Predestinação
(Efésios 1.5)
Efésios
1.5 prossegue com o tema da eleição, mas com uma palavra diferente;
predestinação. Na mente de Goodwin, esses dois termos não são estritamente
sinônimos. As diferenças entre eles fornecem o contexto necessário para
analisar a ordem dos decretos. Goodwin afirma que “escolher” significa separar
e reunir a partir de um grupo comum, ao passo que “predestinar” tem em vista
predeterminar para algum objetivo.
D
e forma parecida. Paul Baynes propõe uma distinção entre os dois termos. De
acordo com Baynes, a “predestinação” envolve um decreto para se chegar a um
objetivo por determinados meios. A “eleição” envolve o objetivo, mas a
predestinação tem em vista o meio. Baynes também ressalta que a eleição se
refere à vontade de Deus, mas a predestinação aponta para o entendimento de
Deus (i.e., de como realizará sua vontade )P a re c e certo que Goodwin tem em
mente a obra de Baynes — com frequência ele fala do “santo Baynes — e concorda
com sua linha básica de raciocínio, com algumas pequenas diferenças.
A
eleição é um decreto acerca do objetivo, mas no pensamento de Goodwin “indica
destacadamente a escolha [...] de algumas pessoas com um amor especial e
peculiar em detrimento de outras do mesmo nível e condição”.^ Na eleição. Deus
prefere, então, alguns a outros; a eleição se refere à multidão de pessoas
dentre as quais [terminus a quo) os eleitos são escolhidos, mas a predestinação
se refere ao estado ao qual [termnus ad quem ) os eleitos são ordenados.
Na
eleição, os crentes nunca são considerados seres distintos em si mesmos; pelo
contrário, os eleitos são considerados coletivamente “em Cristo” por ocasião do
primeiro ato divino de escolha. A predestinação “diz respeito a um segundo ato
ou determinação para que [os crentes] desfrutem de um glorioso bem-estar nele,
que é um dos objetivos para o qual Deus tem o propósito de conduzir [os
eleitos]”.“ Conforme Efésios 1.5, um desses objetivos inclui a adoção.
Estar
“em Cristo” (eleição) fornece necessariamente o contexto para receber aqueles
benefícios que existem “por meio de Cristo” (predestinação).' O que ficará
claro é a importância dessa distinção para entender as várias posições
lapsarianas sustentadas por Goodwin e pelos reformados ortodoxos que o
precederam ou foram seus contemporâneos. Há outra questão cristológica que
oferece um contexto adicional para o supralapsarismo de Goodwin.
Esta
se refere a “Cristo” na esfera eterna, isto é, antes que o Filho tivesse
assumido a natureza humana. Goodwin o faz porque 0 Filho, de acordo com as
condições da aliança eterna de redenção, segundo as quais ele atua como cabeça
de seu povo, assume a responsabilidade de se encarnar tendo em vista o
propósito de reconciliação. Mas a reconciliação não é o propósito principal da
encarnação do Filho, e, na verdade, a encarnação do Filho não foi decretada com
base na pressuposição da Queda.R ecorrendo à diferença entre eleição e
predestinação, Goodwin insiste que dizer que o Filho de Deus se encarnou apenas
por causa do pecado do homem significa sujeitar Cristo ao seu povo. Pelo
contrário. Cristo é o objetivo da eleição e de todas as outras coisas.
A essa
altura, Goodwin faz uma importante armação cristológica, a saber, que com
relação ao decreto de que devia se encarnar, a pessoa de Cristo tem precedência
sobre sua obra. O principal motivo da predestinação da segunda pessoa não foi
que os pecadores pudessem ser salvos pelos benefícios da obra meritória de
Cristo. Esses benefícios “são todos eles bem inferiores à dádiva de sua pessoa
para nós e são muito mais a glória de sua própria pessoa. Sua pessoa tem valor
infinitamente superior ao de todos aqueles benefícios”.'' Por esse motivo, o
termo “supralapsarismo cristológico” chama a atenção para aquilo que pode ser o
ponto central da teologia de Goodwin e, com certeza, representa uma maneira
diferente de pensar da de Calvino, Owen e outros como eles.”
Goodwin,
porém, se abstém de analisar a questão de o que podería ter acontecido caso
Adão não tivesse caído.“ Goodwin quer apenas afirmar que, ao decretar que seu
Filho assumisse nossa natureza humana de carne e sangue, o Pai não apenas levou
em consideração nossa necessidade de um redentor, como também levou em conta
aquela glória infinita da segunda pessoa a ser manifesta naquela natureza
mediante essa apropriação.
Os dois objetivos o levaram a agir, e, dos dois, a
glória da pessoa de Cristo naquela união e por meio daquela união teve maior
peso na decisão, de modo que até mesmo a própria redenção esteve subordinada à
glória de sua pessoa e foi ordenada para tal glória, visto que esta foi a
finalidade primeira e principal de tudo aquilo que foi planejado. Por causa de
sua onisciência. Deus teve em vista simultaneamente a eleição de Cristo e dos
eleitos, a obra redentora de Cristo e tudo mais que haveria de acontecer de
acordo com o decreto de Deus.
