-7], junto com três dos seus filhos.31 (as referências bíblicas entre colchetes foram acrescentadas)
Antes de analisar minuciosamente as informações dos capítulos 28—31 de 1Samuel, primeiro seria interessante descrever os acontecimentos registrados nesses capítulos, do jeito que eles se encontram, sem nos preocupar com qualquer ordem cronológica. Assim, acompanhem o panorama geral. No capítulo 28, vemos que, assim que os exércitos dos filisteus e de Israel estavam bem próximos, Saul visitou, à noite, a pitonisa de En-Dor, ouvindo aquela terrível mensagem de Samuel. Após relatar isso, o escritor deixa Saul de lado para, nos dois próximos capítulos, concentrar seu foco narrativo em Davi. No capítulo 29 ele registra o diálogo entre Davi e o rei filisteu Aquis, em que ficou decidido que Davi não poderia participar daquela batalha ao lado dos filisteus. Por isso, ele deveria sair do meio dos filisteus na madrugada do dia seguinte. No capítulo 30 o narrador fala como Davi, três dias após ter saído do meio dos filisteus, chegou à cidade filistéia de Ziclague, encontrando-a destruída e saqueada pelos amalequitas. Em resposta, Davi organizou um contra-ataque e recuperou tudo aquilo que havia sido roubado, repartindo entre o povo os despojos de guerra. E, no capítulo 31, o escritor “finaliza” seu livro voltando a falar de Saul, mostrando como que esse rei veio a morrer na batalha contra os filisteus.
Agora, examinemos detalhadamente as informações de 1Samuel 28—31. Para tanto, propomos abaixo uma seqüência cronológica dos acontecimentos relatados nesses capítulos, de tal modo que todos os dados bíblicos sejam harmonizados coerentemente. Naturalmente, essa seqüência cronológica servirá para determinar se Saul morreu ou não no dia seguinte à previsão feita por aquele ser espiritual.
Em primeiro lugar, é completamente arbitrário e biblicamente insustentável defender que a batalha entre filisteus e israelitas, na qual Saul morreu, começou vários dias após a visita que ele fez à pitonisa de En-Dor. Incorrem em erro aqueles que alegam, com base em 1Samuel 30.1, que essa batalha só tenha começado no dia em que Davi chegou a Ziclague, ou seja, três dias após a saída dele do meio dos filisteus. Eis o que este versículo diz: “Sucedeu, pois, que, chegando Davi e seus homens, ao terceiro dia, a Ziclague...” Esse texto diz, claramente, que Davi demorou três dias para chegar a Ziclague, e não que a batalha entre filisteus e israelitas só tenha começado após esses três dias. É isso o que a expressão “ao terceiro dia” diz objetivamente, de modo que qualquer conclusão diferente dessa pode ser considerada uma conclusão puramente subjetiva e extrabíblica, destituída de qualquer fundamentação textual. Portanto, de forma alguma a expressão “ao terceiro dia” pode ser usada nalgum cálculo para determinar quando começou a batalha na qual Saul morreu.
Em segundo lugar, 1Samuel 29.11 deixa subentendido que, no mesmo dia em que Davi saiu do meio dos filisteus, estes foram para o mesmo lugar onde estavam os israelitas: “Então, Davi de madrugada se levantou, ele e os seus homens, para partirem [de Suném] e voltarem à terra dos filisteus [a Ziclague]. Os filisteus, porém, subiram a Jezreel”. E onde estavam os israelitas? Em “Jezreel” (29.1b). Ou seja, no mesmo dia em que Davi partiu, os filisteus foram para Jezreel e começaram a batalha na qual Saul pereceu. Cronologicamente falando, portanto, o início dessa batalha, registrado em 1Samuel 31.1-7, está diretamente ligado ao dia da saída de Davi do meio dos filisteus, relatado em 1Samuel 29.11. Esses dois trechos falam de dois eventos que ocorreram no mesmo dia. Temos aí uma prova de que o escritor bíblico não foi cronologicamente exato em seu relato. Uma seqüência cronológica correta joga os acontecimentos relatados em 1Samuel 30 para depois dos acontecimentos registrados em 1Samuel 31.1-7.
