Introdução
Ainda falta ser falado sobre um assunto nesta oportuna e enriquecedora conferência sobre o tema: "A Justificação pela Fé Somente". Os oradores que me antecederam explicaram cuidadosamente a verdade sobre o tema. E pelo fato de quase todos os ataques contra este terem, através dos tempos, tomado o mesmo formato, ou seja, introduzido as obras do pecador como base para a nossa justificação, estes oradores fizeram cuidadosamente a distinção entre justificação e santificação, mostrando a relação necessária entre elas, e demonstrando que a justificação ocorre tanto objetiva como subjetivamente, sem nenhuma conexão com as nossas obras, sejam elas boas ou más, em corpo ou alma, da carne ou do espírito regenerado. Foi demonstrado que, quando se trata de justificação, as nossas obras simplesmente não têm lugar algum. O que foi ensinado é a verdade da justificação como geralmente tem sido compreendida pela igreja por cerca de 2000 anos, mas especialmente desenvolvida, formulada e ensinada pela igreja da Reforma contra os erros perniciosos de Roma e dos arminianos. A única coisa que falta nesta conferência é explicar o significado dessa verdade para a vida cotidiana do cristão.
O significado geral desta verdade já foi observado. O tema desta conferência usa a amável descrição dada pela igreja no passado, "O Coração do Evangelho". Os oradores prévios observaram que Lutero chamou a justificação de:
"O artigo sobre o qual a igreja permanece ou cai"
E Calvino:
"A principal dobradiça sobre a qual religião se dependura".
Podemos acrescentar que o significado geral da justificação também é indicado pela profundidade do tratamento que recebeu por esses teólogos. Por exemplo, no livro três das Institutas, Calvino dedica nove dos vinte e cinco capítulos para a justificação, esta em comparação com um capítulo de cada sobre fé e regeneração, e três sobre a predestinação - muito para o convencional. Ele também dedica oito capítulos para a santificação, se opondo a toda calúnia, reduzindo assim a acusação de que os reformados não têm lugar para boas obras. O significado geral da justificação também ficou claro no texto que lemos, onde a Escritura não só defende essa verdade, mas chama aqueles que tentam destruí-la de "cães" e "mal-trabalhadores".
O propósito deste discurso, no entanto, é demonstrar a partir da Escritura, das confissões e dos escritores reformados, os específicos benefícios práticos que a verdade da justificação dá ao crente, e ao mesmo tempo demonstrar o que é perdido quando qualquer outra noção sobre a justificação é acolhida. Além disso, é a minha intenção concentrar nos aspectos da justificação que se aplicam a nossa atual vida terrena, uma vez que os oradores anteriores já mencionaram a importância da justificação para nossa vida eterna e glória.
É importante demonstrar o significado prático dessa verdade para a nossa vida terrena atual por duas razões:
Primeiro, para que os crentes sejam incentivados a batalhar com grande zelo e sacrifício pessoal por esta verdade e contra o erro. Mesmo agora, líderes reformados e presbiterianos supostamente conservadores audaciosamente afirmam que esta verdade desenvolvida, formulada e ensinada pela igreja da Reforma, é deformada, ilegítima e doentia. Na opinião deles, milhares de crentes ofereceram suas costas ao chicote, sua língua à faca, sua boca à mordaça e seu corpo ao fogo, não por causa da verdade da Palavra de Deus, mas por um colossal erro teológico cometido pelos nossos pais reformados. Este mais recente ataque, que tem por nome "Visão Federal", faz mais do que menosprezar o alto preço que cristãos reformados do passado pagaram para manter esta verdade, ela é desprezível por si só. No entanto, ao assaltarem a verdade bíblica da justificação, a qual é de fato o coração do Evangelho, seus defensores roubam do crente os benefícios práticos e salvíficos da justificação, e de Deus a Sua glória. Portanto, os crentes precisam conhecer esses benefícios da justificação para a sua vida cotidiana, de modo que, pessoalmente, eles sejam movidos a mantê-la, mesmo com grande sacrifício pessoal.
Segundo, os benefícios práticos da verdade da justificação precisam ser demonstrados a fim de que os crentes se beneficiem deles. Existe o perigo de que nós simplesmente vejamos a justificação como uma ideia teológica abstrata e a batalha contra isso como uma briga de família sobre semântica. O fato é que se a justificação for incompreendida, rejeitada ou eliminada, simplesmente não haverá nenhum proveito dos ricos benefícios que ela proporciona, somente miséria.
