
Os continuacionistas
acreditam que Deus ainda fala hoje, não somente através da palavra de Deus na
Escritura, mas também através de palavras específicas ou o que podemos
denominar de "revelações". Essas revelações podem vir de diversas
maneiras - profecia, palavras de conhecimento, palavras de sabedoria, visões,
sonhos, etc. Mas Deus ainda está se comunicando e falando hoje. Na verdade, Ele
nunca desejou nada menos do que isso.
Entretanto, o que pode ser
facilmente levantado contra os continuacionistas, de uma perspectiva mais
cessacionista, é a ideia de, que tal revelação não seria mais necessária, uma
vez que agora temos a revelação completa de Deus em Jesus Cristo. Que é,
obviamente, resumida no cânon completo das Escrituras que agora inclui o Novo
Testamento. Essa revelação é a Palavra Final e nenhuma outra revelação é
necessária.
E entendo toda essa
preocupação, especialmente observando tais doutrinas advindas da Reforma, como
a suficiência da Escritura. No entanto, penso que há uma abordagem muito
equilibrada que permite que a Escritura mantenha seu lugar tão necessário como
revelação inspirada e autoritativa escrita por Deus, enquanto mantém que Deus
ainda fala, revela e se comunica hoje.
Aqui está o que eu acredito
que precisamos reconhecer.
Eu definitivamente acredito
que não haja mais necessidade de revelação de Deus, em relação a seus
propósitos redentores em Cristo. Nunca mais! A Obra de Cristo e a revelação
sobre esta Obra - resumida em sua vida, ministério, morte e ressurreição - são
a Palavra Final sobre a revelação e os propósitos redentores de Deus. E
acredito que o Novo Testamento deixa isso muito bem claro.
No entanto, acredito que não
está fora do parâmetro de Deus continuar a se comunicar, no que eu posso chamar
de medida não redentora. É aqui, onde os continuacionistas se separam dos
cessacionistas.
Novamente, acredito ser
muito prejudicial, dizer que ainda há mais para Deus se revelar sobre a
redenção da humanidade através de Cristo e o Evangelho do reino. Pois Cristo, é
a Palavra Final sobre esse tipo de revelação.
Mas, acreditar que Deus
ainda continua a se revelar hoje, concedendo revelações não redentoras, não
precisa ser visto como prejudicial para a fé, que procura ser fundamentada em
Cristo, no evangelho e testemunho do cânon da Escritura. De fato, eu
argumentaria que não permitir que Deus ainda fale diretamente e se revele hoje,
nos privaria de algo muito querido para o coração de Deus.
Ao todo, quero dar duas
razões sobre porque acredito na contínua revelação não redentora:
1) Mesmo quando o cânon da
Escritura estava sendo formado, Deus sempre falava além da Escritura, o que
significa que ele estava falando ao lado do que seria incluído no cânon das
Escrituras.
Alguns exemplos podem ser
encontrados em lugares como 1 Sam 10: 10-13:
“E, chegando eles ao
outeiro, eis que um grupo de profetas lhes saiu ao encontro; e o Espírito de
Deus se apoderou dele, e profetizou no meio deles.
E aconteceu que, como todos
os que antes o conheciam viram que ele profetizava com os profetas, então disse
o povo, cada um ao seu companheiro: Que é o que sucedeu ao filho de Quis? Está
também Saul entre os profetas?
Então um homem dali
respondeu, e disse: Pois quem é o pai deles? Pelo que se tornou em provérbio:
Está Saul também entre os profetas?
E, acabando de profetizar,
foi ao alto.”
e 1 Tim 1: 18-19:
“Este mandamento te dou, meu
filho Timóteo, que, segundo as profecias que houve acerca de ti, milites por
elas boa milícia;
Conservando a fé, e a boa
consciência, a qual alguns, rejeitando, fizeram naufrágio na fé.”
Em primeiro lugar,
encontramos Saul, fortalecido pelo Espírito, profetizando entre um grupo de
profetas. No segundo exemplo, lemos sobre Paulo lembrando Timóteo, das palavras
proféticas que foram feitas sobre ele, e que "ao lembrar delas, você possa
combater o bom combate, mantendo a fé e uma boa consciência".
Em ambas as situações,
encontramos profecias inspiradas pelo Espírito. Mas em nenhum dos casos
encontramos as palavras proféticas e reveladoras registradas nas Escrituras. Os
eventos são mencionados, mas não as palavras específicas. Ainda mais, no caso
de Timóteo, essas palavras lhe permitiriam manter o curso. Elas devem ter sido
algumas palavras bastante edificantes e fortalecedoras! Claro que sim, porque
acreditamos que isso é um dos grandes objetivos da profecia (ver 1 Cor 14: 3).
Lembre-se, a Escritura não
registra todas as palavras e atos de Deus. Isso é fácil de reconhecer
(lembra-se de João 21:25?). Mas sabendo que Deus estava sempre falando, agindo,
revelando-se, mesmo ao lado da escrita do que veio a se tornar a Escritura,
isso nos encoraja a não apenas fazer isso pré-canônico, mas até mesmo
pós-canônico.
2) Nem toda revelação nas
Escrituras se enquadrava na categoria maior de revelação redentora.
Podemos ver muitos desses
exemplos nos Evangelhos e em Atos. Por exemplo, a interação de Jesus com a
mulher samaritana no poço (João 4). Aqui está a Palavra Viva, e assim
reconhecemos os propósitos redentores de Deus sendo executados através de
Cristo, mesmo nesta ocasião particular. Mas o que é interessante notar aqui, é
o veículo específico de revelação que Jesus utilizou em João 4, principalmente
a palavra de conhecimento sobre a vida amorosa dessa mulher.
