O supralapsarismo cristológico de Thomas Goodwin (2/4)

Resultado de imagem para Thomas goodwin





Eleição (Efésios 1.4) 

De acordo com Goodwin, as palavras de Efésios 1.4 “têm gerado praticamente mais controvérsia do que qualquer outro conjunto de tão poucas palavras em toda a Bíblia”. Por esse motivo, ele apresenta uma defesa razoavelmente detalhada da doutrina reformada da eleição, tendo em mente que até mesmo entre teólogos reformados existem áreas de discordância sobre os exatos detalhes de qual a melhor maneira de entender a doutrina.

Pensando nos remonstrantes ou arminianos,“ mas sem citá-los explicitamente, Goodwin assinala que alguns entendem que a escolha divina de pessoas se baseia na fé antevista, porque as pessoas estão “em Cristo” apenas pela féd^ Goodwin alega que, caso fosse Isso que Paulo quisesse dizer, então Deus não teria escolhido pessoas específicas, mas graças. Além disso, como mostra 0 texto. Deus escolheu pessoas a fim de que sejam santas e sem culpa e não porque são santas e sem culpa. Além do mais, para Goodwin a fé “pode ser considerada parte da santificação” (IJo 5.1; 2Ts 2.13).

Mostrando que teólogos reformados abordaram esse texto de diferentes maneiras, Goodwin descreve uma das posições apresentadas por “nossos teólogos”, segundo a qual não se diz que as pessoas são eleitas “em Cristo”, mas “para estar em Cristo”, ou seja, como pré-condição eterna não para sua salvação, mas tão somente para sua santificação. Esses expositores unem a expressão “em Cristo” às palavras que se seguem: “para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor”. Em seu comentário sobre Efésios, Paul Baynes (1573-1617), a quem Goodwin tinha em alta estima, também assinala esse ponto de vista entre expositores: “Nesse sentido, alguns interpretam que isso [a expressão “em Cristo”] não se refere àquela ação de eleição, mas à finalidade. Ele nos escolheu em Cristo para que fôssemos santos, isto é, ele nos escolheu para que fôssemos santos em Cristo”. Assim como Goodwin, Baynes rejeita essa ideia, pois na opinião de Goodwin, embora seja uma boa interpretação, ela não capta a totalidade do pensamento do apóstolo. Em primeiro lugar, 0 texto simplesmente não diz “para estar nele”, mas só “nele”, não havendo nenhum motivo convincente para inserir o verbo “estar”. Em segundo, a expressão “nele” se une de uma forma mais natural a “antes da fundação do mundo”, o que mostra que a eleição “em Cristo” aconteceu na eternidade. Goodwin então se refere a Girolamo Zanchi, um de seus teólogos escolásticos protestantes prediletos, que faz distinção entre o que Deus faz “em Cristo” e “por meio de Cristo”. Os atos de Deus “em Cristo” se referem a atos imanentes de Deus que dizem respeito aos eleitos e ocorreram entre o Pai e o Filho antes da criação do mundo. As palavras “por meio de Cristo” denotam atos transientes de Deus realizados por Cristo em favor de seu povo. “Assim”, argumenta Goodwin, “Deus redime por meio de Cristo, justifica por meio de Cristo e salva por meio de Cristo, mas escolhe em Cristo”.

O conceito de estar “em Cristo” na eternidade passada, quando o Filho ainda não havia se encarnado como Deus-homem, suscita várias questões cristológicas que Goodwin responde com muita atenção. Em primeiro lugar. Cristo não foi a causa da eleição. Essa prerrogativa pertencia ao Pai. Cristo não podia predestinar, visto que ele próprio era predestinado (1Pe 1.20). Goodwin assinala que, na condição de mediador. Cristo “não escolheu como homem”. Para explicar esse conceito, Goodwin insiste na distinção entre ser eleito “com Cristo” e “em Cristo”. Os eleitos foram escolhidos “com Cristo” na mesma hora em que Cristo foi escolhido; os eleitos também foram escolhidos “em Cristo” por ele ser o representante deles. Assim, Cristo foi um “procurador [representante]” não apenas ao morrer em lugar de seu povo, mas também ao ser eleito em favor de seu povo.

