
No
capítulo 5, observamos o reconhecimento de dois críticos proeminentes do
cristianismo de que o problema dedutivo do mal deve ser considerado um
fracasso. Dada a obra de filósofos como Alvin Plantinga, a existência de mal no
mundo não pode ser mostrada logicamente incompatível com outras crenças cristãs
essenciais sobre a natureza e as ações de Deus. Simplesmente não é verdade que,
por causa do mal, o teísmo cristão é autocontraditório e, portanto, necessariamente
falso.
Mas
as deficiências do problema dedutivo do mal não significam que os oponentes do
teísmo cristão desistiram do problema do mal. Isso apenas significa que eles se
voltaram para um modo diferente de formular o problema. O movimento da forma
dedutiva desacreditada para uma forma indutiva do problema do mal é uma mudança
da reivindicação contundente de que o teísmo é logicamente falso para a
afirmação mais modesta de que ele é provavelmente falso. De acordo com os
defensores do problema indutivo do mal, o mal faz a balança das probabilidades
pesar contra o teísmo; a existência do mal torna a crença teísta improvável ou
implausível.
As
tentativas de responder ao problema do mal são, em sua maioria, variações sobre
um tema básico, a saber, que Deus permite o mal ou para tornar possível algum
bem maior, ou para evitar algum mal maior. Afirma-se que Deus sempre tem alguma
razão para permitir o mal. Neste ponto, alguns teístas param e admitem que
simplesmente não sabem quais são as razões de Deus. A fim de que ninguém se
apresse em rejeitar essa conduta, deveríamos perguntar o que decorre, se é que
alguma coisa decorre, do reconhecimento do cristão de que ele não sabe a razão
de Deus permitir o mal. De acordo com Plantinga:
“Muito pouco que nos
interesse. Por que supor que se Deus realmente tem uma boa razão para permitir
o mal, o teísta seria o primeiro a saber? Talvez Deus tenha uma boa razão, mas
esta razão seja muito complicada para entendermos. Ou talvez ele não a tenha
revelado por alguma outra razão. O fato de que o teísta não sabe por que Deus
permite o mal é, talvez, um fato interessante sobre o teísta, mas, por si só,
mostra pouco ou nada de relevante para a racionalidade da crença em Deus”.[116]
Não
haveria nada de filosoficamente inferior em simplesmente deixar toda a questão
exatamente aqui. No entanto, muitos pensadores cristãos têm sido corajosos (e
possivelmente tolos) o bastante para oferecer sugestões sobre quais poderiam
ser as razões de Deus para permitir o mal.
Alguns
têm apelado para o valor e a importância do livre-arbítrio humano. Certamente,
é fácil ver quanto de mal no mundo resulta de escolhas humanas. Também é útil
refletir nas consequências lógicas que seguiriam de qualquer negação de uma
liberdade moral significativa nos humanos. Não haveria algum sentido em que
certo grau de livre-escolha é uma condição para disposições divinamente
aprovadas tais como amor e bondade? E se qualquer coisa agradável a Deus fosse
algo impossível de ser feito sem um poder de escolha? Se a escolha é uma
condição para realizar o bem, não é também uma condição para realizar atos de
mal moral? Como um todo, a área das escolhas humanas é complexa do ponto de
vista filosófico e teológico.
Por
isso alguns são relutantes em levar seus argumentos muito longe. Mas há pelo
menos um caso prima facie para crer que Deus teria boas razões para criar
humanos com liberdade moral significativa. Em tal caso, é difícil ver como
podemos rejeitar essa mesma liberdade como a causa do mal moral que abunda no
mundo. Outros cristãos chamam atenção para a importância dos humanos viverem
num universo organizado e governado por leis como uma razão plausível para
alguns tipos de mal. Um desses pensadores era o filósofo britânico F. R.
Tennant, que escreveu: Não pode ser
demasiadamente enfatizado que um mundo que deve ser uma ordem moral deve ser
uma ordem física caracterizada pela lei ou regularidade… Sem tal regularidade
nos fenômenos físicos, não poderia haver probabilidade alguma para nos guiar:
nenhuma predição, nenhuma cautela, nenhum acúmulo de experiências ordenadas,
nenhuma busca por objetivos premeditados, nenhuma formação de hábitos, nenhuma
possibilidade de caráter ou de cultura. Nossas faculdades intelectuais não se
poderiam ter desenvolvido… E sem racionalidade, a moralidade é impossível.[117]
Claramente
vivemos num universo que exibe ordem, uma ordem expressa nas leis da natureza
descritas pela ciência apropriada. A liberdade moral não poderia existir sem
tal ambiente organizado. Se o mundo fosse totalmente imprevisível, se nunca se
pudesse saber de um momento ao outro o que esperar da natureza, a ciência e a
conduta moral significativa seriam ambas impossíveis. Mas se é a natureza que
arma o cenário para o bem moral, ela faz o mesmo para o mal moral.
