O Problema do Mal Dr. Greg L. Bahnsen (1/2)

Queremos nos dedicar agora ao exame de algumas das objeções mais repetidas e mais básicas que se levantam contra a fé cristã por parte daqueles que discordam da cosmovisão bíblica – quer por parte de seus antagonistas intelectuais, daqueles que a desprezam e que são muito cultos, ou das religiões que competem com ela. Nosso objetivo será sugerir como um método de apologética pressuposicional responderia esses tipos de argumentos contra o Cristianismo (ou alternativas para ele) como uma filosofia de vida, conhecimento e realidade.

Talvez o desafio mais intenso, penoso e persistente que os crentes escutam com respeito à verdade da mensagem cristã aparece na forma do que tem sido chamado de “o problema do mal”. O sofrimento e o mal que vemos ao nosso redor parecem ser um clamor contra a existência de Deus – ao menos um Deus que é tanto benevolente como todo-poderoso. Muitos pensam que este é o mais difícil de todos os problemas que a apologética enfrenta, não somente devido à aparente dificuldade lógica dentro da perspectiva cristã, mas também devido à perplexidade pessoal que qualquer ser humano sensível sentirá quando confrontado com a terrível miséria e perversidade que pode ser encontrada no mundo. A falta de humanidade do homem para com o homem é algo notório em toda época da história e em cada nação do mundo. Existe uma ampla história de opressão, indignidade, crueldade, tortura e tirania. Encontramos guerras e homicídios, cobiça e avareza, desonestidade e mentiras. Encontramos temor e ódio, infidelidade e crueldade, pobreza e hostilidade racial. Além do mais, mesmo no mundo natural nos deparamos com muito sofrimento e dor aparentemente desnecessários – defeitos de nascimento, parasitas, ataques de animais violentos, mutações radioativas, doenças debilitantes, câncer mortal, fome, feridas agonizantes, furacões, terremotos e outros desastres naturais.

Quando o incrédulo olha para esse infeliz “vale de lágrimas”, ele sente que há uma forte razão para duvidar da bondade de Deus. Por que deve haver tanta miséria? Por que ela deve estar distribuída de uma maneira aparentemente injusta? Isso é o que você permitiria, caso fosse Deus e pudesse impedir tais coisas?




Tomando o Mal com Seriedade

É importante que o cristão reconheça – de fato, insista – na realidade e na natureza séria do mal. O tema do mal não é simplesmente um jogo intelectual de salão, um assunto sem importância, uma decisão caprichosa ou relativista de ver as coisas de certa maneira. O mal é real. O mal é horrível.

Só quando chegamos a estar emocionalmente carregados e intelectualmente aguçados com respeito à existência do mal podemos apreciar a profundidade do problema que os incrédulos têm com a cosmovisão cristã – porém, de igual maneira, percebemos o porquê o problema do mal termina confirmando a perspectiva cristã, ao invés de debilitá-la. Quando falamos acerca do mal com os incrédulos, é crucial que ambos os lados “joguem com seriedade”. O mal deve ser tomado com seriedade “como mal”.

Uma passagem bem conhecida da caneta do romancista russo Fyodor Dostoyevsky, sacode imediatamente nossas emoções e nos fazem ser insistentes com respeito à maldade dos homens, por exemplo, homens que são cruéis com crianças pequenas. Ela é encontrada em seu romance Brothers Karamazov [Os irmãos Karamazov].1 Ivan apresenta sua queixa à Alyosha:

“As pessoas falam algumas vezes de crueldade bestial, mas isso é um grande insulto e uma grande injustiça para com as bestas; uma besta nunca pode ser tão cruel como um homem, tão artisticamente cruel...

Eu reuni muita, muita informação com respeito às crianças russas, Alyosha. Houve uma pequena menina de cinco anos que era odiada por seu pai e sua mãe... Como vês, devo repetir novamente, isso é uma característica peculiar de muitas pessoas, esse amor de torturar crianças, e somente crianças... É justamente a falta de defesa delas que tenta o torturador, bem como é a confiança angelical das crianças, que não têm nenhum refúgio nem apelo, que incendeia o seu sangue vil.

