Então, o Incrédulo não Toma o Mal Seriamente?
Os incrédulos se queixam de que certos fatos claros com respeito à experiência humana são inconsistentes com as crenças teológicas cristãs acerca da bondade e do poder de Deus. Tal queixa requer que o incrédulo afirme a existência do mal neste mundo. O que, contudo, tem sido proposto aqui?
Tanto o crente como o incrédulo desejarão insistir que certas coisas são más, por exemplo, os casos de abuso infantil (como aqueles já mencionados). E falarão como se tomassem com seriedade tais juízos morais, não simplesmente como expressões de gosto, preferência ou opinião subjetiva pessoal. Insistirão que tais coisas são verdadeiramente – objetivamente, intrinsecamente – más. Até mesmo os incrédulos podem ser sacudidos de suas fáceis e simples posições de relativismo ante as atrocidades morais como a guerra, a violação ou a tortura.
Porém a pergunta, logicamente falando, é como o incrédulo pode falar e atuar com sentido ao tomar o mal com seriedade – não simplesmente como algo inconveniente, ou desagradável, ou como algo contrário a seus desejos. Que filosofia de valor ou moralidade o incrédulo pode oferecer que faça significativa a condenação de tal atrocidade como algo objetivamente mal? A indignação moral que os incrédulos expressam quando se encontram com as coisas más que transpiram neste mundo não se coadunam com as teorias éticas que os incrédulos expõem, teorias que provam ser arbtrirárias, subjetivas ou meramente utilitaristas ou relativistas no caráter. Na cosmovisão do incrédulo não há uma boa razão para dizer que algo é mal por natureza, mas somente por decisão ou sentimento pessoal.
Essa é a razão pela qual me animo quando vejo os incrédulos se indignarem muito com alguma ação má como uma questão de princípios. Tal indignação requer recorrer ao caráter absoluto, imutável e bom de Deus para que o assunto tenha sentido filosófico. A expressão de indignação moral não é apenas evidência pessoal de que os incrédulos conhecem a Deus no profundo dos seus corações. Eles se recusam deixar que os juízos com respeito ao mal sejam reduzidos ao subjetivismo.
Quando o crente desafia o incrédulo sobre este ponto, provavelmente o incrédulo mude de direção e trate de argumentar que o mal se basia, em última instância, no raciocínio ou nas decisões humanas – sendo assim, relativo ao indivíduo ou à cultura. E nesse ponto o crente deve enfatizar com força a incoerência lógica no conjunto de crenças do incrédulo. Por um lado, crê e fala como se alguma atividade (por exemplo, o abuso infantil) fosse errada em si mesma, porém por outro lado crê e fala como se essa atividade fosse errônea somente se o indivíduo (ou a cultura) escolhesse algum valor que fosse inconsistente com ela (por exemplo, prazer, a maior felicidade para a maior quantidade de pessoas, a liberdade). Quando o incrédulo professa que as pessoas determinam os valores éticos por si mesmas, o incrédulo sustenta implicitamente que aqueles que cometem mal, na realidade não estão fazendo nada mal, dado os valores que escolheram para si mesmas. Desta maneira, o incrédulo, que está indignado pela maldade, supre as próprias premissas que filosoficamente aprovam e permitem tal conduta, ainda que ao mesmo tempo o incrédulo deseje insistir em que tal contduta não
é permitida – que é “má”.
O que encontramos, então, é que o incrédulo deve confiar secretamente na cosmovisão cristã para que seu argumento tenha sentido a partir da existência do mal, o qual é lançado contra a cosmovisã cristã! O anti-teísmo pressupõe o teísmo para apresentar seu caso.
Assim, o problema do mal é um problema lógico para o incrédulo, e não para o crente. Como cristão, posso apresentar meu caso de maneira significativa por minha repugnância e condenação moral do abuso infantil. O não-cristão não pode fazer isso. Isto não quer dizer que posso explicar o porquê Deus faz tudo o que faz ao planejar a miséria e a maldade neste mundo. Significa simplesmente que a indignação moral é consistente com a cosmovisão do cristão, suas pressuposições básicas com respeito à realidade, o conhecimento e a ética. Ao final, a cosmovisão do não-cristão (de qualquer variedade) não pode explicar tal indignação moral. Não pode explicar o objetivo e a natureza imutável de noções morais como o bem e o mal. Dessa forma, o problema do mal é precisamente um problema filosófico para o incrédulo. Dos incrédulos se requereria que apelassem à mesma coisa contra a qual argumentam (um sentido divino e transcendente de ética) para justificar seu argumento.
