Os Artigos com as 67 Conclusões de Hulrich Zwinglio [1523]


Os artigos[1]

Eu, Hulrich Zwingli,[2] confesso ter pregado[3] na nobilíssima cidade de Zurique os artigos e conclusões que passarei a expor. Encontram-se baseados na Sagrada Escritura, a “theopneustos”, ou seja, a [palavra] inspirada por Deus. Ofereço-me para defender estes artigos, e estou disposto a ser ensinado,[4] caso não tenha compreendido[5] corretamente a Sagrada Escritura;[6] mas, qualquer correção que me faça permanecer fundamentado somente[7] na Sagrada Escritura.[8] 

Sobre o Evangelho[9] 
1. Todos os que dizem que nada vale o Evangelho[10] se não é confirmado pela Igreja, erram e ofendem a Deus.
2. O resumo do Evangelho é que o nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Filho de Deus, nos deu a conhecer a vontade de seu Pai celestial e com a sua inocente morte nos redimiu e reconciliou com Deus.
3. Por isso, Cristo é o único caminho da salvação para todos os homens que foram, são e serão.
4. Erra qualquer um que busque, ou indique outra porta. De fato, e é um assassino das almas, e também um ladrão.
5. Consequentemente, todos quantos ensinam falsas doutrinas dizendo que são iguais ao Evangelho, ou que valem mais do que este, também erram. Eles ignoram o que é o Evangelho.

Acerca da autoridade de Cristo[11] 
6. Porque Cristo Jesus é o guia e capitão, prometido por Deus, e enviado aos que são da raça humana.
7. Que Ele é a salvação eterna e a cabeça de todos os crentes, que são parte do seu corpo, e que sem Ele, são incapazes de empreender alguma coisa.
8. Daqui se deduz, antes de tudo, que todos os que vivem em Cristo como cabeça são seus membros e filhos de Deus. E, esta é a Igreja ou comunhão dos santos, a noiva de Cristo, a Ecclesia Catholica.
9. E em segundo lugar, assim como os membros físicos são incapazes de fazer alguma coisa se não forem regidos pela cabeça, assim, é impossível que alguém no corpo de Cristo faça algo sem Cristo, sendo Ele a cabeça.
10. Se as pessoas se comportam insensatamente quando os seus membros agem sem a cabeça, e em consequência ferindo e prejudicando a si mesmas; assim, igualmente operam tolamente os membros de Cristo, ferindo e sobrecarregando-se com leis imprudentes. Deste modo, intentam empreender algo sem Cristo, a sua cabeça.
11. Daqui procede-se o que vemos como preceitos promulgados por pessoas a quem chamamos de “clérigos”, referentes à sua ostentação, as suas riquezas, a sua dignidade, os seus títulos e leis são a causa de toda a tolice; porque nada fazem que corresponda com a cabeça.
12. Por isso, eles deliram, não por causa da cabeça (pois o último dos dois - mediante a graça de Deus – avidamente experimenta elevar em nossa época), por isso, nos referimos ao seu agir tolo, e em nada são forçados, entretanto, devem escutar somente a cabeça. 
13. Deste modo, ouvindo a palavra, aprende-se a conhecer a vontade de Deus de forma clara e precisa, e graças ao Espírito de Deus, o homem é atraído para Deus e transformado à sua semelhança.
14. Por esta razão todos os cristãos deveriam colocar a sua máxima atenção que em todo o mundo seja pregado unicamente o Evangelho de Cristo.[12]
15. Porque a nossa salvação consiste em crer no Evangelho e, o contrário consiste na nossa condenação, pois, nele se contém claramente toda a verdade.
16. No Evangelho e do Evangelho aprendemos que as doutrinas e os preceitos humanos não ajudam em absolutamente nada para a salvação.[13]
17. Cristo é o eterno e único Sumo Sacerdote. Disto deduzimos que aqueles que se proclamam sumo sacerdotes, não somente se opõe à glória e ao poder de Cristo, como de fato, o rejeita.
18. Cristo sacrificou-se uma única vez,[14] e seu sacrifício possuí valor perpétuo como pagamento pelos pecados de todos os crentes. Isto permite reconhecer que a missa não é nenhum sacrifício,[15] senão um memorial do sacrifício,[16] ou ainda, a confirmação da redenção que Cristo realizou[17] em nosso favor.[18]
19. Cristo é o único Mediador entre nós e Deus.[19]
20. Deus quer conceder-nos todas as coisas em seu nome. Disto se deduz que não necessitamos de outro mediador, além dele no presente tempo.[20]
21. Se aqui, neste mundo, oramos uns pelos outros, o fazemos confiando que tudo nos será concedido por meio de Cristo somente.
22. Cristo é a nossa justiça. Disto concluímos que as nossas obras, sempre são boas, ou seja, se realizadas em Cristo; mas, se as realizamos por conta própria elas não serão corretas, nem boas.
23. Cristo rejeita a riqueza e as glórias deste mundo. Disto deduzimos que aqueles que ajuntam riquezas para si, em nome de Cristo, se prejudicam sobremaneira; porque invocam como pretexto a sua avareza e libertinagem.

