Richard Baxter - O Pastor Aprovado

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MENOSPREZO PELA UNIDADE E PAZ DA IGREJA
“...Com muita frequência vemos homens avessos à unidade da Igreja e invejosos dela. Se os católicos romanos tendem a fazer da Igreja um ídolo, deverão os protestantes ir ao extremo oposto, negando-a, desconsiderando-a e causando divisões? Pois é pecado grave e comum fazer parte da religião como facção e limitar o amor e respeito a uma denominação, em vez de estendê-lo à Igreja universal. Da multidão dos que dizem que são da igreja católica, é raríssimo encontrar os que são de espírito católico.
Os homens não têm um interesse nem respeito universal pela Igreja toda. Antes, eles em geral vêem a sua denominação particular como se ela fosse a Igreja completa. Luteranos, calvinistas e suas divisões subordinadas oram pela prosperidade dos seus respectivos grupos e se regozijam, dando graças quando as coisas vão bem com a sua denominação. Mas se outros sofrem, pouco se lhes dá, como se isso não trouxesse nenhuma perda para a Igreja.
Sofremos pela igreja como pacificadores?
Como é raro encontrar um homem que sofra e sangre pelas feridas da Igreja universal, e que as leve para o seu coração, tomando-as como suas próprias feridas e dores. Igualmente, quão poucos há que compreenderam a verdadeira condição das controvérsias sectárias entre vários grupos da Igreja, ou perceberam quantas delas não passam de palavras, e viram quantas causas reais existem para divisão! Só uns poucos, como John Davenant, ou como o bispo Joseph Hall - cuja obra intitulada "O Pacificador" (The PeaceMaker) merece ser lavrada em nossos corações - compreenderam bem essas coisas. No entanto , é comum tais pessoas serem vistas suspeitosamente como hereges por seus esforços pela paz e unidade.
O que nos divide?
Na maior parte, as questões que nos mantêm divididos são relacionadas com o nosso governo eclesiástico: sua correta forma e ordem. Será tão grande a distância, que presbiterianos, episcopais e igrejas livres não possam entrar em acordo? Se os homens tivessem corações realmente sensíveis quanto à situação da igreja, e procurassem amar-se uns aos outros com sinceridade e buscassem zelosamente a unidade, a produção da paz seria tarefa fácil. Em vez disso, a história é que muitíssimas vezes ilustres e devotos ministros da Igreja primeiramente se desentendem entre si e, depois, envolvem o seu povo naqueles desentendimentos. Lemos e pregamos sobre os textos que mandam os homens seguirem a paz com todos e conviverem pacificamente com eles, e, contudo, estamos longe de praticar aquilo que achamos ruim, maldizemos e censuramos uns aos outros. É como se o zelo pela santidade fosse a antítese do zelo pela paz, de maneira que a santidade e a paz fossem irreconciliáveis.
É o que temos visto, para nossa tristeza. Em vez de vivermos uns com os outros como um só coração, uma alma e uma voz (para a mútua promoção da fé e da santidade, e para admoestar-nos e ajudar-nos uns aos outros contra o pecado), vivemos, ao contrário, em recíprocos ciúmes e invejas, e afogamos o puro e santo amor em amargas contendas. Estudamos para ver como infelicitar-nos e destruir-nos uns aos outros, com o fim de promover a causa da facção que nos interessa. E também arrastamos o nosso povo para estas brigas, dividindo-nos e caluniando-nos uns aos outros.
Os malefícios da divisão
O público toma nota de tudo isso, e não somente da divisão escarnece de nós, mas também se endurece contra toda forma de religião. Quando tentamos persuadir as pessoas, estas vêem tantas facções que não sabem a qual juntar-se — e acham melhor não se juntar a nenhuma delas. Assim é que milhares delas vão se tornando cada vez mais opostas a toda religião, por causa das nossas divisões.
Se vocês se ofenderem com a minha linguagem, poderei dizer-lhes que a aprendi de Deus. Vocês deveriam sentir-se muito mais ofendidos por tais práticas satânicas. O Espírito Santo nos ensina: "Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão e sabedoria. Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade: Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica. Porque onde há inveja e espírito faccioso, aí há perturbação e toda a obra perversa. Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia. Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz" (Tiago 3:13-18). Rogo-lhes que leiam, releiam e estudem estas palavras.
Sei que as questões da verdade não devem ser creditadas unicamente a nós. Todavia, os nossos exemplos merecedores de crédito muito poderão fazer para tirar preconceitos e remover os bloqueios que impedem a penetração nas mentes dos homens. Eles podem, assim, facilitar uma atenção mais equânime à verdade e, desse modo, beneficiar o nosso povo.”...


 Richard Baxter - O Pastor Aprovado - Editora PES, 2006. p.93-96

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