Em terceiro lugar, reparem num detalhe que normalmente passa despercebido: na madrugada em que Davi saiu do meio dos filisteus (1Sm 29.11a), ele estava em “Suném” (28.4a), e não em “Afeque” (29.1a). E nem poderia ser diferente, visto que Suném ficava ao lado de Jezreel/Gilboa, o palco onde ocorreu a luta.33 Ou seja, Davi chegou a Suném e pernoitou nessa cidade, deixando-a só na madrugada do dia seguinte, horas antes de os filisteus irem para Jezreel/Gilboa e deflagrarem o combate no qual Saul pereceu..
Continua........
30 Hernandes Dias Lopes, É possível comunicar-se com os mortos?, Ed. Betânia, 1ª edição (2003), pgs. 51, 52; Bíblia Shedd, Ed. Edições Vida Nova, 1ª edição (1998), pgs. 431-37.
31 Yohanan Aharoni, Michael Avi-Yonah, Anson F. Rainey e Ze’ev Safrai, Atlas Bíblico, Ed. CPAD, 1ª edição (1999), pg. 75.
32 A seqüência de dias da semana utilizada nessa tabela tem um caráter puramente didático, a fim de que a ordem cronológica proposta possa ser melhor compreendida pelos leitores. Dessa maneira, é evidente que a visita de Saul à pitonisa de En-Dor, por exemplo, pode não ter ocorrido, na realidade, numa terça-feira, como mostra a tabela, mas talvez numa quarta, quinta, etc.
33 Qualquer mapa bíblico deixa bem claro que a cidade de “Afeque” (1Sm 29.1a), onde os filisteus juntaram suas tropas e iniciaram sua marcha para irem de encontro aos israelitas, ficava muito mais longe do monte Gilboa do que “Suném” (1Sm 28.4a). Isso explica por que Saul, que reunira suas tropas no monte Gilboa, só conseguiu ver os filisteus quando estes chegaram e acamparam-se em “Suném” (1Sm 28.4, 5). Suném ficava ao lado desse monte, ao passo que Afeque, a muitos quilômetros de distância. Esse detalhe é muito relevante, pois demonstra que o narrador bíblico não quis ser cronologicamente exato em seu relato. Uma simples análise do sentido da marcha dos filisteus rumo ao monte Gilboa já comprova isso: Afeque (1Sm 29.1a, 2) → Suném (1Sm 28.4a) → Jezreel/Monte Gilboa (1Sm 29.11b). A seqüência dessa marcha deixa claro que o texto de 1Samuel 29.1a, 2 vem antes de 1Samuel 28.4a, demonstrando que o escritor não organizou sua narrativa em uma seqüência cronológica exata.
Como já foi demonstrado anteriormente, aqueles que defendem a aparição de um demônio concentram seus esforços especialmente nas palavras proferidas por aquele ser espiritual. E, a partir delas, apontam incoerências e erros supostamente cometidos por aquele ser. “Se foi mesmo Samuel quem apareceu, então por que ele errou e foi contraditório nalgumas de suas declarações? A Bíblia diz que nenhuma das palavras de Samuel caiu por terra (1Sm 3.19). Contudo, por que a profecia daquele ser, relativa à sorte final de Saul, não se cumpriu? Portanto, não foi Samuel quem apareceu em En-Dor e conversou com Saul, mas um espírito maligno”.
Entretanto, se vimos na análise de 1Samuel 28.12-14 que o narrador inspirado identificou aquele ser que a pitonisa viu como o falecido “Samuel”, então essas acusações não têm fundamento algum. Nesse caso, a análise das palavras de Samuel, que será realizada a seguir, deve estar em perfeita harmonia com a análise na qual fizemos a identificação desse profeta.