Sobre a liberdade cristã[21]
24. Cada cristão é livre para fazer qualquer obra que não esteja ordenada por Deus, podendo comer a qualquer tempo, qualquer alimento que quiser.[22] E, disto deduzimos que as datas estabelecidas quanto ao comer queijo e a manteiga,[23] é um engano papista.
25. O cristão não depende de datas ou lugares determinados, pelo contrário. Consequentemente, quem enfatiza as datas e lugares privam o cristão de sua liberdade.
26. Nada desagrada mais a Deus do que a hipocrisia. Portanto, tudo quanto o homem faça para aparentar ser melhor que os demais, é hipocrisia e engano. Nisto se inclui as vestimentas, os sinais, a tonsura, etc.
27. Todos os cristãos são irmãos de Cristo e irmãos entre si, ninguém deve considerar-se superior aos outros diante de Deus. Isto quer dizer que as ordens religiosas, as seitas e ajuntamentos ilegais não devem existir.[24]
28. Tudo o que Deus permitiu, ou que não tenha proibido, é legal. Consequentemente, podemos aprender disto que o matrimônio é coisa lícita para qualquer um.[25]
29. Todos que se denominam “espirituais”, pecam quando descobrem que Deus não garante a habilidade de manter-se casto, nem podem se proteger casando-se.
30. Quem faz voto de castidade realiza uma ingênua ou insensata promessa. E com isto, aprendemos que qualquer um que aceita tais votos, comete injustiça com homens piedosos.[26]

Acerca da excomunhão
31. A excomunhão não pode ser ditada por apenas uma pessoa, exceto pela Igreja, isto é, pela comunhão daqueles com quem convive o possível excomungado juntamente com o seu guardião, ou seja, o pastor.
32. Somente pode ser castigado com a excomunhão quem cause escândalo público.
33. Se alguém acumulou bens de fortuna por meios injustos, tais bens não devem servir para benefício dos templos, dos conventos, dos frades ou monjas, senão que devem ser destinados a pessoas indigentes, ou seja, necessitadas.

Acerca da autoridade temporal
34. Os poderes do Papado e do episcopado, junto à exigência, prepotência e orgulho espiritual que ostentam, não tem nenhum fundamento na sagrada letra, nem na doutrina de Cristo.[27]
35. As autoridades públicas fundamentam-se na doutrina e nos atos de Cristo.
36. Esse poder que a autoridade eclesiástica pretende exercer, pertence na realidade às autoridades seculares, sempre que estas sejam cristãs.
37. Todos os cristãos, sem exceção, devem obediência à autoridade secular.[28]
38. Enquanto ela não ordene coisa que seja contrária a Deus.
39. Por isso, as leis da autoridade secular em sua totalidade devem estar em conformidade com a vontade de Deus, de modo que, protejam o oprimido, ainda que não levante a voz.
40. Somente a autoridade civil tem o direito de condenar à morte, sem provocar a ira de Deus. Mas devem sentenciar a morte unicamente àqueles que, pública e notoriamente, praticam escândalos contra o que Deus ordenou.
41. Se de forma justa a autoridade civil aconselha e ajuda àqueles, que prestará contas diante de Deus, também ela está obrigada a proporcionar o sustento corporal, para aqueles que têm por ela sido julgados.
42. Mas se, pelo contrário, as autoridades civis atuam à margem da lei de Cristo, é a vontade de Deus que sejam destituídas.
43. Resumindo: o melhor e mais firme governo legislativo é o que rege conforme a vontade de Deus, e com Deus regendo. Enquanto que o pior e mais débil governo, é o que atua conforme o seu próprio arbítrio.

Sobre a oração
44. Os verdadeiros adoradores invocam a Deus em espírito e em verdade, sem orgulhar-se diante dos homens.
45. Os hipócritas realizam as suas obras para que os homens as vejam; mas, já receberam a sua recompensa.
46. Assim, pois, os cânticos no templo e a extensa pregação, sem devoção, feitos somente para ganhar dinheiro, são atos que têm finalidade de receber o louvor dos homens ou, são feitos por mero desejo de lucro.

Acerca das ofensas
47. Todo homem deveria preferir deixar-se matar que escandalizar, ou fazer decair em desgraça um cristão.[29] 
48. Se alguém por debilidade, ou ignorância se sente escandalizado, não se lhe deve deixar em sua debilidade ou ignorância, senão que é preciso fortalecê-lo, a fim de que não considere pecado o que não é pecado.
49. Não conheço maior ofensa do que proibir que os clérigos se casem, todavia, permitem que tenham envolvimento com prostitutas.[30]
50. Somente Deus perdoa os pecados por meio de Cristo Jesus, o nosso Senhor.
51. Quem permite a criatura humana perdoar pecados despoja de Deus a sua glória, para dá-la ao que não é Deus. Isto é na realidade pura idolatria.
52. Assim, a confissão dos pecados diante de um sacerdote ou simplesmente diante do próximo, não se deve considerar como perdão dos pecados, mas, apenas como solicitar um prudente e bom conselho.
53. A imposição dos atos de penitência é consequência da opinião meramente humana – com exceção da excomunhão.[31] Tampouco, tais atos apagam os pecados, mas, somente que devem ser impostos para que os demais se atemorizem.
54. Cristo suportou todas as nossas dores e sofrimentos. Quem atribui aos atos de penitência o que somente pertence a Cristo, erra e blasfema contra Deus.
55. Quem diz ao homem arrependido que não lhe é perdoado este ou aquele pecado; quem tal coisa diz não age no lugar de Deus, nem de Pedro, senão de Satanás.
56. Quem somente por dinheiro perdoa certos pecados, faz causa comum com Simão e Balaão e é um verdadeiro apóstolo do diabo.[32] 

