Aborto e Ética cristã - Fabrício Bezerra



Introdução

O aborto é um tema que tem sido discutido bastante na atualidade, isso porque não parece ser consenso a aceitação do abortamento por parte da população brasileira. É mister pontuar que, o Brasil é um país composto por grupos que expressam as mais variadas crenças e ideologias onde o cristianismo se encontro num posto profundamente relevante e carregado de proposições bíblicas.

Limitar o tema “aborto” apenas a uma questão médica ou judicial é claramente um reducionismo desonesto, pois, a ética do aborto não subsiste somente na esfera do direito ou da biologia levando em conta que a ideia de “ética” já pressupõe princípios de moralidade e de valorização de algo. Por mais que o direito lide com elementos éticos, não é suficiente para os cristãos fundamentarem sua posição por esse viés, pois, a constituição não tem um caráter infalível e eterno. Mesmo reconhecendo a importância, a biologia também não seria o melhor meio para fundamentar a cosmovisão cristã quanto ao aborto, isso porque nem mesmo entre os biólogos há consenso de onde começa a vida e o que seria uma vida.

Apresentado as colocações inicias, é salutar entender que sempre que o Cristão for tratar acerca da ética do aborto, ele precisa coerentemente assumir pressupostos bíblicos e lógicos, uma vez que a bíblia estabelece o caráter de valorização da vida, e a lógica organiza a coerência e a validade da argumentação. Um ponto de partida comum para os abortistas, é o de que a ciência valida o ato através da observação, assim, pressupondo uma moralidade puramente empirista. Gordon Clark, assíduo crítico do empirismo e da ciência observacional, pontua:

1“Nenhuma conclusão normativa pode derivar de premissas observacionais. Qualquer tentativa de definir a moralidade pela ciência observacional é uma falácia lógica. A ciência pode inventar novas formas de matar pessoas, mas a ciência nunca pode determinar quem deve ser morto.”

A colocação de Clark é profundamente pertinente, pois, é improvável que a moralidade brote de processos biológicos e observacionais, levando em consideração o caos moral e ético que acarretaria a aceitação desse pressuposto. Na tribo dos Korowai na Indonésia, é “ético e moral” praticar o canibalismo, assuma a validade da premissa de que a ética deriva-se da observação e de processos culturais e visite os Korowai, quem sabe, você seja o jantar. Isso é um uso claro de “Reductio ad absurdum”, talvez porque o empirismo é sempre eficaz em caracterizar esse tipo de argumento lógico.

O Aborto e a Bíblia

A Escritura Sagrada é clara quando se trata de assassinato; Deus é o único que pode tirar a vida de alguém, (aqui pode-se incluir a pena capital referente as autoridades constituídas por Deus) “O Senhor é o que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura e faz tornar a subir dela.” (1 Samuel 2:6). A partir do momento que o Estado se acha no direito de quebrar e se colocar contra princípios éticos morais que preservam a vida de seres inocentes, eles se auto intitulam “deus”, e descumprem totalmente a função a ele destinada. Jonh Rushdoony, comentando sobre isso, diz:

2“O homem pode tirar a vida humana apenas em circunstancias bem restritas, essencialmente por crimes capitais como especificado na lei de Deus, na auto-defesa, e na guerra. Onde quer que o Estado ou o homem vão além da lei de Deus, tal ato estabelece o homem ou o Estado como senhor ou soberano sobre a vida. O direito de existir torna-se então uma concessão do Estado, que também tem então o “direito” de matar um homem à vontade.”

Novamente, a visão Cristã do aborto também não deve se basear naquilo que o Estado diz, uma vez que o Estado naturalmente tem se colocado como uma instituição Anti-Deus.

A Bíblia condena explicitamente o derramamento de sangue inocente, no qual necessariamente os bebês não nascidos estavam incluídos (Sl 106:38). Isso sugere que o aborto é essencialmente uma violação da vida, e, portanto, uma prática antiética. Desde o antigo testamento havia valor intrínseco na vida das crianças e dos bebês, de maneira que não existia qualquer necessidade de uma espécie de mandamento: “Não abortarás”. Era estranho para uma comunidade pautada na lei de Deus destruir um presente entregue pelo mesmo.

Não obstante, a premissa da discussão gira em torno do valor da vida. Há quem negue que um feto seja uma vida, tomando tal pressuposto, não fica distante a aceitação do aborto como uma prática “ética”. Por outro lado, é puramente axiomático, para os Cristãos genuínos, a ideia de que a vida começa na concepção. E a base para tal afirmação é, necessariamente, as proposições bíblicas.

Salmo 139:16: Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia.

O salmista classifica a existência, como pessoa, desde a concepção. Segundo as Escrituras, Deus “contempla” o ser humano desde a formação do corpo no ventre, e “escreve” todos os dias do ser criado. É totalmente alheio as Escrituras qualquer pressuposto que alimente a ideia de que um feto não é uma vida, ou de que a vida não começa na concepção.

