Todas as coisas acontecem com um propósito. Cremos num Deus soberano que decreta todo o curso da criação para sua glória e para o bem dos eleitos. Jó diz sobre Deus: “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42:2). Isaías registra o Senhor dizendo: “Desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade” (Isaías 46:10). Se todas as coisas têm um propósito, então até mesmo o pecado deve ter um propósito. Hoje buscaremos descobrir algum propósito de Deus para o pecado.
Rm. 3:3-8 E daí? Se alguns não creram, a incredulidade deles virá desfazer a
fidelidade de Deus? De maneira nenhuma! Seja Deus verdadeiro, e mentiroso,
todo homem, segundo está escrito: PARA SERES JUSTIFICADO NAS TUAS
PALAVRAS E VENHAS A VENCER QUANDO FORES JULGADO. Mas, se a
nossa injustiça traz a lume a justiça de Deus, que diremos? Porventura, será Deus
injusto por aplicar a sua ira? (Falo como homem.) Certo que não. Do contrário,
como julgará Deus o mundo? E, se por causa da minha mentira, fica em relevo a
verdade de Deus para a sua glória, por que sou eu ainda condenado como
pecador? E por que não dizemos, como alguns, caluniosamente, afirmam que o
fazemos: Pratiquemos males para que venham bens? A condenação destes é
justa.
Nas palavras de Paulo, vemos certa dica para o propósito do pecado. Ele diz que
pela injustiça do homem pecador, a justiça de Deus é demonstrada. Uma palavra não é
somente definida pelo que ela é, mas também pelo que ela não é. Por exemplo, um livro
são algumas páginas de palavras ou figuras encadernadas. Contudo, adicionalmente, um
livro não é somente algumas páginas de palavras ou figuras encadernadas, mas ele não é
uma caneta, não é uma mesa, não é uma cadeira, não é um cachorro, etc. John Robbins
declara que “toda palavra tem um significado definido. Para ter um significado definido,
uma palavra deve não apenas significar algo, mas também não significar algo. A palavra
linha significa linha, mas também não significa não-linha – cachorro, nascer do sol ou
Jerusalém, por exemplo” (prefácio do livro Lógica, de Gordon H. Clark).
Para melhor definir uma palavra ou pensamento, uma palavra ou pensamento
oposto fornece uma grande quantia de informação. Para definir “quente”, pode-se dizer que quente é “não frio”, ou o oposto de frio. Para definir “comprido”, pode-se dizer que
comprido é “não curto”. Para melhor definir “justiça”, pode-se dizer que justiça é “não
injustiça”. É melhor não somente mostrar com o que justiça se parece, mas também
mostrar com o que injustiça se parece contrastada com justiça.
Dessa forma, a pecaminosidade do homem, suas perversões, suas mentiras e seu
egoísmo – tudo isso – ajudam a demonstrar a justiça de Deus. Paulo diz que “nossa
injustiça traz a lume a justiça de Deus” (v. 5) e que “por causa da [nossa] mentira, fica
em relevo a verdade de Deus” (v. 5). Descobrimos então um propósito para o pecado –
mostrar a justiça de Deus.
Pode ser dito também que o pecado demonstra a justiça de Deus.
A justiça de
Deus é manifesta em seus julgamentos contra o pecado. A justiça está intimamente
relacionada à lei, e Deus julgará os homens de acordo com o que eles fizeram, quer bom
ou mal (2Co. 5:10). O julgamento requer que haja um certo e um errado; um bom e um
mal. Isso não é somente verdadeiro no julgamento de Deus, mas pode ser visto também
no tribunal de justiça humano. O juiz no tribunal usa a lei para determinar quem está
certo e quem está errado. Da mesma forma, Deus usará sua santa lei para determinar
quem está certo e quem está errado. Isso, certamente, requer que haja um errado. Justiça
e julgamento requerem que haja pecado contra o qual será trazido justiça e julgamento.
