
Gostaria de chamar sua atenção para as palavras encontradas
em João 1.26, 33: “Respondeu-lhesJoão: Eu batizo com água; mas, no meio de vós,
está quem vós não conheceis (…). Eu não o conhecia;aquele, porém, que me enviou
a batizar com água me disse: Aquele sobre quem vires descer e pousaro Espírito,
esse é o que batiza com o Espírito Santo”.
Eu tomo estes dois versículos e os coloco juntos por causa
dessa grande verdade que trazem, a saber,que João Batista estava constantemente
dizendo ao povo que não era o Cristo, e que a diferença essencial entre eles era
que ele batizava com água, enquanto o Cristo batizaria com o Espírito Santo.
Mas, por que estamos observando isso? Estamos fazendo porque
a declaração de João 1.16 deveria ser a verdade para todo cristão. “Porque todos
nós temos recebido da sua plenitude e graça sobre graça”. É assim que o cristão
deve ser. Ele é um homem que recebeu algo da plenitude de Cristo e continua
recebendo, cada vez mais. Essa é a vida cristã. E estou sugerindo que João, o evangelista,nos
mostra que a maneira pela qual isso pode se tornar verdade para nós, e uma
verdade cada vez maior, é que recebemos a plenitude do Espírito em grande e
ampla medida, quando somos verdadeiramente batizados com o Espírito Santo pelo
Senhor Jesus Cristo.
O próprio João Batista delineou claramente esse contraste em
seu ministério. Quando lemos Lucas 3.1-17, vemos alguns dos notáveis contrastes
entre o batismo de João e o batismo de nosso Senhor. Colocando de forma muito
simples, vemos a diferença entre religião e cristianismo; ou, na verdade,
indo além, a diferença entre estar contente apenas com o básico ou “princípios
elementares” (ver Hb 6.1) da doutrina de Cristo, e essa mesma doutrina em maior
plenitude.
Agora estamos fazendo esse último, e devo continuar
repetindo, porque isso não é um exercício acadêmico. De fato, parece-me que isso
é o que precisamos, acima de tudo, no presente momento.Precisamos disso como
cristãos individuais, mas precisamos ainda mais por causa do estado do mundo ao
redor e sobre nós. Se não temos senso de responsabilidade pela condição da
humanidade neste momento, então só há uma coisa a dizer – se somos cristãos,
somos muito medíocres. Se estivermos preocupados apenas conosco e com nossa
felicidade, e se a condição moral da sociedade e a tragédia de todo o mundo não
nos entristecem, se não somos perturbados pelo modo pelo qual os
homens blasfemam o nome de Deus e toda a arrogância do pecado – bem, o que pode
ser dito sobre nós?
Mas estou presumindo que estamos preocupados, e que estamos
preocupados por nós mesmos, para que possamos receber o que Deus pretendeu que
recebêssemos em seu Filho. “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho
unigênito” (Jo 3.16) – e se não estamos recebendo o que ele tornou possível, é
um insulto a Deus. Portanto, esses dois aspectos devem ser levados em conta –
nosso estado e necessidades individuais – porém, ainda mais, a condição do mundo
ao nosso redor. Isso,então, é o que estamos fazendo, e estou tentando mostrar
que o grande e constante perigo é que devamos estar conformados com algo muito
aquém do que o pretendido para nós.
Deixe-me colocar desta forma: talvez o maior perigo de todos
para os cristãos seja compreender as Escrituras à luz de suas próprias
experiências. Não devemos interpretar as Escrituras à luz de
nossas experiências, mas devemos examinar nossas experiências à luz do ensino
das Escrituras. Este é um ponto fundamental e básico, que é particularmente
importante neste exato momento em vista das coisas que estão acontecendo na
igreja cristã.
Há duas maneiras principais pelas quais, parece-me, podemos
errar nesta questão da relação de nossas experiências com o ensino das
Escrituras. O primeiro perigo é o de reivindicar coisas que vão além delas ou
que, na verdade, podem até ser contrárias a elas. Agora há muitos que fizeram
isso ao longo dos séculos, e há pessoas que ainda estão fazendo isso. Tem havido
pessoas – elas foram encontradas na igreja primitiva – que afirmaram que eram
inspiradas de maneira única. O apóstolo os chama de “falsos apóstolos”. E havia
pessoas que afirmavam estar recebendo “revelação”, não se importando qual era o
ensinamento; eles diziam estar diretamente inspirados por Deus.
