O homem, quando foi criado, era bom. Deus criou o homem à Sua imagem em
conhecimento, justiça e santidade. Bem, então, se Deus criou o homem bom,
como é que todos os homens agora são maus? Como o pecado foi passado para
toda a humanidade? O que causou essa estupenda mudança do bem para o mau?
O pecado veio ao mundo através do pecado de Adão. Os descendentes de Adão
não começam suas vidas sem pecado, como ele começou. Eles a começaram
contaminados de alguma forma com o pecado cometido por Adão. Se Adão
transgredisse, ele morreria. A morte seria o castigo da desobediência. Bem, ele
transgrediu. O que aconteceu então? Adão foi o único que morreu? Seus
descendentes começaram onde ele começou? Eles se colocaram, outra vez, diante
daquela mesma alternativa entre a morte e a vida que foi colocada diante de
Adão? O Livro do Gênesis indica o contrário, muito claramente. Não, os
descendentes de Adão, antes de fazerem qualquer escolha individual, já tinham
essa pena de morte repousando sobre eles.
Então, o que isso significa? Adão era o representante, divinamente designado, da
humanidade. Se ele obedecesse aos mandamentos de Deus, toda a geração de
seus descendentes teria vida; se desobedecesse, toda a humanidade teria morte.
Eu não vejo como a narrativa no Livro do Gênesis, quando você a vê como um
todo, possa significar qualquer outra coisa.
A visão dessa questão torna-se mais explícita em certas passagens importantes do
Novo Testamento. Na última parte do capítulo 5 de Romanos, em particular, o
apóstolo Paulo torna claro. Ele diz: "Por uma só ofensa, o julgamento para
condenação veio a todos os homens" (Romanos 5:18). Diz no verso seguinte: "Por
meio da desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores". Nestas
palavras, e por toda esta passagem, temos a importante doutrina que fala que
quando Adão pecou, ele pecou como representante da humanidade, de modo que
é correto dizer que toda a humanidade pecou nele e caiu com ele em sua primeira
transgressão. Há uma profunda conexão entre Adão e toda a geração de seus
descendentes.
Deus disse a Adão que se ele desobedecesse morreria. Qual é o significado dessa
morte? Bem, inclui a morte física; não há dúvida sobre isso. Mas, infelizmente,
também inclui muito mais do que a morte física. Inclui a morte espiritual; inclui a
morte da alma para as coisas boas; inclui a morte da alma para Deus. A pena
terrível desse pecado de Adão foi que Adão e seus descendentes morreram em delitos e pecados. Como a pena, justa, pelo pecado de Adão, Deus retirou Seu
favor, e as almas de toda a humanidade se tornaram espiritualmente mortas. A
alma que está espiritualmente morta, a alma que é corrupta, é culpada não só por
causa da culpa de Adão, mas também por seu próprio pecado. Merecendo o
castigo eterno.
A doutrina da ira de Deus não é popular, mas não há nenhuma doutrina que seja
mais penetrante na Bíblia. Paulo dedica a ela uma parte importante, três capítulos
de oito, em sua importante Epístola aos Romanos, na qual ele se dedica à
exposição de sua mensagem de salvação, e na qual ele está particularmente
empenhado em mostrar que a ira de Deus repousa sobre todos os homens, exceto
sobre aqueles que foram salvos pela graça de Deus. Mas não há nada de peculiar
naquela importante passagem nos três primeiros capítulos de Romanos. Essa
passagem só coloca de forma abrangente o que é pressuposto de Gênesis a
Apocalipse e que se torna explícita em número de passagens quase além da conta.
