O Desespero de um Ateu Niilista - Émil Cioran

“O fato de que eu existo prova que o mundo não tem sentido. Que sentido eu poderia encontrar, com efeito, nos suplícios de um homem infinitamente atormentado e infeliz, para quem tudo se reduz em última instância ao nada e o sofrimento faz a lei deste mundo?... A irrupção da morte na própria estrutura da vida introduz implicitamente o Nada na elaboração do ser. Mesmo que a morte seja inconcebível sem ele, mesmo que a vida seja inconcebível sem um princípio de negatividade. A implicação do Nada na ideia da morte liga-se ao medo que se tem e que só pode vir da apreensão por ele provocada. A imanência da morte marca o triunfo definitivo do Nada sobre a vida, provando assim que a morte está ali somente para atualizar progressivamente o caminho em direção ao Nada. O desdobramento desta imensa tragédia que é a vida - a do homem em particular - mostrará o quanto a fé na eternidade da vida é ilusória; mas mostrará também que o inocente sentimento da eternidade constitui a única possibilidade de acalmar o homem histórico. Tudo reduz-se, de fato, ao medo da morte. Onde nós vemos uma diversidade de medos, não se trata de mais do que diferentes aspectos de uma mesma reação perante a realidade fundamental. As apreensões individuais ligam-se todas por meio de obscuras correspondências a este medo essencial.” 

Émil Cioran, Nos Cumes do Desespero

Via: Hewerton Leão Simões


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