Resolvendo o Alegado Paradoxo
O incrédulo poderia protestar nesse ponto que, mesmo que ele como um não-cristão não possa explicar significativamente a visão de que o mal existe objetivamente, contudo, ainda permanece um paradoxo no conjuto de crenças que constituem a própria cosmovisão do cristão. Dada sua filosofia e compromissos básicos, o cristão constantemente pode afirmar, e na verdade assim o faz, que o mal é real, e não obstante, o cristão também crê em coisas sobre o caráter de Deus que juntas parecem incompatíveis com a existência do mal. O incrédulo poderia argumentar que, independentemente dos termos da incapacidade ética de sua própria cosmovisão, o cristão ainda se acha – nos próprios termos do cristão – trancado numa posição logicamente incoerente ao manter as três proposições seguintes:
1. DEUS É COMPLETAMENTE BOM.
2. DEUS É COMPLETAMENTE PODEROSO.
3. O MAL EXISTE.
Contudo, aqui o crítico ignora uma maneira perfeitamente racionável de afirmar todas essas três proposições.
Se o cristão pressupõe que Deus é perfeita e completamente bom – como a Escritura requer que façamos – então ele está comprometido a avaliar tudo dentro da sua experiência à luz dessa proposição. Por conseguinte, quando o cristão observa eventos ou coisas más no mundo, pode e deveria reter a consistência com sua pressuposição com respeito à bondade de Deus, inferindo agora que Deus tem uma razão moralmente boa para o mal existir. Deus certamente deve ser todo-poderoso para ser Deus; não se deve pensar dele como alguém sobrepujado ou frustrado pelo mal no universo. E Deus certamente é bom, professará o cristão – de forma que qualquer mal que encontremos deve ser compatível com a bondade de Deus. Isto é somente para dizer que Deus planejou eventos maus por razões que são moralmente recomendáveis e boas.
Para colocar de outra forma, o aparente paradoxo criado pelas três proposições anteriores se resolve facilmente ao adicionarmos essa quarta premissa:
4. DEUS TEM UMA RAZÃO MORALMENTE SUFICIENTE PARA O MAL QUE EXISTE.
Quando se sustenta todas essas quatro premissas, não se encontra uma contradição lógica, nem sequer uma aparente. É precisamente parte do caminhar de fé do cristão, e de seu crescimento na santificação, derivar a proposição número 4 como a conclusão das proposições 1, 2 e 3.
Pense em Abraão quando Deus lhe ordenou que sacrificasse seu único filho. Pense em Jó quando perdeu tudo o que dava à sua vida felicidade e prazer. Em cada caso Deus teve uma razão perfeitamente boa para a miséria humana envolvida. Para eles, foi uma marca distintiva ou uma vitória da fé o não fraquejar em sua convicção com respeito à bondade de Deus, apesar de não serem capazes de ver ou entender o porquê ele lhes estava fazendo o que lhes fazia. De fato, inclusive no caso do maior crime de toda a história – a crucificação do Senhor da glória – o cristão professa que a bondade de Deus não foi inconsistente com o que as mãos dos ímpios fizeram. A morte de Cristo foi uma maldade? Certamente. Deus tinha uma razão moralmente suficiente para ela? Igualmente certo. Com Abraão declaramos: “Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” (Gênesis 18:25). E esta bondade de Deus está acima de todo desafio: “Sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso” (Romanos 3:4).
O Problema não é Lógico, mas Psicológico
Assim, o resultado é que o problema do mal não é uma dificuldade lógica de forma alguma. Se Deus tem uma razão moralmente suficiente para que o mal exista, como a Bíblia ensina, então sua bondade e poder não se vêem desafiados pela realidade de eventos e coisas más na experiência humana. O único problema lógico que surge com relação às discussões sobre o mal é a incapacidade filosófica do incrédulo para dar razão para a objetividade de seus juízos morais.
