As Consequências da Queda do Homem - J Gresham Machen



 O homem, quando foi criado, era bom. Deus criou o homem à Sua imagem em conhecimento, justiça e santidade. Bem, então, se Deus criou o homem bom, como é que todos os homens agora são maus? Como o pecado foi passado para toda a humanidade? O que causou essa estupenda mudança do bem para o mau? 

O pecado veio ao mundo através do pecado de Adão. Os descendentes de Adão não começam suas vidas sem pecado, como ele começou. Eles a começaram contaminados de alguma forma com o pecado cometido por Adão. Se Adão transgredisse, ele morreria. A morte seria o castigo da desobediência. Bem, ele transgrediu. O que aconteceu então? Adão foi o único que morreu? Seus descendentes começaram onde ele começou? Eles se colocaram, outra vez, diante daquela mesma alternativa entre a morte e a vida que foi colocada diante de Adão? O Livro do Gênesis indica o contrário, muito claramente. Não, os descendentes de Adão, antes de fazerem qualquer escolha individual, já tinham essa pena de morte repousando sobre eles. 

Então, o que isso significa? Adão era o representante, divinamente designado, da humanidade. Se ele obedecesse aos mandamentos de Deus, toda a geração de seus descendentes teria vida; se desobedecesse, toda a humanidade teria morte. Eu não vejo como a narrativa no Livro do Gênesis, quando você a vê como um todo, possa significar qualquer outra coisa. 

A visão dessa questão torna-se mais explícita em certas passagens importantes do Novo Testamento. Na última parte do capítulo 5 de Romanos, em particular, o apóstolo Paulo torna claro. Ele diz: "Por uma só ofensa, o julgamento para condenação veio a todos os homens" (Romanos 5:18). Diz no verso seguinte: "Por meio da desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores". Nestas palavras, e por toda esta passagem, temos a importante doutrina que fala que quando Adão pecou, ele pecou como representante da humanidade, de modo que é correto dizer que toda a humanidade pecou nele e caiu com ele em sua primeira transgressão. Há uma profunda conexão entre Adão e toda a geração de seus descendentes. 

Deus disse a Adão que se ele desobedecesse morreria. Qual é o significado dessa morte? Bem, inclui a morte física; não há dúvida sobre isso. Mas, infelizmente, também inclui muito mais do que a morte física. Inclui a morte espiritual; inclui a morte da alma para as coisas boas; inclui a morte da alma para Deus. A pena terrível desse pecado de Adão foi que Adão e seus descendentes morreram em delitos e pecados. Como a pena, justa, pelo pecado de Adão, Deus retirou Seu favor, e as almas de toda a humanidade se tornaram espiritualmente mortas. A alma que está espiritualmente morta, a alma que é corrupta, é culpada não só por causa da culpa de Adão, mas também por seu próprio pecado. Merecendo o castigo eterno. 

A doutrina da ira de Deus não é popular, mas não há nenhuma doutrina que seja mais penetrante na Bíblia. Paulo dedica a ela uma parte importante, três capítulos de oito, em sua importante Epístola aos Romanos, na qual ele se dedica à exposição de sua mensagem de salvação, e na qual ele está particularmente empenhado em mostrar que a ira de Deus repousa sobre todos os homens, exceto sobre aqueles que foram salvos pela graça de Deus. Mas não há nada de peculiar naquela importante passagem nos três primeiros capítulos de Romanos. Essa passagem só coloca de forma abrangente o que é pressuposto de Gênesis a Apocalipse e que se torna explícita em número de passagens quase além da conta. 