Essa pobre menina de cinco anos foi sujeita a toda tortura possível por aqueles pais cultos. Eles bateram nela, espancaram-na, chutaram-na por nenhuma razão até que seu corpo fosse esmagado. Então, recorreram a maiores refinamentos de crueldade – a trancaram durante a noite toda num banheiro frio e congelado, e para que ela não os molestasse durante a noite... embrulharam o seu rosto e encheram a sua boca com excremento, e era sua mãe, a sua própria mãe que fazia isso. E aquela mãe podia dormir, ouvindo os gemidos dessa pobre criança! Você pode entender por que uma pequena criatura, que nem sequer podia entender o que lhe tinha sido feito, deveria golpear seu pequeno coração dolorido com seu pequeno punho na escuridão e no frio, e verter suas mansas lágrimas, livres de ressentimento, diante do Deus bondoso para protegê-la? Você entende por que essa infâmia deve acontecer e ser permitida?... Esqueça, todo o mundo do conhecimento não é digno da oração da criança ao “querido e bondoso Deus’!...

Imagine que você está criando uma fábrica de destino humano com o objetivo de fazer os homens felizes no final, dando-lhes paz e descanso ao fim, mas que fosse inevitável torturar até a morte somente uma pequena criatura – aquela criançinha que golpeava seu peito, por exemplo – e fundamentar aquele edifício sobre suas lágrimas não vingadas. Você consentiria em ser o arquiteto sobre essas condições? Diga, e diga a verdade”.

“Não, eu não consentiria”, disse Alyosha suavemente.

Incidentes e solilóqios como este poderiam se multiplicar repetidamente. Eles provocam uma indignação moral em nosso interior. Também provocam uma indignação moral no incrédulo – e isso não deve ser desprezado pelo apologista.

Certa vez, quando estava fazendo um programa de rádio com chamadas ao vivo, um ouvinte que telefonou ficou extremamente nocivo quando disse que devíamos adorar e louvar a Deus. O ouvinte queria saber como alguém poderia adorar um Deus que permitia o abuso sexual e a mutilação de um bebê, tal como a criança que o ouvinte tinha visto em certas fotografias apresentadas numa corte judicial, no julgamento de algum espécime horrível da humanidade. A descrição foi repugnante e certamente evocou repulsão em qualquer um que tenha escutado. Eu sabia que o ouvinte tinha o propósito de pressionar fortemente sua hostilidade contra o Cristinianismo – nesse caso, dirigido contra mim – porém, na realidade eu estava muito contente de que o ouvinte estivesse tão irado. Ele estava tomando o mal com seriedade. Sua condenação do abuso daquela criança não era para ele simplesmente um assunto de preferência pessoal. Por essa razão, me dei conta que não seria difícil mostrar o porquê o problema do mal não é realmente um problema para o crente – porém, muito mais para o incrédulo. Tocarei nesse assunto um pouco mais adiante.

O Mal como um Problema Lógico

O “problema” do mal nem sempre tem sido entendido apropriadamente pelos apologistas cristãos. Algumas vezes eles têm reduzido a dificuldade do desafio do incrédulo ao Cristianismo concebendo o problema do mal como simplesmente uma apresentação enfadonha de evidência contrária à suposta bondade de Deus. É como se os crentes professassem a bondade de Deus, porém logo os incrédulos tivessem seus contra-exemplos. Quem apresenta o melhor caso a partir dos fatos ao nosso redor? O problema se apresenta (de maneira imprecisa) como um assunto de quem tem a evidência mais forte de seu lado contra a do desacordo.

Por exemplo, lemos um apologista popular dizer isso sobre o problema do mal: “Porém, em última análise, a evidência a favor da existência do bem (Deus) não é enfraquecida pela anormalidade do mal”. E por que não? “O mal continua sendo um problema desconcertante, mas a força do mistéiro não é suficiente para demandar que desejemos a existência positiva a favor de Deus, da realidade do bem... Ainda que não possamos
explicar a existência do mal, essa não é razão para que desejemos a evidência positiva a favor de Deus”.2 Isso minimiza seriamente a natureza do problema do mal. Não é simplesmente uma questão de pesar a evidência positiva contra a evidência negativa a favor da bondade no mundo de Deus ou no plano de Deus (digamos, a redenção, etc.). O problema do mal é um desafio muito mais sério para a fé cristã do que isso.

O problema do mal equivale à acusação de que há uma incoerência lógica na perspectiva cristã – sem importar quanto mal haja no universo comparado com quanta bondade pode-se encontrar. Se o Cristianismo é logicamente incoerente, nenhuma quantidade de evidência positiva, e baseada em fatos, pode salvar sua verdade. A inconsistência interna faria, por si mesma, que a fé cristã chegasse a ser intelectualmente inaceitável, ainda que concordando-se que poderia haver uma grande quantidade de indicadores ou evidências em nossa experiência a favor da existência da bondade ou de Deus, considerados de outra forma.