O problema que os homens têm com Deus quando enfrentam cara a cara o mal no mundo não é um problema lógico ou filosófico, mas um problema psicológico. Podemos achar emocionalmente muito difícil ter fé em Deus e confiar em sua bondade e poder, quando não nos é dada a razão pela qual nos sucedem coisas más – a nós e aos outros. Institivamente pensamos conosco: “por que aconteceu uma coisa tão terrível?”. Os incrédulos também clamam internamente por uma resposta a tal pergunta. Porém Deus nem sempre fornece (de fato, raríssimas vezes) aos seres humanos uma explicação para o mal que experimentam ou observam. “As coisas secretas pertencem ao Senhor nosso Deus” (Deuteronômio 29:29). Pode ser que não sejamos capazes de entender os caminhos sábios e misteriosos de Deus, inclusive se ele no-los contasse (cf. Isaías 55:99). Contudo, permanece o fato de que não nos é informado o porquê a miséria, o sofrimento e a injustiça são parte de seu plano para a história e para nossas vidas individuais.
Assim, a Bíblia nos chama a confiar que Deus tem uma razão moralmente suficiente para o mal que se encontra no mundo, porém não nos diz qual é essa razão suficiente. O crente frequentemente batalha com essa situação, caminhando por fé e não por vista. O incrédulo, contudo, vê essa situação como intolerável para o seu orgulho, sentimentos ou racionalidade. Ele se recusa a confiar em Deus. Ele não crerá que Deus tem uma razão moralmente suficiente para o mal que existe, a menos que lhe seja dada essa razão para o seu próprio exame e avaliação. Para colocar resumidamente, o incrédulo não irá confiar em Deus a menos que Deus se subordine à autoridade intelectual e à avaliação moral do incrédulo – a menos que Deus aceite mudar de lugar com o pecador.
O problema do mal se reduz à pergunta de se uma pessoa deve ter fé em Deus e sua palavra ou se ela deve colocar a fé em seu próprio pensamento e valores humanos. Ela se torna finalmente uma questão de autoridade última na vida de uma pessoa. E nesse sentido, a maneira que os incrédulos batalham com o problema do mal não é senão um testemunho contínuo da maneria que o mal entrou na história humana em primeiro lugar. A Bíblia indica que o pecado, e todas as suas misérias acompanhantes, entraram nesse mundo por meio da primeira transgressão de Adão e Eva. E a questão com a qual Adão e Eva foram confrontados então foi precisamente a questão que os incrédulos enfrentam hoje: deveríamos ter fé na palavra de Deus simplesmente porque ele assim o diz, ou deveríamos avaliar a Deus e a sua palavra sobre a base da nossa própria autoridade última intelectual e moral?
Deus ordenou que Adão e Eva não comessem de certa árvore, provando-lhes para ver se tentariam definir o bem e o mal por si mesmos. Satanás se aproximou e desafiou a bondade e veracidade de Deus, sugerindo que ele tinha motivos impuros para impedir que Adão e Eva desfrutassem do deleite da árvore. E nesse ponto o curso total da história humana dependeu de se Adão e Eva confiariam e pressuporiam a bondade de Deus. Posto que não o fizeram, a ração humana tem sido visitada com muitíssimos tormentos e muito dolorosos para serem enumerados. Quando os incrédulos recusam aceitar a bondade de Deus sobre a base de sua própria auto-revelação, simplesmente perpetuam a fonte de todas as aflições humanas. Ao invés de resolver o problema do mal, eles são parte do problema.
Portanto, não se deve pensar que “o problema do mal” é algo como uma base intelectual para uma falta de fé em Deus. Antes, ele é simplesmente a expressão pessoal de tal carência de fé. O que descobrimos é que os incrédulos que desafiam a fé cristã terminam raciocinando em círculos. Porque eles carecem de fé em Deus, começam argumentando que o mal é incompatível com a bondade e o poder de Deus. Quando se lhes apresentam uma solução logicamente adequada e bíblicamente respaldada para o problema do mal (isto é, Deus tem uma razão moralmente suficiente, ainda que não revelada, para o mal que existe), eles recusam aceitá-la, novamente pela falta de fé deles em Deus. Eles prefeririam permanecer incapazes de dar uma explicação de qualquer juízo moral (sobre coisas serem boas ou más), seja qual for, do que se submeter à autoridade moral, última e imutável, de Deus. Esse é um preço muito alto a se pagar, tanto filosófica como pessoalmente.
Tradução de Felipe Sabino de Araújo Neto Janeiro/2006
Fonte: Esse artigo é o capítulo 30 do livro “Already Ready”, do dr. Greg L. Bahnsen.
Via:Monergismo
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