Acerca do purgatório
57. A verdadeira Sagrada Escritura nada sabe de um Purgatório,[33] após esta vida.
58. A sentença dos mortos é conhecida somente por Deus.
59. Quanto menos Deus nos deu a conhecer destas coisas, tanto mais devemos nos guardar de intentar saber algo acerca delas.
60. Eu não desaprovo que uma pessoa atribulada rogue a graça de Deus pelos mortos. Mas estipular que se rogue em determinada data e sob a intenção de lucro, não é humano, senão diabólico.[34] 

Sobre o sacerdócio
61. A Sagrada Escritura nada sabe desse caráter especial que se apropriaram os sacerdotes em tempos recentes.
62. A Escritura Sagrada tampouco reconhece outros sacerdotes fora daqueles que pregam a palavra de Deus.
63. Acerca destes últimos ordena que sejam honrados, lhes proporcionando o necessário para o seu sustento físico.

Da correção dos abusos
64. A todos quanto reconhecem os seus erros, não há do que corrigi-los, senão que deixem que morram em paz, e seja a sua virtude considerada num espírito cristão.
65. Aos que pertencem àqueles que não reconhecem os seus erros, Deus os julgará conforme a sua justiça divina. Em consequência, não devem aplicar-lhes castigos corporais, a não ser que se comportem tão desconsideradamente que não tenha modo de tratá-los de outra forma.
66. Agora que se humilhem todos os hierarcas eclesiásticos e levantem a cruz de Cristo no lugar de elevar a caixa do dinheiro.[35] Se assim não o fazem, se afundarão; porque o machado está posto junto às raízes da árvore.[36]
67. Se alguém deseja discutir comigo, acerca dos interesses sobre o empréstimo, do dízimo, das crianças sem o batismo ou da confirmação, ofereço-me prontamente a dar respostas.

Mas que ninguém intente discutir comigo enfiando argumentos sofísticos ou aduzindo discursos humanos, senão que de antemão reconheça a Sagrada Escritura, como único juiz, a fim de que se encontre a verdade ou se mantenha em pé, como espero, e nela seja achado. Amém. Deus seja conosco![37] 


NOTAS:
[1] Estes artigos justificam a sua tradução por serem eles a primeira confissão de fé protestante [1523]. Segundo o Dr. Alderi Matos “com esse notável documento, Zuínglio lançou os fundamentos da fé evangélica e reformada.” Para um breve histórico da sua importância leia no site da Universidade Mackenzie. Embora houvesse aceitação da sua pregação, também surgiu discordância por parte daqueles que eram fiéis tradicionalistas da Igreja Romana. O Papa Adriano VI proibiu-o de pregar e exigiu que o conselho de Zurique o condenasse como herege. O Concílio da cidade decidiu que haveria um debate teológico, no dia 29 de Janeiro de 1523, entre Zwingli e os seus opositores. Aproximadamente seiscentas pessoas se reuniram no Rathaus, salão principal de reunião do Concílio da cidade de Zurique, para testemunhar a discussão, e decidir pelo futuro da cidade. O debate seria em língua comum, não em latim, de modo que todos pudessem entender. Steve Ozment, The Age of Reformation 1250-1550 – An intelectual and religious history of late Medieval and Reformation Europe (New Haven, Yale University Press, 1980), p. 327. Para este confronto ele preparou um esboço contendo sessenta e sete conclusões [Schlussreden]. O Concílio havia decidido que “nada pode ser estabelecido, ou ensinado, a não ser que possa ser provado pelo testemunho da doutrina do evangelho, e a autoridade da própria Escritura”. James Dennison Jr., Reformed Confessions of the 16th and 17th Centuries in English Translation (Grand Rapids, Reformation Heritage Books, 2008), vol. 1, p. 2. A cópia do edito de convocação do Concílio municipal, emitido em 3 de Janeiro de 1523, veja em Hans Hillerbrand, The Reformation – A narrative history related by contemporary observers and participants (Grand Rapids, Baker Books, 1989), pp.131-132. O reformador suíço triunfou convincentemente no debate. Os presentes ouviam em silêncio a sua reivindicação: “mostre-me onde isto está nas Escrituras? Dê-me apenas uma passagem”, contudo, continuava sem obter uma coerente contestação, pois, Zwingli em sua argumentação reivindicava a supremacia da Escritura Sagrada sobre a autoridade papal e a tradição romana. Para uma análise dos motivos e resultados deste debate promovido pelo Concílio de Zurich veja Ulrich Gäbler, Hulrich Zwingli – His life and work(Philadelphia, Fortress Press, 1986), pp. 68-71. Algumas edições alemãs antigas trazem o título Auslegung der Schusseden die Hulrich Zwingli [Exposição das conclusões de Hulrich Zwingli] e o título completo latino está Articuli sive conclusiones LXVII H. Zwinglii [Os artigos com as 67 conclusões de Hulrich Zwingli]. James Dennison Jr. adiciona estes subtítulos que identificam a estrutura temática do documento. A versão alemã trás outros subtítulos com diferentes divisões, todavia, não consegui traduzi-los devido ao tipo de fonte arcaica e o texto escrito em alto alemão. A edição alemã oferecida por Philip Schaff é uma tradução do antigo alemão suíço para o alto alemão germânico, não sendo o texto original de Zwingli.

