
MENOSPREZO PELA UNIDADE E PAZ DA IGREJA
“...Com muita frequência
vemos homens avessos à unidade da Igreja e invejosos dela. Se os católicos
romanos tendem a fazer da Igreja um ídolo, deverão os protestantes ir ao
extremo oposto, negando-a, desconsiderando-a e causando divisões? Pois é pecado
grave e comum fazer parte da religião como facção e limitar o amor e respeito a
uma denominação, em vez de estendê-lo à Igreja universal. Da multidão dos que
dizem que são da igreja católica, é raríssimo encontrar os que são de espírito
católico.
Os homens não têm um
interesse nem respeito universal pela Igreja toda. Antes, eles em geral vêem a
sua denominação particular como se ela fosse a Igreja completa. Luteranos,
calvinistas e suas divisões subordinadas oram pela prosperidade dos seus
respectivos grupos e se regozijam, dando graças quando as coisas vão bem com a
sua denominação. Mas se outros sofrem, pouco se lhes dá, como se isso não
trouxesse nenhuma perda para a Igreja.
Sofremos pela igreja como
pacificadores?
Como é raro encontrar um
homem que sofra e sangre pelas feridas da Igreja universal, e que as leve para
o seu coração, tomando-as como suas próprias feridas e dores. Igualmente, quão
poucos há que compreenderam a verdadeira condição das controvérsias sectárias
entre vários grupos da Igreja, ou perceberam quantas delas não passam de
palavras, e viram quantas causas reais existem para divisão! Só uns poucos,
como John Davenant, ou como o bispo Joseph Hall - cuja obra intitulada "O
Pacificador" (The PeaceMaker) merece ser lavrada em nossos corações -
compreenderam bem essas coisas. No entanto , é comum tais pessoas serem vistas
suspeitosamente como hereges por seus esforços pela paz e unidade.
O que nos divide?
Na maior parte, as questões
que nos mantêm divididos são relacionadas com o nosso governo eclesiástico: sua
correta forma e ordem. Será tão grande a distância, que presbiterianos,
episcopais e igrejas livres não possam entrar em acordo? Se os homens tivessem
corações realmente sensíveis quanto à situação da igreja, e procurassem amar-se
uns aos outros com sinceridade e buscassem zelosamente a unidade, a produção da
paz seria tarefa fácil. Em vez disso, a história é que muitíssimas vezes
ilustres e devotos ministros da Igreja primeiramente se desentendem entre si e,
depois, envolvem o seu povo naqueles desentendimentos. Lemos e pregamos sobre
os textos que mandam os homens seguirem a paz com todos e conviverem
pacificamente com eles, e, contudo, estamos longe de praticar aquilo que
achamos ruim, maldizemos e censuramos uns aos outros. É como se o zelo pela
santidade fosse a antítese do zelo pela paz, de maneira que a santidade e a paz
fossem irreconciliáveis.
É o que temos visto, para
nossa tristeza. Em vez de vivermos uns com os outros como um só coração, uma
alma e uma voz (para a mútua promoção da fé e da santidade, e para
admoestar-nos e ajudar-nos uns aos outros contra o pecado), vivemos, ao
contrário, em recíprocos ciúmes e invejas, e afogamos o puro e santo amor em
amargas contendas. Estudamos para ver como infelicitar-nos e destruir-nos uns
aos outros, com o fim de promover a causa da facção que nos interessa. E também
arrastamos o nosso povo para estas brigas, dividindo-nos e caluniando-nos uns
aos outros.
Os malefícios da divisão
O público toma nota de tudo
isso, e não somente da divisão escarnece de nós, mas também se endurece contra
toda forma de religião. Quando tentamos persuadir as pessoas, estas vêem tantas
facções que não sabem a qual juntar-se — e acham melhor não se juntar a nenhuma
delas. Assim é que milhares delas vão se tornando cada vez mais opostas a toda
religião, por causa das nossas divisões.
Se vocês se ofenderem com a
minha linguagem, poderei dizer-lhes que a aprendi de Deus. Vocês deveriam
sentir-se muito mais ofendidos por tais práticas satânicas. O Espírito Santo
nos ensina: "Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom
trato as suas obras em mansidão e sabedoria. Mas, se tendes amarga inveja, e
sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a
verdade: Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e
diabólica. Porque onde há inveja e espírito faccioso, aí há perturbação e toda
a obra perversa. Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois
pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem
parcialidade, e sem hipocrisia. Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para
os que exercitam a paz" (Tiago 3:13-18). Rogo-lhes que leiam, releiam
e estudem estas palavras.
Sei que as questões da
verdade não devem ser creditadas unicamente a nós. Todavia, os nossos exemplos
merecedores de crédito muito poderão fazer para tirar preconceitos e remover os
bloqueios que impedem a penetração nas mentes dos homens. Eles podem, assim,
facilitar uma atenção mais equânime à verdade e, desse modo, beneficiar o nosso
povo.”...
Richard Baxter - O Pastor Aprovado - Editora PES, 2006. p.93-96
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