Acaso o ensinamento de Jesus é alguma exceção à apresentação da singular
apresentação da ira de Deus na Bíblia? Bem, você poderia pensar assim se você
ouvisse apenas o que o sentimentalismo moderno diz sobre Jesus de Nazaré. Os
homens do mundo, que nunca foram nascidos de novo, que nunca estiveram sob a
convicção do pecado, reconstruíram um Jesus para se adequar a si mesmos, um
sentimentalismo fraco que prega apenas o amor de Deus e que não tem nada a
dizer sobre a ira de Deus. Mas muito diferente é O Verdadeiro Jesus, O Jesus que
nos é apresentado em nossas fontes de informações históricas. O Verdadeiro
Jesus certamente proclamou um Deus, assim como o Antigo Testamento, O qual
Ele reverenciava como a Palavra de Deus diz; Ele é "Fogo Consumidor"
(Deuteronômio 4:24 comparado com Hebreus 12:29). Muito terrível era a própria
ira de Jesus, como os evangelhos a descrevem, uma profunda e ardente
indignação contra o pecado; e muito terrível é a ira Do Deus que Ele proclamou
como o Governante do céu e da terra. Não, você certamente não pode escapar do
ensinamento da Bíblia sobre a ira de Deus apelando para Jesus de Nazaré. As mais
terríveis entre as exposições Bíblicas da ira de Deus são aquelas que são
encontradas nas palavras do nosso Bendito Salvador.
Onde você encontra as mais terríveis descrições do inferno em toda a Bíblia? É
Jesus quem fala do pecado que não será perdoado nem neste mundo nem no que
há de vir; é Jesus quem fala do verme que não morre e do fogo que não se apaga
(Marcos 9:48); é Jesus quem nos deu a história do rico e de Lázaro e do grande
abismo entre eles (Lucas 16:19-31); é Jesus quem diz que é proveitoso para um
homem entrar na vida eterna tendo apenas um olho em vez de ter dois olhos para
ser lançado no inferno de fogo (Mateus 18:9). Ele aparece no Sermão da
Montanha e está evidentemente no capítulo do grande julgamento, o vigésimo
quinto de Mateus; aparece em passagens muito numerosas para mencionar. Não
está em um ponto de seu ensino, mas está no próprio cerne e centro desse
ensino.
Eu acredito que nós nem sempre compreendemos o suficiente quão grande é a
divergência entre o ensino de Jesus e a pregação atual. Os homens de hoje estão
interessados neste mundo. Eles perderam a consciência do pecado e, tendo
perdido a consciência do pecado, perderam o medo do inferno. Tentam fazer do
cristianismo uma religião deste mundo. Eles chegaram a considerar o cristianismo
como um programa para estabelecer as condições do reino de Deus sobre esta
terra, e eles são tremendamente impacientes quando alguém olha para ele como
um meio de entrar no céu e escapar do inferno.
Eu mencionei o ensino bíblico sobre o inferno simplesmente porque é necessário
para que você possa entender o ensinamento bíblico sobre o pecado. A terrível
punição do pecado mostra que nada mais poderia ser feita diante de uma coisa
tão horrenda que o pecado aos olhos de Deus realmente é.
Tentei apresentar, em linhas gerais, mais ou menos o quadro completo - o homem
culpado com a culpa imputada do primeiro pecado de Adão, o homem sofrendo,
consequentemente, a morte que é a pena desse pecado, não só a morte física,
mas também aquela morte espiritual que consiste na corrupção total da natureza
do homem, na sua completa incapacidade de agradar a Deus, no homem que tira
de seu coração corrompido inúmeros atos individuais de transgressão e no
homem enfrentando a punição eterna no inferno. Essa é a imagem que percorre
toda a Bíblia. A humanidade, de acordo com a Bíblia, é uma raça perdida no
pecado; e o pecado não é apenas um infortúnio, mas é algo que chama o fogo
puro da indignação divina. Diante da terrível justiça de Deus, nada impuro pode
existir; e o homem é imundo, transgressor da santa lei de Deus, sujeito com razão
à pena terrível dela.
Enquanto eu apresentava essa imagem, acho que você, assim como eu, está
impressionado com o fato de que os homens atuais, em sua maioria, não
entendem nada disso. Eles não admitem que a humanidade está perdida no
pecado. Eu me lembro de um serviço que assisti há alguns anos atrás em uma
pequena igreja em uma bonita vila. O pregador est ava claramente acima da média
em sua cultura e fervor moral. Eu não me lembro de seu sermão (exceto que e ra
uma glorificação do homem); mas eu me lembro de algo que ele disse em sua
oração. Ele citou esse versículo de Jeremias, no sentido de que o coração do
homem é "enganoso acima de todas as coisas e desesperadamente perverso"
(Jeremias 17: 9), e então ele disse em sua oração, tão claro que eu posso lembrar
suas palavras: “Ó Senhor, tu sabes que não aceitamos mais esta interpretação,
mas agora pensamos que o homem faz o que é certo se ele conhecer o caminho”.