[2] Escritores registraram o nome do reformador em grafia bem diversificada como Ulrico Zuinglio, Ulrich Zwinglio, Hulrico Zwinglio, Huldreich Zwingli, Huldrych Zwingli, o registro comum em sua forma latinizada é Huldrico Zwinglio, todavia, o nome conforme originalmente está registrado no livro batismal da cidade de Zurique é Hulrich Zwingli (1484 – 1531). Veja M. Gutiérrez Marín, Zuinglio – Antología(Barcelona, Producciones Editoriales del Nordeste, 1973), p. 45. A reforma religiosa que iniciava na Alemanha, também frutificava na cidade de Zurique, na Suíça, com Hulrich Zwingli. O seu programa de reforma aconteceu no cantão leste suíço, região de língua alemã. Ele nasceu em Wildhaus, Sankt Gallen, em 1 de Janeiro de 1484, e estudou nas universidades de Viena (1502) e Basiléia (1504). Em 1506 é ordenado como pároco em Glarus, e somente 1516 obteve uma versão latina do Novo Testamento, que Erasmo de Roterdã havia traduzido do grego. Transfere-se para Einsiedeln, onde se dedicou a estudar e pregar, passando a manejar as línguas originais da Escritura Sagrada. Atacou as doutrinas romanas, especialmente a veneração dos santos e a venda de relíquias, as promessas de curas e o abuso originado na venda de indulgências.

[3] Em Dezembro de 1518, a sua popularidade rendeu-lhe o nomeamento como pregador da colegiata de Zurique. A partir de Janeiro de 1519, ocupou o púlpito da conhecida Grössmunster, ou seja, Grande Catedral, onde o reformador suíço deu início ao programa de reforma na cidade de Zurique pregando expositivamente [lectio continua] iniciando no Evangelho de Mateus, e com isto, ele fez que a cidade se tornasse o povo do livro, a Escritura somente. Veja em Hans Hillerbrand, The Reformation – A narrative history related by contemporary observers and participants, pp. 104-105. Heiko A. Oberman observa que Zwingli de um Leutpriester (sacerdote do povo), veio a tornar-se, pela sua emancipação política e religiosa, num Antistes (o pastor principal). Heiko A. Oberman, The Reformation Roots and Ramifications(Grand Rapids, Wm. Eerdmans Publishing Co., 1994), p. 183.

[4] O reformador suíço desde o início de sua carreira estudantil manteve correspondência com Erasmo de Roterdã, e mesmo quando rompeu a amizade com o humanista holandês, preservou o seu método de pesquisa. Para uma leitura mais detalhada sobre a relação de Zwingli e Erasmo veja Alister McGrath, Origens Intelectuais da Reforma (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2007), pp. 55-60.

[5] Quanto à formação acadêmica de Zwingli sabe-se que ele estudou nas Universidades de Viena e Basiléia, onde foi instruído no modo antigo [Via Antiqua] de Tomás de Aquino, enquanto Lutero obteve uma educação na Via Moderna. Acerca do monergismo coincidente tanto em Lutero, como em Zwingli [o que o levou a romper com Erasmo], notas nas margens dos livros da sua biblioteca revelaram a influência de Agostinho. Bengt Hägglund, História da Teologia (Porto Alegre, Concórdia Editora, 1999), pp. 219-220.

[6] Os historiadores reconhecem que apesar de Zwingli negar a sua dependência de Lutero, como reformador, houve de fato, algum tipo de influência que é impossível determinar com precisão. Strohl observa que “Zwinglio gostava de frisar que encontrara seus princípios reformadores independentemente de Lutero. Na verdade não houve relação de discípulo e mestre entre os dois. Zwinglio sentia-se credenciado a afirmar idéias próprias, mesmo que contrárias às de Lutero.” Henry Strohl, O Pensamento da Reforma (São Paulo, ASTE, 1963), p. 18. No livro Interpretação e fundamento das Conclusões que em 29 de Janeiro de 1523 apresentou Hulrich Zwingli, ele afirma que “no início do ano de 1519 (cheguei a Zurique no dia 27 de Dezembro de 1518, o dia de São João Evangelista), nada sabia de Lutero, a não ser que havia publicado um escrito sobre as indulgências, escrito que a mim, nada poderia dizer de novidade. Acerca das indulgências, eu havia aprendido que são um engano e uma falsa esperança. Aprendi numa discussão promovida em Basiléia, vários anos antes pelo Dr Thomas Wyttenbach, de Biel, ainda que não estive presente nos debates. Por isso, o escrito de Lutero pouco me poderia ajudar em meus sermões sobre o Evangelho de Mateus. [...] Fique bem claro que quando comecei a pregar, antes mesmo de sequer saber o nome de Lutero. Para poder pregar me dediquei dez anos estudando a fundo a língua grega, com a finalidade de conhecer a doutrina de Cristo em sua língua original. Que outros julguem se trabalho como convém, a verdade é que Lutero não me induziu a ele. Repito que descobri o seu nome e chegou aos meus ouvidos dois anos depois de ter-me dedicado, por mim mesmo, à Escritura Sagrada. [...] Todavia, os papistas me aplicam e a outros o nome de Lutero, como disse que o fazem por maldade, e dizem: ‘sem dúvidas, você é um luterano e pregas tal como Lutero escreve.’ A isto somente cabe responder: ‘também prego igual a São Paulo, porque não preferes me chamar paulinista? Também prego a palavra de Cristo. Porque não escolhes me chamar ‘cristão’?” M. Gutiérrez Marín, Zuinglio – Antologia, pp. 59-60.