Davi diz no Salmo 51:4 que Deus é “justo no... falar e puro no... julgar”. O Senhor
Jesus Cristo sentará em seu trono julgando as nações. Nisto ele certamente será
glorificado, e sua retidão na justiça e no julgamento serão feitos conhecidos a todos os
que estiverem diante dele. Sem o pecado ocasionando a necessidade dessa cena, não
haveria nenhum julgamento e a justeza de Deus não seria demonstrada a toda criação
com tal glória impressionante.
Após o julgamento vem também a punição. Deus pune a iniqüidade, tanto nesta
vida como na vida porvir. Ele faz isso para demonstrar sua ira e o seu poder.
Ex. 9:14-16 – “Pois esta vez enviarei todas as minhas pragas sobre o teu coração, e
sobre os teus oficiais, e sobre o teu povo, para que saibas que não há quem me
seja semelhante em toda a terra. Pois já eu poderia ter estendido a mão para te
ferir a ti e o teu povo com pestilência, e terias sido cortado da terra; mas, deveras,
para isso te hei mantido, a fim de mostrar-te o meu poder, e para que seja o meu
nome anunciado em toda a terra.
Ex. 10:1-2 – “Disse o SENHOR a Moisés: Vai ter com Faraó, porque lhe endureci
o coração e o coração de seus oficiais, para que eu faça estes meus sinais no meio
deles, e para que contes a teus filhos e aos filhos de teus filhos como zombei dos
egípcios e quantos prodígios fiz no meio deles, e para que saibais que eu sou o
SENHOR”.
O tratamento de Deus com Faraó, e com o Egito como um todo, teve o propósito
específico de mostrar o poder e a ira de Deus. Paulo cita essa mesma passagem em
Romanos 9 e continua para dizer que Deus demonstra sua ira e poder sobre os vasos de
ira, preparados para a destruição (Rm. 9:22). Paulo aplica o exemplo de Faraó a todos os
réprobos. Pode-se dizer que Faraó é um tipo dos réprobos. Cada pecador reprovado tem
um propósito, e esse é glorificar a Deus no pecado. Sem o pecado, essa glória de poder e
ira não seria manifesta. Sem o pecado de Faraó e dos egípcios, Deus não teria
proclamado seu nome tão maravilhosamente por toda a Terra.
Certamente, nem todos que cometem pecado serão punidos dessa forma. Nesses
– os eleitos – a misericórdia de Deus é demonstrada. Paulo diz que “Deus a todos
encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos” (Rm. 11:32). O
pecado e a desobediência não somente trazem castigo ao réprobo, mas também
misericórdia aos judeus e gentios eleitos. Misericórdia pode ser definida como ser
bondoso e perdoador para com alguém que é merecedor do contrário. O pecador em e de
si mesmo merece ter a ira de Deus derramada sobre ele, todavia, Deus é misericordioso
em não contar (imputar) esses pecados contra o eleito.
Tito 3:5 – “Não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua
misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do
Espírito Santo”
O tratamento bondoso de Deus para com o eleito não é sobre a base de suas
obras, mas de acordo com a misericórdia de Deus. Essa misericórdia não pode ser
demonstrada tão vividamente sem ter algo sobre o que ser misericordioso – a saber, o
pecado. Paulo diz que Deus “nos libertou do império das trevas e nos transportou para o
reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados” (Cl. 1:13-
14). Não pode haver nenhuma misericórdia sem transgressão; nenhum perdão sem
pecado.
A paciência de Deus está intimamente casada com sua misericórdia.
1Tm. 1:15-16 – “Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao
mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. Mas, por esta
mesma razão, me foi concedida misericórdia, para que, em mim, o principal,
evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade, e servisse eu de modelo
a quantos hão de crer nele para a vida eterna”.
A despeito da alegação de Paulo dele ser o principal dos pecadores no mundo,
Deus mostrou uma paciência misericordiosa para com ele, de forma que o Senhor Jesus
Cristo pudesse demonstrar sua paciência. Por paciência quer-se dizer que Deus não
fulmina o pecador onde ele está, mas espera o momento certo para regenerar o filho de
Deus – trazê-lo ao conhecimento de sua salvação em Cristo. Pedro diz que “não retarda
o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é
longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem
ao arrependimento” (2Pe. 3:9). O contexto dessa declaração é que alguns incrédulos
estavam zombando dos cristãos por Cristo não ter destruído ainda o ímpio.
