Os cristãos não necessitam
vindicar os dogmas cristãos e os remover da suspeita secular submetendo-os a
critérios restritivos e enquadrando-os nas concepções rivais imperiosamente
asseveradas por neo-kantianos, positivistas lógicos, existencialistas ou outros.
Sancionar a “credibilidade” da investigação cristã, exibindo em primeiro lugar
sua compatibilidade com teorias estranhas, significa apenas mercadejar a
singularidade do cristianismo. Damos a kantianos e positivistas liberdade para
a enunciação de suas suposições; de fato, estamos ávidos para ouvir o que
dizem. De modo similar, os cristãos devem apresentar sua distintiva maneira de
ver a verdade, que engloba o Deus que cria e ilumina nossos mecanismos
formadores de crença. Os cristãos não devem sentir compulsão alguma para afinar
sua epistemologia teística transcendente para coincidir com as preferências de
filósofos hostis.
O intelectual estará
totalmente nos limites da legitimidade filosófica e teológica caso creia na
existência de Deus e assevere sua existência mesmo na ausência de prova
empírica. Não existe base racional para restringir as proposições críveis só às
que envolvem evidências do tipo que impressionam em especial os físicos ou
antropólogos. A propriedade epistêmica da crença em Deus independe de
considerações empíricas ou comprobatórias de suporte.
Por toda a sua longa
história, a filosofia sempre reconheceu a legitimidade de, sem prova, admitir a
hipótese de um axioma filosófico ou princípio postulatório como base inicial de
raciocínio. Demócrito jamais demonstrou que a substância consiste em partículas
indivisíveis e imperceptivelmente pequenas; ele postulou a premissa e tentou
explicar toda a existência de modo consistente em seus termos. Platão nunca
demonstrou a existência independente do mundo invisível das Ideias Eternas; ele
arrazoou que a existência inferior nelas participa ou as espelha. Ademais, é provável
que ele teria rejeitado como sofista e não merecedor de atenção quem, na
ausência de provas empíricas da existência das Ideias Eternas, privasse-o de
ser ouvido.
Ao tentar explanar o todo da
realidade e da vida, a história da filosofia em grande medida gira em torno de
princípios explanatórios abrangentes postulados por uma sucessão de filósofos.
As teorias seculares que emulam o teísmo cristão são divergentes e instáveis.
Muitas são incoerentes em sentido autorreferencial. Sequer conseguem satisfazer
aos padrões ou testes epistêmicos propostos pelos promotores para distinguir a
verdade da falsidade; ou seja, nem mesmo podem justificar os próprios
princípios básicos pelos critérios especificados. Suas especulações acerca da
verdade e sua verificação não devem ser consideradas autorizadas de forma
autoevidente; elas apenas gozam de aceitação convencional.
[ O Resgate da Fé Cristã / Carl F. H. Henry, pág 31 ]
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