É comum encontrarmos a
afirmação de que os puritanos não comemoravam o natal. Esta afirmação tem sido
utilizada tanto por aqueles que são a favor quanto aqueles que são contrários à
celebração natalina em nossos dias. De fato, os puritanos rejeitaram a Liturgia
Anual católico-anglicana por causa dos muitos dias santos e as cerimônias a
eles relacionadas. Os anglicanos mantiveram o círculo cristológico[1] de dias
santos (com exceção das festas de Maria) e cerimônias, baseados na tradição da
Igreja. Na visão dos puritanos, Cristo era diminuído de sua glória por causa da
veneração destes dias, e até os dias de festa como o Natal e a Páscoa não foram
mantidos por eles. Para alguns autores, isto significou um afastamento da
tradição reformada em relação às festas do Ano Cristão.[2] Teriam os puritanos
se afastado da tradição reformada? Quais eram as razões deles para abandonar a
celebração do Natal? Este breve artigo pretende contribuir para a resposta a
estas questões e fazer algumas considerações importantes para o correto
entendimento desta atitude puritana.
Em primeiro lugar, os dias
de festa ou dias santos eram, em sua maioria, comemorados de um modo mundano,
semelhante a festas pagãs.[3] O puritano George Gillespie (1613-1648) afirmou
que o Natal, em vez de estabelecer “uma grata comemoração dos benefícios inestimáveis
de Deus”, servia mais à “lascívia bacanalista do que a lembrança do nascimento
de Cristo”.[4] Ele traz uma citação do puritano William Perkins (1558-1602)
afirmando que o Natal na Inglaterra não era gasto no louvor a Deus, mas em
“jogos de dados e de cartas, teatros, mímicas, com toda a liberdade licenciosa,
em sua maior parte, como se fosse uma festa pagã de Baco”.[5] Nicholas Bownde
(-1613), considerado o maior expoente do pensamento puritano sobre o Sábado
cristão, ao criticar a maneira como os anglicanos guardavam os dias santos
afirmou: “quando eles deveriam manter a mais devota lembrança do nascimento e
encarnação de Cristo eles celebram a festa do deus bêbado Baco”.[6] Além do
mundanismo, a celebração do Natal também estava impregnada de superstição e
idolatria. Alguém poderia argumentar que os puritanos deveriam apenas ter
evitado todo paganismo e idolatria e fazer suas comemorações de modo correto e
santo, como muitos cristãos fazem hoje. A questão era um pouco diferente no
tempo dos puritanos em que política e religião, vida civil e religiosa ainda
eram misturadas na Inglaterra. O Natal era uma festa religiosa de uma nação
cristã, promovida pela Igreja, a qual era liderada pelo rei. Para eliminar o
abuso da festa do Natal, os puritanos omitiram o uso, pois certamente
concordariam com Calvino de “quão difícil é convencer o mundo de que Deus
desaprova todos os modos de culto que não sejam expressamente sancionados pela
Sua Palavra”.[7] Os homens costumam se apegar a certas práticas que têm alguma
aparência de zelo, justificadas pela boa intenção, mas os puritanos sabiam que
tudo isto era vão se não fosse ordenado por Deus. Como disse Gillespie, “menos
cerimônias melhor, sabendo que as mentes das pessoas são seduzidas e distraídas
dos deveres espirituais e interiores por causa delas”.[8] De igual modo, o
puritano Richard Greenham (1535-1594) afirmou: “Quanto mais cerimônias, menos
verdade”.[9] O fato é que os puritanos lutavam incansavelmente contra o
mundanismo, a superstição e a idolatria, buscando a pureza na doutrina e culto
da Igreja. Eles desejavam que a Igreja retornasse à simplicidade e singeleza da
Igreja Primitiva.
