Satanás transforma-se em anjo de luz para enganar as pessoas
Em qualquer discussão sobre 1Samuel 28, é praticamente impossível que este versículo não seja mencionado: “E não é de admirar, porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz” (2Co 11.14). Esse texto é apresentado para dizer que um demônio apareceu em En-Dor, passou-se por Samuel e enganou Saul.
Ora, que o Diabo se transforma em anjo luz, para assim ludibriar as pessoas, é a mais pura verdade. Esse texto expressa uma verdade espiritual incontestável. Porém, de forma alguma essa verdade aplica-se ao incidente de En-Dor. Onde está escrito em 1Samuel 28 que “Satanás” (ou um “demônio”) apareceu, fingiu ser Samuel e enganou Saul? Logo, o texto de 2Coríntios 11.14 não tem absolutamente nada a ver com o relato de 1Samuel 28, a ponto de contradizer a verdade de que Samuel apareceu.
O fato de aquele espírito ter falado a verdade a Saul não indica que ele era Samuel
É argumentado que os demônios às vezes falam a verdade às pessoas, com o intuito de fazê-las pensar que eles são espíritos bons, vindos de Deus. Citam como exemplo disso aquela jovem da cidade de Filipos que, possuída por um espírito adivinhador, seguiu Paulo e seus companheiros por diversos dias, clamando: “Estes homens são servos do Deus Altíssimo e vos anunciam o caminho da salvação” (At 16.17). “Ora, aquele espírito que agia naquela jovem de Filipos falou a verdade. Porém, ele era um demônio vindo das trevas.
Igualmente, embora aquele ser espiritual tenha falado a verdade a Saul, isso não prova que ele era o falecido Samuel”.
Esse argumento é fragilíssimo. E por quê? Porque Lucas, o narrador inspirado do livro de Atos, disse, na primeira pessoa do plural, que aquela jovem de Filipos estava “possessa” por um “espírito adivinhador” (At 16.16), o qual foi expulso por Paulo (v. 18). Ou seja, o texto é claríssimo em informar que um demônio operava naquela jovem. Entretanto, não foi isso o que aconteceu em En-Dor. Onde está escrito em 1Samuel 28 que um “demônio” possuiu aquela necromante e, em seguida, falou a verdade a Saul? O que esse texto diz, clara e repetidamente, é que “Samuel” foi visto pela mulher (v. 12), e que foi “Samuel” quem conversou com Saul (vs. 15, 16, 20).
Lucas 16.19-31 diz que os mortos não podem vir “para cá”
Já é milenar o uso do relato do rico e de Lázaro (Lc 16.19-31) para tentar negar a aparição de Samuel: “E, além de tudo, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que querem passar daqui para vós outros não podem, nem os de lá passar para nós” (v. 26). E é nesse versículo específico que alguns cristãos acreditam ter encontrado a base para apoiar a tese de que não foi Samuel quem apareceu. Segundo eles, ao ter dito essas palavras ao rico que estava sob agruras no lado desventurado do Hades (= Sheol), Abraão estava dizendo que os espíritos dos mortos não podem passar “para cá”, para o mundo dos vivos. Logo, isso seria uma prova de que não foi o espírito do falecido Samuel que apareceu em En-Dor, mas um espírito maligno.
Reconhecemos que é verdade que o trecho de Lucas 16.19-31, dentre outras lições, ensina que os espíritos dos mortos não podem entrar em contato com os vivos. Contudo, de forma alguma essa lição pode ser extraída do versículo 26, mas dos versículos 30 e 31. Acompanhem os comentários abaixo.
Em primeiro lugar, o texto de Lucas 16.26, que serve de fundamento para a alegação de que o espírito de Samuel não poderia ter saído do Hades e vindo “para cá”, está sendo equivocadamente interpretado. E por quê? Porque esse versículo apenas diz que o espírito de um perdido, que está no lado ruim do Hades, não pode passar para o lado bom do Hades, onde estão os salvos (e vice- versa). Ou seja, Lucas 16.26 tão-somente fala da impossibilidade de mudança de lados dentro do próprio Hades, e não que um espírito não pode sair do Hades e vir “para cá”, para a dimensão terrestre.