A Justificação Estabelece a Justiça de Deus e
Nossa Relação Legal com Todas as Coisas
Para entender o significado da justificação pela fé somente para a vida cotidiana do cristão, primeiro é necessário saber o que a diferencia de todos os outros aspectos da salvação. O que é que faz da justificação o coração do Evangelho, a principal dobradiça sobre a qual a religião se dependura e o artigo sobre o qual a igreja permanece ou cai? Se você achasse que a razão é porque a justificação revela com mais clareza a soberana graça, misericórdia e arbítrio de Deus na salvação a parte da vontade, dignidade e obras dos homens, você estaria enganado. É verdade que a doutrina da justificação revela claramente estas coisas, mas não exclusivamente, ou mesmo primariamente. O amor de Deus na eleição, a regeneração vivificadora, a santificação transformadora, e de fato, todas as partes da salvação igualmente revelam que Deus salva a parte da vontade, dignidade ou obras dos pecadores. Poderia até ser argumentado que a eleição revela mais claramente a prerrogativa divina na salvação, que a santificação revela mais claramente o poder divino na salvação, ou a regeneração a passividade do homem sob a obra de Deus.
O que coloca a justificação à parte e lhe dá o seu significado único é que: de todos os aspectos da salvação que desfrutamos, a justificação revela e exalta o direito legal do Deus Trino, ou seja, a Sua justiça, tanto dentro de Seu próprio ser quanto em Seu relacionamento com a humanidade. E esta questão sobre a justiça de Deus é fundamental para o aproveitamento da salvação na vida cristã, e é o que faz da justificação o coração do Evangelho.
A justiça de Deus refere-se ao fato de que dentro de Seu próprio ser e em todas as suas relações com a criação, em particular com a humanidade, o Deus Trino age de acordo com o critério de Sua própria bondade ética. Implica também no direito de Deus de insistir e manter esse critério. A justiça de Deus não é mais muito apreciada nas igrejas atuais. Na verdade, seria justo dizer que a falha em honrá-la constitui a base - da maioria dos movimentos - da rejeição da verdade da justificação. As igrejas de hoje estão interessadas no aperfeiçoamento pessoal e até mesmo na libertação do sofrimento. Mas, como Abraham Kuyper uma vez atacou:
"[Toda a questão é apenas um dos] pedidos pela ajuda do grande Médico, que recebe seu pagamento e, em seguida, é despedido com poucos agradecimentos. A questão da justiça não entra no assunto de forma alguma; conquanto que o pecador seja santificado, está tudo bem."25
A justiça de Deus é fundamental para a fé cristã. Ela é uma perfeição essencial do próprio ser e agir de Deus; se Deus fosse injusto ou agisse injustamente, Ele não seria Deus. Considere também que junto com conhecimento e santidade, a justiça é uma perfeição que Deus comunicou ao homem quando o criou à Sua própria imagem, e é uma perfeição que Ele imediatamente restaura por meio de Cristo no novo homem. Além disso, a pessoa e toda a obra de Jesus Cristo tem por objetivo revelar a justiça de Deus. Na cruz, em vez de deixar o pecado impune, Deus o puniu em Seu Filho amado, pois Ele só aceitaria o sacrifício da justiça de Cristo como a satisfação pelo pecado, e Deus justamente o recompensou com a mais elevada honra e glória por Sua obra. O Catecismo de Heidelbergensina que Jesus foi providenciado a fim de nos restaurar à justiça26, sofreu para adquirir para nós a justiça27, morreu para satisfazer a justiça de Deus28, e ressuscitou e ascendeu para fazer-nos participantes daquela justiça29. O próprio Jesus Cristo, o mistério da piedade, foi justificado no Espírito (Cf. 1Tm 3:16) a fim de revelar a justiça de Deus.
Deveria então nos surpreender que a justificação - o ato forense, jurídico e legal de Deus de declarar-nos justos com base na cruz - seja o coração do Evangelho? Ela o é pois estabelece a justiça de Deus. Ela revela que Deus é o Legislador que estabelece o que é certo e errado, o Juiz que determina o que está em conformidade com a lei, e o Rei que governa com justiça, punindo ou recompensando de acordo com a Sua lei. E uma vez que ela estabelece a justiça de Deus, ela revela a maravilha de Sua graça em justificar os homens. Assim como Herman Bavinck disse:
"O que Deus mais estritamente condena na Sua santa lei, é a justificação dos ímpios, o que, Ele disse sobre Si mesmo que jamais faria e o que, mesmo assim, Ele faz. Mas Ele o faz sem comprometer a Sua justiça. Esta é a maravilha do Evangelho"30 (Cf. Dt 25:1; Êx 23:07).
