
John Frame é sem dúvidas um dos maiores apologistas cristão
da atualidade. Difícil não ser influenciado por alguma de suas obras tais como
Apologética para a Glória de Deus e A Doutrina do Conhecimento de Deus que são
aquelas do tipo que após serem lidas deixam suas marcas indeléveis. Na minha
opinião ele é um dos que— junto com Gordon Lewis (na linguagem) e Ronald Nash
(na epistemologia) — apresentam bem a visão de Clark sobre apologética. Nas
aulas online do Reformed Theological Seminary disponível pelo aplicativo da
mesma instituição, há os cursos que Frame deu de apologética e história da
filosofia e lá ele fala sobre o método da apologética de Clark; penso que ele é
fiel na sua apresentação. Se alguém quer conhecer mesmo a apologética de Clark,
nada melhor que lendo suas obras como Uma Visão Cristã dos Homens e do Mundo.
Porém, em uma de suas publicações em seu website Frame-Poythress,
Frame fala sobre apologética pressuposicionalista e faz uma breve menção a
Gordon Clark que acredito que não tenha sido feliz em parte. Frame
diz o seguinte:
“Gordon H. Clark, que aceitou o título de
“presupposicionalista,” manteve que a Escritura constitue o “axioma” do
pensamento cristão, traçando um analogia entre religião e
geometria. O axioma, ou primeiro princípio, não pode ser
provado. Mas os axiomas de diferentes cosmovisões podem ser testados (1)
determinando sua consistencia lógica, e (2) determinando qual deles é mais
produtivo em responder as questões da vida. (Ver Clark, A Christian View of Men and
Things, pp. 26-34.)
Clark admite que mais de um sistema de pensamento poderia ser
logicamente consistente, e que produtividade é uma questão relativa e
discutível. Então o método de Clark é mais como uma exploração do que como
uma prova. Renunciando a prova, ele evita a circularidade de ter que provar o
axioma pelo significado do axioma. Mas se o Cristianismo não é provável, como
Paulo pode dizer em Romanos 1.20 que a claridade da auto-revelação de
Deus deixa o incrédulo inescusável?”
É bem verdade que para Clark o axioma do pensamento cristão
é a Escritura, ou mais especificamente que “somente a Bíblia é a Palavra de
Deus:
“A Revelação deveria ser aceitada como nosso axioma” (The
Philosophy of Gordon H. Clark, p.59.)
“A réplica mais séria que carrega o axioma da revelação que
implica todas as questões é… Obviamente um primeiro princípio ou um conjunto de
axiomas que cobrem tudo o que se segue… o primeiro princípio nos dará todos os
ensinos da Escritura” (idem, p.62; ver também Uma Introdução à Filosofia
Cristã, p. 72–73,tradução: Marcos Vasconcelos, Ed. Monergismo).
“A demonstração da lógica embutida na Escritura explica a
razão para Escritura, e não a lei da contradição, ter sido escolhida como o
axioma” (The philosophy of Gordon H. Clark, p.71; ver também Uma Introdução à
Filosofia Cristã, p.84, tradução: Marcos Vasconcelos, Ed. Monergismo).
De fato todo axioma ou primeiro princípio não é provado.
Isso é necessário para que se possa começar em algum lugar. Se se mostrar uma
prova que justifique o axioma “Somente a Bíblia é a Palavra de Deus”, então o
que prova o axioma seria o axioma. Se para cada axioma for apresentado uma
prova, haverá regressão infinita. Clark diz:
“Existe uma razão decisiva para nem tudo ser deduzido. Se
alguém tentasse provar os axiomas da geometria, teria que fazer referência às
proposições anteriores. Se elas fossem também deduzidas, seria indispensável
também existirem proposições prévias e assim ad infinitum. Segue-se daí que se
tudo deve ser demonstrado, nada pode ser demonstrado, pois não haveria ponto de
partida. Se não é possível começar, então, com certeza, não é possível
terminar” (Em Defesa da Teologia, p.37, tradução: Marcos Vasconcelos, Ed.
Monergismo).
É verdade que defendendo axioma ou primeiro princípio, Clark
escapa da acusação de circuralidade. Se alguém chegasse e perguntasse: “como
você sabe que as Escrituras são inspiradas?” Os reformados geralmente vão para
a própria Escritura para justificar sua crença de que ela é inspirada. Daí
serem acusados de circuralidade. Porém, defendendo primeiro princípio como
“somente a Bíblia é a Palavra de Deus” ele escapa a acusação de circularidade,
pois se ele mostrar que acredita que a bíblia é insirada porque assim ela diz,
ele está completamente de acordo com seu sistema e não há nenhuma incoerência
lógica, pois os motivos para crer na inspiração das Escrituras podem ser
deduzidos do axioma “somente a Bíblia é a Palavra de Deus”. Ele estaria
simplismente sendo coerente com o seu primeiro princípio. É por isso, dentre
outras, que prefiro apologética de Gordon Clark. Cornelius Van Til e seus
alunos como Bahnsen e Frame não negam que cometem circularidade, mas presentam
um subterfúgio dizendo que isso é comum a todo
pensamento ou que o tipo de circularidade deles é de um tipo não falacioso.
Agora, Frame não definiu “prova”. Fica difícil advinhar o
que ele quer dizer por “prova”. Ele parece deduzir que, já que Clark não prova
seu axioma — dado a natureza da coisa — então o cristianismo não é provável. Se
o cristianismo não é provável, como fica o que Paulo diz em Romanos 1.20? Bem,
eu acho que aqui há uma pequena confusão. Embora Frame não tenha dito o que ele
quer dizer por “prova”, parece a princípio que ele
acusa Clark de cometer a petição princípio
generalizada. Sendo assim, dizer que o método de Clark é mais uma exploração do
que uma prova é dizer que ele procura mais analisar a visão oposta do que
demonstrar que qualquer ponto de sua visão — com a Bíblia é inspirada — dado
que o axioma não é provável, por isso nada resta para provar e consequentemente
o cristianismo acaba sendo não provável. Isso parece ser
petição de princípio generalizada. A resposta a isso Gordon Clark já deu:
“Assim, a réplica mais séria à acusação de o axioma da
revelação incorrer em petição de princípio generalizada é a de que essa objeção
é incapaz de distinguir entre axiomas e teoremas. Obviamente, um primeiro
princípio ou um conjunto de axiomas abrange tudo aquilo que é deduzido.
Realmente, é assim, pois os primeiros princípios, cuja função é abranger toda
conclusão lógica, são impostos. Mas isso não é identificar os axiomas com os
teoremas. A geometria euclidiana pode ter meia dúzia de axiomas e uma centena
teoremas. Sem dúvida, os axiomas implicam os teoremas, mas os teoremas não são
axiomas” (Uma Introdução à Filosofia Cristã, p. 72, tradução: Marcos
Vasconcelos, Ed. Monergismo).
Gordon Clark escreveu uma extensa obra chamada Uma Visão
Cristã dos Homens e do Mundo, onde ele demonstra como os teoremas do axioma da
Escritura diz à respeito a Política, História, Ética, Epistemologia, Ciência
etc. O axioma da Revelação não é provável dado a sua natureza, mas isso não
significa ela não tenha teoremas sobre as mais diversas áreas da vida que sejam
demonstráveis. Os teoremas do axioma da Revelação mostram ao incrédulo que o
sistema do pensamento cristão é um todo coerente porque reflete a mente de
Deus.
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