Em segundo lugar, é apenas em Lucas 16.30, 31 que temos o ensinamento, por inferência, de que um espírito só pode sair do Hades por meio da ressurreição. Esse é o padrão, instaurado por Deus, que rege o Hades. Ainda que um espírito queira sair do Hades, assim mesmo ele não poderá sair; e mesmo que um vivo evoque tal espírito, ele não conseguirá trazê-lo para esta dimensão. Somente Deus pode retirar o espírito de um morto do Hades e colocá-lo em contato com o mundo dos vivos, como Ele fez em En-Dor e no Monte da Transfiguração.
Dito isso, Lucas 16.26 não tem força alguma para negar que Samuel tenha aparecido em En-Dor, pois em lugar algum desse versículo (ou de qualquer outro texto da Bíblia) é dito que Deus não pode retirar um espírito do Hades e trazê-lo para o mundo dos vivos. O que Deus não faz, segundo Lucas 16.26, é retirar um espírito do lado ruim do Hades e enviá-lo para o lado bom do Hades.
Se Samuel falou a Saul, então surge uma nova forma de revelação divina, mediante a consulta aos mortos
Caso seja admitido que Samuel falou com Saul, então teríamos que reconhecer uma nova forma de revelação divina: a consulta aos mortos. Dessa maneira, quando uma pessoa quisesse conhecer a vontade de Deus, ela poderia deixar a Bíblia de lado e recorrer a um médium. Em seguida, Deus enviaria Sua mensagem a essa pessoa por meio do espírito de um salvo.
No entanto, essa objeção não se sustenta, por duas razões. Em primeiro lugar, a Bíblia não nos autoriza a buscar ajuda nos mortos. Muito pelo contrário, Deus proíbe repetida e veementemente qualquer tipo de tentativa de contato com o além (Lv 19.31; 20.6, 7; Dt 18.9-14; 1Cr 10.13, 14; Is 8.19, 20, etc.). Logo, o fato de Deus ter trazido Samuel para falar com Saul não cria uma nova forma de saber a vontade de Deus para nossas vidas, tampouco indica que a comunicação entre vivos e mortos seja possível. O crente que recorrer aos mortos, na esperança de poder contatá-los, estará cometendo um pecado gravíssimo contra o SENHOR.
Em segundo lugar, assim como o fato de Deus ter trazido o falecido Moisés para falar com Jesus no Monte da Transfiguração não cria uma nova forma de revelação divina, o mesmo pode ser dito sobre a aparição de Samuel em En- Dor. Do mesmo modo que o incidente do Monte da Transfiguração não serve para estabelecer uma doutrina (a doutrina de que podemos orar a Deus e, em seguida, esperar que Ele nos envie o espírito de uma pessoa morta para conversar conosco), o mesmo pode ser dito do incidente de En-Dor. Se o contato entre o falecido Samuel e Saul obrigatoriamente cria uma nova forma de revelação da vontade de Deus, então temos que dizer o mesmo acerca daquilo que ocorreu no Monte da Transfiguração.
Portanto, a objeção apresentada neste tópico não tem fundamento algum. Seu erro está no fato de tomar um texto narrativo (1Sm 28) e, em seguida, querer transformá-lo em doutrina. Contudo, passagens narrativas apenas falam daquilo que aconteceu, e não daquilo que deve acontecer. Esse é um princípio rudimentar da hermenêutica bíblica.
Deus jamais enviaria um homem santo como Samuel a um ambiente pagão
Há irmãos que dizem que Deus jamais enviaria Samuel a um ambiente pagão, consagrado às práticas espíritas, como o da casa daquela pitonisa de En- Dor. Aquele recinto estava sob influências demoníacas, abrigava uma mulher abominável e, naquela noite em particular, ainda recebia a visita de três homens reprovados pelo SENHOR: Saul e seus dois servos. “O ambiente da residência da pitonisa de En-Dor era maldito, perfeito para a manifestação de demônios. Aliás, aquela casa já pertencia a esses seres espirituais da maldade, servindo-lhes de morada. Era ali que eles reinavam sobre as pessoas que recorriam àquela necromante, escravizando-as por meio do engano e da mentira. Deus jamais enviaria um homem santo como Samuel a um lugar como aquele! O Diabo, porém, certamente faria com que um de seus agentes aparecesse e enganasse Saul”.