Talvez alguns abortistas gostariam de “rasgar” os decretos de Deus, ou “ensina-lo” a anatomia do assassinato. No entanto, seria tolice tal aceitação diante de um Deus detentor de todo conhecimento, que esmaga exércitos, estraçalha reis e condena abortistas para o inferno. Certamente, Deus odeia “mãos que derramam sangue inocente” (Provérbios 6:17).

Por fim, o Novo Testamento também confirma o pressuposto de que uma criança no ventre é uma vida. Diante da irracionalidade de muitos em negar a aplicação ética do

Antigo Testamento, é pertinente destacar que o Novo Testamento é um reforçador das verdades divinas veterotestamentarias.

Desde o ventre, Jesus e João Batista eram vistos como pessoas.

Mat 1:18 Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se ajuntarem, achou-se ter concebido do Espírito Santo.

Luc 1:15 Porque será grande diante do Senhor, e não beberá vinho, nem bebida forte, e será cheio do Espírito Santo, já desde o ventre de sua mãe.

Luc 1:41 E aconteceu que, ao ouvir Isabel a saudação de Maria, a criancinha saltou no seu ventre; e Isabel foi cheia do Espírito Santo.

Esses versículos devem soar estranho aos ouvidos abortistas. Uma criança concebida pelo Espírito Santo e outra que salta ainda no ventre da mãe, não parecem evidenciar duas vidas na mente de assassinos.

Breves objeções

Alguns abortistas argumentam que os bebês no ventre não sentem dores e não tem consciência, e por conta disso, eles podem muito bem serem abortados, sendo assim um ato ético e moral. No entanto, tal argumento é profundamente tolo, dado que isso justificaria o assassinato de pessoas, por exemplo, que sofrem da síndrome de “Riley- Day” (causa profunda insensibilidade no corpo), ou até mesmo de pessoas que caem num profundo sono em que suas consciências basicamente desligam. Neste segundo caso, é oportuno que os abortistas fiquem de olhos bem abertos para não dormirem.

Um outro argumento comum acerca da aceitabilidade do aborto, é de que o corpo da mulher, por ser dela, garante o direito de fazer o que quiser, inclusive, assassinar um bebê indefeso. Acerca disso, Craig destaca: 3“desde o momento de sua concepção e implantação na parede do útero da mãe, o feto nunca é uma parte do corpo da mãe, mas é um ser vivo biologicamente distinto e completo”.

É bem verdade que o corpo da mulher é propriedade dela (neste ponto ainda há controvérsias), o que não sugere que o corpo do bebê seja uma extensão do corpo da mulher, antes, tanto o direito quanto o corpo são do próprio bebê. Aqui não é aceitável a expressão: “Meu corpo, minhas regras!”, pois, o corpo é de outro e as regras da vida são de Deus.

Não obstante, se estar na propriedade alheia implica na justificativa do assassinato, então os abortistas não deveriam reclamar caso Deus queira os aniquilar da face da terra, obviamente, Deus não os assassinaria como uma ideia de quebra da lei (Deus é “ex-lex”), antes, exerceria justo juízo. Ainda é possível citar mais um problema neste argumento abortista, que seria o de trazerem princípios escravocratas. Sim! É basicamente o mesmo argumento usado para justificar a escravidão, dado que, se você reside numa propriedade de outro, então o dono da propriedade que decide se você é uma posse ou uma pessoa. Certamente, muitas mortes foram advindas de tal pensamento falacioso. Hitler bateria palmas para os abortistas.

Conclusão

Portanto, a ética cristã deve sempre fundamentar-se nas proposições bíblicas, pela seguinte razão, uma ética consistente só pode assumir um caráter eterno de justiça e bondade se deduzida ou extraída logicamente das Escrituras Sagradas. Em conformidade com a prerrogativa bíblica, é inegável a importância das leis da lógica nesta questão. Uma vez que, a lógica é a caraterística do pensamento de Deus. A lei da não-contradição ensina que A não pode ser B, no mesmo tempo e no mesmo sentido, o que sugere que se uma maçã é verde, ela não pode ser rosa no mesmo tempo e no mesmo sentido. Seguindo essa linha, quando a bíblia diz que um bebê saltou no ventre da mãe, não significa que o bebê estava morto no ventre da mãe, ou que havia ali apenas um amontoado de células inanimadas prontas a serem jogadas numa descarga. Antes, significa exatamente que ele saltou, que ele tinha vida, que ele era uma pessoa. Jesus já tinha um nome e já era esperado como uma pessoa, antes mesmo do início da sua formação biológica. Mas, saltar ou ficar parado, não é algo muito levado em conta quando um assassino está prestes a agir.

A prática do aborto é simplesmente uma clara manifestação de assassinato por conveniência. Apoiar o aborto significa, necessariamente, apoiar o derramamento de sangue inocente. Deus odeia isso! Isso é imoral, antiético e pecaminoso.

Certamente, Deus odeia “mãos que derramam sangue inocente” (Provérbios 6:17).

NOTAS:

1 CLARK, Ensaios sobre Ética e Política. Brasília, DF: Editora: Monergismo, 2018, p.146
2 RUSHDOONY, O “Direito” ao Aborto. Monergismo.com, 2007, p 1.
3 CRAIG, Apologética para questões difíceis da vida. São Paulo: Vida Nova, 2010, p.129

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