O MISTÉRIO DA ELEIÇÃO - J. Gresham Machen



ELEIÇÃO : UMA DOUTRINA BÍBLICA

 “Se não houvesse outro texto na palavra sagrada, exceto este, eu penso que todos seríamos obrigados a receber e reconhecer a verdade desta grande e gloriosa doutrina da antiga escolha de Deus, de Sua família. Mas, parece que há um inveterado preconceito na mente humana contra esta doutrina, e embora a maioria das outras doutrinas sejam recebidas por cristãos professos, algumas com precaução, outras com prazer, contudo, esta parece ser mui frequentemente desconsiderada e mesmo descartada. Em muitos de nossos púlpitos, seria reconhecido como grande pecado e alta traição pregar um sermão sobre eleição, porque eles não poderiam fazer o que chamam de discurso ‘prático’. O que quer que Deus tenha revelado, Ele o fez com um propósito. Não há nada na Escritura que não possa, sob a influência do Espirito Santo, tornar-se um discurso prático: pois ‘toda escritura é dada por inspiração de Deus, e é proveitosa’”. 

Com estas palavras Charles Spurgeon começou o seu famoso sermão sobre a doutrina da eleição. Nós devemos começar onde ele começou — com a lembrança de que esta é uma doutrina bíblica. As Escrituras falam de “eleição” e “predestinação.” Elas usam exatamente estas palavras; os termos não são invenção da mente humana. Howard Hageman escreveu, “Eu nunca fui capaz de entender porque esta doutrina, que tem ocupado um lugar central no pensamento cristão ao longo dos séculos, deveria ser rotulada de Calvinismo, como se João Calvino a tivesse concebido e seus discípulos fossemos únicos que tivessem levado a sério a doutrina da predestinação.” Talvez possa lhe interessar saber que à doutrina da eleição tem sido dado status de credo por várias denominações, como a Igreja Católica Romana, a Igreja Anglicana, a Igreja Luterana, a Igreja Episcopal, a Igreja Metodista, e a Igreja Batista, bem como a Igreja Presbiteriana. Mas realmente, isto vai além do ponto. Autoridades humanas não importam neste caso, sejam contra ou a favor — a questão é simplesmente esta: A Bíblia ensina a doutrina da eleição? A resposta é “Sim.” Entretanto, com Spurgeon, devemos ao mesmo tempo lembrar-nos a nós mesmos de que esta é uma doutrina sobre a qual pesa muito preconceito. Para usar suas palavras: “Há um inveterado preconceito na mente humana contra esta doutrina”. E de fato há. Talvez você tenha preconceito contra esta doutrina. Talvez você não goste dos termos “eleição” e “predestinação”. Talvez até mesmo o som daquelas palavras causem em você uma sensação de desconforto. Mas, desconfortável ou não, esta doutrina pertence ao inteiro conselho de Deus, o qual eu estou comissionado a pregar e você comissionado a atender. Com Spurgeon devemos nos lembrar de que esta é uma doutrina abençoada. Os frutos resultantes de um honesto e sincero estudo desta doutrina são frutos verdadeiramente gloriosos. Não é minha intenção ser provocativo, mas prático, embora, sem dúvida, minha abordagem prática possa provocar alguns de vocês. Não obstante, é meu desejo, em oração, que este estudo seja usado para enriquecer nossas vidas, e ampliar nossa visão de Deus; aumentar nosso senso de dependência Nele. Se isto não for prático, então o que será? Com este breve preâmbulo, vamos examinar o mistério desta doutrina, o significado desta doutrina, a mecânica desta doutrina, e finalmente as ideias equivocadas a respeito desta doutrina.