Acaso o ensinamento de Jesus é alguma exceção à apresentação da singular apresentação da ira de Deus na Bíblia? Bem, você poderia pensar assim se você ouvisse apenas o que o sentimentalismo moderno diz sobre Jesus de Nazaré. Os homens do mundo, que nunca foram nascidos de novo, que nunca estiveram sob a convicção do pecado, reconstruíram um Jesus para se adequar a si mesmos, um sentimentalismo fraco que prega apenas o amor de Deus e que não tem nada a dizer sobre a ira de Deus. Mas muito diferente é O Verdadeiro Jesus, O Jesus que nos é apresentado em nossas fontes de informações históricas. O Verdadeiro Jesus certamente proclamou um Deus, assim como o Antigo Testamento, O qual Ele reverenciava como a Palavra de Deus diz; Ele é "Fogo Consumidor" (Deuteronômio 4:24 comparado com Hebreus 12:29). Muito terrível era a própria ira de Jesus, como os evangelhos a descrevem, uma profunda e ardente indignação contra o pecado; e muito terrível é a ira Do Deus que Ele proclamou como o Governante do céu e da terra. Não, você certamente não pode escapar do ensinamento da Bíblia sobre a ira de Deus apelando para Jesus de Nazaré. As mais terríveis entre as exposições Bíblicas da ira de Deus são aquelas que são encontradas nas palavras do nosso Bendito Salvador. 

Onde você encontra as mais terríveis descrições do inferno em toda a Bíblia? É Jesus quem fala do pecado que não será perdoado nem neste mundo nem no que há de vir; é Jesus quem fala do verme que não morre e do fogo que não se apaga (Marcos 9:48); é Jesus quem nos deu a história do rico e de Lázaro e do grande abismo entre eles (Lucas 16:19-31); é Jesus quem diz que é proveitoso para um homem entrar na vida eterna tendo apenas um olho em vez de ter dois olhos para ser lançado no inferno de fogo (Mateus 18:9). Ele aparece no Sermão da Montanha e está evidentemente no capítulo do grande julgamento, o vigésimo quinto de Mateus; aparece em passagens muito numerosas para mencionar. Não está em um ponto de seu ensino, mas está no próprio cerne e centro desse ensino. Eu acredito que nós nem sempre compreendemos o suficiente quão grande é a divergência entre o ensino de Jesus e a pregação atual. Os homens de hoje estão interessados neste mundo. Eles perderam a consciência do pecado e, tendo perdido a consciência do pecado, perderam o medo do inferno. Tentam fazer do cristianismo uma religião deste mundo. Eles chegaram a considerar o cristianismo como um programa para estabelecer as condições do reino de Deus sobre esta terra, e eles são tremendamente impacientes quando alguém olha para ele como um meio de entrar no céu e escapar do inferno. 

Eu mencionei o ensino bíblico sobre o inferno simplesmente porque é necessário para que você possa entender o ensinamento bíblico sobre o pecado. A terrível punição do pecado mostra que nada mais poderia ser feita diante de uma coisa tão horrenda que o pecado aos olhos de Deus realmente é. Tentei apresentar, em linhas gerais, mais ou menos o quadro completo - o homem culpado com a culpa imputada do primeiro pecado de Adão, o homem sofrendo, consequentemente, a morte que é a pena desse pecado, não só a morte física, mas também aquela morte espiritual que consiste na corrupção total da natureza do homem, na sua completa incapacidade de agradar a Deus, no homem que tira de seu coração corrompido inúmeros atos individuais de transgressão e no homem enfrentando a punição eterna no inferno. Essa é a imagem que percorre toda a Bíblia. A humanidade, de acordo com a Bíblia, é uma raça perdida no pecado; e o pecado não é apenas um infortúnio, mas é algo que chama o fogo puro da indignação divina. Diante da terrível justiça de Deus, nada impuro pode existir; e o homem é imundo, transgressor da santa lei de Deus, sujeito com razão à pena terrível dela.

