
Estamos
a poucos dias da definição do segundo turno das eleições de 2018. A disputa
presidencial é entre o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Fernando
Haddad, de um lado, e o candidato do Partido Social Liberal (PSL), Jair Messias
Bolsonaro, por outro lado. Sobejam textos para orientar cristãos quanto à
responsabilidade de escolher um candidato que represente minimamente os
princípios bíblicos. O pastor-teólogo Guilherme de Carvalho escreveu um artigo
intitulado Conselho ao Eleitor Cristão: Um Sermão Político sobre
a Coragem, em um tempo de medo.[1] Uma
carta intitulada Eleições 2018: Carta
aberta à Igreja Brasileira[2]
foi assinada por diversos representantes evangélicos conhecidos no Brasil. O
pastor YouTuber Yago Martins publicou
um vídeo intitulado Jesus Contra o
Desarmamento[3]
tendo em vista ser uma das propostas do candidato do PSL a oposição ao Estatuto
do Desarmamento. Por seu turno, o pastor Henrique Vieira publicou um vídeo cujo
título é Porque não votar em Bolsonaro.[4]
Poderíamos
gastar várias páginas sobre orientações publicadas no intuito de influenciar
cristãos das mais diversas denominações. A pergunta é: por que envidarei
esforços para fornecer mais orientação a menos de uma semana da eleição? A
resposta é que vale a pena gastar as energias para alertar a igreja brasileira
sobre um aspecto importante que tem sido negligenciado em quase todas as
orientações, isto é, a aplicação prática da doutrina bíblica denominada
escatologia. Para fins práticos, não lidaremos com amplas definições e com a
tarefa exegética. Antes, o propósito é apontar como nossa visão escatológica
determina nossa postura em relação à política. Para isso, nos valemos de um
livreto de Rousas J. Rushdoony, a saber, O
Plano de Deus para a Vitória.
O
entendimento de Rushdoony sobre escatologia se alinha às recentes pesquisas
desenvolvidas na área de Teologia Bíblica. De acordo com ele, “Escatologia, a
doutrina das últimas coisas, é também a doutrina das primeiras coisas, pois se
preocupa com o objetivo da História” (2008, p. 13) . De acordo com Van
Groningen,
[...] escatologia
se refere ao “estudo das últimas coisas”. A escatologia foi iniciada no tempo
ou nos atos da criação. O que foi começado no princípio, o cosmos, será
completado no sentido de ser renovado e trazido a seu estado de perfeição mais
completo possível. Existe uma profunda e inseparável conexão entre criação e
consumação, o começo e o fim (2002, p. 29) .
A
importância dessa definição ampla de escatologia é tornar disponível ao
intérprete das Escrituras “todo o conselho de Deus”. A escatologia deixa de
estar relacionada a apenas poucos temas, tais como o fim do mundo, a marca da
besta, o anticristo, e passa a envolver aspectos mais amplos, como a própria
natureza divina. Sendo assim, “o modo como vemos Deus e Cristo determinará a
maneira de ver a nós mesmos, nosso chamado e o fim dos tempos” (RUSHDOONY,
2008, p. 18-19) .
A escatologia nessa perspectiva é analisada em íntima conexão com a teologia
propriamente dita. Novamente, Rushdoony afirma: “Teologia é uma roupa sem
costuras, e a visão dos fins dos tempos é inseparável da visão de Deus” (2008, p. 19) .
A
primeira lição que podemos destacar é que precisamos resgatar a visão alta de
Deus que os reformadores mantiveram. Tendo a soberania divina como o baluarte do
cristianismo, os reformadores não se deixaram abater pelas intempéries de seu
tempo. A causa do derrotismo apregoada por algumas visões milenaristas é uma
afronta ao Deus soberano! Em outras palavras, “a noção de derrota não combina
com a tese de um Deus onipotente e um Cristo conquistador” (2008, p. 15) .
Apesar
de a teologia da prosperidade distorcer tal mensagem, não devemos abandoná-la.
É a distorção que deve ser combatida, e não a verdade bíblica do Christus Victor!
A
segunda lição que podemos extrair dessa visão escatológica que considera a
natureza do Deus Todo-Poderoso é que a aparente vitória de Satanás em instaurar
o caos em nossa nação não passa de uma equivocada interpretação da história. De
acordo com essa interpretação, é evidente que Satanás domina esse mundo, sendo
o príncipe dessa era. O mundo, ainda de acordo com tal visão, jaz no maligno e
podemos ver que a ação de Satanás é bem-sucedida, principalmente quando está
diante de nossos olhos o fato de que política deve sempre estar baseada em
mentiras, calúnias, propagação do medo, divisão entre as pessoas, publicação de
fake news, etc. Enquanto petistas podem considerar Bolsonaro como enviado do
maligno, anti-petistas consideram Haddad a encarnação do mal. E nesse ínterim,
procuramos os arautos de Deus para combater esse maniqueísmo que se infiltrou
em nossas igrejas.
