O socialismo e o comunismo pressupõem que o sistema destes representa a verdadeira ordem das
eras e é a resposta aos problemas do homem. Essa suposição é uma que afirma que os problemas
do homem não são espirituais, mas materiais; não é o pecado, mas o ambiente. Mude o ambiente
do homem e você então irá refazer o homem, é crido. A resposta aos problemas do homem é,
portanto, não a regeneração espiritual do homem por meio de Jesus Cristo, mas a reorganização
da sociedade por meio do Estado socialista científico.
Básico para a teoria do socialismo científico é o seu conceito de infalibilidade. Todo sistema de
pensamento tem um conceito de infalibilidade, mas poucos são honestos o suficiente para admitir
isso.
Autoridade suprema, final e inerrante é investida nalgum lugar no sistema como sendo o
árbitro básico e seguro da verdade ou realidade. O Estado socialista científico concebe o socialismo
científico como a verdade infalível da história; a sua aplicação assegura a ordem social perfeita. Se
falhas ocorrerem nos Estados socialistas científicos, não é culpa do socialismo científico, o qual é
por definição infalível e verdadeiro, mas culpa de pessoas hostis, remanescentes da classe
capitalista, ou membros traiçoeiros do partido. Pela razão de que o Estado socialista não pode
culpar a si mesmo, ele deve travar guerra civil contra alguma porção do Estado. Portanto, em
primeiro lugar, a resposta do socialismo para todos os problemas é a guerra civil. Alguém é culpado,
mas nunca o próprio socialismo.
Há muitas ilustrações disso. A União Soviética encarou uma situação de expurgos contínuos. Os
expurgos da década de 1930 destacam-se como sendo meramente mais dramáticas que àquelas
de rotina. Mas toda crise na União Soviética demanda um bode expiatório, e guerra é, portanto,
travada contra alguma porção do Partido, da burocracia, ou das massas.
Na China comunista, de acordo com uma notícia de sexta-feira, 24 de março de 1967, pestilência
irrompeu largamente com muitas doenças contagiosas espalhando-se pelo país. A resposta do
regime comunista a uma crise já séria era de ameaçar os médicos da China com um expurgo.
Os
médicos eram responsáveis, a Rádio Xangai declarou, porque eles “tinham ignorado as políticas
saudáveis de Mao”.
2 A consequência de uma política como tal, o expurgo de médicos num país
com uma séria carência de médicos, somente agravou uma situação séria, mas qualquer coisa é
preferível do que admitir que o socialismo pode cometer erros e ser uma teoria errônea Nos Estados Unidos, a inflação é um produto do afastamento do governo federal de um padrão
rígido de dinheiro, do ouro para o papel, e um produto de sua dívida existente ou déficit de financiamento. A culpa da inflação é, essencialmente, a culpa do governo federal.
Mas a culpa é,
ao invés, transferida por parte dos oficiais federais ao setor privado: o trabalho está criando inflação
ao demandar salários maiores, e os negócios são inflacionários porque estes demandam preços
maiores pelos bens, e ameaças são feitas de controles de salários e preços. As demandas de
capital e trabalho são, é claro, os resultados da inflação e as medidas daquelas para proteger a si
mesmas contra esta, mas a política do socialismo é imputar toda a culpa ao povo, e toda a
sabedoria ao Estado, em todas as crises.
Nestes e noutros casos, a resposta sempre permanece a mesma: o Estado socialista trava guerra
contra as pessoas. Sempre que o Estado socialista científico comete um erro, o povo sofre.
O segundo aspecto dessa arte de guerra é que ela é uma guerra civil perpétua por causa do
fracasso perpétuo. O socialismo é incapaz de resolver qualquer problema que venha a tentar
resolver na esfera econômica. Pela razão de que as suas premissas são insanas e completamente
erradas, suas conclusões são, consistentemente, fracassos. Mas, visto que o socialismo é, por
definição, a resposta científica aos problemas da sociedade, o socialismo não pode culpar a si
mesmo. Consequentemente, ele trava guerra civil perpétua com sua resposta ao fracasso perpétuo.