 Enquanto eu apresentava essa imagem, acho que você, assim como eu, está impressionado com o fato de que os homens atuais, em sua maioria, não entendem nada disso. Eles não admitem que a humanidade está perdida no pecado. Eu me lembro de um serviço que assisti há alguns anos atrás em uma pequena igreja em uma bonita vila. O pregador est ava claramente acima da média em sua cultura e fervor moral. Eu não me lembro de seu sermão (exceto que e ra uma glorificação do homem); mas eu me lembro de algo que ele disse em sua oração. Ele citou esse versículo de Jeremias, no sentido de que o coração do homem é "enganoso acima de todas as coisas e desesperadamente perverso" (Jeremias 17: 9), e então ele disse em sua oração, tão claro que eu posso lembrar suas palavras: “Ó Senhor, tu sabes que não aceitamos mais esta interpretação, mas agora pensamos que o homem faz o que é certo se ele conhecer o caminho”. Bem, pelo menos foi sincero sobre o assunto. Temos uma boa opinião de nós mesmos nestes dias, e se assim for, por que não deveríamos deixar o Senhor em segredo? Por que deveríamos continuar citando uma confissão fervorosa dos pecados contidos na Bíblia se realmente não acreditamos em nenhum deles? Eu acho que a oração do pregador da aldeia era ruim - muito ruim - mas eu também acho que talvez não tenha sido tão ruim, talvez, quanto às orações daqueles pregadores que realmente rejeitam a mensagem central da Bíblia de forma tão completa como ele e mesmo assim ocultam o fato pelo uso da linguagem tradicional. Pelo menos essa oração mostrou claramente o contraste entre a visão bíblica do pecado e o paganismo do credo moderno: "Eu creio no homem". 

O próprio fundamento de tudo o que a Bíblia diz é esta triste verdade - a humanidade está perdida no pecado. Como vimos, a Bíblia ensina que todo homem vem ao mundo como pecador. É contra essa doutrina que o ataque principal foi feito; e eu quero dizer algumas palavras a vocês sobre esse ataque, para que a doutrina bíblica que é atacada possa tornar-se mais clara. O ataque veio a ser conectado com o nome de um monge britânico que viveu no final do século IV e no início do século V depois de Cristo. Seu nome era Pelágio. Indo contra a doutrina bíblica, Pelágio disse que todo homem, longe de nascer com uma natureza corrupta, começa sua vida praticamente onde Adão começou, sendo perfeitamente capaz de escolher entre o bem ou o mau.

A Bíblia claramente ensina que as ações pecaminosas vêm de uma natureza corrupta do homem que as comete, que as escolhas erradas individuais vêm do estado subjacente da pessoa que se envolve nelas. Um homem é moralmente responsável pelas escolhas erradas que brotam de sua natureza perversa, e ele é responsável pela natureza maligna de que surgem essas escolhas erradas. O pecado não é apenas uma questão de ações individuais. 

Tanto as ações ruins, quanto o mau estado de onde elas vêm, são pecado. Vou citar uma passagem do ensinamento de Jesus registrado nos Evangelhos e depois vou perguntar se essa passagem não resume o ensinamento de toda a Bíblia sobre este ponto. "Ou a árvore boa dá o seu fruto bom; ou então, a árvore má dá o seu fruto mau, porque a árvore é conhecida pelo seu fruto. Ó geração de víboras, como vocês podem falar coisas boas? Do que abunda no coração a boca fala. O homem bom, do bom tesouro do seu coração, tira coisas boas, e o homem mau, do seu tesouro mau, tira coisas más" (Mateus 12:33-35). À luz destas palavras de Jesus, tão simples e tão profundas, quão superficial fica toda a visão pelagiana do pecado! De acordo com Jesus, as más ações vêm de um coração maligno, tanto as ações quanto o coração de onde elas vêm são pecaminosos.

 Essa visão é a visão de toda a Bíblia. Não há na Bíblia, do começo ao fim, nenhuma base para a noção superficial de que o pecado é apenas uma questão de escolhas individuais e que um homem mau pode, sem ser mudado por dentro, produzir boas ações de repente. Não, a Bíblia em todos os lugares encontra a raiz do mau no coração, e coração não significa apenas os sentimentos, mas toda a vida interior do homem. Á Bíblia diz que o coração do homem é enganoso acima de todas as coisas e desesperadamente perverso, por isso, o homem é um pecador aos olhos de Deus. Um homem mau executa inevitavelmente ações malignas; a coisa é tão certa quanto uma árvore má produzir um fruto mau; mas o homem mau executa essas ações malignas porque quer realizá-las; eles são seus próprios e livres atos pessoais e ele é responsável por eles diante de Deus.

