
Eleição (Efésios 1.4)
De acordo com Goodwin, as palavras de Efésios 1.4 “têm gerado praticamente
mais controvérsia do que qualquer outro conjunto de tão poucas palavras em
toda a Bíblia”. Por esse motivo, ele apresenta uma defesa razoavelmente detalhada
da doutrina reformada da eleição, tendo em mente que até mesmo entre
teólogos reformados existem áreas de discordância sobre os exatos detalhes
de qual a melhor maneira de entender a doutrina.
Pensando nos remonstrantes ou arminianos,“ mas sem citá-los explicitamente,
Goodwin assinala que alguns entendem que a escolha divina de pessoas
se baseia na fé antevista, porque as pessoas estão “em Cristo” apenas pela
féd^ Goodwin alega que, caso fosse Isso que Paulo quisesse dizer, então Deus
não teria escolhido pessoas específicas, mas graças. Além disso, como mostra
0 texto. Deus escolheu pessoas a fim de que sejam santas e sem culpa e não
porque são santas e sem culpa. Além do mais, para Goodwin a fé “pode ser
considerada parte da santificação” (IJo 5.1; 2Ts 2.13).
Mostrando que teólogos reformados abordaram esse texto de diferentes
maneiras, Goodwin descreve uma das posições apresentadas por “nossos
teólogos”, segundo a qual não se diz que as pessoas são eleitas “em Cristo”,
mas “para estar em Cristo”, ou seja, como pré-condição eterna não para sua
salvação, mas tão somente para sua santificação. Esses expositores unem
a expressão “em Cristo” às palavras que se seguem: “para sermos santos e
irrepreensíveis diante dele em amor”. Em seu comentário sobre Efésios, Paul
Baynes (1573-1617), a quem Goodwin tinha em alta estima, também assinala
esse ponto de vista entre expositores: “Nesse sentido, alguns interpretam que
isso [a expressão “em Cristo”] não se refere àquela ação de eleição, mas à
finalidade. Ele nos escolheu em Cristo para que fôssemos santos, isto é, ele nos escolheu para que fôssemos santos em Cristo”. Assim como Goodwin,
Baynes rejeita essa ideia, pois na opinião de Goodwin, embora seja uma boa
interpretação, ela não capta a totalidade do pensamento do apóstolo. Em primeiro
lugar, 0 texto simplesmente não diz “para estar nele”, mas só “nele”,
não havendo nenhum motivo convincente para inserir o verbo “estar”. Em
segundo, a expressão “nele” se une de uma forma mais natural a “antes da
fundação do mundo”, o que mostra que a eleição “em Cristo” aconteceu na
eternidade. Goodwin então se refere a Girolamo Zanchi, um de seus teólogos
escolásticos protestantes prediletos, que faz distinção entre o que Deus faz “em
Cristo” e “por meio de Cristo”. Os atos de Deus “em Cristo” se referem a atos
imanentes de Deus que dizem respeito aos eleitos e ocorreram entre o Pai e o
Filho antes da criação do mundo. As palavras “por meio de Cristo” denotam
atos transientes de Deus realizados por Cristo em favor de seu povo. “Assim”,
argumenta Goodwin, “Deus redime por meio de Cristo, justifica por meio de
Cristo e salva por meio de Cristo, mas escolhe em Cristo”.
O conceito de estar “em Cristo” na eternidade passada, quando o Filho
ainda não havia se encarnado como Deus-homem, suscita várias questões
cristológicas que Goodwin responde com muita atenção. Em primeiro lugar.
Cristo não foi a causa da eleição. Essa prerrogativa pertencia ao Pai. Cristo não
podia predestinar, visto que ele próprio era predestinado (1Pe 1.20). Goodwin
assinala que, na condição de mediador. Cristo “não escolheu como homem”. Para explicar esse conceito, Goodwin insiste na distinção entre ser eleito
“com Cristo” e “em Cristo”. Os eleitos foram escolhidos “com Cristo” na mesma
hora em que Cristo foi escolhido; os eleitos também foram escolhidos “em
Cristo” por ele ser o representante deles. Assim, Cristo foi um “procurador
[representante]” não apenas ao morrer em lugar de seu povo, mas também
ao ser eleito em favor de seu povo.
