A Diferença entre Autógrafos Originais e Textos Originais - Michael J. Kruger

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Se você está procurando por uma maneira de criticar a autoridade das Escrituras, existem aparentemente opções sem fim. Existem críticas históricas (e.g muitos destes livros são forjados). Existem críticas lógicas (e.g os Evangelhos se contradizem). Existem críticas morais (e.g Deus é imoral por ordenar o abate de uma cidade inteira). E existem críticas hermenêuticas (e.g ninguém pode concordar sobre o que a Bíblia significa).

Contudo em anos recentes, um desafio mais fundamental tem surgido. Todas as críticas acima são essencialmente as mesmas; todas elas argumentam que as palavras da Bíblia não são verdadeiras. Mas este desafio mais novo e mais fundamental não é sobre se a Bíblia é verdadeira, mas se temos as palavras da Bíblia.
No âmago deste desafio está o fato de que só temos cópias manuscritas desses livros que amamos. E, na realidade, só temos cópias das cópias das cópias. E dado que os escribas cometeram erros, e que o processo de transmissão foi imperfeito, como podemos ter certeza de que estes textos têm sido preservados? Como podemos ter certeza de que na verdade temos as palavras das Escrituras?

O livro best-seller de Bart Ehrman, Misquoting Jesus, foca sobre estes assuntos no que diz respeito ao texto do Novo Testamento:

“Quão bom é dizer que os autógrafos (i.e os originais) foram inspirados? Não temos os originais! Só temos cópias erradas, e a vasta maioria destes manuscritos estão distantes dos originais e diferem deles... de milhares maneiras”.

Se Ehrman está correto, então ele descobriu o único fio que poderia desfiar todo o vestuário da fé Cristã. Não há necessidade de criticar o conteúdo do Novo Testamento se não temos nem mesmo o Novo Testamento.
Mas este argumento é convincente? Eu penso que não. Há dois lugares que podem ser objetado:
(1) o papel dos autógrafos e (2) o grau de corrupção nos manuscritos existentes.

O Papel dos Autógrafos

O foco de Ehrman sobre os autógrafos (ou a ausência deles) não é incomum na crítica moderna da autoridade bíblica. No entanto, esse tipo de argumento frequentemente cria a impressão (mesmo que não seja intencional) de que os autógrafos são o texto original – quase como se o texto original fosse um objeto físico que tem estado perdido.

Mas o texto original não é um objeto físico. Os autógrafos contem o texto original, mas o texto original pode existir sem eles. Um texto pode ser preservado de vários modos. Um modo é que o texto original pode ser preservado em uma multiplicidade de manuscritos. Em outras palavras, mesmo embora um único manuscrito sobrevivente possa não conter (tudo do) texto original, o texto original poderia nos ser acessível através de um vasto alcance de manuscritos.

A preservação do texto original através de múltiplos manuscritos, contudo, só poderia acontecer se houvesse manuscritos suficientes para nos dar uma garantia de que o texto original foi preservado (em algum lugar) neles. Providencialmente, quando se trata de quantidades de manuscritos, o Novo Testamento está numa classe própria. Embora o número exato esteja sempre mudando, atualmente possuímos mais do que 5,500 manuscritos do Novo Testamento somente em grego. Nenhum outro documento da antiguidade nem mesmo chega perto.

Mesmo embora não possuamos os autógrafos, eruditos textuais reconhecem que a multiplicidade dos manuscritos nos permitem acessar o texto original. Eldon Jay Epp nota, “O ponto é que temos tantos manuscritos do NT...que certamente a leitura original em cada caso está presente em algum lugar em nosso vasto estoque de material”.
Gordon Fee concorda, “A imensa quantidade de material disponível ao crítico textual do NT...é sua melhor fortuna, pois com tanta abundancia de material pode-se estar razoavelmente certo de que o texto original é para ser encontrada em algum lugar nele”.

Claro, pode-se imaginar por que Deus escolheu preservar o texto dessa maneira. Por que não apenas preservar os autógrafos? Por que Deus não permitiu que os cristãos mantivessem os autógrafos selados em um cofre em algum lugar? Por um lado, é historicamente improvável que os autógrafos possam ter sobrevivido até o presente dia, especialmente se eles estivessem sendo usados ​​regularmente.
Mas também é possível que Deus não tenha querido que os autógrafos sobrevivam. Pode-se imaginar com que facilidade (e rapidamente) esses documentos se tornariam objetos de veneração, senão culto. Eles podem ter se tornado o equivalente ao éfode de Gideão (Juízes 8:27) - um bom presente que as pessoas começam a tratar como um ídolo.
Claro, não podemos saber com certeza por que Deus providencialmente não preservou os autógrafos. Mas, em um sentido, é apropriado. Isso nos lembra de que a Palavra de Deus, como o próprio Deus, não está vinculada a um local físico ou a um objeto físico. É uma Palavra que não está contida. É uma Palavra que vai adiante.

A Corrupção dos Manuscritos

Se, como vimos, existem bons motivos para pensar que o texto original está preservado em toda a tradição de manuscrito (em oposição a estar contido em um único manuscrito), então ainda há a questão de como identificamos o texto original. Como distinguimos o texto original de mudanças textuais ou corrupções? Isso pode ser feito?

Ehrman sugeriria que não pode. O motivo de seu ceticismo é que as cópias que possuímos estão "erradas" e contêm "milhares" de diferenças. Em outras palavras, os manuscritos estão em tão fraca forma, tão cheios de corrupções, que nenhuma metodologia poderia extrair o texto original deles.

Novamente, isso é um grande exagero. Enquanto há muitas, muitas diferenças de texto (centenas de milhares, na verdade), o principal ponto é que a grande maioria dessas mudanças dos escribas são pequenas e insignificantes - por exemplo, erros ortográficos, uso de sinônimos e mudanças na ordem das palavras. No final, estes não alteram substancialmente o significado do texto.

Claro, há mudanças textuais mais substantivas (muito menor em número) que afetam o significado do texto. Mas essas mudanças só seriam um problema se não pudéssemos identificá-las como mudanças. Ou para colocar de forma diferente, esses tipos de variantes só poderiam ser um problema, se pudéssemos assumir que cada um deles era tão viável quanto qualquer outro.
Felizmente, os estudiosos textuais podem determinar, com um grau relativo de certeza, quais dessas leituras eram originais e quais não eram. Ainda há algumas áreas cinzentas, alguns casos em que uma escolha entre variantes não é clara. Mas, em termos gerais, podemos ter confiança de que as palavras que lemos são as palavras dos autores originais.
Historicamente, as afirmações cristãs da autoridade bíblica são muitas vezes expressamente restritas aos "autógrafos". E há razões óbvias para essa visão. A autoridade bíblica não se aplica a tudo o que um escriba posterior possa escrever - aplica-se ao que os autores bíblicos realmente escreveram.
Mas a perda dos autógrafos significa que tais afirmações da autoridade bíblica não tenha sentido? Não, porque a autoridade não reside em um objeto físico, mas no texto original. E o texto original foi preservado de outra maneira, a saber, através da multiplicidade de manuscritos.


Michael J. Kruger é president do Reformed Theological Seminary do campus de Charlotte, North Carolina, onde também é professor do Novo Testamento. Ele é o autor de Canon Revisited: Establishing the Origins and Authority of the New Testament Books  (Crossway, 2012). Ele publica regularmente no blog Canon Fodder.



Tradutor: Igor Paz

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