De
todos os projetos, aquele para o qual Deus “mais olhava”, isto é, aquele que
tinha lugar proeminente no decreto de Deus, era Cristo e a glória de sua
pessoa. Em outras palavras, “objetivo final [de Deus] não era trazer Cristo
ao mundo para nós, mas nos levar a Cristo [...] E Deus planejou todas as coisas
que de fato acontecem, até mesmo a própria redenção a fim de exibir mais a
glória de Cristo do que a nossa salvação”.“
A relação natural entre o Pai e o
Filho fortalece a tese de Goodwin. O habitar do Filho de Deus entre nós tem um
grau de amabilidade que excede o de sua obra de redenção, pois sua obra de
mediação é acidental (i.e., não é necessária nem essencial), enquanto sua
pessoa é tanto essencial quanto absoluta. “E, por isso”, no dizer de Goodwin,
“determinar [a encarnação] apenas para essa obra teria tido o significado de
diminuir e rebaixar [sua pessoa] Além do mais. Cristo é o Filho natural de
Deus, e os eleitos são filhos apenas por adoção. Goodwin associa à pessoa e não
à obra de Cristo privilégio de adoção recebido pelos crentes. Mas é preciso
sempre ter cuidado, em especial no caso de Goodwin, de não separar esses dois
aspectos da cristologia. A glória de Cristo tem prioridade sobre nossa
salvação. Aliás, Os decretos de Deus foram em sua totalidade estabelecidos com
esse propó sito, para que Cristo fosse a finalidade de todos eles. Tendo em
mente essas considerações baseadas em Efésios 1.4,5, a questão da ordem dos
decretos passa a ocupar nossa atenção.
24.‘‘Goodwin,
First chapter of Ephesians, in: Works, 1:76.
25.“Goodwin,
First chapter of Ephesians, in: Works, 1:83.
26.“.Baynes, A
commentarie upon Ephesians, p. 61.
27.“Goodwin,
First chapter of Ephesians, in: Works, 1:90.
28.“Goodwin,
First chapter of Ephesians, in: Works, 1:84.
29.“Goodwin,
First chapter of Ephesians, in: Works, 1:84.
30.“Goodwin,
First chapter of Ephesians, in: Works, 1:85.
31.'Goodwin,
First chapter o f Ephesians, in; Works, 1:85.
32.Owen tenta responder a
esse argumento.
33.Veja Exposition of Hebrews, in: Works, 19.37. Veja tb. os
comentários de João Calvino, Institutes of the Christian religion, edição de
John T. McNeill, tradução para o inglês de Ford Lewis Battles (Philadelphia:
Westminster, 1960), 2.12.4-5 [edições em português: João Calvino, As
institutos, tradução de Waldyr Carvalho Luz (São Paulo: Cultura Cristã, 2006),
4 vols., e A instituição da religião cristã, tradução de Carlos Eduardo
Oliveira; José Carlos Estêvão (São Paulo: Editora UNESP, 2008), 2 vols.].
34.Mesmo
que esteja certo chamar Calvino de supralapsariano, podemos ver, todavia, que
há diferentes maneiras de como os teólogos reformados se expressaram quanto ao
ordo decretam. “Goodwin, First
chapter of Ephesians, in: Works, 1:99. “Goodwin, First chapter of Ephesians,
in: Works, 1:99. A glória de Cristo tem um papel importante na teologia
de Goodwin.
35.Veja Mark Jones,
Why heaven kissed earth: the Christology of the Puritan Reformed orthodox
theologian, Thomas Goodwin (1600-1680) (Gottingen: Vandenhoeck & Ruprecht,
2010). “Fazendo um parêntesis, isso é algo que eu deveria ter examinado
com mais profundidade em Why heaven kissed earth. Em meu livro trato do assunto
da glória de Cristo, mas, refletindo melhor, era preciso dar mais atenção ao
supralapsarismo cristológico de Goodwin. Este capítulo procura corrigir a
omissão de uma referência mais explícita ao supralapsarismo de Goodwin.
36.“Tampouco, por outro lado, eu o faço, nem ouso afirmar que
Cristo teria se encarnado e assumido nossa natureza caso o homem nunca tivesse
caído, pois todas as coisas são ordenadas a acontecer exatamente como ocorrem.”
Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:99,
37.Alguns podem alegar que
os “supralapsarianos cristológicos” são aqueles que afirmam que, mesmo que o
homem não tivesse caído, Cristo teria encarnado, mas acho que ainda podemos
atribuir essa designação a Goodwin, apesar de sua recusa em afirmar que Gristo
teria se encarnado, caso 0 homem não tivesse pecado.
38.'Goodwin, First chapter of Ephesians, in:
Works, 1:99-100. “Goodwin, First chapter of Ephesians, in: Works, 1:100.
39.“Goodwin,
First chapter o f Ephesians, in: Works, 1:100.
Via:Teologia Puritana DOUTRINA PARA A VIDA Joel R. B eeke & Mark Jones
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