O supralapsarismo cristológico de Thomas Goodwin (3/4)


O supralapsarismo cristológico de Thomas Goodwin (2/4) 



Predestinação (Efésios 1.5)

Efésios 1.5 prossegue com o tema da eleição, mas com uma palavra diferente; predestinação. Na mente de Goodwin, esses dois termos não são estritamente sinônimos. As diferenças entre eles fornecem o contexto necessário para analisar a ordem dos decretos. Goodwin afirma que “escolher” significa separar e reunir a partir de um grupo comum, ao passo que “predestinar” tem em vista predeterminar para algum objetivo.

D e forma parecida. Paul Baynes propõe uma distinção entre os dois termos. De acordo com Baynes, a “predestinação” envolve um decreto para se chegar a um objetivo por determinados meios. A “eleição” envolve o objetivo, mas a predestinação tem em vista o meio. Baynes também ressalta que a eleição se refere à vontade de Deus, mas a predestinação aponta para o entendimento de Deus (i.e., de como realizará sua vontade )P a re c e certo que Goodwin tem em mente a obra de Baynes — com frequência ele fala do “santo Baynes — e concorda com sua linha básica de raciocínio, com algumas pequenas diferenças.

A eleição é um decreto acerca do objetivo, mas no pensamento de Goodwin “indica destacadamente a escolha [...] de algumas pessoas com um amor especial e peculiar em detrimento de outras do mesmo nível e condição”.^ Na eleição. Deus prefere, então, alguns a outros; a eleição se refere à multidão de pessoas dentre as quais [terminus a quo) os eleitos são escolhidos, mas a predestinação se refere ao estado ao qual [termnus ad quem ) os eleitos são ordenados. 

Na eleição, os crentes nunca são considerados seres distintos em si mesmos; pelo contrário, os eleitos são considerados coletivamente “em Cristo” por ocasião do primeiro ato divino de escolha. A predestinação “diz respeito a um segundo ato ou determinação para que [os crentes] desfrutem de um glorioso bem-estar nele, que é um dos objetivos para o qual Deus tem o propósito de conduzir [os eleitos]”.“ Conforme Efésios 1.5, um desses objetivos inclui a adoção.

Estar “em Cristo” (eleição) fornece necessariamente o contexto para receber aqueles benefícios que existem “por meio de Cristo” (predestinação).' O que ficará claro é a importância dessa distinção para entender as várias posições lapsarianas sustentadas por Goodwin e pelos reformados ortodoxos que o precederam ou foram seus contemporâneos. Há outra questão cristológica que oferece um contexto adicional para o supralapsarismo de Goodwin.

Esta se refere a “Cristo” na esfera eterna, isto é, antes que o Filho tivesse assumido a natureza humana. Goodwin o faz porque 0 Filho, de acordo com as condições da aliança eterna de redenção, segundo as quais ele atua como cabeça de seu povo, assume a responsabilidade de se encarnar tendo em vista o propósito de reconciliação. Mas a reconciliação não é o propósito principal da encarnação do Filho, e, na verdade, a encarnação do Filho não foi decretada com base na pressuposição da Queda.R ecorrendo à diferença entre eleição e predestinação, Goodwin insiste que dizer que o Filho de Deus se encarnou apenas por causa do pecado do homem significa sujeitar Cristo ao seu povo. Pelo contrário. Cristo é o objetivo da eleição e de todas as outras coisas. 

A essa altura, Goodwin faz uma importante armação cristológica, a saber, que com relação ao decreto de que devia se encarnar, a pessoa de Cristo tem precedência sobre sua obra. O principal motivo da predestinação da segunda pessoa não foi que os pecadores pudessem ser salvos pelos benefícios da obra meritória de Cristo. Esses benefícios “são todos eles bem inferiores à dádiva de sua pessoa para nós e são muito mais a glória de sua própria pessoa. Sua pessoa tem valor infinitamente superior ao de todos aqueles benefícios”.'' Por esse motivo, o termo “supralapsarismo cristológico” chama a atenção para aquilo que pode ser o ponto central da teologia de Goodwin e, com certeza, representa uma maneira diferente de pensar da de Calvino, Owen e outros como eles.”

Goodwin, porém, se abstém de analisar a questão de o que podería ter acontecido caso Adão não tivesse caído.“ Goodwin quer apenas afirmar que, ao decretar que seu Filho assumisse nossa natureza humana de carne e sangue, o Pai não apenas levou em consideração nossa necessidade de um redentor, como também levou em conta aquela glória infinita da segunda pessoa a ser manifesta naquela natureza mediante essa apropriação. 