A paciência
de Deus refreia a segunda vinda, de forma que todos os eleitos possam chegar ao
arrependimento, e nem um sequer deles se perder. Essa paciência não seria necessária nem seria tão maravilhosamente demonstrada se não houvesse nenhuma razão para a
paciência de Deus. Se não houvesse um dia de julgamento se aproximando rapidamente,
no qual a ira de Deus será derramada para retribuir o pecado, a paciência de Deus não
desfrutaria nenhuma visibilidade.
A longanimidade de Deus não é demonstrada somente sobre o eleito, mas
também sobre o réprobo. Paulo declara que: “Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a
conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados
para a perdição”, e ele fez isso “a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua
glória em vasos de misericórdia” (Rm. 9:22-23).
É aparente, então, que o pecado do
eleito bem como o pecado do réprobo demonstram e exaltam a paciência de Deus. Sem
pecado, a paciência de Deus não seria tão glorificada.
Dificilmente existe uma palavra mais doce do que “graça” aos ouvidos de um
cristão regenerado. Graça é uma palavra muito significativa porque resume a forma
como Deus trata conosco. Graça pode ser definida como favor desmerecido. Ele é
desmerecido porque somos pecadores. O fim merecido do pecado é a morte eterna; o
pecador merece a condenação eterna pelos seus pecados. Deus, em sua misericórdia,
escolhe fazer com que alguns escapem dessa condenação pela pessoa e obra de Jesus
Cristo. Adicionalmente, Deus considerou que essas mesmas pessoas não deveriam ser
apenas limpas de todo mal que praticaram, mas que também deveriam ser exaltadas a
uma posição de serem co-herdeiros com o próprio Senhor Jesus Cristo (Rm. 8:17). Ir ao
mais profundo, às mais profundas depravações do pecado para compartilhar a justiça do
próprio Deus – isso é graça.
Rm. 5:20-21 – “Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa; mas onde abundou o
pecado, superabundou a graça, a fim de que, como o pecado reinou pela morte,
assim também reinasse a graça pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus
Cristo, nosso Senhor”
Onde o pecado cresce, a graça abunda ainda mais! Literalmente lemos isso: “onde
o pecado abunda, a graça SUPERABUNDA [huperperisseuo ]”! O pecado do eleito é o meio
pelo qual Deus mostra sua graça superabundante. Mais pecado é igual a mais graça. João
diz que “a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (João 1:17). A obra do
Senhor Jesus Cristo e tudo da graça que flui dela para o eleito é exatamente como a
graça tem superabundado em face da nossa pecaminosidade.
Paulo é cuidadoso em seguir essa declaração com uma advertência que, embora a
graça superabunde onde o pecado cresce, não devemos pecar propositalmente. “Que
diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante?” (Rm.
6:1-2). E mais adiante ele diz: “E daí? Havemos de pecar porque não estamos debaixo da
lei, e sim da graça? De modo nenhum!” (Rm. 6:15). Deus ordenou que não pequemos,
mas sabemos que quando pecamos a graça superabunda ainda mais. O cristão não segue
a lei de Deus para evitar o castigo, mas segue para mostrar seu amor por Deus (João
14:15).
Assim, até aqui já vimos que o pecado é necessário para demonstrar a retidão de
Deus; sua justiça; sua ira; seu poder; sua misericórdia; seu perdão; sua paciência e longanimidade; sua graça; e por último, mostraremos que o pecado é necessário para
mostrar o amor de Deus.