Vejam abaixo o diálogo entre Samuel e Saul.
(v. 15) Samuel disse a Saul: Por que me inquietaste, fazendo-me subir? Então, disse Saul: Mui angustiado estou, porque os filisteus guerreiam contra mim, e Deus se desviou de mim e já não me responde, nem pelo ministério dos profetas, nem por sonhos; por isso, te chamei para que me reveles o que devo fazer.
(v. 16) Então, disse Samuel: Por que, pois, a mim me perguntas, visto que o SENHOR te desamparou e se fez teu inimigo?
(v. 17) Porque o SENHOR fez para contigo como, por meu intermédio, ele te dissera; tirou o reino da tua mão e o deu ao teu companheiro Davi.
(v. 18) Como tu não deste ouvidos à voz do SENHOR e não executaste o que ele, no furor da sua ira, ordenou contra Amaleque, por isso, o SENHOR te fez, hoje, isto.
(v. 19) O SENHOR entregará também a Israel contigo nas mãos dos filisteus, e, amanhã, tu e teus filhos estareis comigo; e o acampamento de Israel o SENHOR entregará nas mãos dos filisteus. (v. 20) De súbito, caiu Saul estendido por terra e foi tomado de grande medo por causa das palavras de Samuel; e faltavam-lhe as forças, porque não comera pão todo aquele dia e toda aquela noite.
Foi o narrador inspirado quem afirmou que “Samuel” conversou com Saul (vs.15, 16, 20)
Assim como foi o narrador inspirado quem afirmou, na terceira pessoa, que o ser que a necromante viu era “Samuel” (v. 12), também foi ele quem declarou que o ser que falou com Saul era “Samuel”: “Samuel disse a Saul” (v. 15); “Então, disse Samuel” (v. 16); “caiu Saul estendido por terra e foi tomado de grande medo por causa das palavras de Samuel” (v. 20).
Portanto, tudo aquilo que foi dito na análise de 1Samuel 28.12 também se aplica às declarações acima citadas. Em outras palavras, o escritor bíblico, ao narrar na terceira pessoa, deu o seu parecer inspirado e infalível, afirmando que foi o falecido Samuel quem conversou com Saul. Negar isso, além de acarretar sérios problemas à exegese bíblica, inevitavelmente leva à rejeição da inspiração divina da Bíblia.
A expressão “Por que me inquietaste, fazendo-me subir?” (v. 15)
Há quem alegue que as palavras acima seriam um indício de que não foi Samuel quem apareceu, pois aquele ser espiritual sentiu-se irritado ao conversar com Saul. “Se Deus realmente tivesse enviado Samuel para entregar uma mensagem a Saul, então esse profeta deveria ter vindo alegremente e de bom grado cumprir essa missão, em vez de demonstrar irritação”. Essa irritação também indicaria que o descanso dos salvos que já partiram pode ser interrompido pelos vivos. “É inconcebível que o repouso dos justos que estão no Paraíso possa ser interrompido por alguém que esteja vivo! Logo, não foi Samuel quem apareceu, mas um demônio”.
Embora a princípio pareçam intransponíveis, essas duas objeções carecem de lógica e fundamentação bíblica. Em resposta à primeira, é evidente que Samuel só poderia ter demonstrado irritação ao estar perante Saul. Aqueles que apresentam essa objeção queriam o quê? Que Samuel aparecesse perante Saul completamente feliz e, em seguida, entusiasticamente lhe dissesse: “Saudações, amado Saul! Saul, hoje é o dia mais feliz de minha vida, pois estou diante de você, um rei pecador e desobediente a Deus!”? Logo, é óbvio que Samuel (ou qualquer outro profeta de Deus) só poderia ter sentido irritação ao encontrar-se com Saul. Alegria que ele jamais poderia ter sentido! A irritação de Samuel não foi em relação a Deus, por Ele tê-lo incumbido daquela missão, mas em relação a Saul. (Vejam como o versículo 15 é claríssimo em dizer que quem inquietou Samuel foi Saul, não Deus.) Até nós (assim como aqueles que negam que Samuel apareceu), caso fôssemos enviados por Deus para entregar aquela mensagem a Saul, ficaríamos irritados ao nos encontrar com um rei como esse!