Em segundo lugar, estes dias
de festa com seus inúmeros ritos eram impostos, sob sanção, pela Igreja da
Inglaterra para serem guardados santos de modo semelhante ao Sábado cristão
(Dia do Senhor). Os ministros eram obrigados a celebrar a festa conforme a
liturgia estabelecida, a qual, segundo os puritanos, estava cheia de coisas
contrárias à Escritura. Os puritanos, então, questionavam a autoridade da
Igreja ou do Governo Civil para impor aos crentes a guarda de dias santos.
Calvinistas em sua teologia, eles tinham um senso claro da autoridade e
supremacia da Escritura sobre todas as coisas, inclusive sobre autoridades civis
e religiosas. Eles estavam certos de que a liberdade que Cristo, sob o
Evangelho, comprou para os crentes, dá a eles o “livre acesso a Deus, em lhe
prestarem obediência, não movidos de um medo servil, mas de amor filial e de
espírito voluntário”.[10] Com base nestes privilégios que Cristo concedeu aos
cristãos, os teólogos de Westminster formularam que:
Só Deus é Senhor da
consciência, e a deixou livre das doutrinas e mandamentos humanos que, em
qualquer coisa, sejam contrários à sua Palavra, ou que, em matéria de fé ou de
culto, estejam fora dela. Assim, crer em tais doutrinas ou obedecer a tais
mandamentos, por motivo de consciência, é trair a verdadeira liberdade de
consciência; e requerer para eles fé implícita e obediência cega e absoluta, é
destruir a liberdade de consciência e a própria razão.[11]
Os puritanos se opuseram à
comemoração do dia do Natal, não por uma questão de preferência pessoal ou
porque eram insubordinados, mas porque não estavam dispostos a violar sua
liberdade cristã e agir contra sua consciência, se submetendo a uma tradição
que estava impregnada de superstição e idolatria.
Em terceiro lugar, as
igrejas reformadas que mantiveram a celebração de dias como Natal e Páscoa, o
fizeram com base na liberdade cristã do Evangelho, não com base na contribuição
para a salvação (como era o caso dos dias de festas católicos) ou da obrigação
(como era o caso dos anglicanos). A Segunda Confissão Helvética, por exemplo,
aprovou os dias santos com o fim de lembrar e comemorar os eventos relacionados
à obra que Cristo realizou para a salvação dos cristãos, desde que feitos sob a
liberdade cristã e que não fossem em honra de homens ou de santos.[12] O
entendimento reformado era que a Igreja não estava obrigada a manter dias
santos, mas era livre para reunir nestes dias para lembrar o que Cristo fez por
ela. Gillespie disse que os defensores dos dias santos utilizavam exemplos de
outras igrejas reformadas e reformadores que mantiveram estes dias. A isto ele
dizia que também tinha em seu favor exemplo de igrejas reformadas que aboliram
os dias santos. Ele cita a igreja em Genebra, em Estrasburgo, em Zurique e na
Escócia, além de reformadores como Lutero e Calvino.[13] Ou seja, o que era
comum no pensamento reformado é que a Igreja era livre para comemorar ou não
estes dias.
Em quarto lugar, a rejeição
puritana do Natal e demais dias santos era consequência da aplicação
consistente do Princípio Regulador do Culto. A Reforma Protestante foi uma
resposta aos diversos acréscimos ao culto feitos pela Igreja Romana, e os
puritanos lutaram contra estes acréscimos ainda mantidos pela Igreja Anglicana.