Eu me lembro de uma vez ouvir um homem dizendo que ele não
se importava com o que o apóstolo Paulo ou qualquer outra pessoa dissesse, pois
ele sabia! Ele teve uma experiência. Agora, no momento em que um homem diz isso,
ele está colocando sua própria experiência acima das Escrituras. Isso abre a
porta ao fanatismo; não entusiasmo, mas fanatismo e outros possíveis perigos.
Portanto, há um risco – que é colocarmos nas Escrituras o que experimentamos de
forma subjetiva.
Outra maneira pela qual isso é feito é colocar a tradição ou
o ensino da igreja acima das Escrituras. Esta tem sido a heresia
católico-romana; dizer que a tradição é coordenada com a Escritura, porque
no final das contas isso significa que a tradição é superior as Escrituras. Não
há nada na Escritura sobre a chamada Assunção da Virgem Maria – uma doutrina
que diz que ela nunca morreu e foi enterrada, mas que literalmente teve seu
corpo assunto ao céu – embora eles ensinem isso, e é somente sua autoridade que sanciona
tal ensinamento. Esse é o tipo de coisa que quero dizer.
Deixando de lado algo tão óbvio quanto a heresia
católico-romana, existem muitos (e geralmente são as pessoas mais inclinadas à
espiritualidade) que estão sempre inclinados a se tornar tão vidrados
na experiência espiritual, que terminam indiferentes às Escrituras. Os primeiros
Quakers1 estavam particularmente sujeitos a isso, com a sua ênfase na “luz
interior”. Eles também disseram que, o que quer que as Escrituras dissessem,
sabiam que uma doutrina lhes fora revelada diretamente. Um deles (pobre homem)
alegou que era o Cristo encarnado novamente, e cavalgou pela cidade de Bristol,
com muitas pessoas equivocadas o seguindo e acreditando em seu ensino, porque
ele lhes falava com autoridade.
Isso é fanatismo, e é um perigo terrível que devemos sempre
ter em mente. Ele surge de um divórcio entre as Escrituras e a experiência,
quando colocamos esta acima da Palavra de Deus, alegando coisas que não são
sancionadas por ela, ou que talvez sejam até proibidas nela.
Também há um segundo perigo e é igualmente importante que
tenhamos isso em mente. Este é exatamente o oposto do primeiro, pois essas
coisas geralmente vão de um violento extremo ao outro.Quão difícil é sempre
manter um equilíbrio nesse assunto! O segundo perigo, então, é estar satisfeito
com algo muito menor do que o que é oferecido nas Escrituras, o perigo de
interpretar as Escrituras pelas nossas experiências e reduzir seu ensino ao
nível daquilo que conhecemos e experimentamos; e eu diria que este segundo é o
maior perigo dos dois no presente momento.
Em outras palavras, certas pessoas, instintivamente, têm
medo do sobrenatural, do incomum, da desordem. Você pode ter tanto medo da
desordem, ser tão preocupado com disciplina, decência e controle, que se torna
culpado do que as Escrituras chamam de “apagar o Espírito”; e não há dúvida
em minha mente de que tem acontecido muito isso.
As pessoas chegam ao Novo Testamento e, em vez de tomarem
seus ensinamentos como são, elas o interpretam à luz de suas experiências e,
assim, reduzem-no. Tudo é interpretado em termos do que eles têm e do que
experimentam. E acredito que isso é em grande parte responsável pela condição
da igreja cristã neste tempo presente. As pessoas têm tanto medo do que chamam
de entusiasmo, e algumas têm tanto medo do fanatismo que, para evitar isso, elas
vão direto para o outro lado, sem encarar o que é oferecido no Novo Testamento.
Elas consideram o que têm e o que são como a norma.
Deixe-me resumir assim. Compare, por exemplo, o que você leu
sobre a vida da igreja em Corinto coma vida típica da igreja hoje. Você diz:
“Ah, mas eles eram culpados de excessos em Corinto”. Eu concordo muito. Mas
quantas igrejas você conhece atualmente para as quais é necessário escrever uma
carta como a Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios? Não coloque sua ênfase
inteiramente nos excessos. Paulo corrige os excessos, mas perceba o que ele
permite; o que ele espera.
Considere seu Novo Testamento como ele é. Olhe para o
cristão do Novo Testamento, olhe para a igreja do Novo Testamento, e você a vê
vibrante com uma vida espiritual e, é claro, é sempre a vida que tende a levar a
excessos. Não há problema de disciplina em um cemitério; não há problema em uma
igreja formal. Os problemas surgem quando há vida. Uma pobre criança doente não
é difícil de lidar, mas quando essa criança está bem e cheia de vida e vigor,
bem, então você tem seus problemas. Os problemas são criados pela vida e pelo
vigor, e os problemas da igreja primitiva eram espirituais,surgindo por causa
do perigo de se exceder no reino espiritual.