Entretanto, essa forma de pensar é insustentável, pois dá a entender que a residência daquela necromante era envolvida por uma espécie de “blindagem maligna”, que impedia o agir de Deus em seu interior. Assim, mesmo que Deus quisesse enviar Samuel àquela casa para censurar Saul, Ele não poderia fazer isso. O Deus todo-poderoso, onisciente e onipresente poderia agir em qualquer lugar do Universo que Ele mesmo criou, quer fosse nas esferas visíveis ou invisíveis, exceto no lar daquela pitonisa de En-Dor, pois esse lugar estaria fechado, guardado pelas forças espirituais do mal.
Sem dúvida, essa forma de pensar revela uma visão bastante míope e equivocada sobre quem é e o que faz o Deus das Escrituras. Ora, porventura um ambiente pagão poderia impedir o agir do SENHOR em seu interior? Se o SENHOR quisesse agir dentro daquela casa, acaso os demônios poderiam barrá-Lo? Os demônios são mais poderosos que Ele? De forma alguma! Que tal analisarmos essa questão por outro ângulo? Será que o SENHOR, ao enviar Samuel justamente à casa daquela necromante, não estava com isso manifestando Sua glória, poder e domínio sobre todo o Universo? Não estava Ele mostrando Sua soberania a demônios, necromantes e pessoas como Saul, rebeldes à Sua palavra? Ao enviar Samuel àquela casa, será que o nome do SENHOR não foi exaltado, ao mesmo tempo que Seus inimigos foram humilhados? Haveria ambiente mais adequado para que Ele fizesse isso do que o da casa daquela pitonisa de En-Dor? Abaixo algumas ponderações:
1. O SENHOR humilhou os demônios. Ao enviar Samuel àquela casa, levando Sua mensagem ao desobediente Saul, o SENHOR estava humilhando os demônios. Como? Ora, se um demônio tivesse aparecido, ele seguramente teria mentido a Saul. Porém, Samuel só falou a verdade, contrariando esses seres espirituais do mal. Será que os demônios gostaram dessa intervenção divina “dentro de seu próprio território”, onde já estavam habituados a reinar, enganar e escravizar as pessoas por meio da mentira? Como um raio de luz que dissipa as trevas, a verdade trazida por Samuel destronou a mentira que sempre imperava naquele ambiente pagão.
2. O SENHOR humilhou a necromante. O grande terror que veio sobre a mulher quando ela viu Samuel, mais o fato de ela desconhecer a identidade desse profeta, humilhou-a. Isso demonstrou que ela não tinha o menor controle sobre tudo aquilo que estava acontecendo. A partir do momento que Samuel apareceu, a pitonisa saiu completamente de cena, e aí esse fiel representante de Deus é quem passou a “dar as cartas”. A impotência da mulher foi completa diante da súbita e inesperada aparição de Samuel. Ela deveria saber que somente o SENHOR é quem pode, por Seu poder e vontade, trazer um espírito do além, como ela mesma comprovou ao ver, aterrorizada, o autêntico Samuel diante de si, algo que ela nunca conseguira fazer antes.
3. O SENHOR humilhou Saul. Deus humilhou Saul ao mostrar-lhe que a Sua palavra é a verdade e que nada nem ninguém pode impedir que ela se cumpra. Se o SENHOR já havia rejeitado Saul, dizendo-lhe que seu reino seria tirado (1Sm 15.28, 29; 16.1), então essa palavra ainda estava de pé (28.17), tendo nos filisteus o instrumento divino para o seu cumprimento (v. 19). Enquanto num ambiente pagão os demônios mentem às pessoas, sem omitir um til Samuel reafirmou tudo aquilo que o SENHOR já havia falado sobre o fim do reinado de Saul.42
4. O SENHOR desaprova a necromancia. Ao enviar Samuel àquele ambiente pagão, o SENHOR deixou um severo e solene aviso para aqueles que vão atrás dos necromantes a fim de tentar fazer contato com o além. Os que incorrem nesse grave pecado certamente serão punidos por Deus, como Samuel deixou implícito ao dizer que Saul morreria na batalha contra os filisteus (1Sm 28.19), mas que o escritor do livro de 1Crônicas fez questão de explicitar (1Cr 10.13, 14).