Eles sustentavam unanimemente o Princípio Regulador do Culto afirmando que, no
culto a Deus, tudo que não for ordenado pela Escritura, é proibido. O puritano
John Hooper (c.1495-1555) disse que “Não há nada a se fazer na Igreja que não
seja ordenado na Palavra de Deus, seja expressamente ou por conclusão
necessária”.[14] De modo semelhante, o puritano Jeremiah Burroughs (1600-1643)
afirmava que aquelas coisas no culto que têm significado religioso devem ter um
comando direto ou claramente deduzido da Escritura. “Deve ser Ordenado. Não é
suficiente que seja não proibido”.[15] William Ames (1576-1633), John Owen
(1616-1683), Thomas Watson (1620-1686), Matthew Henry (1662-1714) e tantos
outros puritanos estavam de acordo que o culto agradável a Deus e os meios
corretos de realizá-lo devem ser ordenados pela Escritura, sendo proibidos
todos os modos concebidos pelo homem, ou mesmo pela Igreja.[16] Os puritanos
formularam confessionalmente este Princípio na Confissão de Fé de Westminster:
[...] Mas o modo aceitável
de cultuar o verdadeiro Deus é instituído por ele mesmo, e tão limitado por sua
própria vontade revelada que, ele não pode ser adorado segundo as imaginações e
invenções dos homens, ou sugestões de Satanás, nem sob qualquer representação
visível, ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras.[17]
Os puritanos não encontravam
na Escritura mandamento para a manutenção de dias santos e suas muitas cerimônias.
No Diretório de Culto de Westminster eles afirmaram que “Na Bíblia não há
nenhum Dia que seja ordenado para ser guardado como santo sob o Evangelho,
senão o dia do Senhor, que é o Sábado Cristão. Os dias de festa, comumente
chamados de dias Santos, não tendo base na Palavra de Deus, não devem ser
continuados”.[18] De acordo com o Princípio Regulador do Culto, os puritanos
entendiam que estavam errados aqueles que guardavam o dia para celebrar o
Natal.
Em quinto lugar, uma vez que
o Dia do Senhor era o único dia ordenado na Escritura para ser guardado santo,
os puritanos celebravam neste dia todas as comemorações cristãs. Ou seja, pela
liberdade cristã defendida na Reforma, os puritanos celebravam, unicamente no
Dia do Senhor, as obras de Deus na criação juntamente com as obras da redenção
(nascimento, vida, sofrimento, morte, ressurreição e ascensão de Jesus). Eles
sabiam o quanto esta comemoração era preciosa e sublime, apenas não viam
necessidade nem mandamento bíblico para se comemorar estes eventos
separadamente em outros dias que não fosse o Dia do Senhor. Gillespie (como os
demais puritanos) entendia que a comemoração de dias santos não era um meio
necessário e indispensável para a conservação da comemoração dos benefícios da
redenção, “porque temos ocasião, não só todos os sábados, mas todos os dias,
para chamar a atenção para estes benefícios, quer na audição ou leitura, ou
meditando sobre a Palavra de Deus”.[19] Greenham, em seu tratado sobre o
Sábado, ao incentivar o zelo na guarda do Dia do Senhor, pergunta: “Não nos
ensina o dia de hoje [Dia do Senhor] os benefícios do nascimento de Cristo, o
lucro de sua paixão, o fruto da sua ressurreição, a glória de sua ascensão e a
alegria da vinda do Espírito Santo?”.[20] Após denunciar a superstição, uso
comercial e abusos nos diversos dias santos, Greenham afirmou: “Nosso dia de
Páscoa, nosso dia de Ascensão, nosso domingo de Pentecostes é todo Dia do
Senhor”.[21] Gillespie diz que o próprio
Lutero “desejou que não houvesse dias de festa entre os cristãos, mas o Dia do
Senhor”.[22] De fato Lutero afirmou isto: “Dever-se-iam abolir todas as festas
e manter somente o domingo”.[23] Portanto, os puritanos comemoravam sim o
Natal, e o faziam todo Dia do Senhor.
Do que foi exposto, pode-se
concluir resumindo a questão da seguinte forma:
1) Os puritanos não se
afastaram da tradição reformada, uma vez que, o que era comum no pensamento
reformado era a liberdade da Igreja para manter ou não um dia separado para
comemorar o Natal, desde que sem mundanismo e idolatria. Os puritanos, no uso
desta liberdade, optaram por não manter.
2) Eles tinham, pelo menos,
três razões: a) o excesso de mundanismo, superstição e idolatria; b) a
obrigatoriedade imposta pela Igreja em cumprir o rito de acordo com a liturgia
estabelecida e com ameaças ao não cumprimento, o que feria a liberdade cristã;
c) a falta de amparo bíblico para o estabelecimento de qualquer dia santo que
não fosse o Dia do Senhor.