Certamente, muitos dos atributos mencionados anteriormente também mostram
o amor de Deus. Contudo, especificamente, o amor de Deus é demonstrado na
condescendência do Senhor Jesus Cristo em viver entre os homens. O amor de Deus é
demonstrado em Cristo ter obedecido perfeitamente ao Pai. O amor de Deus é
demonstrado em Cristo ter sido pendurado e amaldiçoado num madeiro, de forma que
pudesse ser um substituto pelos seus irmãos amados, no lugar dos quais ele foi
golpeado. João diz que “nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus
enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele” (1 João 4:9).
Pela
obra do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus é demonstrado.
O nosso Senhor teria sido tão maravilhosamente exaltado, se não fôssemos
pecadores miseráveis? Que obra ele teria vindo cumprir? Por que o Pai teria se
AGRADADO em esmagar seu próprio Filho, exceto por ele ter se tornado nosso pecado?
Teria o Pai razão para afligir o Cordeiro perfeito de Deus, se ele não tivesse sido
manchado pelos nossos pecados? Esse momento pelo qual toda a criação foi feita não
teria ocorrido sem o pecado planejado dos eleitos. “Mas Deus prova o seu próprio amor
para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm.
5:8).
No final das contas, o pecado do homem é o meio pelo qual a glória de Deus é
demonstrada. Imagine uma tela branca de justiça na qual Deus pinta sua justiça branca.
Dificilmente alguém poderia distinguir o branco brilhante da tela à parte do branco
brilhante da tinta. Imagine agora uma repulsiva tela preta de injustiça, sobre a qual
Deus pinta sua bela justiça branca – mais brilhante que o próprio sol. O preto da
injustiça e o branco da justiça criam um contraste no qual a glória de Deus se torna
óbvia para o observador. O pecado é a tela no qual Deus pinta os seus justos atributos. A
santidade é exaltada sobre a impiedade; a justiça sobre a injustiça; a pureza sobre a
depravação.
Antes de sua morte, Cristo disse “é chegada a hora de ser glorificado o Filho do
Homem” (Jo. 12:23). Ele orou para que o Pai o glorificasse, de forma que ele pudesse
Fazemos bem em reconhecer o propósito do pecado, na demonstração dos
atributos gloriosos de Deus, como necessário. Contudo, fazemos bem em reconhecer
também, como Paulo o fez, que não devemos pecar propositalmente. Além do mais,
Isaías adverte: “ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridade
luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo!” (Is. 5:20). O
pecado é mal, e Deus nos ordena a não pecar. Portanto, devemos nos esforçar para ser
sem pecado, tão fútil como isso possa ser. Há uma linha tênue entre ser grato a Deus
pelo PROPÓSITO do pecado em glorificar a Deus e, todavia, sentir tristeza e
arrependimento pelos ATOS de pecado que praguejam nosso andar diário.
Sem dúvida um assunto controverso como esse levantará perguntas ainda mais
controversas. Aqui estão umas poucas para se pensar:
1) Na mente de quem o propósito para o pecado foi concebido?
2) O que veio primeiro na mente de Deus: o propósito para um evento ou o
Sem dúvida um assunto controverso como esse levantará perguntas ainda mais
controversas. Aqui estão umas poucas para se pensar:
próprio evento?
3) Deus foi surpreendido pelo pecado de Adão?
4) O que veio primeiro: a decisão de Deus de glorificar a si mesmo em Cristo, ou o primeiro pecado do homem?
5) Adão poderia ter escolhido não comer da árvore proibida?
6) Quem criou o mal?
Todas as referências bíblicas são da Almeida Revista e Atualizada, do CD-Rom Bíblia Online — Módulo
Avançado 3.0 (São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil)
Nota do tradutor: Do inglês justice, usado aqui no sentido de julgar, fazer justiça. Quanto à justiça
( righteousness) mencionada anteriormente, a mesma diz respeito à retidão, virtude, ser justo, etc. Nas
versões em português da Bíblia, encontramos justiça na maioria dos versículos que trazem justice ou
righteousness nas Bíblias inglesas, em cujo caso precisamos analisar o contexto para descobrir o
significado da palavra.
Fonte (original): http://www.bornfromabove.com/
Tradução:Felipe Sabino
Via:Monergismo
Comentários
Postar um comentário