Portanto, não há o menor problema em acreditar que Deus enviou Samuel ao ambiente pagão da casa daquela necromante de En-Dor. Muito pelo contrário, essa atitude só exaltou, ainda mais, o Deus de Israel. Será que a glória, o poder e o domínio do SENHOR não são mais ressaltados em meio às trevas que em meio à luz? Naquela triste noite em que Saul visitou a casa daquela pitonisa, todos ficaram sabendo que quem possui, verdadeiramente, a glória, o poder e o domínio é o SENHOR. Quando o SENHOR quer agir, absolutamente nada nem ninguém pode impedi-Lo. Ele faz o que quer, como quer e quando quer. Isso é o mínimo que esperaríamos do Deus todo-poderoso e soberano revelado nas Escrituras! “Acaso para o SENHOR há cousa demasiadamente difícil?” (Gn 18.14)
42 Há quem diga que aquele ser espiritual apenas repetiu as palavras que Samuel dissera enquanto vivia, o que provaria que ele não era Samuel, mas um demônio. Contudo, esse argumento é infundado, pois o fato de aquele ser ter reafirmado todas as palavras que Samuel disse antes de falecer serve justamente para reforçar, ainda mais, que era o autêntico Samuel quem estava em En-Dor. Se ele tivesse contrariado as palavras que Samuel dissera antes de morrer, então aí sim poderíamos dizer que ele era um demônio. Portanto, é mais do que óbvio que Samuel, ao aparecer em En-Dor, só poderia ter repetido tudo aquilo que ele mesmo, quando estava vivo, já havia dito a Saul.
Em qualquer discussão sobre 1Samuel 28, é praticamente impossível que este versículo não seja mencionado: “E não é de admirar, porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz” (2Co 11.14). Esse texto é apresentado para dizer que um demônio apareceu em En-Dor, passou-se por Samuel e enganou Saul.
Ora, que o Diabo se transforma em anjo luz, para assim ludibriar as pessoas, é a mais pura verdade. Esse texto expressa uma verdade espiritual incontestável. Porém, de forma alguma essa verdade aplica-se ao incidente de En-Dor. Onde está escrito em 1Samuel 28 que “Satanás” (ou um “demônio”) apareceu, fingiu ser Samuel e enganou Saul? Logo, o texto de 2Coríntios 11.14 não tem absolutamente nada a ver com o relato de 1Samuel 28, a ponto de contradizer a verdade de que Samuel apareceu.
O fato de aquele espírito ter falado a verdade a Saul não indica que ele era Samuel
É argumentado que os demônios às vezes falam a verdade às pessoas, com o intuito de fazê-las pensar que eles são espíritos bons, vindos de Deus. Citam como exemplo disso aquela jovem da cidade de Filipos que, possuída por um espírito adivinhador, seguiu Paulo e seus companheiros por diversos dias, clamando: “Estes homens são servos do Deus Altíssimo e vos anunciam o caminho da salvação” (At 16.17). “Ora, aquele espírito que agia naquela jovem de Filipos falou a verdade. Porém, ele era um demônio vindo das trevas.
Igualmente, embora aquele ser espiritual tenha falado a verdade a Saul, isso não prova que ele era o falecido Samuel”.
Esse argumento é fragilíssimo. E por quê? Porque Lucas, o narrador inspirado do livro de Atos, disse, na primeira pessoa do plural, que aquela jovem de Filipos estava “possessa” por um “espírito adivinhador” (At 16.16), o qual foi expulso por Paulo (v. 18). Ou seja, o texto é claríssimo em informar que um demônio operava naquela jovem. Entretanto, não foi isso o que aconteceu em En-Dor. Onde está escrito em 1Samuel 28 que um “demônio” possuiu aquela necromante e, em seguida, falou a verdade a Saul? O que esse texto diz, clara e repetidamente, é que “Samuel” foi visto pela mulher (v. 12), e que foi “Samuel” quem conversou com Saul (vs. 15, 16, 20).