Isso levanta uma pergunta importante: como Cristo pôde agir como representante ou cabeça representante antes de sua encarnação? Goodwin admite que “alguns teólogos” concordam que Cristo agiu como representante em sua morte e ressurreição. “Mas, dizem eles, como Cristo deve ser considerado procurador público por ocasião do ato da escolha, se não existia como Deus-homem?” Goodwin responde a essa pergunta, afirmando, primeiramente, que o Filho estava com o Pai na eternidade e sabia de sua eleição como Deus-homem. Em segundo, o Filho, na condição de objeto da eleição, que incluía saber de sua encarnação, assumiu na eternidade o papel de representante como cabeça dos eleitos. Isso deve ter necessariamente acontecido quando os crentes foram eleitos na eternidade. Daí, referindo-se a Provérbios 8.23 (“Fui constituído desde a eternidade, desde o princípio, antes que a terra existisse”), Goodwin sustenta que, de acordo com essas palavras, o Pai designou 0 Filho ou “o estabeleceu desde o início como alguém que tem e sustém a pessoa do Deus-homem [...] diante de Deus, que o considerou como tal”. “O Filho prometeu executar sua obra de mediação como cabeça dos eleitos e é, então, 0 cabeça da eleição. Na ordem da natureza foi eleito primeiro, embora na ordem temporal tenhamos sido eleitos com ele. Do ventre da eleição ele, 0 caheça, saiu primeiro, e então nós, os membros, saímos”

Por essa razão, Paulo descreve Cristo como o “primogênito” (Rm 8.29; Cl 1.15), um título dado distintivamente a Cristo como o Deus-homem que age na eleição como o cabeça de seu povo. Fora de Cristo os crentes jamais são considerados “eleitos”. Da mesma forma, o Filho, como segunda pessoa, não foi escolhido em um ato para se tornar homem e então em outro ato para ser representante, mas quando foi escolhido para ser o Deus-homem, foi necessariamente escolhido para ser o Deus-homem que é o cabeça da humanidade eleita.“ A eleição de Cristo como cabeça de seu povo acontece no contexto de uma aliança, que, no entendimento de Goodwin, é um acordo com condições entre duas partes." Na condição de cabeça da aliança, o Filho concordou em se responsabilizar por operar em seu povo todas as condições que Deus exigia do povo, a saber, ser santo e inculpável. O Filho representa seu povo na eternidade, e, desse modo, todas as bênçãos espirituais são “virtualmente dadas” aos eleitos (2Tm 1.9). Ou seja, na realidade eles receberam essas bênçãos antes da fundação do mundo. Por esse motivo, a salvação dos eleitos se apoia num “fundamento seguro dado [...] na eleição”, não apenas por causa do amor de Deus, mas também porque ele nos amou em Cristo, “de modo que agora iremos experimentar a mesma sorte, se é que posso dizer assim, junto com o próprio Cristo para sempre, ou nossas pessoas se tornando misticamente uma com ele. [Aliás], somos escolhidos em Cristo e estamos, portanto, numa condição segura [...] como o próprio Cristo”.