Agora, os detalhes são sem
dúvida extremamente importantes na interação, entre Jesus e a mulher samaritana
- ela é samaritana, mulher, as palavras sobre a água viva, a mudança para a
adoração de nosso Pai em espírito e verdade, em vez de em um edifício
centralizado , E todos os outros detalhes. Eu acredito que, João registrou
exatamente o que foi pertinente registrar sobre esse encontro, ajudando-nos a
entender melhor seu principal impulso sobre Jesus Cristo (ou seja, João 20:
30-31).
Mas essa palavra específica
de conhecimento (sobre a vida amorosa dessa mulher ) não era mais do que um
detalhe ao lado da Revelação Redentora Final, como encontrada em Jesus Cristo,
mesmo numa situação específica feito assim. Jesus poderia ter revelado um sonho
que teve na noite anterior. Ele poderia ter apresentado conhecimento sobre
outra área da vida dela. Era um veículo revelador acompanhando a mensagem de
Cristo.
No entanto, se essas
palavras não tivessem sido faladas, se elas ainda não houvessem sido
registradas (como no exemplo de Timóteo acima), ou se alguma outra revelação
tivesse sido falada no lugar desta palavra particular de conhecimento, não
teria trazido mudança alguma para a revelação redentora de Deus em Cristo.
E, portanto, afirmar que
Deus fala hoje, revela-se hoje, e que a profecia ainda continua hoje, não
precisa levantar qualquer ameaça à Revelação Redentora de Deus resumida em seu
Messias, Jesus, como testemunhada no cânon da Escritura. Lembre-se, que a
revelação está concluída em Cristo.
Além do mais, é aí que o
cânon bíblico, a medida útil para nossa fé, torna-se importante. Temos uma
ótima ferramenta para ajudar a avaliar as revelações, profecias, visões, etc.
Claro, há muitos outros
exemplos desse tipo de revelação de Deus em lugares como o livro de Atos.
A palavra de conhecimento de
Pedro, em Atos 5, da mentira de Ananias e Safira.
A palavra de sabedoria de
Pedro em Atos 6 sobre a necessidade de nomear uma equipe para cuidar das mesas,
em vez de ver os apóstolos compelidos para tal.
A profecia de Ágabo no final
de Atos 11 de que haveria uma fome severa.
Claro, para o cessacionista,
muitos desses casos, se não todos, foram dados como "dons de sinal",
atestando a mensagem dos apóstolos. Sendo eles únicos, em conexão com os
apóstolos e seus associados. Portanto, como não há mais apóstolos hoje, já não
precisamos de sinais para atestar suas mensagens.
A Escritura agora ocupa esse
lugar.
Mas, para argumentar isso,
acho que deixamos de notar algumas coisas importantes sobre esses dons
particulares:
1)Eles não só eram
realizados por apóstolos. Observe esta lista útil de cristãos utilizados nesses
dons:
Os 120 no Pentecostes em
Atos 2: 4;
Estêvão em Atos 6: 8;
Filipe em Atos 8: 4-7;
Ananias em Atos 9: 17-18;
Cornélio e sua família em
Atos 10:46;
Ágabo em Atos 11: 27-28 e
21: 10-11;
Os discípulos de Efésios em
Atos 19: 6;
Filhas de Filipe em Atos 21:
8-9;
Os crentes gálatas em Gal 3:
5;
Os crentes de Corinto em 1
Cor 12-14;
Os crentes de Tessalônica em
1 Tess 5:23;
Os anciãos em Éfeso em 1 Tim
4:14.
Essa lista deve ser
suficiente!
2)Esses dons não foram
usados apenas como "sinais", mas também no papel de edificação e
fortalecimento. Isso aparece muito forte em 1 Cor 12-14.
3) As Escrituras na verdade
não nos ensinam que a Escritura um dia tomará o lugar dos "dons de
sinais" argumentar sobre isso, a partir de lugares como 1 Cor 13: 8-12, é
um mal-entendido do contexto. Sobre essa passagem, compartilho em outro texto.
Porém, todos esses exemplos
nos meus pontos 1 e 2 acima indicam revelações reais dadas por Deus. E enquanto
alguns dos detalhes desses exemplos encontraram seu caminho na Escritura,
alguns detalhes são deixados desconhecidos. O conteúdo das profecias de Corinto,
as profecias de Tessalonicenses, as profecias das filhas de Filipe, etc., não
foram registradas na Escritura.
No todo, é por isso que
acredito que vale a pena distinguir entre revelação:
a) redentora e,
b) não redentora.
É claro que, mesmo a revelação
não redentora vem do nosso grande Deus redentor. Porém, a revelação redentora
em Cristo está finalizada. Não precisamos adicionar nada. No entanto, gostaria
de acrescentar que devemos acreditar que o nosso Deus ainda se revela não
redentivamente hoje.
Portanto, sejamos
encorajados a que nosso Deus fale hoje (como é verdade em sua natureza) e que
somos chamados, como o corpo, a buscá-lo, a escutá-lo (através da Escritura e
da Obra atual do Espírito ), E até mesmo buscar a profecia (1 Coríntios 14: 1).
E, felizmente, enquanto ficarmos conectados às Escrituras, à igreja histórica e
à igreja atual, teremos ferramentas tão ótimas disponíveis para nos ajudar a
manter o caminho, sendo fiel à revelação de Deus em Jesus Cristo.
Tradução: Edu Marques e
Cristiano Lima
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