Aqueles
que ainda prezam pela suficiência das Escrituras, poderão fazer coro a
Rushdoony:
Deus não está preso
ao tempo, pois ele é o criador do tempo, como de todas as coisas. Antes da
fundação do mundo, ele ordenou e decretou todas as coisas que aconteceriam, de
modo que o princípio e o fim da criação sempre estão totalmente diante dele.
Deus está além da História, mas nem um segundo nem fio de cabelo em toda a
História está além dele ou fora de seu governo e visão. Ele é o Senhor, o
Todo-poderoso (2008, p. 31) .
Ele
governa o resultado das eleições de 2018. Ele levanta reis e derruba reis. Ele
traçou um plano que não pode ser frustrado. Ele nos conduz sempre em triunfo
(2Co 2:14). Se adotarmos o derrotismo, iremos nos retirar de modo acovardado do
ambiente público e aguardar a segunda vinda. Mas esse não é o chamado da Grande
Comissão. Cristo enviou a Grande Comissão para fazer discípulos entre todas as
nações. Dessa forma, cabe ao povo de Deus abandonar o milenarismo derrotista e
abraçar a escatologia da vitória:
A visão
pós-milenista, embora vendo altos e baixos na História, vê a História se
movendo para o triunfo do povo de Cristo, para a igreja triunfante de polo a
polo, para o governo do mundo todo pela lei de Deus e, então, após um longo e
glorioso reinado de paz, a segunda vinda e o final do mundo (RUSHDOONY, 2008, p. 30) .
REFERÊNCIAS
CARVALHO, G. D. Conselho ao Eleitor Cristão: Um Sermão
Político sobre a Coragem, em um tempo de medo. Guilherme de Carvalho,
2018. Disponivel em:
<https://guilhermedecarvalho.com.br/2018/09/24/conselho-ao-eleitor-cristao-um-sermao-politico-sobre-a-coragem/>.
Acesso em: 23 outubro 2018.
ELEIÇÕES 2018: Carta
aberta à Igreja Brasileira. Tu Porém, 2018. Disponivel em:
<https://tuporem.org.br/eleicoes-2018-carta-aberta-a-igreja-brasileira/>.
Acesso em: 23 outubro 2018.
GRONINGEN, G. V. Criação
e Consumação. 1ª. ed. São Paulo: Cultura Cristã, v. I, 2002.
MARTINS, Y. JESUS
CONTRA O DESARMAMENTO. Dois Dedos de Teologia, 2018. Disponivel em:
<https://www.youtube.com/watch?v=bCaOSDOYJjQ>. Acesso em: 23 outubro
2018.
RUSHDOONY, R. J. O
Plano de Deus para a Vitória: o significado do pós-milenismo. Brasília:
Monergismo, 2008.
VIEIRA, H. Porque não
votar em Bolsonaro. Mídia Ninja, 2018. Disponivel em:
<https://www.youtube.com/watch?v=3jIZVadlMYk>. Acesso em: 23 outubro
2018.
[1] CARVALHO, G. D. Conselho ao Eleitor Cristão: Um Sermão
Político sobre a Coragem, em um tempo de medo. Guilherme de Carvalho,
2018. Disponivel em: <https://guilhermedecarvalho.com.br/2018/09/24/conselho-ao-eleitor-cristao-um-sermao-politico-sobre-a-coragem/>.
Acesso em: 23 outubro 2018.
[2] ELEIÇÕES 2018: Carta aberta à Igreja Brasileira. Tu
Porém, 2018. Disponivel em: <https://tuporem.org.br/eleicoes-2018-carta-aberta-a-igreja-brasileira/>.
Acesso em: 23 outubro 2018.
[3] MARTINS, Y. JESUS CONTRA O DESARMAMENTO. Dois Dedos
de Teologia, 2018. Disponivel em:
<https://www.youtube.com/watch?v=bCaOSDOYJjQ>. Acesso em: 23 outubro
2018.
[4] VIEIRA, H. Porque não votar em Bolsonaro. Mídia
Ninja, 2018. Disponivel em:
<https://www.youtube.com/watch?v=3jIZVadlMYk>. Acesso em: 23 outubro
2018.
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