Anuladores? O mal – Alvin Plantinga


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Por último, volto a atenção para o mais formidável candidato a anulador da crença teísta: o tradicional “problema do mal”. Nosso mundo contém quantidade e variedade enormes de sofrimento e mal. Considero o sofrimento envolvendo algum tipo de dor ou desconforto: a dor ou o desconforto resultante de doença ou ferimento, opressão, sobrecarga de trabalho ou idade avançada, mas também do desapontamento pessoal ou com a sina da própria vida (ou a de pessoas próximas), dor da solidão, isolamento, traição, amor não correspondido; e há também o sofrimento resultante da consciência do sofrimento alheio. Em sentido fundamental, penso no mal envolvendo ações más de criatura livres (humanas ou não), incluindo-se, em particular, o modo como nós, seres humanos, maltratamos e violentamos uns aos outros. De modo geral, a dor e o sofrimento resultam do mal, como ocorreu em alguns acontecimentos pelos quais o século XX será lembrado — o Holocausto, o terrível experimento marxista na Europa Oriental, que durou setenta anos e fez milhões de vítimas, a vilania de Pol Pot e seus seguidores, as ondas de genocídio na Bósnia e na África. Obviamente, muitos sofrimentos e males são banais e cotidianos, e não são melhores por causa disso.

O mal e o sofrimento em nosso mundo de fato perturbam os crentes em Deus. A perturbação e a perplexidade neles se fazem bastante presentes nas Escrituras cristãs e judaicas, em especial, mas não de forma exclusiva, em Salmos e no livro de Jó. Face à concretude chocante de um exemplo particularmente horrível de sofrimento ou mal, ocorrendo na própria vida ou na vida de alguém próximo, o crente pode achar-se tentado a tomar uma atitude em relação a Deus que ele mesmo deplora —desconfiança, suspeita, amargura ou rebelião. Esse problema é espiritual ou pastoral. A pessoa nas garras do mal pode não ser tentada a duvidar da existência ou mesmo da bondade divina; apesar disso, ela pode ficar descontente com Deus, passar a desconfiar dele, ficar receosa, tornar-se incapaz de pensar a respeito de Deus como Pai amoroso, começar a pensar que ele está longe e não se importa.

Um poderoso argumento ateológico do mal?

No entanto, muitas pessoas afirmaram que o conhecimento da quantidade, variedade e distribuição do sofrimento e do mal (“os fatos do mal”) confronta o crente com um problema de outro tipo. Esses fatos, afirmam, podem servir como premissas de um argumento poderoso contra a própria existência de Deus — ou seja, contra a existência de um ser todo-poderoso, onisciente e totalmente bom que criou o mundo e ama suas criaturas. Esses argumentos remontam ao mundo antigo, a Epicuro (341-270 a.C.), cujo raciocínio foi repetido no século XVIII pelo filósofo cético David Hume (1711- 1776):

A antiga questão de Epicuro permanece sem resposta. Ele quer impedir o mal, mas não é capaz? Então é impotente. Ele é capaz, mas não quer? Então é malévolo. Ele é capaz e quer? De onde, pois, provém o mal? [120]

A afirmação é que reconhecer esse argumento consiste em um anulador da crença teísta (a crença em Deus), e se esse conhecimento for um anulador da crença teísta, então, obviamente, ele também é um anulador da fé cristã.

Nossa questão, portanto, é se o conhecimento dos fatos do mal estabelece um anulador da crença teísta e cristã. Ele faz com que eu não possa mais manter a fé cristã racionalmente? Note que esse não é o problema tradicional da teodiceia: não farei nenhuma tentativa de “justificar os caminhos de Deus ao homem” ou de apresentar uma resposta ao motivo de Deus permitir o mal, em sentido geral, ou por que ele permite algumas formas abomináveis de mal em especial.[121] Em vez disso, a nossa questão é epistemológica: pelo fato de a crença teísta, ou cristã, ser garantida nos moldes que sugiro, o conhecimento dos fatos do mal é um anulador dessa crença? Ele a torna irracional ou não garantida?