[7] O historiador Henry Strohl observa que Zwingli é “o primeiro a fazer do princípio escriturístico o artigo fundamental. Suas teses são o resumo das ideias expostas no ano precedente em dois extensos sermões.” Henry Strohl, O Pensamento da Reforma, p. 79. Posteriormente, Zwingli escreve uma obra chamada “A Exposição da Fé” (1529), este pequeno texto é uma breve confissão de fé, onde ele apresenta de modo argumentativo alguns doutrinas cruciais defendidas desde o debate das 67 conclusões. Uma tradução deste texto está em G.W. Bromiley, org., Zwingli and Bullinger – The Library of Christian Classics(Philadelphia, The Westminster Press, 1958), vol. 24, pp. 239-279.

[8] Este prefácio está presente somente na versão em alemão, a latina a omite. A minha tradução desta passagem se baseia na versão hispânica preparada por M. Gutiérrez Marín.

[9] Título adicionado pelo tradutor.

[10] Zwingli pregou um sermão às freiras no monastério de Zurique, que posteriormente foi publicado com o título de A clareza e a segurança da Palavra de Deus (1522). Nesta obra o autor testemunha da sua mudança quanto à sua preferência acadêmica, deixando o humanismo secular, nutrindo-se das Escrituras. Ele diz “quando eu era mais novo, me entreguei demais ao ensino humano, como os outros dos meus dias, e quando ... me comprometi a devotar-me inteiramente às Escrituras, eu era sempre impedido pela filosofia e teologia [escolástica]. Mas eventualmente cheguei ao ponto onde, levado pela palavra e pelo Espírito de Deus, vi a necessidade de colocar de lado todas estas coisas e aprender a doutrina de Deus direto da sua própria palavra. Então comecei a pedir luz a Deus e as Escrituras se tornaram muito mais claras para mim – embora eu não tenha lido nada mais – do que se tivesse estudado muitos comentaristas e expositores.” Tony Lane, Pensamento Cristão – Da Reforma à Modernidade (São Paulo, Abba Press Editora, 1999), vol. 2, pp. 8-9.

[11] Título adicionado pelo tradutor.

[12] A tradução da conclusão 12 oferece algumas dificuldades. Ambas as traduções do texto, tanto inglês como espanhol, são obscuras. A versão oferecida por M. Gutiérrez Marín é “Por eso obran neciamente, aunque no por causa de la cabeza (ya se realizan esfuerzos, mediante la gracia divina, para restabelecer el valor de la cabeza), sino que decimos del obrar necio porque ya no estamos dispuestos a soportarlo, sino que deseamos escuchar solamente lo que La cabeza dice.” in: Zuinglio - Antologia, pp. 46-47. O texto latino diz “adhuc ergo insaniunt non pro capite, quod per gratiam Dei pii omnes summon studio conantur erigere, sed quod non permittuntur insanire et furere. Volunt enim pii soli capiti Christo auscultare.” in: Phillip Schaff, Creeds of Christendom (Grand Rapids, Baker Books, 2007), vol. 3, p. 199.

[13] Posteriormente, com vistas a responder ao bispo católico J. Faber, Zwingli escreveu um livro com o título Interpretação e fundamento das Conclusões que em 29 de Janeiro de 1523 apresentou Hulrich Zwingli. Neste esclarecedor texto ele define o Evangelho como sendo “tudo quanto Deus nos manifestou mediante o seu único Filho.” M. Gutiérrez Marín, Zuinglio – Antologia, pp. 55-56.

[14] Zwingli confessa que aprendeu inicialmente de Thomas Wyttenbach, professor da Universidade de Basiléia, sobre a suficiência de Cristo para a salvação, e nos seus estudos continuados nas Escrituras, fundamentou a sua convicção. J. Rilliet, Zwingli: Third Man of the Reformation (Londres, Lutterworth Press, 1964), pp. 27-28.

[15] Deve-se lembrar que Zwingli numa fase de transição da Reforma em Zurique, mantém a nomenclatura “missa”, todavia, afirmando que o solene ajuntamento do povo de Deus, o culto ao Senhor, de fato, é a celebração do único sacrifício de Cristo em favor do seu povo realizado historicamente sobre a cruz, e não um contínuo sacrifício em si mesmo, como é ensinado na teologia litúrgica católica romana. 