Uma
razão por que as pessoas podem ser responsabilizadas quando puxam o gatilho de
uma arma carregada é a previsibilidade do que seguirá de tal ação. Assim como
uma ordem natural regular é uma condição necessária para o bem moral e o mal
moral, ela também deve funcionar em qualquer explicação para o mal natural, o
mal que não resulta da ação humana. Michael Peterson observa:
“Essa mesma água que
sustenta e refresca também pode afogar; a mesma droga que alivia o sofrimento
pode causar vício psicológico incapacitante; o mesmo sol que dá luz e vida pode
ressecar campos e trazer fome; os mesmos arranjos neurais que transmitem
intenso prazer e êxtase também podem trazer extrema dor e agonia”.[118]
Muitas
queixas humanas sobre a ocorrência de males naturais específicos como enchentes,
terremotos ou furacões parecem ser expressões de um desejo de que — pelo menos
nesse caso — a ordem natural das coisas tivesse sido suspensa ou diferente de
alguma forma. Se faz sentido acreditar que Deus criou o universo com o tipo de
regularidade e ordem que faz com que a formulação das leis da ciência seja
possível, se faz sentido pensar que esse tipo de universo organizado seria em
geral melhor do que um universo caótico e imprevisível, poderíamos ser sábios
pensando duas vezes antes de amaldiçoar algum resultado particular dessa ordem.
Certamente que, nos esforços para atenuar o problema do mal, muito mais poderia
ser dito sobre o papel que é desempenhado pela ordem natural. [119]
Nada
do que foi dito implica que devemos considerar o mundo atual como o melhor
mundo possível, ou o único mundo possível. O ponto é simplesmente que, a menos
que haja uma ordem natural, bens importantes como a liberdade moral não podem
existir. E parece haver uma boa razão para crermos que, sem uma ordem mundial
como a nossa ordem presente, não poderíamos ter as coisas boas que nos são tão
familiares. Não importa o que as leis da natureza poderiam ter sido, teria
havido efeitos colaterais desagradáveis até onde elas operassem como leis.
Uma
terceira abordagem popular para as possíveis razões de Deus permitir o mal
apela à ideia da formação da alma. De acordo com esta visão, para Deus produzir
os seres virtuosos com os quais quer comunhão, esses indivíduos devem enfrentar
desafios que lhes ensinem o valor intrínseco das virtudes que Deus possui de
forma perfeita. Virtudes não podem ser criadas instantaneamente; o processo
pelo qual elas são adquiridas faz parte da natureza de tê-las. Seres humanos
não podem crescer num ambiente que é livre de riscos, perigos e frustrações. Deus,
ao que parece, tinha boas razões para nos colocar num ambiente que nos desafie
e teste. A maior parte do que consideramos significativo sobre o
desenvolvimento humano espiritual e moral surge como resultado da interação com
o desafio. Um atleta não pode atingir o seu melhor sem sacrifício, esforço,
treino e luta. O crescimento humano espiritual e moral também surge de uma luta
contra vários tipos de desafios. Como explica Richard Purtill:
“Ser capaz de tocar
como Heifetz, ou de filosofar como Wittgenstein, não é realmente algo que
podemos separar dos longos anos de prática e execução, ou dos longos anos de
luta com problemas filosóficos. Mas ainda que o resultado final fosse alcançado
sem dor, ele seria então menos valioso”.[120]
Nós
não podemos viver em um ambiente maleável que se submete a cada desejo que
temos, onde temos tudo o que queremos. Tal ambiente sufocaria o crescimento e o
desenvolvimento.[121]
O PROBLEMA DO MAL
GRATUITO
As
respostas ao problema do mal mencionadas até aqui são todas versões de um apelo
a um bem maior; envolvem a reivindicação de que Deus permite o mal porque essa
é uma condição necessária para se obter um bem maior ou evitar um mal maior.