O filósofo do século dezoito, David Hume, expressou o problema do mal de uma maneira forte e desafiadora: “Deus está disposto a impedir o mal, porém não é capaz? Então ele é impotente. Ele é capaz, porém não está disposto? Então é malévolo. É capaz e ao mesmo tempo está disposto? De onde, então, vem o mal?”.3 O que Hume estava argumentando é que o cristão não pode aceitar de maneira lógica estas três premissas:


Deus é todo-poderoso, Deus é absolutamente bom e, contudo, o mal existe no mundo. Se Deus é todo-poderoso, então deve ser capaz de impedir ou eliminar o mal, se o deseja. Se Deus é absolutamente bom, então certamente deseja impedir ou eliminar o mal. Contudo, é inegável que o mal existe.


George Smith declara o problema dessa maneira em seu livro Atheism: The Case Against God [Ateísmo: O Caso Contra Deus]4: “Resumidamente, o problema do mal é este... Se Deus sabe que o mal existe, porém não pode impedi-lo, então não é onipotente. Se Deus sabe que o mal existe e pode impedi-lo, porém não deseja fazê-lo, não é onibenevolente”. Smith pensa que os cristãos não podem, de maneira lógica, ter ambas as coisas. Deus é completamente bom, bem como completamente poderoso.

Portanto, a acusação que os incrédulos fazem é que a cosmovisão cristã é incoerente; adota premissas que são inconsistentes umas com as outras, dado o problema do mal no mundo. O incrédulo argumenta que, mesmo que ele aceite as premissas da teologia cristã (sem importar a evidência a favor ou contra delas individualmente), essas premissas não concordam umas com as outras. O problema do Cristianismo é um problema interno – um defeito lógico que inclusive o crente deve reconhecer, conquanto que ele admita a presença do mal no mundo. Pensa-se que esse mal é incompatível com a bondade de Deus, ou com o poder de Deus.

Para Quem o Mal é um Problema Lógico?

Deve ser óbvio, depois de um pouco de reflexão, que não pode haver um “problema do mal” que pressione os crentes, a menos que alguém possa legitimamente afirmar a existência do mal neste mundo. Nem sequer há um problema aparentemente lógico enquanto tivermos somente essas duas premissas com as quais devemos tratar:

1. DEUS É COMPLETAMENTE BOM.
2. DEUS É COMPLETAMENTE PODEROSO.

Estas duas premissas, em si mesmas, não criam nenhuma contradição. O problema surge unicamente quando adicionamos a premissa:

3. O MAL EXISTE (ACONTECE)

Por consiguiente, é crucial, para o caso do incrédulo contra o Cristianismo, achar-se na posição de afirmar que há mal no mundo – para apontar para algo e ter o direito de avaliá-lo como um exemplo do mal. Se fosse o caso de nenhum existir ou jamais acontecer – isto é, o que a gente inicialmente crê que seja mal não pode ser considerado “mal” de maneira racional – então, não há nada inconsistente com a teologia cristã que requeira uma resposta.

O que o incrédulo quer dizer quando fala de “bem”, ou por qual padrão o incrédulo determina o que pode aceitar como “bom” (de modo que o “mal” seja definido ou identificado consequentemente)? Quais são as pressuposições em termos das quais o incrédulo faz algum juízo moral, qualquer que este seja?


Talvez o incrédulo assuma como “bom” qualquer coisa que receba a aprovação pública. Contudo, sobre tal base, a declaração “a vasta maioria da comunidade aprovou efusivamente o ato maléfico e se uniu a ele” nunca poderia ter sentido. O fato de que uma grande quantidade de pessoas se sente de certa maneira não convence a ninguém (ou não deveria convencer racionalmente) de que esse sentimento (acerca da bondade ou maldade de algo) seja correto. Depois de tudo, a ética não se reduz a uma questão de estatística. De maneira ordinária, as pessoas pensam com respeito à bondade de algo como provocando sua aprovação – e não como o fato de sua aprovação constituir sua bondade! Até mesmo os incrédulos falam e atuam como se houvesse traços, ações ou coisas pessoais que possuam a propriedade de bondade (ou maldade) independentemente das atitudes, crenças ou sentimentos que as pessoas tenham com respeito a esses traços, ações ou coisas.5