Os dois objetivos o levaram a agir, e, dos dois, a glória da pessoa de Cristo naquela união e por meio daquela união teve maior peso na decisão, de modo que até mesmo a própria redenção esteve subordinada à glória de sua pessoa e foi ordenada para tal glória, visto que esta foi a finalidade primeira e principal de tudo aquilo que foi planejado. Por causa de sua onisciência. Deus teve em vista simultaneamente a eleição de Cristo e dos eleitos, a obra redentora de Cristo e tudo mais que haveria de acontecer de acordo com o decreto de Deus.

De todos os projetos, aquele para o qual Deus “mais olhava”, isto é, aquele que tinha lugar proeminente no decreto de Deus, era Cristo e a glória de sua pessoa. Em outras palavras,  “objetivo final [de Deus] não era trazer Cristo ao mundo para nós, mas nos levar a Cristo [...] E Deus planejou todas as coisas que de fato acontecem, até mesmo a própria redenção a fim de exibir mais a glória de Cristo do que a nossa salvação”.“ 

A relação natural entre o Pai e o Filho fortalece a tese de Goodwin. O habitar do Filho de Deus entre nós tem um grau de amabilidade que excede o de sua obra de redenção, pois sua obra de mediação é acidental (i.e., não é necessária nem essencial), enquanto sua pessoa é tanto essencial quanto absoluta. “E, por isso”, no dizer de Goodwin, “determinar [a encarnação] apenas para essa obra teria tido o significado de diminuir e rebaixar [sua pessoa] Além do mais. Cristo é o Filho natural de Deus, e os eleitos são filhos apenas por adoção. Goodwin associa à pessoa e não à obra de Cristo privilégio de adoção recebido pelos crentes. Mas é preciso sempre ter cuidado, em especial no caso de Goodwin, de não separar esses dois aspectos da cristologia. A glória de Cristo tem prioridade sobre nossa salvação. Aliás, Os decretos de Deus foram em sua totalidade estabelecidos com esse propó­ sito, para que Cristo fosse a finalidade de todos eles. Tendo em mente essas considerações baseadas em Efésios 1.4,5, a questão da ordem dos decretos passa a ocupar nossa atenção.


 NOTAS: 

24.‘‘Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:76.
25.“Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:83.
26.“.Baynes, A commentarie upon Ephesians, p. 61.
27.“Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:90.
28.“Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:84.
29.“Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:84.
30.“Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:85.
31.'Goodwin, First chapter o f Ephesians, in; Works, 1:85. 
32.Owen tenta responder a esse argumento. 
33.Veja Exposition of Hebrews, in: Works, 19.37. Veja tb. os comentários de João Calvino, Institutes of the Christian religion, edição de John T. McNeill, tradução para o inglês de Ford Lewis Battles (Philadelphia: Westminster, 1960), 2.12.4-5 [edições em português: João Calvino, As institutos, tradução de Waldyr Carvalho Luz (São Paulo: Cultura Cristã, 2006), 4 vols., e A instituição da religião cristã, tradução de Carlos Eduardo Oliveira; José Carlos Estêvão (São Paulo: Editora UNESP, 2008), 2 vols.]. 
34.Mesmo que esteja certo chamar Calvino de supralapsariano, podemos ver, todavia, que há diferentes maneiras de como os teólogos reformados se expressaram quanto ao ordo decretam. “Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:99. “Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:99. A glória de Cristo tem um papel importante na teologia de Goodwin. 
35.Veja Mark Jones, Why heaven kissed earth: the Christology of the Puritan Reformed orthodox theologian, Thomas Goodwin (1600-1680) (Gottingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 2010). “Fazendo um parêntesis, isso é algo que eu deveria ter examinado com mais profundidade em Why heaven kissed earth. Em meu livro trato do assunto da glória de Cristo, mas, refletindo melhor, era preciso dar mais atenção ao supralapsarismo cristológico de Goodwin. Este capítulo procura corrigir a omissão de uma referência mais explícita ao supralapsarismo de Goodwin.
36.“Tampouco, por outro lado, eu o faço, nem ouso afirmar que Cristo teria se encarnado e assumido nossa natureza caso o homem nunca tivesse caído, pois todas as coisas são ordenadas a acontecer exatamente como ocorrem.” Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:99, 
37.Alguns podem alegar que os “supralapsarianos cristológicos” são aqueles que afirmam que, mesmo que o homem não tivesse caído, Cristo teria encarnado, mas acho que ainda podemos atribuir essa designação a Goodwin, apesar de sua recusa em afirmar que Gristo teria se encarnado, caso 0 homem não tivesse pecado. 
38.'Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:99-100. “Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:100. 
39.“Goodwin, First chapter o f Ephesians, in: Works, 1:100.


Via:Teologia Puritana DOUTRINA PARA A VIDA Joel R. B eeke & Mark Jones

Comentários