Obviamente, a resposta não precisa ser a mesma para todos os cristãos: talvez os fatos do sofrimento e do mal, em nosso pesaroso mundo, não sejam anuladores para os cristãos muito jovens, ou os cristãos culturalmente ilhados, ou os que pouco sabem sobre o sofrimento e o mal no nosso mundo, ou para quem não tem aprecia com adequação a seriedade do que sabe. Nossa questão, no entanto, diz respeito a “adultos intelectualmente sofisticados em nossa cultura” (veja acima, na p. 89). Posso ser maduro em sentido intelectual e espiritual, estar ciente das quantidades e intensidades enormes e impressionantes de sofrimento e mal no mundo, ter ciência também dos melhores argumentos antiteístas a partir dos fatos do mal, e ainda ser tal que a fé cristã seja racional e garantida para mim? Poderia ainda haver para mim garantia suficiente para o conhecimento? Argumentarei que a resposta correta é: “Sim, sem dúvida”. E isso vale não só para umas poucas pessoas. Argumentarei que para qualquer cristão sério com conhecimento mínimo de epistemologia, os fatos do mal, apavorantes como são, não oferecem um obstáculo à fé cristã garantida.

Trinta ou trinta e cinco anos atrás, o tipo favorito de argumento do mal objetivava estabelecer a conclusão de que haveria uma inconsistência lógica na crença cristã. Os cristãos creem na existência de Deus (i.e., um ser onipotente, onisciente e totalmente bom), e também que há o mal no mundo; não é logicamente possível (assim se afirmava) que essas duas crenças sejam ao mesmo tempo verdadeiras. A afirmação era de que a existência de Deus é logicamente incompatível com a existência do mal; pelo fato de o teísta estar comprometido com as duas, essa crença seria claramente irracional.

Hoje, entretanto, afirma-se inexistir qualquer contradição ou falsidade necessária na conjunção de afirmações sobre a existência de Deus e do mal; a existência do mal não é logicamente incompatível (mesmo em um sentido lógico amplo) com a existência de um Deus todo-poderoso, onisciente e perfeitamente bom.[122]

Obviamente, isso não é o suficiente para livrar o teísta dessa situação difícil. Também não há contradição lógica na crença de que a terra é plana, ou que a terra está apoiada sob uma tartaruga, que se apoia em outra tartaruga, e assim por diante, de tal forma que só haja mais tartarugas; apesar disso, essas crenças (pelo que pensamos saber) são irracionais. (Você ficaria preocupado se seu filho crescido adotasse essas crenças). Quem apresenta argumentos a partir do mal redireciona a atenção da afirmação de que a existência de Deus é diretamente incompatível com a existência do mal para argumentos evidenciais ou probabilísticos.

Nesse caso, a afirmação não diz respeito à incoerência lógica da fé cristã, mas sim que os fatos do mal apresentam uma forte evidência contra a existência divina. Os argumentos evidenciais são também probabilísticos: nos casos mais simples, afirmam que a existência de Deus é inverossímil ou improvável, dados os fatos do mal. Assim, a afirmação ateológica típica no presente não é que a incompatibilidade da existência divina com a existência do mal; em vez disso, afirma-se que o mal permite construir um forte argumento evidencial ou probabilístico contra a existência de Deus.

Mas suponha que o mal seja algum tipo de evidência contra o teísmo: o que se segue disso? Não muito. Existem várias proposições que creio verdadeiras e racionalmente aceitas, e contras elas há algumas evidências. O fato de Pedro ser um bebê de três meses é evidência suficiente contra ele pesar 7 kg; apesar disso, eu poderia acreditar de forma racional (e verdadeira) que esse é exatamente seu peso. A ideia então é a improbabilidade da existência de Deus dada a nossa evidência total, todo o resto do que sabemos e acreditamos? Para mostrar isso, o ateólogo teria de considerar toda a evidência a favor da existência divina — os argumentos tradicionais ontológico, cosmológico e teleológico, além de muitos outros;[123] ele seria obrigado a pesar o mérito relativo de todos esses argumentos, e pesá-los contra o argumento evidencial do mal para então alcançar a conclusão indicada. Isso não seria fácil.

