"CAUSAS SECUNDÁRIAS": PANTEÍSMO, DEÍSMO E O "CONCURSUS" - HERMAN BAVINCK

[...] Essa interpretação fundamentalmente correta da natureza, que a teologia cristã defendeu [referindo-se à página 624: "[...] a confissão de Deus como Criador do céu e da terra que, imediatamente, traz consigo a verdade absoluta e nunca contraditória, a harmonia e a beleza do conselho de Deus, e, portanto, a unidade do plano cósmico e da ordem de toda a natureza. A própria Escritura nos mostra esse reconhecimento de uma ordem natural, de uma ampla variedade de ordenanças e leis para as coisas criadas".], em nenhum lugar está mais claramente em evidência do que na doutrina da “concorrência” e das “causas secundárias”. Nem no panteísmo nem no deísmo essa doutrina pode ser reconhecida. No primeiro não há mais CAUSAS e, no segundo, não há causas SECUNDÁRIAS.
No panteísmo as causas secundárias, isto é, as causas imediatas das coisas dentro do círculo das coisas criadas, são identificadas com a causa primária, que é Deus. Entre as duas não há distinção de substância e efeito. Material e formalmente, Deus é o sujeito de tudo o que acontece, e, portanto, também do pecado. Na melhor das hipóteses, as chamadas causas secundárias são oportunidades e instrumentos passivos para o trabalho de Deus. Enquanto essa teoria apenas esporadicamente vinha à superfície em tempos antigos, na filosofia mais moderna de Descartes ela ganhou predominância e, assim, levou ao idealismo de Berkeley e Malebranche e ao panteísmo de Spinoza, Hegel, Schleiermacher, Strauss e outros. Dessa maneira, Malebranche, por exemplo, pressupõe que “há apenas uma causa verdadeira porque há apenas um Deus verdadeiro; que a natureza ou poder de cada coisa é nada menos que a vontade de Deus; que todas as causas naturais não são causas VERDADEIRAS, mas apenas causas OCASIONAIS”. A verdadeira causa só pode estar em Deus porque somente ele pode criar e ele não pode comunicar esse poder a uma criatura. Se as criaturas pudessem ser a verdadeira causa de movimentos e fenômenos, elas seriam deuses. Mas “todas essas insignificantes divindades pagãs e todas essas causas particulares dos filósofos são meramente quimeras que as mentes ímpias tentam estabelecer para minar a adoração ao verdadeiro Deus”. Portanto, há apenas fenômenos, representações, e a única realidade, poder e substância por trás desses fenômenos é a do próprio Deus.
Inversamente, no deísmo, as causas secundárias são separadas da causa primária e se tomam independentes. A causa primária é totalmente restrita à criação, a comunicação da possibilidade (POSSE) é totalmente excluída no caso da “vontade” (VELIE) e do fazer (FACERE), como no pelagianismo original, ou as duas causas são concebidas como causas associadas que trabalham ao lado e umas com as outras, como dois cavalos puxando uma carroça, muito embora talvez um seja muito mais forte que o outro, como no semipelagianismo e no sinergismo. Nessa perspectiva, a criatura se toma o criador de seus próprios atos. A Escritura, porém, nos diz tanto que Deus realiza todas as coisas de modo que a criatura é apenas um instrumento em suas mãos (Is 44.24; SI 29.3; 65.10; 147.15ss.; Mt 5.45; At 17.25; etc.) QUANTO que a providência é distinta da criação e pressupõe a existência e a auto-atividade das criaturas (Gn 1.11, 20, 22, 24, 28; etc). De acordo com esse testemunho, a teologia cristã ensina que as causas secundárias são estritamente subordinadas a Deus como a causa primária e, nessa subordinação, continuam sendo causas verdadeiras. O teólogo excêntrico, de fato, divergia dessa posição, como, por exemplo, o nominalista Biel nos tempos medievais e Zwínglio no tempo da Reforma, que criam que as causas secundárias recebiam esse nome por engano e preferiam chamá-las de instrumentos.

O ensino constante da igreja cristã, porém, é que as duas causas, embora sejam totalmente dependentes da causa primária, são, ao mesmo tempo, causas essenciais e verdadeiras. Com seu poder todo-poderoso, Deus toma possível toda causa secundária e está presente nela com seu ser em seu início, progresso e fim. É ele que a estabelece e a coloca em ação (PRAECURSUS) e que também se une a ela em seu trabalho e a leva a seu efeito (CONCURSUS). Ele é quem efetua em nós “tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.13). Mas essa atividade energizante da causa primária nas causas secundárias é tão divinamente grande que precisamente por meio dela ele incita essas causas secundárias à sua atividade própria. “A providência de Deus não elimina, mas estabelece a causa secundária.” A concorrência é precisamente a razão para a auto-atividade das causas secundárias e essas causas, sustentadas do início ao fim pelo poder de Deus, trabalham com uma força que é apropriada e natural para elas. Tampouco, efetivamente, a atividade de Deus anula a atividade da criatura e esta é mais vigorosa na medida em que a primeira se revela mais rica e plenamente. Portanto, a causa primária e a causa secundária permanecem distintas. A primeira não destrói a segunda, mas, pelo contrário, confere realidade a ela, e a segunda existe somente como resultado da primeira. As causas secundárias tampouco são meramente instrumentos, órgãos, bonecos inanimados, mas são causas genuínas, com uma natureza, vitalidade, espontaneidade e modo de ação próprios. “Satanás e os malfeitores não são de modo tão efetivo instrumentos de Deus que também não ajam em seu próprio nome. Não devemos supor que Deus aja em um homem iníquo como se ele fosse uma pedra ou um pedaço de madeira, mas usa-o como uma criatura pensante, conforme a qualidade de sua natureza, que o próprio Deus lhe deu. Desse modo, quando dizemos que Deus age nos malfeitores, isso não os impede de agir também em seu próprio nome.”

Em relação a Deus, as causas secundárias podem ser comparadas a instrumentos (Is 10.15; 13.5; Jr 50.25; At 9.15; Rm 9.20-23); em relação a seus efeitos e produtos, são causas no verdadeiro sentido. Precisamente porque a causa primária e a secundária não estão e não funcionam dualisticamente em trilhos separados, mas a primeira trabalha por meio da segunda, o efeito que procede das duas é um só. Não há divisão de trabalho entre Deus e sua criatura, mas o mesmo efeito é totalmente o efeito da causa primária e também o efeito da causa próxima. O produto também é, no mesmo sentido, totalmente o produto da causa primária e da causa secundária. No entanto, como a causa primária e a causa secundária não são idênticas e diferem essencialmente, o efeito e o produto são, NA REALIDADE, totalmente o efeito e o produto das duas causas, sem dúvida, mas FORMALMENTE são apenas o efeito e o produto da causa secundária. A madeira queima e é Deus quem a faz queimar, embora o processo de combustão não possa ser formalmente atribuído a Deus, mas deva ser atribuído à madeira como sujeito. Os seres humanos falam, agem e creem, e é Deus quem fornece ao pecador toda a vitalidade e força que ele necessita para a comissão de um pecado. No entanto, o sujeito e autor do pecado não é Deus, mas o ser humano. Desse modo, a Escritura traça as linhas dentro das quais a conciliação da soberania de Deus com a liberdade humana deve ser buscada”.

Extraído de:[Dogmática Reformada, vol. II - Deus e a Criação. Parte VI, Capítulo 14: Providência. "Concorrência: causas secundárias". Ed. Cultura Cristã, 2012. p. 624-625.]

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