Há problemas ainda maiores com a atitude de se tomar o “bem” como se fosse qualquer coisa que evoque a aprovação do indivíduo (ao invés do público em geral). Isto não somente se reduz ao subjetivismo, mas implica de maneira absurda que não há dois indivíduos que possam fazer juízos éticos idênticos. Quando Bill diz que “ajudar aos órfãos é algo bom”, ele não estaria dizendo a mesma coisa que quando Ted diz “ajudar as órfãos é algo bom”. A declaração de Bill significa “ajudar aos órfãos evoca a aprovação de Bill”, quando a de Ted significaria “ajudar as órfãos evoca a aprovação de Ted” – que são duas coisas totalmente diferentes. Esta perspectiva não somente faria impossível que duas pessoas fizessem juízos éticos idênticos, mas de igual maneira implicaria (de forma absurda) que os próprios juízos éticos de uma pessoa nunca poderiam estar errados, a menos que sucedesse que a mesma pessoa interpretasse incorretamente seus próprios sentimentos!6

O incrédulo poderia voltar-se então para um entendimento instrumental ou consequencial do que constitui a bondade objetiva (ou o mal). Por exemplo, uma ação ou característica é boa se tende a alcançar certo fim, como a maior felicidade do maior número de pessoas. A irrelevância de tal noção para fazer determinações éticas é que alguma pessoa necessitaria ser capaz de avaliar e comparar a felicidade, bem como ser capaz de calcular todas as conseqüências de qualquer ação ou característica dada. Isto é simplesmente impossível para as mentes finitas (incluse com a ajuda de computadores). Porém, mais devastadora ainda é a observação de que o bem pode ser tomado como qualquer coisa que promova a felicidade geral somente se, e é o caso antecedente, a felicidade generalizada seja em si mesma “boa”. Qualquer teoria de ética que se enfoca na bondade de se alcançar certo fim (ou conseqüência), terá sentido somente se puder estabelecer que o fim selecionado (ou conseqüência) é um fim bom e digno de ser buscado e promovido. No final das contas, as teorias instrumentais do bem devem abordar o assunto da bondade intrínseca, para poder determinar corretamente quais deveriam ser suas metas.

Filosoficamente falando, o problema do mal se torna, portanto, um problema para o próprio incrédulo. Com o objetivo de usar o argumento do mal contra a cosmovisão cristã, o incrédulo deve ser capaz primeiramente de mostrar que seus juízos com respeito à existência do mal são significativos – que é precisamente o que a sua cosmovisão incrédula é incapaz de fazer.




1 Trans. C. Garnett (New York: Modern Library, Random House, 1950), do livro V, capítulo 4. A citação aqui é tomada de uma seleção encontrada em God and Evil: Readings on the Theological Problem of Evil, ed. Nelson Pike (Englewood Cliffs, New Jersey: Prentice-Hall, 1964).
2 R. C. Sproul, Objections Answered (Glendale, CA: Regal Books, G/L Publications, 1978), pp. 128, 129.
3 Dialogues Concerning Natural Religion, ed. Nelson Pike (Indianapolis: Bobbs-Merrill Publications, 1981), p. 88.
4 Buffalo, New York: Prometheus Books, 1979.
5 O intuicionismo sugerirá que a bondade é uma propriedade indefinível (básica ou simples), a qual não chegamos a conhecer empiricamente ou através da natureza, mas “intuitivamente”. Contudo, o que é uma “propriedade não-natural”, a menos que estejamos falando de uma propriedade “supernatural” (a mesma coisa na disputa por parte do incrédulo)? Além disso, o intuicionismo não pode provar uma base para saber que nossas intuições são corretas: não somente devemos intuir a bondade da caridade, mas também devemos intuir que essa intuição é verdadeira. É um fato bem conhecido e embaraçoso que nem todas as pessoas (ou todas as culturas) têm intuições idênticas sobre o bem e o mal. Essas intuições conflitantes não podem ser racionalmente resolvidas dentro da cosmovisão do incrédulo.
6 Dificuldades similares acompanham a noção de que os termos éticos não funcionam e não devem ser usados para descrever nenhuma coisa em absoluto, mas simplesmente para dar expressão às emoções de
alguém. A teoria associada (performativa) de linguagem ética conhecida como “prescritivismo” sustenta que as declarações morais não funcionam para descrever coisas com boas ou más, mas simplesmente para fazer com que nossos ouvintes se comportem ou se sintam de certa maneira. Segundo essa teoria, nenhuma atitude ou ação é boa ou má em si mesma, e uma pessoa fica sem nenhuma explicação do porquê as pessoas andam por aí “dirigindo” a outros imperativos supérfluos e velados como “ajudar aos orfãos é algo bom”.

Tradução de Felipe Sabino de Araújo Neto Janeiro/2006
Via:Monergismo

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