3) Os puritanos não eram
contra a piedosa comemoração da encarnação de Cristo, mas ao estabelecimento de
um dia para este fim. Eles festejavam as boas novas do Natal, porém o faziam
apenas aos domingos, o Dia do Senhor.
Autor: Edson Marques
[1] Incluía os eventos da vida de Cristo relacionados à obra redentora, da Encarnação ao Pentecoste.
[2] HYDE, Daniel R. Lutheran Puritanism? Adiaphora in Lutheran orthodoxy and possible commonalities in reformed orthodoxy. American Theologial Inquiry, 2:1 (January 2009), p. 61-83; DAVIES, The worship of the english puritans. Morgan: Soli Deo Gloria, 1997, p. 37-47;GORE, The pursuit of plainness: Rethinking the puritan regulative principle of worship.Glenside: Westminster Theological Seminary 1988, p. 197-198.
[3] Lutero já havia mostrado em sua época a insatisfação com os dias de festa porque eles eram gastos em abusos, bebedeiras, jogos, ócio e toda sorte de pecados, de modo que Deus era mais encolerizado nos dias santos do que nos outros dias (LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas, Vol 1-7, Editora Sinodal e Concórdia Editora, 1987, p. 316-317).
[4] GILLESPIE, George. A dispute against english popish ceremonies. Leiden: W. Christiaens, 1637, p. 458.
[5] Ibid., p. 212. Baco é o nome romano do deus grego Dionísio, o deus do vinho.
[6] Apud. DAVIES. Worship and theology in England, vol. II. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Pub. Co., 1996, p. 243.
[7] CALVINO. The Necessity of Reformation of Church (1543). Protestant Heritage Press, 1995, p. 4 (minha tradução).
[8] GILLESPIE, George. A treatise of miscellany questions: Of uniformity in religion, worship of God, and church government, Chap XV, Edinburgh: George Swintoun, 1649. Disponível em: http://www.covenanter.org/reformed/2016/6/8/of-uniformity-in-religion-worship-of-god-and-church-government?rq=of%20uniformity%20in%20religion. Acessado em: 22/10/2016.
[9] Apud. RYKEN, Leland. Santos no mundo: os puritanos como realmente eram. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2013, p. 209.
[10] Confissão de Fé de Westminster, XX.I. São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 106.
[11] Confissão de Fé de Westminster, XX.II, p. 163.
[12] Segunda Confissão Helvética, Cap. 24, disponível em:http://www.monergismo.com/textos/credos/seg-confissao-helvetica.pdf.
[13] GILLESPIE, A dispute against english popish ceremonies, p. 135.
[14] Apud. MURRAYM Ian. As Escrituras e as coisas indiferentes: um problema central na controvérsia puritana. Recife, PE: Ed. Os Puritanos, 2012, p. 17
[15] BURROUGHS, Jeremiah. Gospel worship. Grand Rapids: Soli Deo Gloria, 1990, p. 10.
[16] AMES, William. The Marrow of Theology (London: 1639), p. 211; OWEN, John. A brief instruction in the worship, p. 9; WATSON, Thomas. A fé cristã – estudos no breve catecismo, p. 23; HENRY, Matthew. Atos a Apocalipse (Rm 12.1), p. 385
[17] Confissão de Fé de Westminster, XXI.I, p. 168.
[18] Diretório de Culto de Westminster. São Paulo: Editora Os Puritanos, 2000, p. 66.
[19] GILLESPIE, op. cit., p. 120.
[20] GREENHAM, Richard. The works of the reverend and faithful servant of Jesus Christ M. Richard Greenham, London: William Welby, 1612, p. 169. Disponível em:http://quod.lib.umich.edu/cgi/t/text/text-idx?c=eebo;idno=A02178.0001.001. Consultado em: 22/10/2016.
[21] Ibid., p. 587.
[22] GILLESPIE, op. cit., p. 136.
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