Além disso, imagine que o teísmo fosse improvável por conta de todas as minhas crenças; como outra opção, suponha que o restante do que acredito oferecesse evidência contra o teísmo e nenhuma a favor. O que se seguiria disso? Mais uma vez, não muito. São várias as crenças verdadeiras que mantenho (e o faço com racionalidade plena) em tal nível que elas não são suscetíveis levando-se em consideração o restante de minhas crenças. Por exemplo, estou jogando pôquer; é improvável, considerando-se tudo o mais que sei ou acredito, que eu tenha tirado um inside straight; não se segue mesmo que haja a menor irracionalidade em minha crença de que de que acabei de completar um inside straight. A razão, obviamente, é que essa crença não depende, para sua garantia, de ser provável por conta do restante do que acredito; ela tem uma fonte bem diferente de garantia: a percepção. O mesmo ocorre em relação ao teísmo: tudo se volta aqui para a questão de, como tenho argumentado, o teísmo ter ou poder ter alguma fonte de garantia — a percepção de Deus, ou o sensus divinitatis, ou a fé e a instigação interna do Espírito Santo — distinta da probabilidade quando consideradas as outras proposições de minha crença.

O argumento mais forte do mal
Inexiste argumento cogente para a conclusão de que a existência do mal é incompatível com a existência de Deus; também não há um argumento do mal evidencial ou probabilístico sério; concordo. Porém o sofrimento e o mal estabelecem algum tipo de problema para pelo menos alguns crentes em Deus; o Antigo Testamento está repleto de exemplos. De fato, há o grito agonizante de Jesus Cristo: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” — um grito que ecoa as palavras de Salmos 22. O livro de Jó consiste na busca e na procura intensa da realidade do mal e das respostas humanas a ele. Jó se encontra enfurecido; ele pensa que Deus age com injustiça em relação a ele e o desafia a explicar e justificar a si mesmo. Inúmeras pessoas, nas garras do próprio sofrimento cruel, ou do sofrimento de uma pessoa próxima, iram-se com Deus; como resultado do sofrimento e do mal na própria vida, a pessoa pode ficar descontente com Deus, desconfiada dele, antagônica e hostil a ele.

Mesmo assim, de modo geral, essas situações não produzem um anulador da crença teísta. Não é o caso que Jesus, o salmista e Jó, estivessem inclinados a abrir mão da crença teísta. A dificuldade é diferente; trata-se de um problema espiritual ou pastoral, e não de um anulador da crença teísta. Talvez Deus permita que meu pai, ou minha filha, ou meu amigo, ou eu mesmo, sofra da forma mais apavorante. Posso então pensar do seguinte modo: “Sem dúvida, ele tem todas essas excelentes propriedades divinas, e, sem dúvida, tem uma boa razão para permitir essa abominação — afinal, não sou páreo para ele quanto à produção de razões — razões totalmente além da minha compreensão — mas o que ele permite é apavorante, e odeio isso!”. Posso querer dizer a ele frente a frente: “Tu podes ser maravilhoso, magnífico, onisciente, onipotente (e mesmo totalmente bom) e todas essas coisas exaltadas, mas eu terminantemente detesto o que fazes!”. Um problema desse tipo não é de fato evidencial, e não constitui um anulador do teísmo.
Mas essa talvez não seja a única reação realista: talvez eu pudesse reagir desse modo, mas não há outras reações racionais? Não poderia abrir mão da crença em Deus por completo? O sofrimento e o mal, sob certas circunstâncias, pelo menos, não poderia realmente servir como anulador da crença em Deus? A lista de atrocidades que os seres humanos cometem uns contra os outros é terrível e medonha; ela é também muito longa, e tão repetitiva que chega a ser maçante. Às vezes, no entanto, novos abismos são produzidos:

Uma jovem mãe muçulmana foi repetidamente estuprada em frente do marido e da mãe, com seu bebê gritando no chão ao lado dela. Por fim, quando seus carrascos pareciam cansados dela, ela pediu permissão para cuidar da criança. Em resposta, um dos estupradores rapidamente decapitou o bebê e lançou a cabeça no colo da mãe. [124]