Bem, pelo menos foi sincero sobre o assunto. Temos uma boa opinião de nós
mesmos nestes dias, e se assim for, por que não deveríamos deixar o Senhor em
segredo? Por que deveríamos continuar citando uma confissão fervorosa dos
pecados contidos na Bíblia se realmente não acreditamos em nenhum deles? Eu
acho que a oração do pregador da aldeia era ruim - muito ruim - mas eu também
acho que talvez não tenha sido tão ruim, talvez, quanto às orações daqueles
pregadores que realmente rejeitam a mensagem central da Bíblia de forma tão
completa como ele e mesmo assim ocultam o fato pelo uso da linguagem
tradicional. Pelo menos essa oração mostrou claramente o contraste entre a visão
bíblica do pecado e o paganismo do credo moderno: "Eu creio no homem".
O próprio fundamento de tudo o que a Bíblia diz é esta triste verdade - a
humanidade está perdida no pecado. Como vimos, a Bíblia ensina que todo
homem vem ao mundo como pecador. É contra essa doutrina que o ataque
principal foi feito; e eu quero dizer algumas palavras a vocês sobre esse ataque,
para que a doutrina bíblica que é atacada possa tornar-se mais clara. O ataque
veio a ser conectado com o nome de um monge britânico que viveu no final do
século IV e no início do século V depois de Cristo. Seu nome era Pelágio. Indo
contra a doutrina bíblica, Pelágio disse que todo homem, longe de nascer com
uma natureza corrupta, começa sua vida praticamente onde Adão começou, sendo
perfeitamente capaz de escolher entre o bem ou o mau.
A Bíblia claramente ensina que as ações pecaminosas vêm de uma natureza
corrupta do homem que as comete, que as escolhas erradas individuais vêm do
estado subjacente da pessoa que se envolve nelas. Um homem é moralmente
responsável pelas escolhas erradas que brotam de sua natureza perversa, e ele é
responsável pela natureza maligna de que surgem essas escolhas erradas. O
pecado não é apenas uma questão de ações individuais.
Tanto as ações ruins,
quanto o mau estado de onde elas vêm, são pecado.
Vou citar uma passagem do ensinamento de Jesus registrado nos Evangelhos e
depois vou perguntar se essa passagem não resume o ensinamento de toda a
Bíblia sobre este ponto. "Ou a árvore boa dá o seu fruto bom; ou então, a árvore
má dá o seu fruto mau, porque a árvore é conhecida pelo seu fruto. Ó geração de
víboras, como vocês podem falar coisas boas? Do que abunda no coração a boca
fala. O homem bom, do bom tesouro do seu coração, tira coisas boas, e o homem
mau, do seu tesouro mau, tira coisas más" (Mateus 12:33-35). À luz destas
palavras de Jesus, tão simples e tão profundas, quão superficial fica toda a visão
pelagiana do pecado! De acordo com Jesus, as más ações vêm de um coração
maligno, tanto as ações quanto o coração de onde elas vêm são pecaminosos.
Essa visão é a visão de toda a Bíblia. Não há na Bíblia, do começo ao fim,
nenhuma base para a noção superficial de que o pecado é apenas uma questão de
escolhas individuais e que um homem mau pode, sem ser mudado por dentro,
produzir boas ações de repente. Não, a Bíblia em todos os lugares encontra a raiz
do mau no coração, e coração não significa apenas os sentimentos, mas toda a
vida interior do homem. Á Bíblia diz que o coração do homem é enganoso acima
de todas as coisas e desesperadamente perverso, por isso, o homem é um pecador
aos olhos de Deus. Um homem mau executa inevitavelmente ações malignas; a
coisa é tão certa quanto uma árvore má produzir um fruto mau; mas o homem
mau executa essas ações malignas porque quer realizá-las; eles são seus próprios
e livres atos pessoais e ele é responsável por eles diante de Deus.
