ESCATOLOGIA PARA ELEIÇÕES - Como superar o milenarismo derrotista - Daniel Gomide


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Estamos a poucos dias da definição do segundo turno das eleições de 2018. A disputa presidencial é entre o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Fernando Haddad, de um lado, e o candidato do Partido Social Liberal (PSL), Jair Messias Bolsonaro, por outro lado. Sobejam textos para orientar cristãos quanto à responsabilidade de escolher um candidato que represente minimamente os princípios bíblicos. O pastor-teólogo Guilherme de Carvalho escreveu um artigo intitulado Conselho ao Eleitor Cristão: Um Sermão Político sobre a Coragem, em um tempo de medo.[1] Uma carta intitulada Eleições 2018: Carta aberta à Igreja Brasileira[2] foi assinada por diversos representantes evangélicos conhecidos no Brasil. O pastor YouTuber Yago Martins publicou um vídeo intitulado Jesus Contra o Desarmamento[3] tendo em vista ser uma das propostas do candidato do PSL a oposição ao Estatuto do Desarmamento. Por seu turno, o pastor Henrique Vieira publicou um vídeo cujo título é Porque não votar em Bolsonaro.[4]

Poderíamos gastar várias páginas sobre orientações publicadas no intuito de influenciar cristãos das mais diversas denominações. A pergunta é: por que envidarei esforços para fornecer mais orientação a menos de uma semana da eleição? A resposta é que vale a pena gastar as energias para alertar a igreja brasileira sobre um aspecto importante que tem sido negligenciado em quase todas as orientações, isto é, a aplicação prática da doutrina bíblica denominada escatologia. Para fins práticos, não lidaremos com amplas definições e com a tarefa exegética. Antes, o propósito é apontar como nossa visão escatológica determina nossa postura em relação à política. Para isso, nos valemos de um livreto de Rousas J. Rushdoony, a saber, O Plano de Deus para a Vitória.

O entendimento de Rushdoony sobre escatologia se alinha às recentes pesquisas desenvolvidas na área de Teologia Bíblica. De acordo com ele, “Escatologia, a doutrina das últimas coisas, é também a doutrina das primeiras coisas, pois se preocupa com o objetivo da História” (2008, p. 13). De acordo com Van Groningen,

[...] escatologia se refere ao “estudo das últimas coisas”. A escatologia foi iniciada no tempo ou nos atos da criação. O que foi começado no princípio, o cosmos, será completado no sentido de ser renovado e trazido a seu estado de perfeição mais completo possível. Existe uma profunda e inseparável conexão entre criação e consumação, o começo e o fim (2002, p. 29).

A importância dessa definição ampla de escatologia é tornar disponível ao intérprete das Escrituras “todo o conselho de Deus”. A escatologia deixa de estar relacionada a apenas poucos temas, tais como o fim do mundo, a marca da besta, o anticristo, e passa a envolver aspectos mais amplos, como a própria natureza divina. Sendo assim, “o modo como vemos Deus e Cristo determinará a maneira de ver a nós mesmos, nosso chamado e o fim dos tempos” (RUSHDOONY, 2008, p. 18-19). A escatologia nessa perspectiva é analisada em íntima conexão com a teologia propriamente dita. Novamente, Rushdoony afirma: “Teologia é uma roupa sem costuras, e a visão dos fins dos tempos é inseparável da visão de Deus” (2008, p. 19).
A primeira lição que podemos destacar é que precisamos resgatar a visão alta de Deus que os reformadores mantiveram. Tendo a soberania divina como o baluarte do cristianismo, os reformadores não se deixaram abater pelas intempéries de seu tempo. A causa do derrotismo apregoada por algumas visões milenaristas é uma afronta ao Deus soberano! Em outras palavras, “a noção de derrota não combina com a tese de um Deus onipotente e um Cristo conquistador” (2008, p. 15).
Apesar de a teologia da prosperidade distorcer tal mensagem, não devemos abandoná-la. É a distorção que deve ser combatida, e não a verdade bíblica do Christus Victor!
A segunda lição que podemos extrair dessa visão escatológica que considera a natureza do Deus Todo-Poderoso é que a aparente vitória de Satanás em instaurar o caos em nossa nação não passa de uma equivocada interpretação da história. De acordo com essa interpretação, é evidente que Satanás domina esse mundo, sendo o príncipe dessa era. O mundo, ainda de acordo com tal visão, jaz no maligno e podemos ver que a ação de Satanás é bem-sucedida, principalmente quando está diante de nossos olhos o fato de que política deve sempre estar baseada em mentiras, calúnias, propagação do medo, divisão entre as pessoas, publicação de fake news, etc. Enquanto petistas podem considerar Bolsonaro como enviado do maligno, anti-petistas consideram Haddad a encarnação do mal. E nesse ínterim, procuramos os arautos de Deus para combater esse maniqueísmo que se infiltrou em nossas igrejas.
Aqueles que ainda prezam pela suficiência das Escrituras, poderão fazer coro a Rushdoony:

Deus não está preso ao tempo, pois ele é o criador do tempo, como de todas as coisas. Antes da fundação do mundo, ele ordenou e decretou todas as coisas que aconteceriam, de modo que o princípio e o fim da criação sempre estão totalmente diante dele. Deus está além da História, mas nem um segundo nem fio de cabelo em toda a História está além dele ou fora de seu governo e visão. Ele é o Senhor, o Todo-poderoso (2008, p. 31).

Ele governa o resultado das eleições de 2018. Ele levanta reis e derruba reis. Ele traçou um plano que não pode ser frustrado. Ele nos conduz sempre em triunfo (2Co 2:14). Se adotarmos o derrotismo, iremos nos retirar de modo acovardado do ambiente público e aguardar a segunda vinda. Mas esse não é o chamado da Grande Comissão. Cristo enviou a Grande Comissão para fazer discípulos entre todas as nações. Dessa forma, cabe ao povo de Deus abandonar o milenarismo derrotista e abraçar a escatologia da vitória:

A visão pós-milenista, embora vendo altos e baixos na História, vê a História se movendo para o triunfo do povo de Cristo, para a igreja triunfante de polo a polo, para o governo do mundo todo pela lei de Deus e, então, após um longo e glorioso reinado de paz, a segunda vinda e o final do mundo (RUSHDOONY, 2008, p. 30).





REFERÊNCIAS
CARVALHO, G. D. Conselho ao Eleitor Cristão: Um Sermão Político sobre a Coragem, em um tempo de medo. Guilherme de Carvalho, 2018. Disponivel em: <https://guilhermedecarvalho.com.br/2018/09/24/conselho-ao-eleitor-cristao-um-sermao-politico-sobre-a-coragem/>. Acesso em: 23 outubro 2018.
ELEIÇÕES 2018: Carta aberta à Igreja Brasileira. Tu Porém, 2018. Disponivel em: <https://tuporem.org.br/eleicoes-2018-carta-aberta-a-igreja-brasileira/>. Acesso em: 23 outubro 2018.
GRONINGEN, G. V. Criação e Consumação. 1ª. ed. São Paulo: Cultura Cristã, v. I, 2002.
MARTINS, Y. JESUS CONTRA O DESARMAMENTO. Dois Dedos de Teologia, 2018. Disponivel em: <https://www.youtube.com/watch?v=bCaOSDOYJjQ>. Acesso em: 23 outubro 2018.
RUSHDOONY, R. J. O Plano de Deus para a Vitória: o significado do pós-milenismo. Brasília: Monergismo, 2008.
VIEIRA, H. Porque não votar em Bolsonaro. Mídia Ninja, 2018. Disponivel em: <https://www.youtube.com/watch?v=3jIZVadlMYk>. Acesso em: 23 outubro 2018.





[1] CARVALHO, G. D. Conselho ao Eleitor Cristão: Um Sermão Político sobre a Coragem, em um tempo de medo. Guilherme de Carvalho, 2018. Disponivel em: <https://guilhermedecarvalho.com.br/2018/09/24/conselho-ao-eleitor-cristao-um-sermao-politico-sobre-a-coragem/>. Acesso em: 23 outubro 2018.

[2] ELEIÇÕES 2018: Carta aberta à Igreja Brasileira. Tu Porém, 2018. Disponivel em: <https://tuporem.org.br/eleicoes-2018-carta-aberta-a-igreja-brasileira/>. Acesso em: 23 outubro 2018.

[3] MARTINS, Y. JESUS CONTRA O DESARMAMENTO. Dois Dedos de Teologia, 2018. Disponivel em: <https://www.youtube.com/watch?v=bCaOSDOYJjQ>. Acesso em: 23 outubro 2018.

[4] VIEIRA, H. Porque não votar em Bolsonaro. Mídia Ninja, 2018. Disponivel em: <https://www.youtube.com/watch?v=3jIZVadlMYk>. Acesso em: 23 outubro 2018.


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