Então, o outro significado da justificação é que, porque ela revela a justiça de Deus no estabelecimento de um relacionamento conosco, ela serve como a base jurídica para todas as relações dos cristãos. Abraham Kuyper corretamente observou:
"O direito regula as relações. O direito é a base, especialmente das relações interpessoais. Tudo é primeiramente estabelecido e desenvolvido em uma base legal, aquela do direito."31
E portanto, a nossa justificação serve como base para a nossa relação com o mundo, a relação com o pecado, com a morte, com a lei, com a igreja, com cada membro da igreja, com todos os membros do mundo, mas especialmente para o nosso relacionamento com Deus. Não há nenhum relacionamento com Deus à parte da justificação, e não há nenhuma mudança subseqüente na nossa condição através de Deus a menos que haja primeiro uma mudança em nosso status, que é o nosso relacionamento legal com Deus, o direito legal de Deus sobre nós.
Kuyper novamente diz:
"É evidente que a regeneração, chamado e conversão, sim, até mesmo a completa reforma e santificação, não são suficientes. Pois, embora estes sejam muito gloriosos e livrem o homem do pecado, da mancha e poluição [...] ainda assim eles não tocam em sua relação jurídica com Deus. Todo membro da igreja deve[...] perceber a sua posição jurídica perante Deus, agora e para sempre, que ele não é apenas homem ou mulher, mas uma criatura que pertence a Deus, absolutamente controlada por Deus, culpada e punível quando não age de acordo com a vontade de Deus."32
Iremos agora examinar mais de perto o significado da justificação para o cristão nestas relações.
A Justificação e Nossa Relação com a Igreja
A justificação é fundamental para a nossa relação com a igreja de Jesus Cristo. Primeiramente, ela implica que a correta membresia da igreja é essencial. Para usufruir dos benefícios da justificação pela fé somente, a pessoa deve ser um membro de uma igreja onde a justificação seja ensinada e crida. A razão é que a justificação é recebida por meio da adoração pública. Por suas palavras de adoração, o publicano foi justificado, e por suas palavras de adoração o fariseu foi condenado (Mt 12:37). A declaração de Cristo que alguém é justificado, é ouvida apenas através da pregação pública e adequada do Evangelho por ministros chamados e enviados. Cristo tem de falar, pois só Deus pode perdoar os pecados. Só Deus pode justificar. E Ele escolhe fazê-lo através da pregação. Além disso, a pregação - a qual tem em seu âmago a proclamação de que os pecadores que creem em Cristo são justificados - é a marca principal da verdadeira igreja.
A importância da justificação para a membresia da igreja explica porque Lutero a chamou de o artigo sobre o qual a igreja permanece ou cai. A igreja verdadeira é aquela que prega a justificação pela fé somente, e nada contrário a isso. Uma igreja que não prega e nem pregará a justificação pela fé somente, não é igreja. Onde a justificação pela fé somente é rejeitada e outra forma de justificação é ensinada, simplesmente não pode haver a justificação dos pecadores. Ela pode até ter a forma de religião pura e sem mácula, mas não justifica nenhum membro.
Nesse sentido, eu acho que a pregação que declara os pecadores justificados de alguma outra forma, não é diferente de um clérigo muçulmano radical que ensina a seus seguidores que eles recebem o favor de deus por matarem infiéis, detonando uma bomba suicida presa em sua cintura. Isso até pode ser crido de modo que alguns dão a sua vida por esta causa, mas o que eles pregam simplesmente não acontece. Assim também, onde o pregador declara que alguém é justificado pela fé e obras de fé, ninguém é justificado. Eles podem até declarar que sim, mas isso simplesmente não é verdade.
No que diz respeito a nossa relação com a igreja, a justificação também serve como base para a nossa essencial unidade como membros da igreja e o justo julgamento uns dos outros. É neste contexto que Calvino falou do julgamento de amor ou de caridade. Ele observou que devido a impiedade e hipocrisia sempre ter existido na igreja e em todo membro, a santificação por si só não pode ser usada como uma marca da verdadeira igreja, ou de qualquer membro, a favor do assunto. O julgamento deve ser de acordo com o amor, isto é, de acordo com a forma como nós mesmos seríamos julgados por outros crentes à luz da graciosa justificação de Deus sobre nós. Era disto que Jesus estava falando quando disse: "Não julguem apenas pela aparência, mas façam julgamentos justos" - Jo 7:24 - e "da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados" - Mt 7:2. Devemos ter isso em mente na nossa relação com o próximo. Nós somos até mesmo obrigados a orar: "Perdoa os nossos pecados, assim como nós perdoamos os pecados dos outros".