Lucas 16.19-31 diz que os mortos não podem vir “para cá”
Já é milenar o uso do relato do rico e de Lázaro (Lc 16.19-31) para tentar negar a aparição de Samuel: “E, além de tudo, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que querem passar daqui para vós outros não podem, nem os de lá passar para nós” (v. 26). E é nesse versículo específico que alguns cristãos acreditam ter encontrado a base para apoiar a tese de que não foi Samuel quem apareceu. Segundo eles, ao ter dito essas palavras ao rico que estava sob agruras no lado desventurado do Hades (= Sheol), Abraão estava dizendo que os espíritos dos mortos não podem passar “para cá”, para o mundo dos vivos. Logo, isso seria uma prova de que não foi o espírito do falecido Samuel que apareceu em En-Dor, mas um espírito maligno.
Reconhecemos que é verdade que o trecho de Lucas 16.19-31, dentre outras lições, ensina que os espíritos dos mortos não podem entrar em contato com os vivos. Contudo, de forma alguma essa lição pode ser extraída do versículo 26, mas dos versículos 30 e 31. Acompanhem os comentários abaixo.
Em primeiro lugar, o texto de Lucas 16.26, que serve de fundamento para a alegação de que o espírito de Samuel não poderia ter saído do Hades e vindo “para cá”, está sendo equivocadamente interpretado. E por quê? Porque esse versículo apenas diz que o espírito de um perdido, que está no lado ruim do Hades, não pode passar para o lado bom do Hades, onde estão os salvos (e vice- versa). Ou seja, Lucas 16.26 tão-somente fala da impossibilidade de mudança de lados dentro do próprio Hades, e não que um espírito não pode sair do Hades e vir “para cá”, para a dimensão terrestre.
Em segundo lugar, é apenas em Lucas 16.30, 31 que temos o ensinamento, por inferência, de que um espírito só pode sair do Hades por meio da ressurreição. Esse é o padrão, instaurado por Deus, que rege o Hades. Ainda que um espírito queira sair do Hades, assim mesmo ele não poderá sair; e mesmo que um vivo evoque tal espírito, ele não conseguirá trazê-lo para esta dimensão. Somente Deus pode retirar o espírito de um morto do Hades e colocá-lo em contato com o mundo dos vivos, como Ele fez em En-Dor e no Monte da Transfiguração.
Dito isso, Lucas 16.26 não tem força alguma para negar que Samuel tenha aparecido em En-Dor, pois em lugar algum desse versículo (ou de qualquer outro texto da Bíblia) é dito que Deus não pode retirar um espírito do Hades e trazê-lo para o mundo dos vivos. O que Deus não faz, segundo Lucas 16.26, é retirar um espírito do lado ruim do Hades e enviá-lo para o lado bom do Hades.
Se Samuel falou a Saul, então surge uma nova forma de revelação divina, mediante a consulta aos mortos
Caso seja admitido que Samuel falou com Saul, então teríamos que reconhecer uma nova forma de revelação divina: a consulta aos mortos. Dessa maneira, quando uma pessoa quisesse conhecer a vontade de Deus, ela poderia deixar a Bíblia de lado e recorrer a um médium. Em seguida, Deus enviaria Sua mensagem a essa pessoa por meio do espírito de um salvo.
No entanto, essa objeção não se sustenta, por duas razões. Em primeiro lugar, a Bíblia não nos autoriza a buscar ajuda nos mortos. Muito pelo contrário, Deus proíbe repetida e veementemente qualquer tipo de tentativa de contato com o além (Lv 19.31; 20.6, 7; Dt 18.9-14; 1Cr 10.13, 14; Is 8.19, 20, etc.). Logo, o fato de Deus ter trazido Samuel para falar com Saul não cria uma nova forma de saber a vontade de Deus para nossas vidas, tampouco indica que a comunicação entre vivos e mortos seja possível. O crente que recorrer aos mortos, na esperança de poder contatá-los, estará cometendo um pecado gravíssimo contra o SENHOR.
