O HABITAT HUMANO ERA UM JARDIM VERDEJANTE - Héber Carlos de Campos

Do solo fez o Senhor Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boa para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2.9). 

O jardim no Éden pode ser localizado geograficamente, ainda que não com propriedade absoluta. Muitos cientistas, ainda hoje, tentam mitificar ou interpretar o livro de Gênesis de modo alegórico. No entanto, a narrativa bíblica mostra que o Éden é um lugar de prazer, de encantamento, um lugar que Deus preparou para o deleite de sua criatura mais importante — o ser humano; um lugar que realmente existiu. 

É interessante notar que Deus não fez uma floresta do tipo tropical, mas um jardim com árvores. A ênfase dada às árvores pelo autor de Gênesis é muito importante, em virtude de sua ausência em muitas partes do Oriente Médio, onde o livro de Gênesis foi escrito. Aqui no Brasil estamos acostumados com árvores, mas naquelas bandas do planeta a primeira coisa que você tem que aprender é usar óculos escuros, para proteção contra a luz solar excessiva, porque as árvores e a verdura da vegetação são quase uma raridade. Quando visitei algumas partes do Oriente Médio, pude perceber a falta do verdor tão abundante em nosso país. A falta das árvores é ainda mais patente nas regiões desérticas da Judeia. Imagine o deserto da Arábia, o maior deserto de areia do mundo, quão árido pode ser. Ao escrever o Gênesis, Moisés vivia em uma região desértica. Portanto não é sem razão que, ao narrar o que recebeu diretamente de Deus, ou por tradição oral fielmente transmitida sobre a criação do mundo, ele tenha se encantado com a ideia de um jardim de árvores frondosas, cheias de sombra e frescor! Além do mais, para haver árvores, tem que haver água. Esse líquido precioso é tão raro naquelas regiões que seu valor ali é inestimável! É mediante a água que as plantas crescem luxuriosamente. Moisés descreve belamente o jardim que Deus plantou, enfatizando seu verdor. Essa minha impressão do encantamento de Moisés está na expressão que ele usa; “árvores agradáveis à vista”. Por essa razão, disse Young que “vemos que Deus é abundantemente gracioso para com o homem”.

NÓS, que vivemos em um país cheio de verdor, não conseguimos imaginar um lugar tão seco quanto a região que teria sido o jardim no Éden. As árvores daquele imenso jardim foram sendo todas, mais tarde, destruídas e lançadas nas regiões inferiores da terra, formando possivelmente, com os fósseis, os combustíveis de que hoje fazemos uso, depois de milhares de anos. Os habitantes daquelas regiões do Oriente Médio, hoje, não podem sequer imaginar a beleza do verdor do paraíso plantado por Deus. Nós, que aqui vivemos, conhecemos a beleza das árvores e nos encantamos com elas; todavia, elas não poderiam ser comparadas com as árvores do jardim de Deus, plantadas em uma terra pura, sem a maldição divina da queda do homem que recaiu sobre ela. Não havia sequer espinhos ou abrolhos entre as plantas, essas pragas apareceram somente com a maldição divina. Portanto, o jardim de Deus era belíssimo, sem nenhuma inconveniência. Tudo era lindo em derredor, e a alegria de Deus enchia toda a terra, sobretudo o jardim. A terra era sem dúvida um lugar da mais alta perfeição e paz! E havia doçura em todas as coisas colocadas por Deus naquele jardim. Adão e Eva certamente se deliciavam em contemplar a beleza daquela vegetação. Seus olhos se deliciavam com a visão das árvores, pois eram admiráveis, “agradáveis á vista”! Em uma linguagem poética, Matthew Henry disse que o jardim “era belo e adornado com cada árvore que, 'por sua altura e largura, sua feitura ou cor, sua folha ou flor, era agradável á vista e charmosa aos olhos; [o jardim] era pleno e enriquecido com cada árvore que produzia fruto para o paladar e útil para o corpo e muito bom para se comer”.