A razão da justificação servir como base para a nossa unidade e do justo julgamento do próximo é porque ela é o grande equalizador na igreja de Jesus Cristo. A justificação é a base legal para a igualdade espiritual. O Catecismo de Westminster observa atenciosamente este importante fator:
"A justificação liberta a todos os crentes igualmente da ira vingadora de Deus, e isto perfeitamente nesta vida, de modo que eles nunca mais caem na condenação. A santificação não é igual em todos os crentes e nesta vida não é perfeita em crente algum."33
A justificação é a única coisa que todos os membros da igreja, desde crianças até os santos mais antigos, têm em comum. Haverá diferenças de raça, de gênero, dons, posição social, posição econômica e educação. Haverá diferenças de crescimento em santificação - crianças que amadurecem espiritualmente cedo e adultos que ainda são espiritualmente crianças - mas todos devem ser vistos e tratados com igualdade com base em sua justificação.
A Justificação e Nossa Relação com o Mundo: Nossa Carne e Pecado
A doutrina da justificação é também significativa para a nossa relação com o mundo e com as coisas que pertencem a ele. A justificação muda toda a nossa relação com a criação, com a lei, com o pecado e com os habitantes do mundo. Esta mudança em nossa relação com o mundo e as coisas nele, é apontada na Escritura. A frase em vigor é que "estamos mortos para" eles. Por isso, a Escritura quer dizer que a nossa relação legal com eles é cortada, de modo que eles já não têm mais qualquer direito sobre nós, enquanto ao mesmo tempo, uma nova relação é estabelecida com Jesus Cristo a fim de que possamos obter toda a vida e proveito d'Ele.
Notamos primeiramente que a Escritura ensina que a justificação muda a relação com a nossa própria carne - que tem sua origem no mundo - e com os pecados - que têm a sua fonte em nossa carne. A justificação nos faz mortos para o pecado e a lei do pecado em nossa carne. Por exemplo, 1 Pedro 2:24 diz:
"[Cristo] levou em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, a fim de que morrêssemos para os pecados e vivêssemos para a justiça."
E Romanos 6:1-2:
"Que diremos então? Continuaremos pecando para que a graça aumente? De maneira nenhuma! Nós, os que morremos para o pecado, como podemos continuar vivendo nele?"
Portanto, a justificação é a base, a possibilidade e a certeza da santificação - a libertação do poder vigente do pecado em nossa carne. Logo, a justificação e a santificação estão necessariamente e inseparavelmente relacionadas; a relação é de imputação legal à vigente, status à condição, direito à recepção, imputação à habitação interna. E estão necessariamente e inseparavelmente relacionadas exatamente porque é Deus quem justifica. A justificação dá ao crente o direito de ser liberto do domínio do pecado. Através dela o direito do pecado de reinar na carne é legalmente deposto. E, uma vez que a justificação ocorre através de meios da fé - a ligação orgânica e ativa com Jesus Cristo, estabelecida por Deus - o crente é de fato liberto do poder do pecado. Isso explica por que o Catecismo de Heidelberg tão corajosamente proclama que é impossível que a doutrina da justificação pela fé somente faça os homens se tornarem negligentes e profanos34. Por causa da relação com Cristo através a justificação pela fé, o crente está agora morto para o pecado, de modo que é impossível que a vida de Cristo falhe em impulsioná-lo a uma nova vida piedosa. A justificação não depende da santificação, mas é a base jurídica e a certeza desta.
Mas, alguém estar justificado, não significa que o pecado está morto na carne do crente. Isso deveria ficar claro, não somente por causa da nossa própria experiência, mas pela Escritura. Jó falou sobre as iniquidades de sua juventude e que ele abominava a si mesmo por causa de seu pecado. Enquanto Davi fala de sua integridade no Salmo 7:8, ele também confessa sua maldade e sua depravação no Salmo 51:
"Sei que sou pecador desde que nasci, sim, desde que me concebeu minha mãe".
E o apóstolo Paulo, um santo justificado, comentou:
"Com a mente, eu próprio sou escravo da lei de Deus; mas, com a carne, da lei do pecado" - Rm 7:25.