Mas e se o mundo contivesse mal gratuito, isto é, um mal verdadeiramente sem
sentido, cego, absurdo e irracional? Se isso fosse verdade, o apelo a um bem
maior entraria em colapso, e com ele aparentemente também cairiam por terra os
tipos de argumentos que mencionamos.
Uma
versão do problema do mal gratuito argumenta da seguinte forma:
1. Se Deus existe,
todo mal tem uma razão justificatória.
2. Mas não é o caso
de que todo mal tem uma razão justificatória. [122]
3. Logo, Deus não
existe.
O
que podemos dizer sobre este argumento? Para começar, ele é certamente válido;
ele se conforma às regras da lógica formal. Se as premissas são verdadeiras, a
conclusão é certamente verdadeira. Mas será que as premissas são verdadeiras? Suponha, por ora, que nos concentramos
apenas na segunda premissa, a alegação de que nem todo mal tem uma razão
justificativa.
Podemos
fazer várias perguntas sobre esta alegação. Por exemplo, como o crítico do
teísmo cristão sabe que a premissa 2 é verdadeira? E, para ir direto ao cerne
da questão, como algum ser humano poderia saber que mal gratuito existe?
Qualquer pessoa sensível e observadora deve admitir que muitos males que
parecem ser gratuitos permeiam o mundo: acidentes que ceifam pessoas na flor da
idade, doenças que resultam em longos períodos de horrível sofrimento, defeitos
congênitos, desastres naturais que podem subitamente matar centenas de pessoas
e destruir a vida dos sobreviventes. Mas dadas as limitações do conhecimento
humano, é difícil ver como qualquer ser humano poderia realmente saber que um
caso específico de mal realmente é gratuito.
Na
verdade, ao que parece, uma pessoa teria de ser onisciente para saber que algum
mal em particular é totalmente desprovido de sentido e propósito. Parece,
então, que o máximo que qualquer humano pode reivindicar saber é que um mal que
parece gratuito está presente.
Mas,
evidentemente, tal alegação no lugar da premissa 2 não levaria à conclusão.
Jane Mary Trau fornece uma formulação diferente do problema indutivo do mal.
Escreve ela:
Parece que, a menos
que possa ser mostrado que todos os casos de sofrimento gratuito aparente não
são, de fato, desprovidos de propósito, o mais razoável é crer que eles são o
que parecem ser; e visto que não pode ser mostrado que eles não são de fato
desprovidos de propósito, é razoável crer que eles são o que parecem ser; visto
que tais casos parecem existir, o mais razoável é crer que Deus não existe.[123]
Trau,
como mais tarde deixa claro, não aceita esse argumento; ela apenas o apresenta
como sendo uma versão do problema indutivo do mal. Sua resposta ao argumento é
instrutiva. A segunda premissa do argumento envolve um apelo à ignorância, uma
falácia lógica comum, aponta ela.
Só
porque o teísta não pode provar que nenhum dos males no mundo é gratuito,
dificilmente procede que alguns deles o são. Na verdade, como Trau segue
dizendo: … a posição mais razoável a sustentar parece ser esta: não podemos
explicar casos de sofrimento aparentemente gratuito até que saibamos de fato se
eles são ou não gratuitos. E isso nós jamais podemos alegar a menos que
estejamos certos sobre o status ontológico de Deus [isto é, Deus existe?].
Visto que não podemos provar ou refutar a não existência de Deus [pelo
argumento do mal gratuito], é preciso primeiro provar ou refutar a sua
existência. Até que isso seja realizado, não podemos saber se tais casos
existem. [124]
De
acordo com Trau, a única maneira correta de mostrar que o mundo contém males
gratuitos é provar que Deus não existe. Mas então parece seguir disso que não
se pode apelar aos males gratuitos para argumentar contra a existência de Deus
— isto é, a menos que a pessoa não se preocupe em incorrer em petição de
princípio.
O PROBLEMA DO MAL E
AS COSMOVISÕES NÃO CRISTÃS
Todos
os oponentes do cristianismo histórico, ao que parece, levantam o problema do
mal como uma forma de desafiar a crença cristã em Deus. Mas é digno de nota
considerar se existem por aí cosmovisões concorrentes que não têm nenhum
direito lógico de apelar a essa questão. No próximo capítulo, por exemplo,
estaremos examinando a cosmovisão conhecida como naturalismo.