 O jardim de Deus tinha abundância de tudo o que era indescritivelmente belo. Era cheio da sombra das árvores, do reflexo cristalino das águas dos rios, de frutos que caíam dos seus galhos, do cântico de passarinhos, da fragrância das flores e da beleza das verdejantes folhas. Tudo era perfeito! Deus foi extremamente pródigo no que fez, sem qualquer miséria. É um paraíso assim que cremos que Deus fez para o deleite das suas criaturas. O clima era ideal, o cenário magnificente, e as cercanias cheias de paz! É verdade que o pecado trouxe consigo a maldição divina; mesmo assim, o mundo feito por Deus ainda reflete (embora imperfeitamente) a beleza de sua criação. Vivendo em uma época em que a Queda já vigorava há milênios, ainda assim o Pregador não titubeou em dizer: Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo... (Ec 3.11). Nenhuma obra de paisagista do nosso tempo pode ser comparada á beleza do jardim plantado no Éden por Deus. Nenhum milionário deste mundo pode encontrar jardineiros capazes de fazer alguma coisa como Deus fez. Nenhum resort, por mais rico e luxuriante que seja, é capaz de proporcionar os prazeres, o encantamento e o repouso que Adão e Eva desfrutaram naquele lugar paradisíaco. Era um lugar de fato magnificente! No meio das árvores comuns, “agradáveis à vista”, porém, eis que deparamos com duas árvores muito importantes, que Deus selecionara para ensinar aos homens determinadas verdades espirituais: a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Devido á sua importância, vamos tratá-las com mais extensão. Essas duas árvores são reais, mas possuem significados que lhes proporcionam destaque maior no jardim de Deus. Cada uma delas representa algo importante. Apontam para os fatos de que a comunhão com o Senhor tem a ver com a árvore da vida, e a quebra dessa comunhão, com a árvore do conhecimento do bem e do mal. 

Vejamos alguns detalhes sobre este assunto:

1. A ÁRVORE DA VIDA 

Do solo fez o Senhor Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2.9). 

A árvore da vida exerce uma função muito importante nas Escrituras, por isso aparece no primeiro e no último livro da Bíblia, além de ser sugerida em Ezequiel 47.12 e em Provérbios 11.30; 13.12. É parte tanto do primeiro paraíso (Gn 2.9) como do paraíso definitivo, na consumação de todas as coisas (Ap 2.7; 22.2). A despeito da árvore da vida ser uma árvore real, comum, uma árvore composta de raiz, caule, galhos, folhas e frutos, localizada “no meio do jardim”, tem uma significação espiritual muito característica. Seus frutos são naturais, mas com propriedades sobrenaturais. Na verdade, nesse sentido, é uma árvore sobrenatural, pelos símbolos que comunica: é simbólica de sabedoria; de retidão; é simbólica da concretização da esperança; é simbólica de temperança na linguagem. É uma espécie de árvore sacramental.

 É indicativa exterior de manutenção perene da comunhão com Deus no jardim. Comer do fruto dessa árvore é símbolo de vida eterna. Essa árvore era um sinal para Adão de que a origem da vida está em Deus e para que soubesse que simbolizava sua condição de bem-aventurança, que jamais seria perdida se tivesse cumprido a obediência dele exigida. Só poderia comer dessa árvore aquele que passasse no teste da obediência. Se o homem comesse dessa árvore, viveria para sempre. No entanto, não podemos dizer que a perenidade da vida vem do seu fruto, mas, sim, da obediência, porque a vida eterna, segundo o ensino geral das Escrituras, é obtida pela obediência. Por não obedecer, Adão foi proibido de comer dessa árvore. Então, para que não comesse dela, foi lançado para fora do paraíso (Gn 3.22).

2. A ÁRVORE DO CONHECIMENTO DO BEM E DO MAL

Do solo fez o Senhor Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2.9).

 Esta árvore é indicativa de realidades espirituais que Deus queria comunicar às suas criaturas. É possí­vel que também estivesse colocada no meio do jardim, como a outra árvore — a da vida. Ela, em si mesma, não era má. Pelo contrário, era tão somente também agradável à vista, mas seu fruto era bom como o das outras árvores. MacArthur diz que “ela não era venenosa, não era uma árvore com fruto tóxico. Não há nada tóxico na perfeita criação de Deus. Não havia nenhum veneno. Não havia nada no fruto daquela árvore que, de alguma forma, houvesse sido alterado geneticamente. Não havia nada naquela árvore que, de alguma forma, pudesse matar algum princípio vital em um indivíduo, como algum sopro mortal em sua alma. Era uma árvore boa, e o seu fruto era perfeitamente bom, porque tudo o que Deus fez era bom. Não havia nada de danoso no fruto daquela árvore”. Por que, então, é chamada de “árvore do conhecimento do bem e do mal”? Há várias interpretações quanto ao que seria o mal envolvido; Há aqueles que entendem, como o comentador Von Ranke, que a árvore é designada para representar a onisciência e que o homem não deveria cobiçar a onisciência. Comer dessa árvore significa ter um conhecimento completo e, consequentemente, significa participar da onisci­ência divina.