A Bíblia do começo ao fim ensina claramente que os pecados individuais vêm de
uma natureza pecaminosa, e que a natureza de todos os homens é pecaminosa
desde o nascimento deles. "Eis que eu fui formado em iniquidade, e em pecado
me concebeu minha mãe" - estas palavras do Salmo 51 resumem, no grito de um
pecador penitente, uma doutrina de pecado que percorre a Bíblia de Gênesis a
Apocalipse. Dessa visão bíblica do pecado também depende a visão bíblica da
salvação. A Bíblia ensina que tudo o que Cristo fez por nós é para nos dar um bom
exemplo que somos perfeitamente capazes de seguir sem uma mudança de nossos
corações? O homem que pensa assim é um homem que não chegou nem ao limiar
da grande verdade central que as Escrituras contêm. "Devem nascer de novo",
disse Jesus Cristo (João 3:7). Não há esperança alguma para nós até que nasçamos
de novo por um ato que não é nosso; não chance de realmente escolheremos o
bem até que sejamos vivificados pelo Espírito do Deus Vivo.
Nada que os homens caídos e não regenerados possam fazer é realmente
agradável a Deus. Muitas coisas que eles fazem são capazes de nos agradar, aos
nossos padrões imperfeitos, mas nada do que eles fazem é capaz de agradar a
Deus; nada que eles façam pode ficar na pura luz de Seu trono de juízo. Algumas
de suas ações podem ser relativamente boas, mas nenhuma delas é realmente
boa. Todos eles são afetados pela profunda depravação da natureza humana caída
da qual eles vêm.
Isso nos leva a outro aspecto da grande doutrina bíblica da depravação. Consiste
na completa incapacidade do homem caído de sair de sua condição caída. O
homem caído, de acordo com a Bíblia, é incapaz de contribuir com a menor parte
da grande mudança pela qual ele é feito para se vivo entre os mortos. Homens
que estão mortos em delitos e pecados são totalmente incapazes de ter a fé
salvadora, tão completamente incapazes como um homem morto deitado em uma
tumba é incapaz de contribuir o menor pedaço de sua ressurreição. Quando um
homem nasce de novo, O Espírito Santo opera fé nele, e o homem nada contribui
para esse resultado abençoado. Depois de ter nascido de novo, ele coopera com O
Espírito de Deus na batalha diária contra o pecado; depois de ter sido vivificado
por Deus, ele passa a mostrar que está vivo por produzir boas obras; mas, até que
seja vivificado, não pode fazer nada que seja realmente bom; e o ato Do Espírito
de Deus pelo qual ele é vivificado é um ato irresistível e soberano.
O homem, de acordo com a Bíblia, não está simplesmente doente em delitos e
pecados; ele não está apenas em enfraquecido, precisando de ajuda divina, mas
está morto em delitos e pecados. Ele não pode fazer absolutamente nada para se
salvar, e Deus o salva pelo ato gracioso e soberano do novo nascimento.
A Bíblia é
um livro tremendamente inflexível nesta questão do pecado do homem e da graça
de Deus.
A doutrina bíblica da graça de Deus não significa que um homem é salvo contra a
sua vontade, como caricaturas dela às vezes a representam. Não, isso significa
que a própria vontade do homem é renovada. Seu ato de fé é o seu próprio ato.
Ele executa esse ato com prazer, e tem certeza de que nunca foi tão livre como
quando ele executa.
No entanto, ele pode fazê-lo simplesmente pelo ato gracioso
e soberano do Espírito de Deus.
Ah, meus amigos, quão preciosa é essa doutrina da graça de Deus! Não está de
acordo com o orgulho humano. Não é uma doutrina em que devamos evoluir. Mas
quando ela é revelada na Palavra de Deus, os corações dos remidos clamam
Amém. Pecadores salvos pela graça amam atribuir não apenas alguns, mas todos
os louvores a Deus.
Machen (1881-1937) foi professor de Novo Testamento, primeiro no Princeton Theological Seminary, e depois no Westminster Theological Seminary, na Filadélfia. Extraído de A Visão Cristã do Homem (1937).
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