 A Bíblia do começo ao fim ensina claramente que os pecados individuais vêm de uma natureza pecaminosa, e que a natureza de todos os homens é pecaminosa desde o nascimento deles. "Eis que eu fui formado em iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe" - estas palavras do Salmo 51 resumem, no grito de um pecador penitente, uma doutrina de pecado que percorre a Bíblia de Gênesis a Apocalipse. Dessa visão bíblica do pecado também depende a visão bíblica da salvação. A Bíblia ensina que tudo o que Cristo fez por nós é para nos dar um bom exemplo que somos perfeitamente capazes de seguir sem uma mudança de nossos corações? O homem que pensa assim é um homem que não chegou nem ao limiar da grande verdade central que as Escrituras contêm. "Devem nascer de novo", disse Jesus Cristo (João 3:7). Não há esperança alguma para nós até que nasçamos de novo por um ato que não é nosso; não chance de realmente escolheremos o bem até que sejamos vivificados pelo Espírito do Deus Vivo. 

Nada que os homens caídos e não regenerados possam fazer é realmente agradável a Deus. Muitas coisas que eles fazem são capazes de nos agradar, aos nossos padrões imperfeitos, mas nada do que eles fazem é capaz de agradar a Deus; nada que eles façam pode ficar na pura luz de Seu trono de juízo. Algumas de suas ações podem ser relativamente boas, mas nenhuma delas é realmente boa. Todos eles são afetados pela profunda depravação da natureza humana caída da qual eles vêm. Isso nos leva a outro aspecto da grande doutrina bíblica da depravação. Consiste na completa incapacidade do homem caído de sair de sua condição caída. O homem caído, de acordo com a Bíblia, é incapaz de contribuir com a menor parte da grande mudança pela qual ele é feito para se vivo entre os mortos. Homens que estão mortos em delitos e pecados são totalmente incapazes de ter a fé salvadora, tão completamente incapazes como um homem morto deitado em uma tumba é incapaz de contribuir o menor pedaço de sua ressurreição. Quando um homem nasce de novo, O Espírito Santo opera fé nele, e o homem nada contribui para esse resultado abençoado. Depois de ter nascido de novo, ele coopera com O Espírito de Deus na batalha diária contra o pecado; depois de ter sido vivificado por Deus, ele passa a mostrar que está vivo por produzir boas obras; mas, até que seja vivificado, não pode fazer nada que seja realmente bom; e o ato Do Espírito de Deus pelo qual ele é vivificado é um ato irresistível e soberano. 

O homem, de acordo com a Bíblia, não está simplesmente doente em delitos e pecados; ele não está apenas em enfraquecido, precisando de ajuda divina, mas está morto em delitos e pecados. Ele não pode fazer absolutamente nada para se salvar, e Deus o salva pelo ato gracioso e soberano do novo nascimento. 
A Bíblia é um livro tremendamente inflexível nesta questão do pecado do homem e da graça de Deus. A doutrina bíblica da graça de Deus não significa que um homem é salvo contra a sua vontade, como caricaturas dela às vezes a representam. Não, isso significa que a própria vontade do homem é renovada. Seu ato de fé é o seu próprio ato. Ele executa esse ato com prazer, e tem certeza de que nunca foi tão livre como quando ele executa. 

No entanto, ele pode fazê-lo simplesmente pelo ato gracioso e soberano do Espírito de Deus. Ah, meus amigos, quão preciosa é essa doutrina da graça de Deus! Não está de acordo com o orgulho humano. Não é uma doutrina em que devamos evoluir. Mas quando ela é revelada na Palavra de Deus, os corações dos remidos clamam Amém. Pecadores salvos pela graça amam atribuir não apenas alguns, mas todos os louvores a Deus.


Machen (1881-1937) foi professor de Novo Testamento, primeiro no Princeton Theological Seminary, e depois no Westminster Theological Seminary, na Filadélfia. Extraído de A Visão Cristã do Homem (1937).

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