Se
você está procurando por uma maneira de criticar a autoridade das Escrituras,
existem aparentemente opções sem fim. Existem críticas históricas (e.g muitos
destes livros são forjados). Existem críticas lógicas (e.g os Evangelhos se
contradizem). Existem críticas morais (e.g Deus é imoral por ordenar o abate de
uma cidade inteira). E existem críticas hermenêuticas (e.g ninguém pode
concordar sobre o que a Bíblia significa).
Contudo
em anos recentes, um desafio mais fundamental tem surgido. Todas as críticas acima
são essencialmente as mesmas; todas elas argumentam que as palavras da Bíblia
não são verdadeiras. Mas este desafio mais novo e mais fundamental não é sobre
se a Bíblia é verdadeira, mas se temos as palavras da Bíblia.
No
âmago deste desafio está o fato de que só temos cópias manuscritas desses
livros que amamos. E, na realidade, só temos cópias das cópias das cópias. E
dado que os escribas cometeram erros, e que o processo de transmissão foi
imperfeito, como podemos ter certeza de que estes textos têm sido preservados?
Como podemos ter certeza de que na verdade temos as palavras das Escrituras?
O
livro best-seller de Bart Ehrman, Misquoting
Jesus, foca sobre estes assuntos no que diz respeito ao texto do Novo
Testamento:
“Quão bom é dizer que
os autógrafos (i.e os originais) foram inspirados? Não temos os originais! Só temos
cópias erradas, e a vasta maioria destes manuscritos estão distantes dos
originais e diferem deles... de milhares maneiras”.
Se
Ehrman está correto, então ele descobriu o único fio que poderia desfiar todo o
vestuário da fé Cristã. Não há necessidade de criticar o conteúdo do Novo
Testamento se não temos nem mesmo o Novo Testamento.
Mas
este argumento é convincente? Eu penso que não. Há dois lugares que podem ser
objetado:
(1)
o papel dos autógrafos e (2) o grau de corrupção nos manuscritos existentes.
O Papel dos
Autógrafos
O
foco de Ehrman sobre os autógrafos (ou a ausência deles) não é incomum na
crítica moderna da autoridade bíblica. No entanto, esse tipo de argumento
frequentemente cria a impressão (mesmo que não seja intencional) de que os
autógrafos são o texto original – quase como se o texto original fosse um
objeto físico que tem estado perdido.
Mas
o texto original não é um objeto físico. Os autógrafos contem o texto original,
mas o texto original pode existir sem eles. Um texto pode ser preservado de
vários modos. Um modo é que o texto original pode ser preservado em uma
multiplicidade de manuscritos. Em outras palavras, mesmo embora um único
manuscrito sobrevivente possa não conter (tudo do) texto original, o texto
original poderia nos ser acessível através de um vasto alcance de manuscritos.
A
preservação do texto original através de múltiplos manuscritos, contudo, só
poderia acontecer se houvesse manuscritos suficientes para nos dar uma garantia
de que o texto original foi preservado (em algum lugar) neles. Providencialmente,
quando se trata de quantidades de manuscritos, o Novo Testamento está numa
classe própria. Embora o número exato esteja sempre mudando, atualmente
possuímos mais do que 5,500 manuscritos do Novo Testamento somente em grego.
Nenhum outro documento da antiguidade nem mesmo chega perto.
Mesmo
embora não possuamos os autógrafos, eruditos textuais reconhecem que a
multiplicidade dos manuscritos nos permitem acessar o texto original. Eldon Jay
Epp nota, “O ponto é que temos tantos
manuscritos do NT...que certamente a leitura original em cada caso está
presente em algum lugar em nosso vasto estoque de material”.
Gordon
Fee concorda, “A imensa quantidade de
material disponível ao crítico textual do NT...é sua melhor fortuna, pois com
tanta abundancia de material pode-se estar razoavelmente certo de que o texto
original é para ser encontrada em algum lugar nele”.