Essas coisas são absolutamente terríveis; só considerá-las e trazê-las à mente já é doloroso. Apresentá-las em uma discussão filosófica fria como esta é infeliz e pode parecer insensível. Surge agora a questão: um ser racional não pensaria, face a esse tipo de mal, que não pode haver um ser onipotente, onisciente, e totalmente bom supervisionando nosso mundo? Talvez ele não possa demonstrar que nenhuma pessoa perfeita seria capaz de permitir essas coisas; talvez também não haja um argumento antiteísta probabilístico ou evidencial: mas e daí? Não é claro e evidente que um ser com a reputação de Deus não poderia permitir algo assim? Não tenho aqui um anulador, mesmo que não seja um bom argumento a favor do mal?

Penso que algo nesses termos consista na melhor versão da objeção antiteísta do mal. Em essência, afirma-se que uma pessoa sensível e ciente de forma própria do puro horror do mal exibido em nosso mundo sombrio e infeliz verá que nenhum ser semelhante ao tipo que se arroga a Deus poderia permitir esse horror. Trata-se de um tipo de sensus divinitatis invertido: talvez não haja um bom argumento do mal; mas não se requer nenhum argumento. Um apelo desse tipo não procederá da enumeração de argumentos, mas, sim, pela colocação do interlocutor no tipo de situação em que o pleno horror do sofrimento e do mal no mundo surja de modo claro com toda a sua repugnância. De fato, do ponto de vista ateológico, a apresentação de um argumento é aqui contraproducente: isso permite ao crente em Deus desviar sua atenção, voltar os olhos para longe da abominação do sofrimento, refugiar-se nas discussões anticéticas de mundos possíveis, funções probabilísticas e outros arcanos. Isso desvia a atenção das situações que de fato estabelecem o anulador da crença em Deus.

Não há anulador para quem é plenamente racional

Suponha que examinemos essa afirmação — a afirmação de que o exame claro do mal oferece um anulador da crença em Deus. Lembre-se, em primeiro lugar, que um anulador da crença depende do restante do que creio; se minha nova crença anula a antiga, isso depende do que mais eu creio a que minha experiência se assemelha. Para mim, essa árvore é um bordo; você me diz que se trata de um olmo. Isso anulará minha crença no bordo se eu pensar que você sabe do que fala e deseja me dizer a verdade, mas não o fará caso eu pense que você dispõe de menos conhecimentos sobre árvores que eu, ou que as chances são de meia a meio de você me dizer o que considera verdade. Ver o pleno horror do mal apresentado pelo mundo pode consistir em um anulador da crença teísta para algumas pessoas, mas não para outras.

Quero argumentar inicialmente que, se o cristianismo clássico for verdadeiro, então a percepção do mal não é um anulador da crença em Deus para a pessoa plenamente racional, a pessoa que tem as faculdades cognitivas funcionando de modo próprio. Do ponto de vista do cristianismo clássico (pelo menos de acordo com o modelo Aquino e Calvino), isso inclui também a função própria do sensus divinitatis. A pessoa em quem esse processo funciona detém um conhecimento íntimo, detalhado, vívido e explícito de Deus; ela está tão convencida da existência dele como da própria existência.

Essa pessoa poderia, portanto, ficar perplexa com a existência desse mal no mundo de Deus — pois Deus, ela sabe, odeia o mal com um sentimento sagrado e ardente —, mas, sem dúvida, a ideia de que talvez esse Deus pessoal não exista não passaria por sua cabeça. Confrontada com o mal e o sofrimento, essa pessoa poderia se perguntar por que Deus permite isso; os fatos do mal podem servir de aguilhão para a pesquisa e para a ação. Se não encontrar a resposta, ela com certeza concluirá que Deus tem uma razão que ultrapassa seu conhecimento; ela não ficará minimante inclinada a duvidar da existência divina. No modelo Aquino e Calvino, a existência do mal não é um anulador da crença em Deus para a pessoa plenamente racional.

E os outros crentes?