O crente deve também reconhecer a presença do pecado dentro de si, porque a fé é contada como justiça ao homem que "confia em Deus que justifica o ímpio" - Rm 4:5. Eu acredito que isso seja verdade, mesmo quando se fala da justificação subjetiva. Os benefícios da justificação são experimentados continuamente em nossas vidas, não somente quando humildemente confessamos a nossa depravação e pecados passados, mas especialmente quando confessamos que, embora sendo santos justificados e santificados, continuamos pecadores em nossa carne. Temos de aceitar a responsabilidade pessoal pela nossa depravação e pelo pecado que provêm desta, como no dilúvio. Caso contrário, nós nos tornamos "o todo" que não precisa do médico e "o justo" que não precisa de arrependimento (Mc 2:17-18). Nas palavras de Calvino:
"Para obter a justiça de Cristo, devemos abandonar a nossa própria justiça [...]. O coração não pode estar aberto para receber a misericórdia de Deus a menos que esteja absolutamente vazio de toda a opinião de seu próprio valor."35
Um exemplo é o publicano, que foi justificado quando ele clamou: "tem misericórdia de mim, um pecador", e não "tem misericórdia de mim, que costumava ser um pecador" (Cf.Lc 18:13-14).
O texto acima, explica por que o Catecismo de Heidelberg inclui uma seção inteira sobre a nossa miséria antes da seção sobre a nossa libertação, onde a justificação é proclamada. Um pregador reformado não pula esta seção e simplesmente continua a pregar a nossa libertação, com a atitude: "Bem, essas coisas sobre o pecado, a nossa miséria e a depravação são coisas que costumávamos ser e que costumávamos precisar de libertação". Isto também está lá para o nosso conforto; está lá para avaliarmos corretamente como nós somos por natureza, pois isto é necessário para desfrutarmos a justificação. É necessário porque Jesus liberta e dá justiça aos pobres, necessitados, oprimidos, humildes, aos que choram, aos cansados e sobrecarregados, aos famintos e sedentos por justiça. Mesmo o justificado, regenerado e santificado apóstolo Paulo ainda poderia confessar:
"Jesus Cristo veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o pior" - 1 Tm 1:15.
Bavinck pontuou desta maneira:
"Mesmo que o crente compartilhe o perdão dos pecados[justificação], ele deve, conscientemente, de dia a dia, continuar se apropriando deste pela fé, a fim de desfrutar da segurança e conforto do mesmo. É verdade que há muitos que continuam vivendo em função de uma experiência passada e se contentam com isso, mas essa não é a vida cristã."36
Entender a mudança da justificação em nossa relação com o pecado - que estamos mortos para o pecado, mas o pecado não está morto em nós - também é importante para que não minimizemos o pecado ou a lei de Deus. Os oradores anteriores já apontaram o notável fato de que aqueles que atacam a verdade da justificação com base de que esta dificulta a realização de boas obras, em geral, não defendem o critério da lei de Deus, ou a mantêm em alta estima. Isto era verdade sobre os auto-justificados fariseus que eram hipócritas quanto a lei nos dias de Jesus. Isto era verdade sobre os arminianos e seguidores de John Wesley. Há uma razão para isso. Se alguém é justificado, em parte, por suas obras de acordo com o critério da lei de Deus, logo esse critério deve ser atingível. Caso contrário, nenhum pecador pode ser justificado. O resultado de tal pensamento, invariavelmente, é que a perfeição exigida pela lei é diminuída, que a lei só exige perfeita ação externa, ou que Deus aceita ações imperfeitas como base para a justificação. É impressionante também, que quando isso é feito, as boas obras aos olhos dos homens tornam-se más aos olhos de Deus, uma vez que elas não são frutos de gratidão pela nossa justificação, mas são meios para alcançar a justificação. Este fenômeno também explica a reclamação manifesta pelo teólogo presbiteriano, John Murray:
"Com demasiada frequência deixamos de compreender a gravidade do nosso pecado contra Deus. Esta é a razão pela qual este grande artigo da justificação não é o que deveria ser, no mais profundo íntimo do nosso espírito. Esta é a razão pela qual o Evangelho da justificação é para tais, de certa forma, um som sem sentido no mundo e na igreja do século XX."37
A Justificação e Nossa Relação com o Mundo: A Criação Natural
Quanto ao significado da justificação para nossas relações no mundo, a justificação é também a base para o relacionamento do cristão com a criação natural. Sendo justificados, nós também somos feitos mortos para o mundo naquele sentido. No entanto, é preciso acrescentar rapidamente que, ao mesmo tempo nós somos reconciliados com o mundo, o qual também é redimido em Cristo. Isto é trazido em dois textos de 2 Coríntios. Em 2 Coríntios 4:14-15, Paulo diz que um dos benefícios da justificação é que todas as coisas agora cooperam para o nosso bem. E em 2 Coríntios 5:17-18, ele diz:
"Se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas! Tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação."
