
1. A “salvação” mencionada no texto não se refere aos simples benefícios distributivos da graça comum de Deus. O
contexto sugere a tradução de ζῶντι e σωτὴρ em termos soteriológicos, porém em conexão com a vindicação futura
(i.e. escatologia) dessa salvação: “porque tem promessa da vida presente e da futura.” (v.8)
2. A salvação não é apresentada apenas como “potencial” ou algo contingencial (dependente da resposta de outrem),
pois não há elementos condicionantes no texto que apontem para esta hipótese: particípios condicionantes, sentenças
condicionais etc. Apenas diz que ele é de fato “o Salvador”.
3. É dito que Deus é o “Salvador de todos os homens, especialmente dos fiéis.” – por conseguinte, a
questão do texto aponta simplesmente para salvação concreta (não apenas “provável” ou “contingencial”).
Como visto acima, uma salvação com implicações para a eternidade dos indivíduos.
4. Pelas razões supracitadas (i.e. “salvação” - no sentido soteriológico, salvação real – não apenas “provável”),
universalistas entendem que essa é a leitura mais natural por causa destes fatores (e.g. Leonhard Goppelt). Entretanto,
uma consideração sobre a relação entre “todos os homens” e “fieis” é algo importante. Vejamos:
5.1. Os “fieis” não pode ser a restrição acerca de um pequeno grupo dentre “todos os homens”, pois isso incluiria a
ideia de salvação meramente “potencial” (i.e. se o homem aceitar, se ele querer etc.) que não está presente por
nenhum elemento condicionante no texto; além disso, a ideia de salvação como “graça comum” em distinção da
“graça especial” é algo ausente no texto, mas com provas contextuais mais soteriológicas como vimos acima.
5.2. Os “fiéis” – o πιστῶν é um adjetivo genitivo que permite naturalmente ser traduzido como “dos que creem” ou
“dos crentes”.
5.3. O advérbio grego para “especialmente” é μάλιστα. Esse advérbio pode expressar geralmente uma ideia de um
grupo menor (o segundo mencionado) como pertencendo ao primeiro (e.g At 26.3; Gl 6:10; 2 Pe 2:10). É possível
que o uso comum desta palavra não se aplique em 1 Tm 4:10, mas “isto é” – “ou seja” ainda pode ser a melhor
tradução.
As razões:
1) “Ora, se alguém não tem cuidado dos SEUS e especialmente dos da PRÓPRIA CASA, tem negado a fé e é
pior do que o descrente” (1 Tm 5.8. Os “seus” é sinônimo para a “família” ou os da “própria casa” (cf. At
16.33).
2) “Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com
especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino” (1 Tm 5.17). Os presbíteros que “presidem bem”
são exatamente os que se “afadigam na palavra e no ensino”, pois, para Paulo, o empenho na doutrina e
ensino não era algo poderia estar presente num presbítero e não noutro. Pelo contrário, eram requisitos
necessários para alguém ser um presbítero: “apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que
tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem” (Tt 1:9).
3) Estudos recentes sobre “μάλιστα” evidenciam essa questão de forma mais clara. T.C. Skeat desenvolve bem
esse tema ao analisar vários exemplos do Novo, incluindo o caso de 2 Tm 4.13: “Quando vieres, traze a
capa que deixei em Trôade, em casa de Carpo, bem como os livros, especialmente os pergaminhos.” Além
do papiro, os livros também eram confeccionados em forma de “pergaminhos” (i.e. couro de animal). As
condições que Paulo estava naquele momento exigiam que ele precisasse não apenas de livros, mas de
livros resistentes a viagem e às condições climáticas daquela altura.
4) Outros estudiosos também encontram grande suporte neste uso de “μάλιστα”. George Knight III, I. Howard
Marshall e William Mounce estão entre os estudiosos que defendem este uso em 1 Tm 4:10; 5.8, 17; Tt
1:10 et al. Embora George Knight III demonstre alguma indecisão sobre a proposta de Skeat em 2 Tm 4:13,
porém, afirma que “isto é” ainda é a melhor interpretação para μάλιστα neste texto (1 Tm 4.10)
- Finalmente, essas ponderações nos mostram que é bem possível que a tradução correta do texto é “Se
trabalhamos e lutamos é porque temos colocado a nossa esperança no Deus vivo, o Salvador de todos os
homens, isto é, dos crentes."
Bibliografia para a sua consulta:
- The Pastoral Epistles: George W. Knight III
-The Pastoral Epistles (International Critical Commentary): I. Howard Marshall
-Pastoral Epistles: William D. Mounce
-T. C. Skeat, '''Especially the Parchments'': A Note on 2 Timothy IV.13',. JTS, NS, 30 (1979)
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