Em segundo lugar, assim como o fato de Deus ter trazido o falecido Moisés para falar com Jesus no Monte da Transfiguração não cria uma nova forma de revelação divina, o mesmo pode ser dito sobre a aparição de Samuel em En- Dor. Do mesmo modo que o incidente do Monte da Transfiguração não serve para estabelecer uma doutrina (a doutrina de que podemos orar a Deus e, em seguida, esperar que Ele nos envie o espírito de uma pessoa morta para conversar conosco), o mesmo pode ser dito do incidente de En-Dor. Se o contato entre o falecido Samuel e Saul obrigatoriamente cria uma nova forma de revelação da vontade de Deus, então temos que dizer o mesmo acerca daquilo que ocorreu no Monte da Transfiguração.
Portanto, a objeção apresentada neste tópico não tem fundamento algum. Seu erro está no fato de tomar um texto narrativo (1Sm 28) e, em seguida, querer transformá-lo em doutrina. Contudo, passagens narrativas apenas falam daquilo que aconteceu, e não daquilo que deve acontecer. Esse é um princípio rudimentar da hermenêutica bíblica.
Deus jamais enviaria um homem santo como Samuel a um ambiente pagão
Há irmãos que dizem que Deus jamais enviaria Samuel a um ambiente pagão, consagrado às práticas espíritas, como o da casa daquela pitonisa de En- Dor. Aquele recinto estava sob influências demoníacas, abrigava uma mulher abominável e, naquela noite em particular, ainda recebia a visita de três homens reprovados pelo SENHOR: Saul e seus dois servos. “O ambiente da residência da pitonisa de En-Dor era maldito, perfeito para a manifestação de demônios. Aliás, aquela casa já pertencia a esses seres espirituais da maldade, servindo-lhes de morada. Era ali que eles reinavam sobre as pessoas que recorriam àquela necromante, escravizando-as por meio do engano e da mentira. Deus jamais enviaria um homem santo como Samuel a um lugar como aquele! O Diabo, porém, certamente faria com que um de seus agentes aparecesse e enganasse Saul”.
Entretanto, essa forma de pensar é insustentável, pois dá a entender que a residência daquela necromante era envolvida por uma espécie de “blindagem maligna”, que impedia o agir de Deus em seu interior. Assim, mesmo que Deus quisesse enviar Samuel àquela casa para censurar Saul, Ele não poderia fazer isso. O Deus todo-poderoso, onisciente e onipresente poderia agir em qualquer lugar do Universo que Ele mesmo criou, quer fosse nas esferas visíveis ou invisíveis, exceto no lar daquela pitonisa de En-Dor, pois esse lugar estaria fechado, guardado pelas forças espirituais do mal.
Sem dúvida, essa forma de pensar revela uma visão bastante míope e equivocada sobre quem é e o que faz o Deus das Escrituras. Ora, porventura um ambiente pagão poderia impedir o agir do SENHOR em seu interior? Se o SENHOR quisesse agir dentro daquela casa, acaso os demônios poderiam barrá-Lo? Os demônios são mais poderosos que Ele? De forma alguma! Que tal analisarmos essa questão por outro ângulo? Será que o SENHOR, ao enviar Samuel justamente à casa daquela necromante, não estava com isso manifestando Sua glória, poder e domínio sobre todo o Universo? Não estava Ele mostrando Sua soberania a demônios, necromantes e pessoas como Saul, rebeldes à Sua palavra? Ao enviar Samuel àquela casa, será que o nome do SENHOR não foi exaltado, ao mesmo tempo que Seus inimigos foram humilhados? Haveria ambiente mais adequado para que Ele fizesse isso do que o da casa daquela pitonisa de En-Dor? Abaixo algumas ponderações:
1. O SENHOR humilhou os demônios. Ao enviar Samuel àquela casa, levando Sua mensagem ao desobediente Saul, o SENHOR estava humilhando os demônios. Como? Ora, se um demônio tivesse aparecido, ele seguramente teria mentido a Saul. Porém, Samuel só falou a verdade, contrariando esses seres espirituais do mal. Será que os demônios gostaram dessa intervenção divina “dentro de seu próprio território”, onde já estavam habituados a reinar, enganar e escravizar as pessoas por meio da mentira? Como um raio de luz que dissipa as trevas, a verdade trazida por Samuel destronou a mentira que sempre imperava naquele ambiente pagão.