O que tudo isso significa? Em primeiro lugar, o cristão é feito morto para o mundo, assim como ele é feito morto para o pecado. Estamos mortos para os efeitos de todos os males. Eles simplesmente não podem mudar nossa relação com Deus. As más obras cooperam para o nosso benefício, avivando o novo homem e crucificando o velho. Satanás, mesmo quando nos tenta, está servindo o nosso Senhor. Era disto que Calvino estava falando, quando no contexto da justificação, ele observou que, embora nós sejamos redimidos de um mundo que, em outra circunstância nos confina e oprime, todas as coisas agora cooperam juntamente para o nosso bem38. Nosso conforto não está simplesmente na providência de Deus. O nosso conforto, assim como o Catecismo de Heidelberg ensina, é que o Deus da providência é o Pai que estabeleceu aquela nova relação de adoção quando fui justificado39. Bavinck novamente:
"A diferença dos justificados é que em meio a opressão e perseguição, as quais eles são expostos em toda a parte no mundo, eles colocam sua confiança no Senhor e buscam sua salvação e bem-aventurança n'Ele somente. Em nenhum lugar há qualquer libertação para eles, nem em si mesmos nem em qualquer criatura, mas no Senhor seu Deus somente."40
Este fato explica o porquê imediatamente depois de ensinar que "é Deus que justifica", Paulo faz aquelas perguntas retóricas reconfortantes:
"Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?" - Rm 8:35.
Sendo justificados, todos estes são: ou evitados por Deus, nosso Pai justificador, ou se voltam para o nosso benefício. De qualquer maneira, uma vez justificados, a providência e o mundo, e até mesmo o mal deste mundo, servem a nossa salvação.
Em segundo lugar, esta verdade da justificação pela fé significa que a nossa atitude para com as coisas desta criação terrena é mudada. Como Colossenses 3:2-3 e 1 João 2:15ensinam:
"Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus." "Não amem o mundo nem o que nele há".
Esta atitude para com o mundo, que é o resultado da nossa justificação, é devidamente descrita por Paulo em Filipenses 3:8, como lemos anteriormente:
"Considero [desde que fui justificado] tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por cuja causa perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco."
Calvino chamou essa atitude de um verdadeiro desprezo para com esta vida, acrescentando:
"Na verdade, não há meio-termo entre estes dois. Ou o mundo se tornar inútil para nós, ou nos mantêm presos em um amor imoderado por ele."41
Em terceiro lugar, a justificação também estabelece como o cristão faz o uso correto do mundo. É importante lembrar que este desprezo que devemos ter para com o mundo não é absoluto, uma vez que a criação está sendo redimida, e dada para nosso benefício, como crentes justificados. Por isso, a justificação serve como base para o que chamamos de liberdade cristã. Assim como Bavinck tão bem explanou: "O crente que é justificado em Cristo é a criatura mais livre do mundo"42. Esta conexão provavelmente explica por que em sua seção sobre a justificação, Calvino também tratou o tema da liberdade cristã. Ele viu que uma vez que estamos mortos para o mundo com base em nossa justificação, a liberdade cristã condena quaisquer restrições anti-bíblicas sobre o uso das coisas boas desta criação. Uma vez que estamos mortos com Cristo quanto aos rudimentos deste mundo, enquanto vivermos nele nós não estamos sujeitos a ordenanças, como não toque, não prove, ou não manuseie (Cl 2:20). Calvino diz que aqueles que querem restringir o uso desta criação de tais leis ou mesmo o seu uso necessário, que eles "acorrentam as consciências com mais força do que a Palavra" e "privam-nos do fruto legítimo da beneficência de Deus"43.
Com relação ao uso legal da presente criação pelos justificados, Calvino é muito útil quando nos dá dois princípios fundamentais para se viver. O primeiro é que nós usamos esta criação como se não a usássemos, ou desfrutamos das dádivas dela como se não as tivéssemos. A atitude prática para Calvino é a indiferença. Para ele, adiáforo eram verdadeiramente as coisas indiferentes, ou seja, só podem ser usados legalmente quando somos indiferentes a elas, ou, para usar a linguagem bíblica, estamos mortos para elas. Em segundo, Calvino ensina que, sendo justificados, nós devemos usar e desfrutar da criação, conscientes de que somos mordomos que prestarão contas ao nosso Pai no dia de Cristo.
A Justificação e Nossa Relação com Deus: Paz
Finalmente, discorreremos sobre o significado da doutrina da justificação para o nosso relacionamento com Deus.
