Porque devem as mulheres cobrir suas cabeças? Rev. John Murray

Se o Presbitério se convencer de que a mulher cobrir a cabeça pertence ao decorum que governa sobre a conduta da mulher na adoração de Deus, então eu penso que o Presbitério deveria declarar algo correspondente. Não suponho que seja necessário expressamente legislar. Eu penso que é suficiente fazer uma resolução para instruir e guiar os ministros, sessões e povo. Um órgão jurídico tem tanto o direito como o dever de oferecer aqueles sob sua jurisdição direção a respeito das obrigações para com Deus. Isto tem sido reconhecido nas Igrejas Reformadas em todo o mundo.

Quanto as principais questões na interpretação de 1 Coríntios 11:2-16, permita-me oferecer algumas das minhas reflexões em ordem:

1. Uma vez que Paulo apela para a ordem da Criação (vrs. 3B, vrs. 7ff.), é totalmente indefensável a suposição de que o que está em vista aqui tem importância apenas temporária. A ordenança da Criação é universal e perpétua, assim como as implicações para a conduta que destas surgem.

2. Tenho convicção de que o cobrir a cabeça é definitivamente proibido ao homem no culto (vrs. 4 e 7) e agradável para a mulher (vrs. 5, 6, 15). No caso da mulher, não é suficiente cobrir a cabeça simplesmente com seu longo cabelo. Esta suposição não faria sentido em relação ao versículo 6 - pois o pensamento ali é que se ela não tem algo com que cobrir a cabeça, ela poderia muito bem estar de cabeça raspada … Não é próprio, portanto, interpretar o versículo 15b como se significando que o cabelo foi dado a mulher em lugar de algo com que cobrir a cabeça, por causa do que é dito nos versículos 5 e 6. A forma do Grego do versículo 15 é certamente a de equivalência, como comumente usado no Novo Testamento, e, portanto, pode ser traduzido como: “o cabelo é dado para ela como uma cobertura”. Isto está no escopo do argumento particular dos versículos 14 e 15 e não interfere com a demanda por uma cobertura adicional contemplada nos versículos 5, 6, 13. Os versículos 14 e 15 tratam da consideração quanto a ordem da natureza que suporta aquilo que anteriormente foi ensinado na passagem. Em outras palavras, o cabelo longo é uma indicação “da natureza” de que há uma diferenciação entre homem e mulher, e que, portanto, o cobrir-se a cabeça com uma mantilha, capuz ou chapéu, requerido nos versículos 5, 6, 13 é reforçado pelo que a “natureza” ensina.

3. Há mais uma forte razão para crer que o pensamento do Apóstolo diz respeito a conduta nas reuniões públicas de Igreja de Deus, pois no versículo 17 este é claramente o caso, e no versículo 18 isto é confirmado. Mas há uma similaridade distinta entre os termos do versículo 17 e do versículo 2. O versículo 2 começa, “E louvo-vos”, e o versículo 17, “Nisto... eu não vos louvo”. As expressões virtualmente idênticas, uma positiva e a outra negativa, sugerem, se não é que requerem, que ambas tem em vista o comportamente dos santos em suas congregações, ou seja, que em respeito a denotação o mesmo povo está em vista sob a mesma identidade como adoradores, como quem participa do Culto. Se uma diferença radical, entre público e privado, estivesse aqui contemplada, seria difícil manter como apropriado o constraste entre “E louvo-vos” e “eu não vos louvo”.