Outro detalhe: o fato de aquele ser espiritual mostrar-se irritado perante Saul é um argumento que serve justamente para reforçar, ainda mais, a idéia de que foi Samuel quem apareceu, e não um demônio. Por quê? Ora, porque um demônio jamais demonstraria irritação ao comunicar-se com alguém numa sessão de necromancia. Essa atitude ríspida e mal-humorada certamente desestimularia qualquer pessoa a continuar recorrendo aos espíritos. Com certeza um demônio, fingindo ser o espírito de um morto, demonstraria alegria e boa vontade ao falar com um consulente, procurando ajudá-lo em seus problemas. Essa atitude positiva e amigável, sem dúvida, atrairia ainda mais essa pessoa às práticas espíritas. Dessa maneira, irritação era o único sentimento que poderíamos esperar que Samuel (ou qualquer outro profeta genuíno de Deus) demonstrasse ao deparar-se com Saul. Se aquele ser espiritual tivesse ficado feliz ao estar perante Saul, então aí sim teríamos todas as razões do mundo para dizer que ele era um demônio!
Com relação à segunda objeção, a de que o descanso de Samuel no além não poderia ter sido suspenso, ela igualmente é destituída de sentido e respaldo bíblico. Ora, acaso haveria algum problema se Deus interrompesse o descanso de Samuel no Paraíso por alguns momentos e, em seguida, o fizesse levar aquela mensagem a Saul? Deus estaria pecando, contradizendo-se, deixando de ser Deus ou indo contra a Bíblia se realizasse esse milagre? Se sim, então Jesus incorreu nessas falhas quando ressuscitou Lázaro (Jo 11). Afinal, o espírito de Lázaro já estava há quatro dias no Paraíso, descansando e desfrutando das alegrias reservadas aos justos. Porém, Jesus teria errado ao interromper esse descanso ao ressuscitá-lo. Nosso Senhor não deveria ter deixado o espírito de Lázaro descansando no Paraíso, em vez de quebrar esse repouso paradisíaco e trazê-lo novamente a este mundo para sofrer por alguns anos (Jo 12.9-11)? Portanto, o fato de o descanso de Samuel no Paraíso ter sido suspenso por alguns minutos não apresenta problema algum, nem para o próprio Samuel, nem tampouco para Deus.
Saul morreu no dia seguinte à profecia de Samuel (v. 19)
Um argumento muitíssimo apresentado para tentar negar que Samuel apareceu diz que aquele ser espiritual teria errado ao profetizar que Saul morreria no dia seguinte: “amanhã, tu e teus filhos estareis comigo” (28.19). E por quê? Porque Saul teria morrido diversos dias após essas palavras. Algumas pessoas, analisando 1Samuel 28—31, realizam cálculos e afirmam que Saul morreu três dias após essa profecia; outros cálculos, porém, chegam a elevar esse número de dias para até dezoito.30 E se aquele ser espiritual errou, então ele não poderia ser Samuel.
Porém, esse argumento é forçado e seletivo demais, pois os incidentes registrados nos capítulos 28—31 de 1Samuel não aconteceram, necessariamente, na seqüência em que estão dispostos. Alguns deles encontram-se sobrepostos, ou seja, aconteceram simultaneamente, enquanto outros, em dias diferentes. O escritor bíblico não quis ser cronologicamente rigoroso ao registrar os eventos desses quatro capítulos. Essa é uma prática bastante comum nas narrativas bíblicas.