 Esta é uma interpretação errônea, porque a onisciência é um atributo incomunicável ao homem, pertencente ao Ser único infinito, de quem o homem é apenas criatura. A citação de Gênesis 3.22, que fala que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal, é uma enorme ironia que Deus usa e não deve ser entendida como o homem tendo o conhecimento que Deus tem. Há outros que entendem que o comer dessa árvore tem a ver com a prática do ato sexual. Este pensamento é mais comum dentro da teologia católica romana e é muito difundido. No entanto, não há nenhuma sugestão de que o pecado de comer dessa árvore tenha a ver com as relações sexuais entre Adão e Eva. A importância dessa árvore, no entanto, está vinculada à sua significação espiritual.

 Ela é reveladora da soberania de Deus, que ordenou que os seres humanos dela não comessem. Representa claramente a vontade divina. Adão e Eva não conheciam experimentalmente o mal, embora já conhecessem o bem, porque viviam no meio do bem e haviam vindo daquele que é o Bem Supremo. No entanto, Deus os colocou sob a necessidade de obedecer ao seu mandamento. Eram seres morais e precisavam prestar obediência moral ao seu Criador. Quando Deus fez os seres humanos, colocou no coração deles a distinção entre o que é bom e o que não é bom. 

A continuação da prática do bem era não comer da árvore, enquanto a prática do mal era comer dela. Se comessem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, estariam abandonando tudo o que é bom; se não comessem, continuariam no bem e nunca mais perderiam a vida de comunhão relacional com Deus, com a qual foram criados. Deus dera aos primeiros pais todas as coisas necessárias para uma abundante e feliz subsistência no jardim. O homem não precisava desejar mais nada. Não precisava querer conhecer como Deus, como Satanás sugeriu. Deveria estar absolutamente contente com as provisões divinas. Mas ele desejou alguma coisa mais. Parece-nos que ele não quis mais ser dependente de Deus; quis ser como o próprio Deus. Por isso, formalmente, desobedeceu ao seu Criador. Não se contentou com a vida de bem-aventurança que tinha. Não se contentou com as árvores agradáveis ã vista, nem com os frutos que davam. Preferiu fazer exatamente o que Deus havia proibido e, em vez de ser como o seu Criador, acabou sendo banido daquela vida maravilhosa envolvendo em uma grande tragédia de miséria e condenação, em que imergiu não somente a si, mas toda a sua progénie pelos séculos. 

A árvore fora colocada ali, portanto, para por o homem sob prova. Se ele comesse dessa árvore, iria conhecer experimentalmente o mal e morreria — foi exatamente o que aconteceu. A desobediência foi o primeiro mal formalmente praticado no mundo dos homens. Assim, no meio daquele lugar magnificente, o jardim no Éden, havia uma árvore para testar a obediência de Adão e Eva. O restante da história todos nós conhecemos não somente de ouvir, mas também por experimentarmos pessoalmente o que é o mal e, por estarmos vinculados representativamente a Adão, também morrermos.


NOTAS:
6 Edward J. Young. In the Beginning. Edinburgh: Banner of Truth, 1976, p. 73
7 Matthew Henry. Commentary on Genesis, , acessado em maio de 2010.
8 Cf. Geerhardus Vos. Biblical Theology — Old and New Testaments. Grand Rapids, iViichigan; Eerdmans Publishing Company, 1980, p. 27. V. tb. Louis Berkhof. Teologia Sistemática. Quinta edição em espanhol. Grand Rapids, Mich: TELL, 1981, p. 257-258.
9 John F. MacArthur Jr., em seu sermão sobre Gênesis 2.5-17. , acessado em maio de 2010. 
10 Citado por S. Lewis Johnson, em seu sermão Man and his probation, Gênesis 2,5-17. .

Extraído:Campos, Heber Carlos de O habitat humano : o paraíso criado / Heber Carlos de Campo, — São Paulo Hagnos, 2011, p.31-39


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