Primeiro, notamos que a justificação é o único meio pelo qual somos reconciliados com Deus, isto é, pelo qual podemos desfrutar qualquer relacionamento pacífico e abençoado com Deus. Negativamente, isso significa que aqueles que justificam a si mesmos não são e não podem ser reconciliados com Deus. Neste momento, não estamos tão preocupados com aqueles que o fariam desculpando o seu pecado, mas aqueles que tentam alcançar a justificação com base em suas próprias obras - no todo ou em parte. Não faz nenhuma diferença que tipo de obras eles tentam fazer à parte de sua justificação - sendo obras supostamente realizadas por uma pessoa não regenerada, ou boas obras, supostamente, realizadas com um coração santificado. Aquele que acredita que desempenha alguma parte em sua justificação, simplesmente não é justificado, seja na realidade ou prática.
Bavinck novamente diz: "Ou você possui toda a justiça de Cristo ou nada dela. Você não tem como pegar uma parte dela e preencher o resto por si mesmo". Em Lucas 16, Jesus declarou francamente aos fariseus que tentavam fazer isso, que eles não eram justificados. Suas duras palavras a todos os que usam suas obras como base para se justificar diante de Deus é esta:
"Vocês são os que se justificam a si mesmos aos olhos dos homens, mas Deus conhece os corações de vocês. Aquilo que tem muito valor entre os homens é detestável aos olhos de Deus" - Lc 16:15.
O resultado da auto-justificação é a morte eterna sob a ira de Deus. "O homem que fizer estas coisas viverá por meio delas", isto é, ele não vai viver de maneira alguma, mas morrerá por meio delas (Rm 10:5). O julgamento oficial dos reformados é:
"Se comparecêssemos diante de Deus, confiando em nós mesmos, ou em qualquer outra criatura, embora apenas um pouquinho, deveríamos ser amaldiçoados! Ser consumidos."44
Mas para aqueles que acreditam que eles são justificados por meio da fé somente, de acordo com Romanos 5:1, o benefício preeminente é a paz com Deus. Sobre este texto Calvino comentou:
"Ali Paulo diz que nenhuma paz ou alegria tranquila são mantidas a menos que estejamos convencidos de que somos justificados pela fé. Aqueles que tagarelam sobre sermos justificados pela fé, porque ao nascermos de novo somos justificados por meio de um viver espiritual, nunca provaram a doçura da graça."45
Justificados, nós temos paz com Deus, porque Ele remove a culpa do pecado de nossa consciência. A paz com Deus no que diz respeito a culpa do pecado é o que Lutero tanto desejava e o que o levou a interrogar-se sobre o que a Escritura diz. Tentando alcançar a justiça pelas obras, ele estava apavorado em sua própria consciência. Mas deixando tudo isso e, sendo justificado pela fé, todo o pavor foi retirado.
Portanto, da mesma forma, nós recebemos a paz com Deus, porque ele concedeu a nós o direito de desfrutar de todas as bênçãos de Jesus Cristo. A justificação é a base da nossa adoção como filhos e filhas para desfrutar de todos os direitos e privilégios da herança, que é o Seu reino, e para viver em livre comunhão com Ele, que é o pacto da graça. Deve emocionar a cada um de nós nesta noite, que amam o pacto de Deus, saber que ao sermos justificados podemos desfrutar e ter comunhão com Deus.
A Justificação e Nossa Relação com Deus:
Adoração que Glorifica a Deus e uma Vida Santa e Grata
Finalmente, notamos que a justificação é a base para uma adoração apropriada, um louvor sincero, honra e glória de Deus, seja por palavras ou obras. Sem a justificação, não há como se ter uma vida santa de gratidão, que é uma forma de adoração. Calvino observou isso também. Depois de chamar a justificação da principal dobradiça sobre a qual a religião se dependura, ele vai adiante e explica o porquê:
"A menos que primeiro você entenda o que é a sua relação com Deus e a natureza do juízo d'Ele para com você, você não tem nem um fundamento sobre o qual estabelecer a sua salvação, nem um sobre o qual construir piedade para com Deus."46
Aqui, Calvino contraria todos os defensores da justificação pelas obras, fé e obras, ou a fé e as obras da fé. Contra a acusação de que a doutrina da justificação pela fé somente impede uma vida santa, ele corretamente afirma que sem ela os homens não podem e nem vão viver piedosamente.