Portanto, no modelo Aquino e Calvino, os fatos do mal não estabelecem nenhum tipo de anulador da crença teísta para a pessoa plenamente racional. Apesar disso (assim o ateólogo astuto afirmará), o fato tem relevância duvidosa em relação à questão de os cristãos crentes em Deus — os que de fato existem — encontrarem nos males do mundo um anulador do teísmo. Pois, de acordo com a própria doutrina cristã, nenhum de nós, seres humanos, nos encontramos na condição imaculada de completa racionalidade. O sensus divinitatis foi muito danificado pelo pecado; para a maioria de nós, e na maior parte do tempo, a presença divina não é evidente. Para muitos de nós (de qualquer modo, em muitos momentos) a existência de Deus e da sua bondade são um pouco obscuras e evanescentes, em nenhum ponto chegando a ser tão evidente quanto a existência de outras pessoas ou a existência de árvores no quintal. Para a pessoa plenamente racional, o conhecimento dos fatos do mal pode não ser um anulador do teísmo; para os seres humanos caídos reais, no entanto (assim se afirma), esses fatos estabelecem anuladores do teísmo.

Levar adiante essa linha de raciocínio, no entanto, equivaleria a negligenciar outra característica da fé cristã: o dano ao sensus divinitatis é reparado, em princípio e de modo crescente, pelo processo da fé e da regeneração. A pessoa de fé se portar de modo que, pelo menos em algumas ocasiões, a presença divina lhe seja de todo evidente. Além disso, ela conhece o amor divino revelado na encarnação, o esplendor incompreensível de toda a narrativa cristã, o sofrimento e a morte de Jesus Cristo por nós, ele mesmo o divino e único Filho de Deus. Obviamente, esse conhecimento não apresenta resposta para a pergunta “Por que Deus permite o mal?”. Apesar disso, ela tem aqui uma importância crucial.

Leio a respeito de alguma atrocidade enorme e fico abalado. Contudo, penso no grande amor demonstrado no sofrimento e na morte de Cristo, na prontidão para se rebaixar e assumir a natureza de um servo, na prontidão para sofrer e morrer de tal forma que os seres humanos pecadores pudessem alcançar a redenção; e a minha fé pode ser restaurada. Ainda não posso imaginar por que Deus permite esse sofrimento, ou por que ele permite às pessoas torturarem e matarem umas às outras, ou por que ele permite experiências sociais enormes e horríveis como o nazismo e o comunismo. Apesar disso, vejo que ele deseja tomar parte no nosso sofrimento, passar por um sofrimento enorme, e fazê-lo por nós. Portanto, confrontado com um exemplo particularmente repugnante de mal, posso me ver inclinado a questionar Deus, até mesmo a ficar furioso e indignado: “Por que eu (ou a minha família) devo sofrer para promover os (sem dúvida elevados) fins de Deus, se não tenho nem mesmo um vislumbre de como o meu sofrimento contribui para algum bem?”. Contudo, penso na prontidão divina em suportar o sofrimento maior por mim e encontro conforto ou, pelo menos, quietude.

Note que as probabilidades têm pouca relação com o tema. Alguém nessa condição não raciocina: não é muito provável que um ser onipotente, onisciente e totalmente bom permita essas atrocidades — contudo, é mais provável que um ser disposto a se submeter ao sofrimento por nós permita essas atrocidades. O conforto envolvido aqui não se baseia em um raciocínio probabilístico.

Há outra consideração importante. É plausível pensar que o melhor dos mundos possíveis que Deus poderia ter atualizado contém o incompreensivelmente grande bem da encarnação divina e da redenção — no entanto ele contém, obviamente, também o pecado e o sofrimento. Deus escolhe um desses mundos para ser o mundo real; e nele a humanidade sofre. Apesar disso, também há nele a maravilhosa oportunidade para a redenção e para a amizade eterna com Deus, um bem incompreensivelmente grande que supera em muito o sofrimento que somos convocados a suportar. [125] E ainda, recebendo a oferta da eterna amizade com Deus, nós, seres humanos, somos convidados a partilhar do círculo atrativo da própria Trindade; e talvez seja o caso que o convite possa ser feito só às criaturas que caíram, sofreram, e foram redimidas. Se for mesmo assim, a condição da humanidade é muito melhor do que teria sido caso não tivesse havido o pecado e não houvesse qualquer sofrimento. Deveras, o felix culpa![126]