Vamos partir de um denominador comum. Até um certo ponto há unanimidade absoluta de opinião. Ambos, aqueles que aceitam a doutrina da eleição, e aqueles que a rejeitam, concordam que ela é um mistério profundo, e de fato é. E que reside além do poder de compreensão da nossa mente finita. Devemos confessar, antes de prosseguirmos, que nós não a entendemos. Mas, e daí? Nós estamos cercados de mistério por todos os lados, não estamos? Tão logo abrimos a Bíblia, somos confrontados com um mistério. Porque um Deus que é onisciente, onipotente, e que poderia desde o começo, antevendo as terríveis consequências do pecado, não impediu que este entrasse no mundo? Mas Ele não impediu, impediu? Ou, como pode um homem que é nascido em pecado ser tido como responsável pelo seu comportamento pecaminoso? Mas é isto que a Bíblia afirma, não é? Ou, como pode um Deus que nos ama e é tão benigno e complacente, não livrar-nos completamente de nossos pecados neste mundo? Mas Ele não faz assim, não é mesmo? Uma Vida de Mistério As questões teológicas não são os únicos mistérios associados à raça humana. A desigualdade da experiência humana é igualmente insolúvel. Um homem nasce com visão, outro nasce cego. Um homem nasce com boa constituição física e goza de boa saúde, enquanto outro nasce com estrutura bem fraca, e não demora a ir para a sepultura. Um homem nasce na riqueza e desfruta de todo o conforto, outro nasce em pobreza, e conhece apenas a miséria. Um nasce numa família cristã e desde cedo recebe os ensinamentos do Evangelho, enquanto outro nasce num país onde ele nunca ouvirá falar de Jesus Cristo. A pessoa envolvida não tem nada a ver com as circunstâncias acima mencionadas, no entanto aquelas mesmas circunstâncias afetam não apenas sua felicidade e sua peregrinação aqui na terra, mas também o caráter da sua vida, e até mesmo o destino de sua vida. Nós perguntamos, “Por quê? Por que a desigualdade? Por que Deus permite que tais diferenças existam? Por que eu nasci na América e não na África?”. Nós não sabemos porque, sabemos? Nós devemos crer que Deus tem boas e sábias razões para seu modo providencial de lidar com cada indivíduo em particular, mas no ponto em que nos achamos, em nossa condição presente, tais razões permanecem um verdadeiro mistério, não permanecem? Os Caminhos de Deus São Misteriosos Não é apenas a experiência humana que nos leva a conjeturar ou supor que os caminhos de Deus são misteriosos, mas a Sua Palavra realmente nos ensina que Seus caminhos são misteriosos. No livro do profeta Isaías nós lemos, “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o Senhor, porque assim como os céus são mais altos que a terra, assim são os meus caminhos mais altos que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos que os vossos pensamentos” (Isaías 55:8-9). O livro de Romanos explica, “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro?” (Rm 11:3- 34). Os caminhos de Deus são de fato misteriosos. Nossa Resposta ao Mistério Qual deve ser então a nossa resposta a esta doutrina de mistério? É claro que não devemos permitir que este elemento de mistério seja causa para rejeitá-la. Nós não aceitamos apenas aquilo que entendemos completamente, não é mesmo? É claro, senão nós jamais poderíamos aceitar a Deus, pois não somos capazes de entendê-Lo completamente. Você vê? Não é uma questão de ignorância por um lado, e compreensão por outro lado; é uma questão da Palavra inspirada de Deus. Se a Bíblia nos ensina, por mais mistério que haja, nós devemos crer. O orgulho intelectual humano pode nos dificultar chegar lá, mas a fé humilde nos encoraja. Mas nós não podemos também ir ao outro extremo e dizer, “Trata-se de uma doutrina muito elevada! É muita teologia para mim! Um mistério! Jamais serei capaz de entendê-la, por isso nem tentarei!” Não, não! Se Deus revelou-nos Sua verdade em qualquer área, então é nossa responsabilidade conhecer aquela verdade o mais completamente possível. Eleição e predestinação são mistérios de fato, mas não tão misteriosos que não tenham significado.


Extraído:A Bíblia e a Predestinação J. Gresham Machen, Ed. Os Puritanos,p.23-28
 

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