Terceiro, a consequência desta guerra civil perpétua é uma crise cada vez mais em
aprofundamento. A propaganda trabalha para disfarçar a crise. Sempre nos é dito que a União
Soviética está progredindo econômica e industrialmente e está tornando-se numa ditadura mais
branda, mas a realidade é que ela tem meramente passado de crise a crise e tem enfrentado uma
escassez alimentar crescente como uma homenagem a sua incompetência. Os outros socialismos
do mundo têm problemas semelhantes. O pequeno Estado socialista fabiano da Grã-Bretanha está
afundando constantemente nas consequências econômicas de suas próprias políticas, e outros
Estados fabianos enfrentam uma crise monetária e econômica crescente. O socialismo nunca é a
saída para o socialismo, mas simplesmente a garantia de um beco sem saída econômico.
Quarto, essa guerra civil perpétua pode e irá terminar na morte do Estado, e possivelmente da
civilização também. Ela é destrutiva dos recursos públicos e privados do Estado; o Estado socialista
pode, às vezes, construir monumentos de pedras e edifícios, mas ele não pode perpetuar uma
ordem social viva; ele pode apenas matar a ordem que ele confisca ou herda. Tem sido observado,
frequentemente, que é somente quando uma civilização está morrendo que ela começa a
construção de monumentos. Antes disso, a sua preocupação é mais com a vida do que com o
espetáculo. Não podemos, portanto, interpretar mal a predisposição do socialismo quanto à
construção de monumentos como um sinal de vida; o socialismo é uma construção de lápide.
Quinto, a guerra civil perpétua significa, de alguma forma, violência perpétua ou força repressiva e,
por conseguinte, o uso de terror não é apenas aceito, mas frequentemente é justificado e exaltado.
O terror é defendido e mantido como necessário para suprimir os inimigos do povo e para proteger
o Estado da destruição. Jean-Paul Sartre, em sua Critique of Dialectical Reason, falou a respeito
de terror como “o próprio vínculo da fraternidade”. O terror é feito num princípio moral e numa
exigência inevitável da história. Como resultado, o “terror total” é praticado como uma exigência
necessária e moral de socialismo científico. Brutalidade incrível, barbarismo, selvageria e
degeneração tornam-se os produtos de socialismo científico.3 Portanto, a guerra civil perpétua que
o socialista científico trava contra seu povo é, também, uma forma de guerra total. Esta é mais
radical do que a guerra total, pois a guerra total ocorre por um certo período de hostilidades, ao
passo que a guerra civil socialista e sua arte da guerra terrorista não têm fim. Isso é uma ameaça
perpétua ao povo, e, em graus variados, é continuamente praticado.
Quanto mais o Estado
aproxima-se do socialismo total, a este mesmo grau ele também aproxima-se do terror total e guerra
civil total. É nesse aspecto de guerra perpétua e total que tem feito socialistas como o George Orwell, autor do 1984, renunciar em horror ao socialismo, sem realmente crer em qualquer outra
coisa. A estes não se pertence uma conversão, mas simplesmente revolução do terror.
Tal situação como esta, é claro, destrói a vontade de trabalhar e a vontade de viver quanto aos
povos sujeitos. A esperança de fuga, ou esperança que o regime socialista acabará, começa a
enfraquecer-se, e o resultado é grande desaceleração na produção agrícola e industrial. Esse
declínio na produtividade gera uma crise grave, e os líderes socialistas devem dar ao povo alguma
razão para crerem que existe esperança de uma mudança, um “degelo”, no terror e opressão
socialistas. Uma vaca, apesar de tudo, finalmente não dará leite se ela não for alimentada, e,
semelhantemente, as massas, como gados humanos, recebem forragem o suficiente para se
tornarem produtivas novamente.
