Esta é a minha terceira parcela sobre a questão da evidência de que o
Apocalipse foi cumprido no primeiro século [da era cristã]. Por mais
surpreendente que essa conclusão seja para o evangélico moderno, a prova
está no próprio Apocalipse. Neste artigo vou considerar os Indicadores
Históricos para o preterismo.
Concordo com o estudioso talmúdico puritano, John Lightfoot: O
Apocalipse parece profetizar o julgamento de Cristo sobre os judeus no
ano 70 d.C. A declaração inicial do propósito de João (Apocalipse 1:7),
as sete cartas (Apocalipse 2:9; o corpo de Apocalipse - Apocalipse 4-19,
por exemplo – Apocalipse 7:1-8; 11:1-8), todos refletem essa verdade.
Logo após mencionar a proximidade dos eventos (1:1, 3) e pouco antes
de aludir às terríveis circunstâncias de sua audiência original (Apocalipse
1:9), o verso 7 adverte: “Eis (que) vem com as nuvens, e verá a ele todo
olho também os que a ele traspassaram, e se lamentarão sobre ele todas
as tribos da terra. Sim, amém”.* (Novo Testamento Interlinear Grego Português,
da Sociedade Bíblica do Brasil). Embora isto pareça ser uma
referência a Segunda Vinda, as seguintes evidências apontam para o ano
70 d.C.
Vindo com as nuvens
A linguagem em nuvem fala frequentemente de julgamentos divinos
históricos. Por exemplo, Isaías 19:1a adverte: “Um oráculo sobre o Egito:
Eis que o SENHOR cavalga sobre uma nuvem veloz e vem para o Egito”
([...] Joel 2:1, 2 Naum 1:2-3, Sofonias 1:14,15).
Isso fala do rei assírio
Esarhaddon [ou Assaradon] conquistando o Egito no ano 671 a.C.
Como observa Young:
“A cena não sugere necessariamente que o Senhor vem do Templo em
Jerusalém e nem do céu, mas apenas que Ele vem como juiz” (Isaías
2:14), isto é, providencialmente, não pessoalmente.
Curiosamente, João segue Jesus ao fundir Zacarias 12:10 e Daniel 7:13.
Como João, Jesus menciona a “vinda sobre as nuvens” (Mateus 24:29-
30) contra Israel (Mateus 23:36; 24:2, 16). E, como João, Jesus vincula os
acontecimentos ao futuro próximo: “todas estas coisas virão sobre esta
geração” (Mateus 24:34).
Aqueles que Crucificaram Cristo
O julgamento de Cristo é contra: “aqueles que o traspassaram”. Jesus
culpa os judeus pela Sua morte: “Cristo começou a mostrar a Seus
discípulos que Ele devia ir a Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos,
dos principais sacerdotes e dos escribas, e Ser morto” (Mateus 16:21,
Mateus 20:18-19, 21:33-43, Marcos 8:31, Lucas 9:22). Os apóstolos
também lançam a culpa da aliança pela Sua crucificação sobre Israel:
“Seja conhecido de vós todos, e de todo o povo de Israel, que em nome de
Jesus Cristo, o Nazareno, aquele a quem vós crucificastes” (Atos 4:10a,
compare com João 19:5-15; Atos 2:22, 23, 36; 3:14, 15; 4:8-10; 5:30;
10:39; 1ª Tessalonicenses 2:14-16). Apocalipse 1:7 deve referir-se ao
primeiro século em que aqueles que “o traspassaram” estão agora há
muito tempo mortos.
As Tribos da Terra
Este julgamento traz lamentação sobre “todas as tribos da terra”
(Apocalipse 1:7, Interlinear de Marshall). Essas “tribos” (phyle, [no
grego]) devem ser as tribos de Israel (Mateus 19:28, Lucas 22:30). TDNT
observa que a Septuaginta, “com poucas exceções. . . tem phyle, de modo
que este se tornou um termo fixo para o sistema tribal de Israel” (9:246).