4. Além de questão é em referência a orar e a profetizar que as injunções pertencem, tanto a ausência de algo que cubra a cabeça dos homens, quanto a presença para mulher. Pode parecer, portanto, que a passagem não tem relação com o cobrir a cabeça das mulheres nas reuniões da Igreja se estas não estiverem envolvidas em orar ou profetizar, ou seja, em guiar a congregação na oração ou em exercer o dom da profecia. E a implicação seria que apenas quando elas estão fazendo estas coisas é que lhes é requerido cobrir a cabeça. A implicação posterior seria de que as mulheres tem liberdade para fazer estas coisas, desde que cubram a cabeça. Este ponto de vista poderia facilmente ser assumido se não fosse o caso de que Paulo proibe que as mulheres exerçam a oração e a pregação públicas, e o proíben esta mesma epístola [I Coríntios 14:33b-36], “como em todas as igrejas dos santos, as mulheres estejam caladas nas igrejas, porque lhes não é permitido falar” [vss. 33b-34a]. É impossível cogitar que Paulo estaria, por implicação, aprovando no capítulo 11, o que ele expressamente proíbe no capítulo 14. Daí temos de concluir que Paulo não contempla a oração ou o exercício do dom de profecia pelas mulheres na Igreja no capítulo 11. A questão que se levanta então, é: Como pode ser isto e portanto, como podemos interpretar 11:5,6 e 13? É possível interpretar os versos no capítulo 11 de uma maneira que seja compatível com o capítulo 14:33b-36. Segue-se a interpretação: —

a. No capítulo 11 o decorum prescrito em 14:33b-36 está distintamente em vista e Paulo está demonstrando sua propriedade. Oração e profecia são funções que implicam autoridade, a autoridade que pertence ao homem como distinto da mulher de acordo com a ordenança da criação. O homem ao exercer sua autoridade em orar e profetizar não deve cobrir a sua cabeça. Porque não? O cobrir a cabeça é um sinal de sujeição, o oposto da autoridade que pertence ao homem, exemplificada no orar e no profetizar, uma vez que 11:4,7. Resumidamente, cobrir a cabeça ao orar e profetizar seria uma contradição.

b. Mas precisamente aqui entra a relevância dos versículos 5, 6, 13 no que tange as mulheres. Se as mulheres irão orar e profetizar nas reuniões da igreja, elas estarão agindo de formas que implicam autoridade e requereriam, portanto, que não vestissem nada que cobrisse suas cabeças. Fazê-lo com a cabeça coberta involveria a contradição já referida. Mas é a impropriedade em se descobrir a cabeça que está reforçada em 11:5, 6 e 13. Em outras palavras, o Apóstolo está destacando a impropriedade de que as mulheres exerçam estas funções – de orar e profetizar – ao demonstrar a impropriedade que estaria envolvida em as mulheres estarem com suas cabeças descobertas. Por isso há a pergunta retórica no versículo 13: “É próprio que a mulher ore a Deus descoberta?”

c. Esta interpretação remove todas as discrepâncias entre 11:5,6, 13 e 14:33b-36 e parece-me consoante com o todo de 11:2-16.

5. A linha de pensamente acima deriva confirmação de 1 Coríntios 11:10. Realmente a referência aos anjos não é imediatamente perspícua. Mas é uma interpretação a qual se pode dar razão aquela de que como os anjos estão presentes junto ao povo de Deus e, portanto, estão presentes nas congregações dos santos. O que está em questão é a ofensa contra os santos anjos quando a impropriedade concernente macula a santidade da adoração a Deus. Mas, em qualquer caso, a obrigação afirmada é visível. A obrigação é de que a mulher tenha sobre sua cabeça o sinal da autoridade sob a qual ela está sujeita, em outras palavras, o sinal da sua sujeição. Mas esta sujeição permanece todo o tempo e não somente no exercício da oração ou profecia como poderia se supor.

Baseado nestes argumentos meu julgamento é que pressuposto nas palavras do Apóstolo está a prática já estabelecida e aceita de que as mulheres cubram suas cabeças nas reuniões da Igreja, e que visivelmente esta parte do decorum era reconhecida, e que o ponto principal dos versículos 5, 6, 10, 13 era a impropriedade da interrupção desta prática na suposição de que uma mulher viesse a orar ou profetizar publicamente, uma vez que,  para orar ou profetizar seria necessário ter a cabeça descoberta de modo a representar a autoridade que o orar ou o profetizar possuem, uma autoridade não cabível para mulheres, o que é, por sua vez, demonstrado por elas cobrirem a cabeça na assembléia pública.



Tradução: Rev. Ademir Moreira

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