[16] Desde os primórdios da reforma realizada por Zwingli o culto dominical tinha a celebração da Ceia do Senhor como elemento central, ladeado com a pregação da Escritura. A concepção de Zwingli sobre a doutrina da Ceia do Senhor também recebeu influência de Thomas Wyttenbach que “atacou a venda de indulgências antes de Lutero, a concepção católica romana da Ceia do Senhor, e o celibato obrigatório.” Albert H. Newman, A Manual of Church History (Philadelphia, The American Baptist Publication Society, 1953), vol. 2, p. 126. O humanismo que Zwingli recebeu foi-lhe útil para questionar a autoridade dos ensinos do clero romano. A ideia de que a Ceia do Senhor deveria ser interpretada como sendo um sinal, negando a doutrina católica da transubstanciação, encontra antecedência em John Wyclif. O pré-reformador inglês escreveu De eucharistia [1382-1283], em que defendeu que “o pão significa o corpo de Cristo; sobre este devemos concentrar espiritualmente a nossa atenção e recordação. ‘Essa mudança não destrói a natureza do pão, nem muda a natureza do corpo, mas opera a presença do corpo de Cristo, e destrói a preeminência do pão, de modo que, toda a atenção do que adora se concentra no corpo de Cristo. Não é que o pão se destrua, senão que significa o corpo de Senhor presente no sacramento.’ Mas esta presença de Cristo é espiritual, mediada por um símbolo: ‘o corpo de Cristo está ali em virtude e em sinal – não o corpo de Cristo tal como está no céu, mas o sinal substitutivo do mesmo. Logo, quanto ao comer: ‘não partimos com os dentes o corpo de Cristo; o recebemos espiritualmente. Não o comemos corporal, senão que espiritualmente, pois a nossa mente se alimenta da memória do corpo de Cristo’”. Reinhold Seeberg, Manual de História de las Doctrinas (El Paso, Casa Bautista de Publicaciones, 2ªed., 1967), vol. 2, pp. 208-209. Neste ponto Zwingli nada inovou, senão apenas coerente ao humanismo predominante da época, e sob a influência de Wyttenbach, e fazendo eco ao ensino de Wyclif, afirmou a doutrina da Ceia como sendo um memorial, e assim, rompendo com a interpretação papista dominante.

[17] Novamente em sua Interpretação e fundamento das Conclusões que em 29 de Janeiro de 1523 apresentou Hulrich Zwingli, ele explica que “a missa não é sacrifício, mas um memorial do sacrifício, que uma única vez foi oferecido; ao mesmo tempo, é para os fracos a segura confirmação de que Cristo os redimiu. Pois, podem crer que Cristo pagou na cruz por seus pecados e com esta fé comem a sua carne e o beber lhes confirma, que os seus pecados são perdoados como se Cristo acabasse de morrer na cruz. Cristo está presente e atuando em todo o tempo! Assim que, como disse o apóstolo Paulo (Hb 9:14), também os seus sofrimentos são eternamente frutíferos.” M. Gutiérrez Marín, Zuinglio – Antologia, p. 57.

[18] A missa romana somente foi abolida oficialmente pelo conselho da cidade de Zurique, em meados de Abril de 1525. A celebração da Ceia do Senhor no modelo protestante inclui a distribuição do pão e do cálice para o povo. O missal em latim foi substituído pela interação do dirigente e o povo, numa espécie de litania com a participação separada do pastor, os homens das mulheres, e intercalando com os diáconos, recitando em alemão perguntas e respostas, mesclando com os textos bíblicos de Jo 6:47-63 e 1 Co 11:23-36. Veja este modelo de liturgia em M. Gutiérrez Marín, Zuinglio – Antologia, pp. 112-117.

[19] A função sacerdotal e vicária do clero romano é frontalmente negada por Zwingli. Ainda hoje o Catecismo da Igreja Católica declara que “com efeito, o Pontífice Romano, em virtude de seu múnus de Vicário de Cristo e de Pastor de toda a Igreja, possui na Igreja poder pleno, supremo e universal. E ele pode exercer sempre livremente este poder”. Catecismo da Igreja Católica (São Paulo, Edições Loyola, 1999), p. 253.

[20] Na Interpretação e fundamento das Conclusões que em 29 de Janeiro de 1523 apresentou Hulrich Zwingli comentando a Conclusão 20, ele esclarece que “a fé está segura de que Jesus Cristo com a sua morte e sacrifício, nos reconciliou com Deus. Conseqüentemente, a nossa reconciliação não é realizada por nós, mas é por Cristo. Assim, é depreciar a Jesus Cristo o atribuir à criatura o que pertence somente a Ele. [...] Porque com firme fé nos agradamos de ser filhos de Deus, e isto é obra unicamente do Filho de Deus. Disto se concluí que não temos mérito próprio, mas somente o mérito concedido pelo Filho de Deus.” M. Gutiérrez Marín, Zuinglio – Antologia, pp. 61-62.

[21] Título adicionado pelo tradutor.