Portanto, as pessoas que têm fé (em quem ocorre o processo de regeneração) serão também tais que, conforme o modelo, a presença e a bondade de Deus lhes é, em algum grau, evidente; assim, para elas, a crença de que há um ser como Deus terá considerável garantia. Como alguém que nunca teve o sensus divinitatis danificado, ela também sentirá pouca ou nenhuma inclinação para o ateísmo ou o agnosticismo quando confrontada com os casos de males horríveis. Elas podem ficar perplexas, chocadas; podem ser estimuladas à ação e investigação da presença do mal terrível no mundo de Deus; mas cessar de acreditar não será uma opção para elas. Se o sofrimento for delas, podem concordar com o autor de Salmos 119.75, 76: “Bem sei, ó SENHOR, que os teus juízos são justos e que com fidelidade me afligiste. Venha, pois, a tua bondade consolar-me, segundo a palavra que deste ao teu servo”.

O fato é que eles podem até mesmo sentir um contentamento abençoado. Eis o trecho de uma carta de Guido de Brès (autor da Confissão belga, 1561) à sua mulher, escrita pouco antes de seu enforcamento:

Sua aflição e tristeza, perturbando-me em meio à minha felicidade e contentamento, são minha motivação para lhe escrever esta carta. Peço a você, com toda a sinceridade, que não fique aflita além da medida… Estou encerrado na mais fétida e desprezível masmorra, tão escura e sombria que tem o nome de Buraco Negro. Posso receber não mais que um pouco de ar, e esse é dos mais podres. Tenho sob as minhas mãos e pés ferros pesados que são uma tortura constante, esfolando a carne até meus pobres ossos. Porém, apesar disso tudo, meu Deus não deixa de realizar sua promessa, e de confortar meu coração, e me dar um abençoadíssimo contentamento.[127]

De Brès sofreu muito; ainda assim, ele sentiu “um abençoadíssimo contentamento”. Sem dúvida, a coisa mais distante de sua mente era o pensamento de que talvez não houvesse ninguém como Deus, que talvez ele tivesse sido enganado o tempo todo. E continuar a crer não revela irracionalidade: ele não teve no sofrimento um anulador da crença teísta, mas de algum modo o suprimiu (talvez por meio do pensamento positivo) e continuou a crer. Não, sua crença era, em vez disso, o resultado da função própria de processos cognitivos — o sensus divinitatis revitalizado, a instigação do Espírito Santo — que produz a crença em Deus.
Não há circunstâncias anuladoras para a crença teísta?

Com certeza, a maioria de nós não se encontra na condição espiritual de Guido de Brès. E nem todos nós sentimos esse conforto e contentamento em face do sofrimento. Como Calvino ressalta (A instituição, III.ii.15), a maioria de nós algumas vezes tem dificuldade de pensar que Deus é realmente benevolente para conosco; e mesmo os grandes mestres da vida espiritual às vezes se encontram em estado de escuridão espiritual. Os cristãos concordam que suas situações epistêmicas e espirituais diferem muito de pessoa para pessoa, e em relação a uma única pessoa, de tempos em tempos. Então não há nenhuma condição em que os fatos do mal estabelecem um anulador da fé cristã ou teísta?