Claro,
pode-se imaginar por que Deus escolheu preservar o texto dessa maneira. Por que
não apenas preservar os autógrafos? Por que Deus não permitiu que os cristãos
mantivessem os autógrafos selados em um cofre em algum lugar? Por um lado, é
historicamente improvável que os autógrafos possam ter sobrevivido até o
presente dia, especialmente se eles estivessem sendo usados regularmente.
Mas
também é possível que Deus não tenha querido que os autógrafos sobrevivam.
Pode-se imaginar com que facilidade (e rapidamente) esses documentos se
tornariam objetos de veneração, senão culto. Eles podem ter se tornado o
equivalente ao éfode de Gideão (Juízes 8:27) - um bom presente que as pessoas
começam a tratar como um ídolo.
Claro,
não podemos saber com certeza por que Deus providencialmente não preservou os
autógrafos. Mas, em um sentido, é apropriado. Isso nos lembra de que a Palavra
de Deus, como o próprio Deus, não está vinculada a um local físico ou a um
objeto físico. É uma Palavra que não está contida. É uma Palavra que vai
adiante.
A Corrupção dos
Manuscritos
Se,
como vimos, existem bons motivos para pensar que o texto original está preservado
em toda a tradição de manuscrito (em oposição a estar contido em um único
manuscrito), então ainda há a questão de como identificamos o texto original.
Como distinguimos o texto original de mudanças textuais ou corrupções? Isso
pode ser feito?
Ehrman
sugeriria que não pode. O motivo de seu ceticismo é que as cópias que possuímos
estão "erradas" e contêm "milhares" de diferenças. Em
outras palavras, os manuscritos estão em tão fraca forma, tão cheios de
corrupções, que nenhuma metodologia poderia extrair o texto original deles.
Novamente, isso é um grande
exagero. Enquanto há muitas, muitas diferenças de texto (centenas de milhares,
na verdade), o principal ponto é que a grande maioria dessas mudanças dos
escribas são pequenas e insignificantes - por exemplo, erros ortográficos, uso
de sinônimos e mudanças na ordem das palavras. No final, estes não alteram
substancialmente o significado do texto.
Claro,
há mudanças textuais mais substantivas (muito menor em número) que afetam o
significado do texto. Mas essas mudanças só seriam um problema se não
pudéssemos identificá-las como mudanças. Ou para colocar de forma diferente,
esses tipos de variantes só poderiam ser um problema, se pudéssemos assumir que
cada um deles era tão viável quanto qualquer outro.
Felizmente,
os estudiosos textuais podem determinar, com um grau relativo de certeza, quais
dessas leituras eram originais e quais não eram. Ainda há algumas áreas
cinzentas, alguns casos em que uma escolha entre variantes não é clara. Mas, em
termos gerais, podemos ter confiança de que as palavras que lemos são as
palavras dos autores originais.
Historicamente,
as afirmações cristãs da autoridade bíblica são muitas vezes expressamente
restritas aos "autógrafos". E há razões óbvias para essa visão. A
autoridade bíblica não se aplica a tudo o que um escriba posterior possa
escrever - aplica-se ao que os autores bíblicos realmente escreveram.
Mas
a perda dos autógrafos significa que tais afirmações da autoridade bíblica não
tenha sentido? Não, porque a autoridade não reside em um objeto físico, mas no
texto original. E o texto original foi preservado de outra maneira, a saber,
através da multiplicidade de manuscritos.
Michael J. Kruger é president do Reformed Theological Seminary do campus de
Charlotte, North Carolina, onde também é professor do Novo Testamento. Ele é o autor de Canon
Revisited: Establishing the Origins and Authority of the New Testament Books (Crossway, 2012). Ele publica regularmente no blog Canon Fodder.
Fonte
original: https://www.thegospelcoalition.org/article/the-difference-between-original-autographs-and-original-texts/
Tradutor:
Igor Paz
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