[22] Collison observa que Zwingli “começou de forma modesta, com a ingestão proposital de algumas salsichas na Quaresma, mas isso simbolizava a liberdade dos cristãos para seguir os ditames da escritura – por si mesmos.” Patrick Collison, A Reforma (Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2006), p. 94. Foi um ato simples, mas teve um significado profundamente subversivo!

[23] Existia a permissão de Roma para que em regiões pobres, no lugar de azeite de oliva os cristãos comessem laticínios, ou seja, leite, manteiga, queijos e ovos, no período da quaresma. Nota de M. Gutiérrez Marín.

[24] Mais energicamente em 28 de Outubro de 1523, com a aprovação do conselho de Zurique transformaram os monastérios em hospitais, eliminou a missa e o uso de imagens nos templos. Mas, somente em 1525, celebra o culto caracteristicamente protestante, com a celebração da Ceia do Senhor. Durante o seu esforço de implantação dos princípios da Reforma, Zwingli não conseguiu banir definitivamente o catolicismo em Zurique, embora a sua obra tenha aberto uma larga porta para a Reforma na Suíça. Ele intencionava implantar a sua doutrina em outros cantões, assim seis deles tornaram-se seus seguidores, todavia, outros cinco cantões montanheses da região de Uri, Schwyz, Unterwalten, Lucerna e Zug mantiveram-se católicos. A hostilidade entre os cantões desembocou, em 1529, num conflito armado, em que os católicos venceram. Dois anos depois, num outro conflito, os reformistas perdem novamente, e Zwingli morre em 1531 nos campos de Kappel, pondo fim a continuidade de sua obra na Suíça. Ele não obteve tanto êxito em sua tarefa de reforma como Lutero, e ficou quase que esquecido após a sua morte prematura.

[25] O conselho da cidade de Zurique tornou o casamento um ato civil desvinculado do religioso. Em reação a decisões como esta o Concílio de Trento, em 11 de Novembro de 1563, decidiu em De Sacramento Matrimonii – Canone IX, que “se alguém disser que as causas matrimoniais não pertencem aos juízes eclesiásticos, seja excomungado.” Philip Schaff, The Canons and Decrees of the Council of Trent in: The Creeds of Christendom, vol. 2, p. 198.

[26] Ele mesmo havia contraído casamento, em 1522, com Anna Reinhardt, uma viúva com quem vivia publicamente como sua esposa. Acerca de seu convívio familiar veja James I. Good, Grandes mulheres da Reforma (Ananindeua, Knox Publicações, 2009), pp. 11-22. Em 11 de Novembro de 1563, o Concílio de Trento decidiu, em De Sacramento Matrimonii – Canone IX, que “se alguém disser que os clérigos ordenados de ordens maiores ou os regulares que fizeram promessa solene de castidade, podem contrair Matrimônio, e que é válido aquele que tenham contraído sem que lhes proíba a lei eclesiástica nem o voto, e que ao contrário não é mais que condenar o Matrimônio, e que podem contraí-lo todos os que sabem que não tem o dom da castidade, ainda que a tenham prometido por voto, seja excomungado, pois é constante que Deus não recusa aos que devidamente Lhe pedem este Dom, nem tampouco permite que sejamos tentados mais que podemos.” Philip Schaff, The Canons and Decrees of the Council of Trent in: The Creeds of Christendom, vol. 2, p. 194.

[27] Fiz a tradução deste artigo direto do latim, por perceber que há falta de clareza, entre a tradução inglesa e espanhola, quanto ao motivo da reprovação de Zwingli. O texto latino [Potestas quam sibi Papa et Episcopi, coeterique quos spiritales vocant, arrogant, et fastus, quo turgent, ex sacris literis et doctrina Christi firmamentum non habet]. O texto inglês [So-calling spiritual authority cannot justify its pomp on the basis of the teaching of Christ. Tradução: A assim chamada autoridade espiritual, não pode justificar a sua pompa com base no ensino de Cristo] e o texto espanhol [El boato que ostentam las “autoridades eclesiásticas”, como suele decirse, no tiene ningún fundamento en la doctrina de Cristo. – tradução: O luxo que ostentam as “autoridades eclesiásticas”, como geralmente se diz, não tem nenhum fundamento na doutrina de Cristo].

[28] Para Zwingli o Estado e a Igreja, naquele momento histórico, eram uma só instituição. Strohl observa que no seu pensamento “o fim visado pela pregação da palavra e o visado pelo Estado acabam por confundir-se de tal maneira que o magistrado foi reconhecido como chefe incontestável da Igreja. A Igreja Reformada em Zurique tornou-se, assim, uma atribuição do governo cristão ao qual Zwínglio confiou, em 1525, toda a aplicação da disciplina.” Henry Strohl, O Pensamento da Reforma, p. 239.

[29] Philip Schaff oferece uma discussão quanto ao caráter moral de Zwingli. Janssen, um historiador católico, que caluniosamente acusou Zwingli de violar a verdade ainda quando era um sacerdote romano, mantendo uma vida promíscua, licenciosa e não refletindo a castidade exigida pela Igreja Romana de seus clérigos. Schaff observa que “Zwingli era sem dúvida culpado por ocasionais transgressões, mas provavelmente menos culpado do que a maioria dos sacerdotes suíços que viviam em aberto concubinato naquele período.” Philip Schaff, “The Swiss Reformation 1519-1605” in: History of the Christian Church(Peabody, Hendriksen Publishers, 2011), vol. 8, p. 28. Outras acusações são levantadas por Janssen, mas todas são respondidas por Schaff.