Eu deveria considerar a resposta correta um “provavelmente não”. Considere a pessoa desprovida do sensus divinitatis em pleno funcionamento; alguém que crê em Deus de modo impensado e superficial, para quem a crença não tem vivacidade, profundidade ou vigor reais — talvez essa pessoa, sentindo profundamente os fatos do mal, abra mão da crença teísta. No entanto, isso não mostra que essa pessoa conta com um anulador da crença teísta. Ela tem esse anulador somente se, nessas circunstâncias, se comportar de modo irracional, contrário à função cognitiva própria de continuar a acreditar em Deus. Ela terá esse anulador apenas se for parte do nosso projeto de design cognitivo abrir mão da crença teísta nessas circunstâncias. Mas não temos razão para pensar que nosso projeto de design prescreva o abandono da crença teísta nessas circunstâncias. O projeto de design inclui a função própria do sensus divinitatis; como as coisas realmente se passam quando esse processo não funciona propriamente poderia ser parte do projeto de design; é mais provável, no entanto, que isso seja um subproduto não intencional em vez de parte do projeto de design.
Apesar disso, aceitemos, só para efeito de argumentação, que uma pessoa conte, de fato, com um anulador da crença teísta. O importante observar aqui é que se ela tem um anulador, isso acontece só pela falha da racionalidade em algum ponto de sua estrutura noética (talvez haja uma disfunção do sensus divinitatis). Agora imagine que voltamos à questão originária: a pessoa S, que crê na existência de um ser como Deus, tem um anulador nos fatos do mal? Podemos agora perceber que não há razão para pensar que ela conte com esse anulador. O próprio fato de S manter a crença teísta evidencia o bom funcionamento do sensus divinitatis nela, pelo menos em algum grau. Talvez seja possível (se o não crer nessas circunstâncias for parte do projeto de design) que ela tenha um anulador; contudo, não há razão para pensar que ela conte com esse anulador. Portanto, muito provavelmente os crentes em Deus não têm anuladores da crença teísta no conhecimento dos fatos do mal.

Para concluir: obviamente, não posso afirmar ter demonstrado a inexistência de anuladores da fé cristã ou teísta. Mas posso afirmar (e afirmo) que três dos mais plausíveis candidatos a esse posto — a crítica bíblica história, o pluralismo, e o mal — não são realmente bem-sucedidos.

NOTAS:

[120] Dialogues Concerning Natural Religion, Richard Popkin (org.). Indianapolis: Hackett, 1980, p. 63. Hume coloca o argumento na boca de Filo, conhecido como representante das posições de Hume. [Publicado em português com o título: Hume, Diálogos sobre a religião natural, São Paulo: Martins Fontes, 1992.]
[121] Para uma sugestão nesse sentido, veja, de minha autoria, “Supralapsarianism, or “O Felix Culpa”, In: Christian Faith and the Problem of Evil, P. van Inwagen (org.) (Grand Rapids: Eerdmans, 2004).
[122] O ponto essencial é a possibilidade, em um sentido lógico amplo, que 1) não estivesse no poder de Deus criar pessoas livres que sempre fizessem coisas corretas e 2) o valor de ter pessoas livres supera a perda do valor decorrente do mal feito por elas. Um desenvolvimento do argumento pode ser visto no livro de minha autoria God, Freedom, and Evil (Grand Rapids: Eerdmans, 1978), p. 7ss. [Publicado em português com o título: Deus, a liberdade e o mal, São Paulo: Vida Nova, 2012, p. 20ss.]
[123] Veja, de minha autoria, “Two Dozen (or So) Theistic Arguments”, disponível como Apêndice de: Contemporary Philosophy in Focus, Diane-Peter Baker (org.) (Cambridge: Cambridge University Press, 2007), p. 203ss.
[124] Eleonore Stump, “The Mirror of Evil”, In: God and the Philosophers, Thomas Morris (org.). New York: Oxford University Press, 1994, p. 239.
[125] Paulo continua em Rm 8.18: “Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós”.
[126] Felix culpa (lit., culpa bendita, ou feliz) é parte de uma expressão latina encontrada em um hino da liturgia romana, entoado na vigília da Páscoa, intitulado Exsultet. Lê-se na estrofe do hino que contém essa expressão: O felix culpa, quæ talem ac tantum meruit habere Redemptorem! [Ó culpa feliz que obteve para nós um Redentor tão grande, tão glorioso!]. [N. do R.]
[127] Apud Cornelius Plantinga Jr. in: A Place to Stand. Grand Rapids: Board of Publications of the Christian Reformed Church, 1981, p. 35.

Extraído: Conhecimento e fé cristã Alvin Plantinga

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