A fim de entender perfeitamente os preparativos para a batalha, e a batalha em si, deve ser notado que a narrativa bíblica não se encontra em ordem cronológica exata, mas passa de evento para evento, a fim de manter um registro das atividades de Saul e Davi... A ordem apropriada dos eventos é: os filisteus se reuniram em Afeque na planície de Sarom, como era seu costume quando faziam suas campanhas para o norte (1Sm 29.1); dali os filisteus avançaram para Suném aos pés da colina de Moré [1Sm 28.4a], enquanto Saul dispunha o seu exército em posição oposta à deles no monte Gilboa [1Sm 28.4b], favorecendo a região montanhosa como mais conveniente para seus guerreiros que portavam armas leves. Ele acampou numa fonte perto de Jezreel [1Sm 29.1b]; foi dali que Saul procurou a médium de En-Dor na escuridão da noite [1Sm 28.7-25]. No dia seguinte ele teve a morte de um herói no monte Gilboa [1Sm 31.1-7], junto com três dos seus filhos.31 (as referências bíblicas entre colchetes foram acrescentadas)
Antes de analisar minuciosamente as informações dos capítulos 28—31 de 1Samuel, primeiro seria interessante descrever os acontecimentos registrados nesses capítulos, do jeito que eles se encontram, sem nos preocupar com qualquer ordem cronológica. Assim, acompanhem o panorama geral. No capítulo 28, vemos que, assim que os exércitos dos filisteus e de Israel estavam bem próximos, Saul visitou, à noite, a pitonisa de En-Dor, ouvindo aquela terrível mensagem de Samuel. Após relatar isso, o escritor deixa Saul de lado para, nos dois próximos capítulos, concentrar seu foco narrativo em Davi. No capítulo 29 ele registra o diálogo entre Davi e o rei filisteu Aquis, em que ficou decidido que Davi não poderia participar daquela batalha ao lado dos filisteus. Por isso, ele deveria sair do meio dos filisteus na madrugada do dia seguinte. No capítulo 30 o narrador fala como Davi, três dias após ter saído do meio dos filisteus, chegou à cidade filistéia de Ziclague, encontrando-a destruída e saqueada pelos amalequitas. Em resposta, Davi organizou um contra-ataque e recuperou tudo aquilo que havia sido roubado, repartindo entre o povo os despojos de guerra. E, no capítulo 31, o escritor “finaliza” seu livro voltando a falar de Saul, mostrando como que esse rei veio a morrer na batalha contra os filisteus.
Agora, examinemos detalhadamente as informações de 1Samuel 28—31. Para tanto, propomos abaixo uma seqüência cronológica dos acontecimentos relatados nesses capítulos, de tal modo que todos os dados bíblicos sejam harmonizados coerentemente. Naturalmente, essa seqüência cronológica servirá para determinar se Saul morreu ou não no dia seguinte à previsão feita por aquele ser espiritual.
Em primeiro lugar, é completamente arbitrário e biblicamente insustentável defender que a batalha entre filisteus e israelitas, na qual Saul morreu, começou vários dias após a visita que ele fez à pitonisa de En-Dor. Incorrem em erro aqueles que alegam, com base em 1Samuel 30.1, que essa batalha só tenha começado no dia em que Davi chegou a Ziclague, ou seja, três dias após a saída dele do meio dos filisteus. Eis o que este versículo diz: “Sucedeu, pois, que, chegando Davi e seus homens, ao terceiro dia, a Ziclague...” Esse texto diz, claramente, que Davi demorou três dias para chegar a Ziclague, e não que a batalha entre filisteus e israelitas só tenha começado após esses três dias. É isso o que a expressão “ao terceiro dia” diz objetivamente, de modo que qualquer conclusão diferente dessa pode ser considerada uma conclusão puramente subjetiva e extrabíblica, destituída de qualquer fundamentação textual. Portanto, de forma alguma a expressão “ao terceiro dia” pode ser usada nalgum cálculo para determinar quando começou a batalha na qual Saul morreu.