O Apocalipse menciona claramente aqueles judeus que foram salvos das “tribos” de Israel (Apocalipse 7:4-8, compare com 21:12); João coloca
estes sobre outras “tribos e povos” além de Israel (Apocalipse 7:9,
compare com Apocalipse 11:9).
Além disso, João associa essas “tribos” à “terra” (tes ges, [no grego]),
a bem conhecida Terra Prometida (Lucas 21:23). Como observa
Edersheim:
“A Palestina era para os rabinos simplesmente “a terra”, todos os
outros países são resumidos sob a designação de fora da terra”.*
Na verdade, o Antigo Testamento menciona “as tribos” e “a terra” em
numerosas instâncias (Gênesis 49:16, Números 26:55, Josué 14:1, 19:51,
Ezequiel 45:8, 48:29).
Nas sete cartas, João menciona especificamente a deserção dos judeus
em relação a Deus. Ele até informa às igrejas que Cristo as vindicará
julgando os judeus:
• “Conheço as tuas obras, e tribulação, e pobreza (mas tu és rico), e a
blasfêmia dos que se dizem judeus, e não o são, mas são a sinagoga de
Satanás”.
(Apocalipse 2:9)
• “Eis que eu farei aos da sinagoga de Satanás, aos que se dizem judeus,
e não são, mas mentem: eis que eu farei que venham, e adorem
prostrados a teus pés, e saibam que eu te amo”.
(Apocalipse 3:9)
Certamente esta humilhação dos judeus estava na vida dos destinatários
do Apocalipse – no ano 70 d.C., quando os judeus foram “expulsos”
(Mateus 8:10-12) e o reino foi dado aos gentios (Mateus 21:40-43).
O Templo e a Cidade Santa
O Apocalipse menciona expressamente a destruição do templo, e com
linguagem extraída do Discurso do Monte das Oliveiras.
“Jerusalém será pisada pelos gentios até que os tempos dos gentios
sejam cumpridos”.
(Lucas 21:24b)
“E deixa o átrio que está fora do templo, e não o meças; porque foi
dado às nações, e pisarão a cidade santa por quarenta e dois meses”.
(Apocalipse 11:2)
Observe que ambas as passagens nos informam que a “cidade santa”
(“Jerusalém”) será “pisada” pelos “gentios”. E ambas [as passagens]
aparecem em profecias confinadas ao curto prazo (Apocalipse 1:1, 3;
22:6, 10; Lucas 21, 31-32). Evidentemente, esses textos estão se referindo
aos mesmos eventos, com João derivando sua sugestão do discurso de
Cristo sobre o ano 70 d.C. (Lucas 21:6-7).
Curiosamente, o tempo do engajamento imperial formal da Guerra
Judaica até a destruição do templo foi de quarenta e dois meses. De acordo
com Bruce, após a insurreição judaica inicial no ano 66 d.C., Vespasiano
“chegou na primavera seguinte [67 D.C.] para se encarregar das
operações... Tito iniciou o cerco de Jerusalém em abril do ano 70 d.C. Os
defensores aguentaram desesperadamente por cinco meses, mas no final
de agosto, a área do Templo foi ocupada e a casa sagrada queimou, e no
final de setembro toda a resistência na cidade tinha chegado ao fim”. Da
primavera do ano 67 ao ano 70 d.C., cobre um período de quarenta e dois
meses. Esta é uma correspondência notável que se encaixa relevantemente
com todos os outros dados.
No original o autor usou Alfred Marshall, The Interlinear Greek-English NT; cp. Robert Young,
Literal Translation.
* Preterism Justifications (3). by Kenneth L. Gentry, Jr.,
Site: www.postmillennialismtoday.com
Extraído:O Apocalipse
já Aconteceu? Título original: Is Revelation Past? Kenneth L. Gentry, Jr. Tradução e adaptação textual por
César Francisco Raymundo
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