Isso levanta uma pergunta importante: como Cristo pôde agir como representante
ou cabeça representante antes de sua encarnação? Goodwin admite
que “alguns teólogos” concordam que Cristo agiu como representante em sua
morte e ressurreição. “Mas, dizem eles, como Cristo deve ser considerado
procurador público por ocasião do ato da escolha, se não existia como Deus-homem?” Goodwin responde a essa pergunta, afirmando, primeiramente,
que o Filho estava com o Pai na eternidade e sabia de sua eleição como Deus-homem.
Em segundo, o Filho, na condição de objeto da eleição, que incluía
saber de sua encarnação, assumiu na eternidade o papel de representante
como cabeça dos eleitos. Isso deve ter necessariamente acontecido quando os
crentes foram eleitos na eternidade. Daí, referindo-se a Provérbios 8.23 (“Fui
constituído desde a eternidade, desde o princípio, antes que a terra existisse”),
Goodwin sustenta que, de acordo com essas palavras, o Pai designou
0 Filho ou “o estabeleceu desde o início como alguém que tem e sustém a
pessoa do Deus-homem [...] diante de Deus, que o considerou como tal”. “O
Filho prometeu executar sua obra de mediação como cabeça dos eleitos e é,
então, 0 cabeça da eleição. Na ordem da natureza foi eleito primeiro, embora
na ordem temporal tenhamos sido eleitos com ele. Do ventre da eleição ele,
0 caheça, saiu primeiro, e então nós, os membros, saímos”.
Por essa razão,
Paulo descreve Cristo como o “primogênito” (Rm 8.29; Cl 1.15), um título
dado distintivamente a Cristo como o Deus-homem que age na eleição como o
cabeça de seu povo. Fora de Cristo os crentes jamais são considerados “eleitos”.
Da mesma forma, o Filho, como segunda pessoa, não foi escolhido em um
ato para se tornar homem e então em outro ato para ser representante, mas
quando foi escolhido para ser o Deus-homem, foi necessariamente escolhido
para ser o Deus-homem que é o cabeça da humanidade eleita.“
A eleição de Cristo como cabeça de seu povo acontece no contexto de
uma aliança, que, no entendimento de Goodwin, é um acordo com condições
entre duas partes." Na condição de cabeça da aliança, o Filho concordou em
se responsabilizar por operar em seu povo todas as condições que Deus exigia
do povo, a saber, ser santo e inculpável. O Filho representa seu povo na eternidade,
e, desse modo, todas as bênçãos espirituais são “virtualmente dadas”
aos eleitos (2Tm 1.9). Ou seja, na realidade eles receberam essas bênçãos antes
da fundação do mundo. Por esse motivo, a salvação dos eleitos se apoia num
“fundamento seguro dado [...] na eleição”, não apenas por causa do amor
de Deus, mas também porque ele nos amou em Cristo, “de modo que agora iremos experimentar a mesma sorte, se é que posso dizer assim, junto com
o próprio Cristo para sempre, ou nossas pessoas se tornando misticamente
uma com ele. [Aliás], somos escolhidos em Cristo e estamos, portanto, numa
condição segura [...] como o próprio Cristo”.
NOTAS:
8. Thomas Goodwin, An exposition of the first chapter of the Epistle to the Ephesians, in: Thomas
Smith, org.. The works of Thomas Goodwin, D.D. (1864; reimpr.. Grand Rapids: Reformation
Heritage Books, 2006), 1:65.
9. Conforme assinalado por Francis Turretin, “As opiniões até mesmo dos próprios ortodoxos
variam”. Institutes of elenctic theology, edição de James T. Dennison Jr., tradução para o
inglês de George Musgrave Giger (Phillipsburg: P&R, 1992), 4.9.1. No entanto, alguns propõem
a existência de divergências exageradas. Veja, p. ex., Oliver Crisp, God incarnate: explorations
in Christology (London: T & T Clark, 2009), p. 34-55. Crisp leva em consideração apenas umas
poucas afirmações confessionais, o que não faz justiça aos vários detalhes técnicos do debate.