Em segundo lugar, 1Samuel 29.11 deixa subentendido que, no mesmo dia em que Davi saiu do meio dos filisteus, estes foram para o mesmo lugar onde estavam os israelitas: “Então, Davi de madrugada se levantou, ele e os seus homens, para partirem [de Suném] e voltarem à terra dos filisteus [a Ziclague]. Os filisteus, porém, subiram a Jezreel”. E onde estavam os israelitas? Em “Jezreel” (29.1b). Ou seja, no mesmo dia em que Davi partiu, os filisteus foram para Jezreel e começaram a batalha na qual Saul pereceu. Cronologicamente falando, portanto, o início dessa batalha, registrado em 1Samuel 31.1-7, está diretamente ligado ao dia da saída de Davi do meio dos filisteus, relatado em 1Samuel 29.11. Esses dois trechos falam de dois eventos que ocorreram no mesmo dia. Temos aí uma prova de que o escritor bíblico não foi cronologicamente exato em seu relato. Uma seqüência cronológica correta joga os acontecimentos relatados em 1Samuel 30 para depois dos acontecimentos registrados em 1Samuel 31.1-7.
Em terceiro lugar, reparem num detalhe que normalmente passa despercebido: na madrugada em que Davi saiu do meio dos filisteus (1Sm 29.11a), ele estava em “Suném” (28.4a), e não em “Afeque” (29.1a). E nem poderia ser diferente, visto que Suném ficava ao lado de Jezreel/Gilboa, o palco onde ocorreu a luta.33 Ou seja, Davi chegou a Suném e pernoitou nessa cidade, deixando-a só na madrugada do dia seguinte, horas antes de os filisteus irem para Jezreel/Gilboa e deflagrarem o combate no qual Saul pereceu..
Continua........
30 Hernandes Dias Lopes, É possível comunicar-se com os mortos?, Ed. Betânia, 1ª edição (2003), pgs. 51, 52; Bíblia Shedd, Ed. Edições Vida Nova, 1ª edição (1998), pgs. 431-37.
31 Yohanan Aharoni, Michael Avi-Yonah, Anson F. Rainey e Ze’ev Safrai, Atlas Bíblico, Ed. CPAD, 1ª edição (1999), pg. 75.
32 A seqüência de dias da semana utilizada nessa tabela tem um caráter puramente didático, a fim de que a ordem cronológica proposta possa ser melhor compreendida pelos leitores. Dessa maneira, é evidente que a visita de Saul à pitonisa de En-Dor, por exemplo, pode não ter ocorrido, na realidade, numa terça-feira, como mostra a tabela, mas talvez numa quarta, quinta, etc.
33 Qualquer mapa bíblico deixa bem claro que a cidade de “Afeque” (1Sm 29.1a), onde os filisteus juntaram suas tropas e iniciaram sua marcha para irem de encontro aos israelitas, ficava muito mais longe do monte Gilboa do que “Suném” (1Sm 28.4a). Isso explica por que Saul, que reunira suas tropas no monte Gilboa, só conseguiu ver os filisteus quando estes chegaram e acamparam-se em “Suném” (1Sm 28.4, 5). Suném ficava ao lado desse monte, ao passo que Afeque, a muitos quilômetros de distância. Esse detalhe é muito relevante, pois demonstra que o narrador bíblico não quis ser cronologicamente exato em seu relato. Uma simples análise do sentido da marcha dos filisteus rumo ao monte Gilboa já comprova isso: Afeque (1Sm 29.1a, 2) → Suném (1Sm 28.4a) → Jezreel/Monte Gilboa (1Sm 29.11b). A seqüência dessa marcha deixa claro que o texto de 1Samuel 29.1a, 2 vem antes de 1Samuel 28.4a, demonstrando que o escritor não organizou sua narrativa em uma seqüência cronológica exata.
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