INSPIRAÇÃO --APRESENTAÇÃO BÍBLICA - J. I. Packer

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A idéia da Escritura canônica (isto é, de um documento ou 'corpus' de documentos contendo um registro permanente e autoritário da revelação divina) remonta aos escritos de Moisés sobre a lei de Deus no deserto (Êx 34.27,28; Dt 31.9,10,24,25). A verdade de todas as declarações — históricas ou teológicas — que as Escrituras fazem e sua autoridade como palavras de Deus são aceitas sem questionamentos ou discussões em ambos os Testamentos. O cânon aumentou, mas o conceito de inspiração, o qual pressupõe a idéia de canonicidade, foi plenamente desenvolvido desde o início e é imutável ao longo das Sagradas Escrituras. Como apresentado na Bíblia, compreende duas convicções:

1. As palavras da Escritura são as próprias palavras de Deus.
Passagens do Antigo Testamento identificam a lei mosaica e as palavras dos profetas, tanto faladas quanto escritas, com o discurso do próprio Deus (cf. 1 Rs 22.8-16; Ne 8; SI 119; Jr 25.1-13; 36 etc.). Os escritores do Novo Testamento viam todo o Antigo Testamento como "os oráculos de Deus" (Rm 3.2, ARA), como profético em essência (Rm 16.26; cf. Rm 1.2; 3.21), como havendo sido escrito por homens que foram movidos e ensinados pelo Espírito Santo (2 Pe 1.20; cf. 1 Pe 1.10-12). Jesus e seus apóstolos citaram textos do Antigo Testamento não meramente como aquilo que homens como Moisés, Davi ou Isaías disseram (vide Mc 7.6,10; 12.36; Rm 10.5,20; 11.9), mas também como o que Deus disse através desses homens
(vide At 4.25; 28.25) ou, às vezes, simplesmente como o que "Ele" (Deus) diz (1 Co 6.16; Hb 8.5,8), ou o que o Espírito Santo diz (Hb 3.7; 10.15). Além disso, as declarações do Antigo Testamento que em seus contextos não foram feitas por Deus, são citadas como expressões vocais divinas (Mt 19.4,5; Hb 3.7; At 13.34, citando Gn 2.24; SI 95.7; Is 55.2, respectivamente). Paulo também identifica a promessa de Deus a Abraão e sua ameaça a Faraó, ambas faladas muito tempo antes que fosse feito o registro bíblico desses fatos, com as palavras que a Escritura falou a esses dois homens (G1 3.8; Rm 9.17), o que mostra o quão completamente se igualaram as declarações das Escrituras com a expressão vocal de Deus.

2. A parte dos homens na produção das Escrituras foi meramente transmitir o que haviam recebido.
Psicologicamente, do ponto de vista da forma, é evidente que os escritores humanos contribuíram em muito para o feitio das Escrituras — pesquisa histórica, meditação teológica, estilo lingüístico etc. Cada livro bíblico é, em certo sentido, a criação literária do seu autor. Mas, teologicamente falando, do ponto de vista do conteúdo, a Bíblia considera que os escritores humanos não contribuíram em nada para sua composição e que a Escritura é de inteira criação de Deus. Essa convicção está enraizada na autoconsciência dos fundadores da religião biblica, os quais todos reivindicaram proferir — e, no caso dos profetas e apóstolos, escrever — o que, no sentido mais literal, eram as palavras de outra pessoa: o próprio Deus. Os profetas (entre os quais Moisés deve ser incluído: Dt 18.15; I I 10) professaram que falaram as palavras do Senhor, colocando diante de Israel o que o Senhor lhes havia mostrado Jr 1.7; Ez 2.7; Am 3.7). Jesus de Nazaré declarou ter falado as palavras que lhe foram dadas pelo Pai (Jo 7.16; 12.49). Os apóstolos ensinaram e deram ordens em nome de Jesus (2 Ts 2.13), reivindicando assim sua autoridade e sanção (1 Co 14.37), e afirmaram que não só o assunto, mas também as palavras que diziam haver sido ensinadas pelo Espírito de Deus (1 Co 2.9-13; cf. as promessas de Jesus em Jo 14.26; 15.26,27; 16.13,14).
Essas são reivindicações em favor da inspiração. A luz dessas reivindicações, a avaliação dos escritos proféticos e apostólicos como a completa Palavra de Deus, exatamente da mesma maneira em que as duas tábuas da Lei, "escritas pelo dedo de Deus" (Êx 31.18; cf. Êx 24.12; 32.16), eram a completa palavra de Deus, naturalmente tornou-se parte da fé bíblica. Jesus e os apóstolos dão grande destaque ao fato da inspiração ao se valerem da autoridade do Antigo Testamento. Na verdade, consideram as Escrituras judaicas como a Bí­blia cristã: um conjunto de escritos literários dando testemunho profético de Cristo (Lc 24.25,44; Jo 5.39; 2 Co 3.14,15) e designado por Deus para a instrução dos crentes (Rm 15.4; 1 Co 10.11; 2 Tm 3.14,15; cf. a explicação do SI 95.7-11 em Hb 3—4, e, de fato, a totalidade do livro de Hebreus, no qual cada ponto importante é feito pela recorrência a textos do Antigo Testamento). Jesus insistiu que o que foi escrito no Antigo Testamento não pode ser anulado (Jo 10.35). Ele não veio, conforme disse aos judeus, para ab-rogar a Lei ou os Profetas (Mt 5.17). Se pensavam que Ele estava fazendo isso, enganavam-se. Jesus veio para fazer o oposto — prestar testemunho à autoridade divina da Lei e dos Profetas ao cumpri-los. A Lei permanece para sempre, porque é a palavra de Deus (Mt 5.18; Lc 16.17); as profecias, particularmente aquelas que dizem respeito a Ele, devem ser cumpridas pela mesma razão (Mt 26.54; Lc 22.37; cf. Mc 8.31; Lc 18.31). Para Jesus e seus apóstolos, a evocação das Escrituras era sempre decisiva (cf. Mt 4.4,7,10; Rm 12.19; 1 Pe 1.16). A liberdade com a qual os escritores do Novo Testamento
citam o Antigo Testamento (seguindo a Septuaginta, os targuns ou uma tradução livre do hebraico, como melhor lhes convinha) é considerada prova de que eles não acreditavam na inspiração das palavras originais. Mas seu interesse não estava nas palavras como tais, mas em seu significado. Além disso, estudos recentes têm comprovado que essas citações são interpretativas e explicativas — uma maneira de citação muito comum usada entre os judeus. Nesse método, os escritores procuram mostrar o verdadeiro significado c aplicação (isto é, o significado e aplicação cristãos) do texto pela forma como o citam. Na maioria das vezes, esse significado é alcançado de maneira óbvia pela aplicação estrita dos princípios teológicos bem definidos acerca da relação de jesus e a Igreja com o Antigo Testamento".


(A Origem da Bíblia -- Editor Philip Wesley Comfort, Ed. CPAD)

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