[30] Patrick Collison revela que “Zwinglio se casou e informou seu bispo de que não era a concubina ou ‘ama de casa’ que a maior parte do clero suíço mantinha num quarto dos fundos.” Patrick Collison, A Reforma, p. 94.

[31] Posteriormente, com vistas a responder o bispo católico J. Faber, Zwingli escreveu um livro com o título Interpretação e fundamento das Conclusões que em 29 de Janeiro de 1523 apresentou Hulrich Zwingli, acerca da Conclusão 53, explica que “a excomunhão tem o objetivo a salvação da alma. Se alguém suporta pacientemente a excomunhão, reingressará ao seio da igreja, ou seja, que Deus não considerará tal excomunhão.” M. Gutiérrez Marín, Zuinglio - Antología, p. 64.

[32] Referência a Simão, o mago (At 8:9-24) e a Balaão, o adivinho (Nm 22:24). Peter Toon explica que a teologia católica ensina que “existe uma tesouraria de méritos (os de Cristo, dos santos e dos mártires) disponível aos santos em e através da comunhão dos santos. O papa pode fazer uso deste mérito e aplicá-lo ao povo cristão, através das indulgências, a fim de remir os seus castigos temporais.” Indulgências in: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã (São Paulo, Edições Vida Nova, 1992), vol. 2, p. 329. Após o escândalo das vendas de indulgências, a Igreja Romana tentou amenizar os abusos sem condenar os culpados por eles. O Concílio de Trento, em 4 de Dezembro de 1563, no Decretum de indulgentiisdecidiu que “tendo Jesus Cristo concedido à Sua Igreja o poder de conceder indulgências e usando a Igreja esta faculdade que Deus lhe concedeu desde os tempos mais remotos, ensina e ordena o Sacrossanto Concílio que o uso das indulgências, sumamente proveitoso ao povo cristão, e aprovado pela autoridade dos sagrados concílios, deve conservar-se na Igreja, e considera anátema os que afirmam ser inúteis ou neguem que a Igreja tenha o poder de concedê-las. […] E cuidando para que se emendem e se corrijam os abusos que foram introduzidos nessas indulgências, por cujo motivo blasfemam os hereges deste glorioso nome de indulgências, estabelece em geral, pelo presente decreto, que absolutamente se exterminem todos os lucros ilícitos que se auferem para que os fiéis as consigam, pois destes lucros se originaram muitos abusos dentre o povo cristão.” Philip Schaff, The Canons and Decrees of the Council of Trent in: The Creeds of Christendom, vol. 2, p. 194.

[33] Embora aceita dentro do catolicismo medieval a doutrina do Purgatório foi oficialmente aceita em 4 de Dezembro de 1563, quando o Concílio de Trento decretou que “tendo a Igreja Católica, instruída pelo Espírito Santo, segundo a doutrina da Sagrada Escritura e da antiga tradição dos Padres, ensinado nos sagrados concílios e atualmente neste Concílio Geral de Trento, que existe Purgatório, e que as almas detidas nele recebem alívio com os sufrágios dos fiéis, e em especial com o aceitável sacrifício da missa, ordena o Santo Concílio aos Bispos, que cuidem com máximo esmero que a santa doutrina do Purgatório, recebida dos santos Padres e sagrados concílios, seja ensinada e pregada em todas as partes, e que seja acreditada e conservada pelos fiéis de Cristo.” Philip Schaff, The Canons and Decrees of the Council of Trent in: The Creeds of Christendom, vol. 2, p. 198.

[34] Nesta conclusão ainda há resquícios da teologia romana no pensamento de Zwingli. Quanto à doutrina da intercessão pelos mortos a sua discordância não é teológica, mas ética.

[35] Parece que questionamentos acerca das vendas das indulgências eram algo generalizado, especialmente nas universidades. 

[36] Referência à declaração de João Batista (Mt 3:10).

[37] Esta conclusão somente ocorre na versão alemã, a inglesa e a latina omitem. A minha tradução se baseia na versão hispânica preparada por M. Gutiérrez Marín.


Extraído de James T. Dennison, Jr., ed., Reformed Confessions of the 16th and 17th Centuries in English Translation – 1523-1552 (Grand Rapids, Reformation Heritage Books, 2008), vol. 1, págs. 1-8; ainda, recorrendo ao texto original e notas de Phillip Schaff, “Articuli sive conclusiones LXVII. H. Zwinglii” in: The Creeds of Christendom (Grand Rapids, Baker Books, 2007), vol. 3, pág. 197, e também da tradução hispânica com notas preparadas por M. Gutiérrez Marín, Zuinglio – Antología (Barcelona, Producciones Editoriales del Nordeste, 1973).

Tradução e notas revisadas em 23 de Fevereiro de 2014.
Tradução e notas de Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática do SPBC-RO.

Via:http://reformadoseculo16.blogspot.com.br/

Comentários