Isso se aplica especialmente quanto à leitura que Crisp faz de documentos de meados do século
16. Sua leitura de Turretin pode ser questionada pelo fato de que Turretin não estava escrevendo
uma exposição assertiva de seu pensamento sobre várias questões, mas um sistema elêntico, que
é defensivo por natureza. Além do mais, fazer uso da Reformed dogmatics de Heinrich Heppe
levanta questões adicionais, visto que às vezes Heppe era bem seletivo. Também não existe
nenhuma interação com fontes primárias salmurianas. Sua dicotomia entre uma “posição reformada
conservadora” e uma “posição reformada moderada” sobre a eleição de Cristo não possui
comprovação suficiente que permita tais construções terminológicas.
10. Sobre a posição de Jacó Armínio, p. ex., veja “Certain articles to be diligently examined
and weighed”, in: The works of James Arminius, tradução para o inglês de James Nichols (Grand
Rapids: Baker, 1986), 2:718-9. Em sen esquema, Armínio pressupõe que Deus primeiramente
decreta salvar homens pecadores mediante a designação de Jesus Cristo como mediador. No “segundo
decreto”. Deus “decide receber com favor [gratiam] aqueles que se arrependem e creem”
(p. 719). O “terceiro decreto” envolve os meios que Deus resolve utilizar para a salvação, como
a fé e 0 arrependimento. O “quarto decreto” mostra claramente como a posição de Armínio em
relação aos decretos difere radicalmente da ortodoxia reformada. Esse decreto diz respeito “à
salvação destas pessoas específicas e à condenação daquelas: isso decorre ou depende da presciência
e antevidência de Deus, pelas quais ele sabia previamente desde a eternidade [quinam]
quais homens iriam, por meio de tal administração, crer com a ajuda da graça subsequente ou
seguinte e quais não iriam crer nem perseverar” (p. 719).
11. Girolamo Zanchi (1516-1590), embora obviamente sem ter os remonstrantes em mente,
talvez estivesse pensando em certos pais da igreja antiga, quando argumenta: “Aqueles que estão
ordenados para a vida eterna não receberam essa ordem devido a algum merecimento antevisto
neles nem devido a quaisquer boas obras que haveriam de fazer, nem mesmo por sua futura fé,
mas apenas e tão somente devido à graça livre e soberana” [The doctrine of absolute predestination
stated and asserted [New York: George Lindsay, 1811], p. 129).
12. Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:66. Veja tb. Zanchi, Absolute predestination,
p. 130.
13. For exemplo, o supralapsariano Johannes Maccovius defendia essa posição, a saber, que
os eleitos foram escolhidos para estar em Cristo e não porque estavam em Cristo: “Electi sumus,
ut simus in Christo, non quod eramus” [Scholastic discourse: Johannes Maccovius (1588-1644)
on theological and philosophical distinctions and rules, tradução para o inglês de Willem J. van
Asselt; Michael D. Bell; Gert van den Brink; Rein Ferwerda [Apeldoorn: Instituut voor Reformatieonderzoek,
2009], p. 158).
14. ‘‘Paul Baynes, A commentarie upon the first chapter of the Epistle of Saint Paul, written to
the Ephesians (London, 1643), p. 35.
15. Goodwin, First chapter o f Ephesians, in: Works, 1:69.
16. ’Acerca desse assunto, veja Turretin, Institutes, 4.10.1-19.
17. Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:70. Mas veja a maneira como Baynes
observa que, embora se diga que o Pai escolhe, isso não significa que o Filho e o Espírito também
não escolham: “pois, se três de nós tivessem apenas uma vontade comum a todos nós, um
não poderia desejar algo quando os outros dois também não o desejassem”. No entanto, como o
Filho atua como mediador e o Espírito como mestre, “apenas o Pai é mencionado” (A commentarie
upon Ephesians, p, 37). Goodwin também defende a máxima de que as obras das pessoas
da Trindade são indivisas, mas que certas obras se manifestam em uma das pessoas, pois ela é
o terminus operationis.
18. ’Catecismo Maior, pergunta 22; um “representante” é alguém que, como Adão, age “não
apenas por si mesmo, mas também por sua posteridade”. Nas Escrituras, os crentes são considerados
posteridade ou “semente” de Cristo (SI 22.30; Is 53.10).
19. Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:72.
20. “Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:72.
21. “Goodwin, First chapter o f Ephesians, in: Works, 1:74.
22. “Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:74.
23. “Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:75.
24. ‘‘Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:76.
Via:Teologia Puritana DOUTRINA PARA A VIDA Joel R. B eeke & Mark Jones
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