2. O SENHOR humilhou a necromante. O grande terror que veio sobre a mulher quando ela viu Samuel, mais o fato de ela desconhecer a identidade desse profeta, humilhou-a. Isso demonstrou que ela não tinha o menor controle sobre tudo aquilo que estava acontecendo. A partir do momento que Samuel apareceu, a pitonisa saiu completamente de cena, e aí esse fiel representante de Deus é quem passou a “dar as cartas”. A impotência da mulher foi completa diante da súbita e inesperada aparição de Samuel. Ela deveria saber que somente o SENHOR é quem pode, por Seu poder e vontade, trazer um espírito do além, como ela mesma comprovou ao ver, aterrorizada, o autêntico Samuel diante de si, algo que ela nunca conseguira fazer antes.
3. O SENHOR humilhou Saul. Deus humilhou Saul ao mostrar-lhe que a Sua palavra é a verdade e que nada nem ninguém pode impedir que ela se cumpra. Se o SENHOR já havia rejeitado Saul, dizendo-lhe que seu reino seria tirado (1Sm 15.28, 29; 16.1), então essa palavra ainda estava de pé (28.17), tendo nos filisteus o instrumento divino para o seu cumprimento (v. 19). Enquanto num ambiente pagão os demônios mentem às pessoas, sem omitir um til Samuel reafirmou tudo aquilo que o SENHOR já havia falado sobre o fim do reinado de Saul.42
4. O SENHOR desaprova a necromancia. Ao enviar Samuel àquele ambiente pagão, o SENHOR deixou um severo e solene aviso para aqueles que vão atrás dos necromantes a fim de tentar fazer contato com o além. Os que incorrem nesse grave pecado certamente serão punidos por Deus, como Samuel deixou implícito ao dizer que Saul morreria na batalha contra os filisteus (1Sm 28.19), mas que o escritor do livro de 1Crônicas fez questão de explicitar (1Cr 10.13, 14).
Portanto, não há o menor problema em acreditar que Deus enviou Samuel ao ambiente pagão da casa daquela necromante de En-Dor. Muito pelo contrário, essa atitude só exaltou, ainda mais, o Deus de Israel. Será que a glória, o poder e o domínio do SENHOR não são mais ressaltados em meio às trevas que em meio à luz? Naquela triste noite em que Saul visitou a casa daquela pitonisa, todos ficaram sabendo que quem possui, verdadeiramente, a glória, o poder e o domínio é o SENHOR. Quando o SENHOR quer agir, absolutamente nada nem ninguém pode impedi-Lo. Ele faz o que quer, como quer e quando quer. Isso é o mínimo que esperaríamos do Deus todo-poderoso e soberano revelado nas Escrituras! “Acaso para o SENHOR há cousa demasiadamente difícil?” (Gn 18.14)
42 Há quem diga que aquele ser espiritual apenas repetiu as palavras que Samuel dissera enquanto vivia, o que provaria que ele não era Samuel, mas um demônio. Contudo, esse argumento é infundado, pois o fato de aquele ser ter reafirmado todas as palavras que Samuel disse antes de falecer serve justamente para reforçar, ainda mais, que era o autêntico Samuel quem estava em En-Dor. Se ele tivesse contrariado as palavras que Samuel dissera antes de morrer, então aí sim poderíamos dizer que ele era um demônio. Portanto, é mais do que óbvio que Samuel, ao aparecer em En-Dor, só poderia ter repetido tudo aquilo que ele mesmo, quando estava vivo, já havia dito a Saul.
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