A história confirma esta afirmação. Pois sempre que a doutrina da justificação pela fé somente é derrubada, rejeitada, ou minimizada, os membros da igreja se tornam mais ímpios e profanos - assim como o orador anterior já mencionou. A razão é que uma vida santa é o fruto da gratidão a Deus por Sua graça em nos justificar. Sempre que acreditamos que temos alguma parte, embora bem pequena, na nossa justificação, não podemos ser gratos a Deus. Ao invés disso, nós não apenas seremos orgulhosos e complacentes, mas, como Calvino afirma:
"Tentaremos, para nosso grande mal, roubar do Senhor as graças que devemos por Sua livre bondade."47
Não há como ter verdadeira adoração, louvor sincero, honra e glória a Deus, com a doutrina da justificação pela fé e obras - somente há vanglória pessoal. Ou, como a Bíblia declara: "Se de fato Abraão foi justificado pelas obras, ele tem do que se gloriar, mas não diante de Deus" - Rm 4:2. E isso é abominável aos olhos de Deus, pois isto rouba d'Ele a glória de Sua justiça. Calvino novamente diz:
"Quem gloria a si mesmo, se gloria contra Deus. O homem não pode, sem sacrilégio, reivindicar para si mesmo nem mesmo uma migalha de justiça, pois esta mesma medida é arrancada e roubada da glória da justiça de Deus."48
Mas quando acreditamos que somos justificados pela fé somente, ali haverá verdadeira e aceitável ação de graças, louvor, honra e glória a Deus manifesto em nossas vidas e na adoração. Isso ocorre porque, como dissemos anteriormente, quando Deus nos justifica, Ele estabelece e nos faz sentir, de uma forma maravilhosa, a Sua justiça, que por sua vez, amplia e exalta Sua graça. É por isso que a Escritura chama o Evangelho da justiça de glorioso Evangelho. O propósito do Senhor ao imputar justiça a nós, de forma graciosa em Cristo, através da justificação pela fé somente, é de "demonstrar a Sua própria justiça" -Rm 3:26. Ele deseja que toda a boca se cale e todo o mundo esteja sob o juízo d'Ele (Rm 3:19-31), pois enquanto o homem tiver alguma coisa a dizer em sua defesa, este diminui a glória de Deus.
Sem ser justificado pela fé somente, também não há como ter nenhuma confiança diante da justiça de Deus. Calvino diz:
"Alguém pode facilmente e prontamente tagarelar sobre o valor das obras para justificar os homens. Mas quando chegamos diante da presença de Deus, somos obrigados a deixar tais coisas de lado. Como responderemos ao Juiz celestial quando Ele nos chamar para prestar contas? Nós mesmos vamos encarar esse Juiz. Não como nossas mentes naturalmente imaginam Ele, mas como Ele é descrito para nós na Escritura. Por cujo brilho as estrelas são escurecidas, por cuja força as montanhas são derretidas, por cuja ira a terra é abalada, cuja sabedoria apanha os sábios na sua própria astúcia, além de para cuja pureza todas as coisas estão contaminadas, cuja justiça nem os anjos podem suportar, Aquele que não faz do homem culpado inocente, cuja vingança, quando uma vez acendida, penetra as profundezas do inferno. Vamos contemplá-Lo, digo eu, sentado em julgamento para analisar os atos dos homens. Quem permanecerá confiante perante seu trono? A resposta é: o homem que é justificado pela fé somente e apenas este homem."49
Todos esses benefícios para o crente justificado no que diz respeito a sua relação com Deus estão resumidos em uma das mais belas passagens das confissões reformadas:
"O resultado de sermos justificados gratuitamente pela Sua graça é que os crentes atribuem toda a glória a Deus, se humilham perante Deus e reconhecem a si mesmos como realmente são, confiam e se baseiam somente na obediência do Cristo crucificado. Isso nos dá confiança em nos achegarmos a Deus, libertando a consciência do terror, medo e pavor. Portanto, assim como Hebreus 4:16 diz, podemos ir corajosamente até o trono da graça, para alcançarmos misericórdia e acharmos graça para socorro no tempo oportuno."50
E se estes fossem os únicos benefícios da justificação pela fé somente, isto deveria ser o suficiente para nos motivar a lutar contra o próprio inferno por esta doutrina. E muitos o têm feito.
Concluímos com uma citação apropriada de Martinho Lutero:
"Quem sai do artigo da justificação não conhece a Deus e é um idólatra. Pois, quando este artigo é retirado, nada permanece, somente o erro, a hipocrisia, a impiedade e a idolatria, embora isso pareça ser compatível com a verdade, a adoração à Deus e santidade."
Deem graças a Deus por este dom inefável.
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