Uma
das coisas que vamos aprender sobre o naturalismo é que nenhum de seus adeptos
está logicamente justificado em acreditar em qualquer bem objetivo. [125] “Bem”
e “mal” num universo naturalista não podem se referir a qualquer coisa
transcendente, qualquer coisa que tenha posição fora da ordem natural das
coisas. Por esta razão, muitos naturalistas simplesmente dizem que o que
chamamos de bem e mal são meras preferências subjetivas.
Embora
outros naturalistas recusem essa visão extrema e problemática, eles parecem,
todavia, obrigados a tratar bem e mal como coisas relativas. O interessante
aqui é que poucos naturalistas parecem ter percebido como a sua abordagem
relativista para o bem e o mal os desqualifica logicamente para serem
defensores do problema do mal.
Sempre
que buscam constranger os cristãos por descreverem um dado mal, eles o fazem em
termos que simplesmente não são consistentes com o seu entendimento naturalista
das coisas. Um problema similar parece existir para os oponentes panteístas do
cristianismo. As pessoas que tenho especialmente em mente neste momento são os
defensores do que é, por vezes, chamado de pensamento da Nova Era.
Mas
isso também seria um problema para outros tipos de panteístas, incluindo os
adeptos de algumas religiões orientais. O problema para o panteísta é este: se
tudo é um, isto é, parte de um sistema integral, então esse Um ou Deus (ou como
quer que se chame isso) acaba estando acima do bem e do mal. De fato, o que
vemos como bem e mal é, na verdade, o resultado de uma ilusão ou de uma forma
inadequada de “ver” as coisas.
Poderíamos
nos perguntar como alguém influenciado pelo panteísmo pode consistentemente
lançar contra os cristãos o desafio do problema do mal. Ao que parece, as
únicas pessoas que podem consistentemente enfrentar o problema do mal são
pessoas, como os cristãos, que acreditam que o bem e o mal não são nem
relativos, nem ilusórios. Certamente parece que muitos defensores de
cosmovisões não cristãs são culpados de inconsistências quando falam sobre o
mal da forma que haveriam de falar se, de fato, algum problema existisse.
CONCLUSÃO
A
última coisa que eu quero fazer é deixar o leitor com a impressão de que eu não
levo o problema do mal a sério. Seria difícil pensar em uma ameaça mais séria à
racionalidade da crença cristã. Mas apesar das questões formidáveis levantadas
pelo problema do mal, elas não invalidam a reivindicação de que a cosmovisão
cristã é uma opção racional, crível. O mal é um problema, e ninguém deveria ser
tolo o bastante em pensar que não é. Mas a cosmovisão cristã tem os recursos
para lidar com o problema teórico. E, como temos sugerido, os oponentes do
cristianismo que ansiosa e jubilosamente lançam esse problema na face dos
cristãos precisam prestar mais atenção às dificuldades que resultam da
incoerência que suas teorias introduzem em suas próprias cosmovisões.
NOTAS:
[116] Alvin Plantinga, God, Freedom and Evil (Grand
Rapids: Eerdmans, 1974), 10.
[117] F. R. Tennant, Philosophical Theology (New York:
Cambridge Univ. Press, 1928), 2:199-200.
[118] Michael Peterson, Evil and the Christian God
(Grand Rapids: Baker, 1982), 111.
[119]
Para uma discussão sobre supostos problemas com essa linha de pensamento, veja
o meu livro Faith and Reason, 201-4.
[120] Richard L. Purtill, Reason to Believe (Grand
Rapids: Eerdmans, 1974), 57.
[121]
Mais uma vez, a necessidade de abordar outros assuntos torna necessário
interromper uma discussão embora muito mais houvesse para ser dito. Para um
tratamento mais completo do apelo à formação da alma, veja o meu livro Faith
and Reason, 204-8.
[122]
Esta premissa é simplesmente outra forma de dizer que o mundo contém mal
gratuito. [123] Jane Mary Trau, “Fallacies in the Argument from
Gratuitous Suffering”, The New Scholasticism 60 (1986), 487-88.
[124]
Ibid., 489.
[125]
Na verdade, como irei argumentar no próximo capítulo, nenhum proponente do naturalismo
está logicamente justificado em acreditar que alguma proposição, seja qual for,
é verdadeira.
Extraído:
COSMOVISÕES EM CONFLITO ESCOLHENDO O CRISTIANISMO EM UM MUNDO DE IDEIAS RONALD
H. NASH. EDITORA MONERGISMO BRASÍLIA, DF, p.62 - 66
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