NOTAS:
8. Thomas Goodwin, An exposition of the first chapter of the Epistle to the Ephesians, in: Thomas Smith, org.. The works of Thomas Goodwin, D.D. (1864; reimpr.. Grand Rapids: Reformation Heritage Books, 2006), 1:65.
9. Conforme assinalado por Francis Turretin, “As opiniões até mesmo dos próprios ortodoxos variam”. Institutes of elenctic theology, edição de James T. Dennison Jr., tradução para o inglês de George Musgrave Giger (Phillipsburg: P&R, 1992), 4.9.1. No entanto, alguns propõem a existência de divergências exageradas. Veja, p. ex., Oliver Crisp, God incarnate: explorations in Christology (London: T & T Clark, 2009), p. 34-55. Crisp leva em consideração apenas umas poucas afirmações confessionais, o que não faz justiça aos vários detalhes técnicos do debate. Isso se aplica especialmente quanto à leitura que Crisp faz de documentos de meados do século 16. Sua leitura de Turretin pode ser questionada pelo fato de que Turretin não estava escrevendo uma exposição assertiva de seu pensamento sobre várias questões, mas um sistema elêntico, que é defensivo por natureza. Além do mais, fazer uso da Reformed dogmatics de Heinrich Heppe levanta questões adicionais, visto que às vezes Heppe era bem seletivo. Também não existe nenhuma interação com fontes primárias salmurianas. Sua dicotomia entre uma “posição reformada conservadora” e uma “posição reformada moderada” sobre a eleição de Cristo não possui comprovação suficiente que permita tais construções terminológicas.
10. Sobre a posição de Jacó Armínio, p. ex., veja “Certain articles to be diligently examined and weighed”, in: The works of James Arminius, tradução para o inglês de James Nichols (Grand Rapids: Baker, 1986), 2:718-9. Em sen esquema, Armínio pressupõe que Deus primeiramente decreta salvar homens pecadores mediante a designação de Jesus Cristo como mediador. No “segundo decreto”. Deus “decide receber com favor [gratiam] aqueles que se arrependem e creem” (p. 719). O “terceiro decreto” envolve os meios que Deus resolve utilizar para a salvação, como a fé e 0 arrependimento. O “quarto decreto” mostra claramente como a posição de Armínio em relação aos decretos difere radicalmente da ortodoxia reformada. Esse decreto diz respeito “à salvação destas pessoas específicas e à condenação daquelas: isso decorre ou depende da presciência e antevidência de Deus, pelas quais ele sabia previamente desde a eternidade [quinam] quais homens iriam, por meio de tal administração, crer com a ajuda da graça subsequente ou seguinte e quais não iriam crer nem perseverar” (p. 719).
11. Girolamo Zanchi (1516-1590), embora obviamente sem ter os remonstrantes em mente, talvez estivesse pensando em certos pais da igreja antiga, quando argumenta: “Aqueles que estão ordenados para a vida eterna não receberam essa ordem devido a algum merecimento antevisto neles nem devido a quaisquer boas obras que haveriam de fazer, nem mesmo por sua futura fé, mas apenas e tão somente devido à graça livre e soberana” [The doctrine of absolute predestination stated and asserted [New York: George Lindsay, 1811], p. 129).
12. Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:66. Veja tb. Zanchi, Absolute predestination, p. 130.
13. For exemplo, o supralapsariano Johannes Maccovius defendia essa posição, a saber, que os eleitos foram escolhidos para estar em Cristo e não porque estavam em Cristo: “Electi sumus, ut simus in Christo, non quod eramus” [Scholastic discourse: Johannes Maccovius (1588-1644) on theological and philosophical distinctions and rules, tradução para o inglês de Willem J. van Asselt; Michael D. Bell; Gert van den Brink; Rein Ferwerda [Apeldoorn: Instituut voor Reformatieonderzoek, 2009], p. 158).
14. ‘‘Paul Baynes, A commentarie upon the first chapter of the Epistle of Saint Paul, written to the Ephesians (London, 1643), p. 35. 
15. Goodwin, First chapter o f Ephesians, in: Works, 1:69. 
16. ’Acerca desse assunto, veja Turretin, Institutes, 4.10.1-19. 
17. Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:70. Mas veja a maneira como Baynes observa que, embora se diga que o Pai escolhe, isso não significa que o Filho e o Espírito também não escolham: “pois, se três de nós tivessem apenas uma vontade comum a todos nós, um não poderia desejar algo quando os outros dois também não o desejassem”. No entanto, como o Filho atua como mediador e o Espírito como mestre, “apenas o Pai é mencionado” (A commentarie upon Ephesians, p, 37). Goodwin também defende a máxima de que as obras das pessoas da Trindade são indivisas, mas que certas obras se manifestam em uma das pessoas, pois ela é o terminus operationis.
18. ’Catecismo Maior, pergunta 22; um “representante” é alguém que, como Adão, age “não apenas por si mesmo, mas também por sua posteridade”. Nas Escrituras, os crentes são considerados posteridade ou “semente” de Cristo (SI 22.30; Is 53.10).
19. Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:72. 
20. “Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:72. 
21. “Goodwin, First chapter o f Ephesians, in: Works, 1:74. 
22. “Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:74. 
23. “Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:75.
24. ‘‘Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:76. 

Via:Teologia Puritana DOUTRINA PARA A VIDA Joel R. B eeke & Mark Jones

Comentários