Os subordinados são culpados pelos sofrimentos anteriores das
vacas, pobres gerentes. Stalin, por exemplo, culpou os oficiais menores os quais estavam,
supostamente, muito ansiosos para alcançarem o socialismo perfeito de um dia para o outro.
Lidando com a coletivização forçada de fazendas, numa declaração Pravda de 3 de abril de 1930,
o Stalin declarou que a política era uma “voluntária”, mas infelizmente alguns oficiais estavam
fazendo ameaças e pressões.4 Foi depois dessa declaração que milhões passaram fome até a
morte por terem resistido a coletivização, mas, Stalin, antecipadamente, livrou-se publicamente de
responsabilidade e também encorajou aqueles que eram hostis a se sentir mais livres para tomarem
uma posição. Khrushchev também fez promessas de um degelo, e em seguida lançou o terror cruel
na Hungria, e o terror maior e ainda em andamento contra os cristãos.
Os propósitos desses breves degelos e respiros são estratégicos: eles servem para dar esperança
de uma mudança a uma população desesperada. Isso, então, é simplesmente um sexto aspecto
da guerra civil do socialismo contra o seu povo.
O degelo cria um desvio da política socialista
apenas para o propósito de reforçar esta mesma política.
Isso aponta, claramente, para um sétimo aspecto da guerra civil perpétua do socialismo: a verdade
é, em todo o tempo, um acidente. Já que não existe verdade à parte do Estado socialista científico,
qualquer plano, qualquer mentira, qualquer estratégia que irá avançar o experimento socialista, é
válido. A mentira é proferida para iludir as massas e o inimigo; a expressão tem como o seu
propósito não a comunicação da verdade, mas a utilidade à ditadura do proletariado como uma
arma da arte de guerra. A semântica, portanto, torna-se a maior preocupação do socialismo. A
linguagem deve ser usada; ela é uma arma magnífica. Certas palavras têm significados poderosos
a muitos homens, e uma forma de usar as mentes dos homens contra eles mesmos é de usar mal
as palavras que têm um significado específico a eles. Esperar que a linguagem tenha o mesmo
conteúdo para um socialista e para um cristão, é um delírio. Para o socialista, a linguagem é
instrumental; ela é uma ferramenta da revolução. Ao invés de representar um meio de comunicar
uma ordem objetiva da verdade, a linguagem é basicamente um instrumento de poder.
Para o
Estado socialista negligenciar a utilização da linguagem como um instrumento de poder significaria
que ele é culpado de sentimentos e ilusões burguesas.
Isso, então, é o plano de ação, guerra civil perpétua, exigida pelo Estado socialista científico para
manter o seu delírio de infalibilidade. Essa guerra civil perpétua é uma consequência de seu
afastamento de Deus e de seu socialismo. Isso é um rumo suicida, rumo este bem descrito por
parte de nosso Senhor, quando Ele declarou, “Mas o que pecar contra mim violentará a sua própria
alma; todos os que me odeiam amam a morte” (Prov. 8:36).
4 W. R. Werner, ed., Stalin Kampf (New York, NY: Howell, Soskin, 1940), 252-257.
3 Albert Kalme, Total Terror (New York, NY: Appleton-Century-Crofts, 1951), e Harold H. Martinson, Red Dragon Over
China (Minneapolis, MN: Augsburg, 1956).
1 E-mail do tradutor para contato: nhac27@hotmail.com.
Traduzido e publicado em dezembro de 2017. Esta tradução
está oficialmente disponível no blog monoergon.wordpress.com
2 Oakland Tribune, “China Hit by Outbreak of Pestilence,” Friday, March 24, 1967, 1.
Tradução: Nathan Cazé1
Título original: Socialism as a perpetual civil war
Originalmente publicado em 22 de dezembro de 2009
Fonte: https://chalcedon.edu/blog/socialism-as-a-perpetual-civil-war
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