Alguém gostaria de afirmar qual o perigo na igreja hoje? É
claro que não, e a razão é que temos tentado interpretar o ensino do Novo
Testamento à luz de nossas próprias experiências.
Estes, então, são os dois grandes perigos, ambos igualmente
errados. Normalmente os excessos e o fanatismo são mais espetaculares e sempre
atraem a atenção, mas o outro é igualmente ruim, senão mais. Há toda a diferença
no mundo entre um homem em estado de delírio quando ele está doente, e um homem
que sofre de um tumor terrível que está consumindo os sinais vitais de sua vida
e de seu corpo e reduzindo-o mais ou menos a um estado de paralisia e de
impotência. Mas as duas coisas são igualmente ruins e, portanto, temos que nos
lembrar de ambas.
E assim, ao lidarmos com toda essa questão, eu coloco esta
proposição fundamental – que tudo deve ser provado pelo ensino da Escritura. Não
devemos começar com o que pensamos; o que gostamos. Alguns de nós preferimos o
espetacular, outros são tão dignos que a dignidade é a única coisa que importa:
tudo deve ser ordeiro, digno e metódico, funcionando como um relógio com todas
as características mecânicas e mecanicistas de um aparelho ou de uma máquina.
Então, se começarmos com nós mesmos e o que gostamos e nossa experiência, já
estaremos errando. Não, temos que partir, todos nós, do Novo Testamento e seu
ensino.
Felizmente para nós há muito ensino. Se olharmos para dois
incidentes em Atos, o final do capítulo 18 e início do capítulo 19 – o episódio
de Apolo e o episódio dos discípulos que Paulo encontrou em Éfeso –descobrimos
as seguintes coisas: há obviamente passos, ou estágios na vida cristã. O
Novo Testamento está cheio disso. “Crianças em Cristo”, “moços”, “velhos”,
“crescendo na graça e no conhecimento do Senhor”, e assim por diante. Mas não só
isso, tal fato é mais do que apoiado,cumprido e fundamentado na história
subsequente dos homens na longa linha do tempo da igreja cristã,e vemos,
especialmente nesses dois exemplos aos quais me referi acima, que o que realmente
faz a diferença é este batismo do Espírito Santo, ou com o Espírito Santo, ou
este “receber” do Espírito.
Deixe-me tentar colocar este ensinamento do Novo Testamento
como eu o compreendo na forma de vários princípios. Nós devemos fazer isso
porque João nos diz no início de seu Evangelho que o que vai diferenciar a nova
Era da antiga, incluindo até João Batista, é este batismo com o Espírito. Aqui
está o primeiro princípio: é possível para nós sermos crentes no Senhor Jesus
Cristo sem ter recebido o batismo do Espírito Santo.
Mas deixe-me esclarecer isso, porque muitas vezes é
mal-entendido – e isso para mim é o ponto crucial de toda a interpretação do
Novo Testamento neste quesito, é o ponto-chave. Não comece a pensar
em fenômenos; eu vou chegar a isso mais tarde. Esse é o erro fatal que as
pessoas cometem. Elas começam com fenômenos, têm seus preconceitos e assumem
suas linhas e seus pontos, e o ensino do Novo Testamento é totalmente esquecido.
Não, devemos começar com o ensino da Escritura.
Como? Bem, desta maneira. É óbvio que nenhum homem pode ser
cristão, a não ser pela obra do Espírito Santo. O homem natural, a mente
natural, nos é dito, “é inimizade contra Deus, pois não estás ujeito à lei de
Deus, nem mesmo pode estar”. O apóstolo Paulo, em toda essa passagem em
Romanos 8.7, que acabei de citar, traça sua grande distinção entre o homem
“natural” e o homem “espiritual”, e essa é a grande diferença. O homem
espiritual é um homem – ele diz – que é “guiado pelo Espírito” e que “anda
segundo o Espírito, não pela carne”. Basicamente, portanto, você deve começar
dizendo que nenhum homem pode ser um cristão sem o Espírito Santo. A mente
natural é “ inimizade contra Deus,pois não está sujeita à lei de Deus, nem
mesmo pode estar”. Novamente, em 1 Coríntios 2.14, Paulo coloca desta maneira:
“Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, por- que lhe
são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente”.
Nesse capítulo, também, o apóstolo está traçando uma distinção entre o cristão e
o não cristão. Ele diz que: “os poderosos deste século”, apesar de serem grandes
homens em grandes posições e homens de muita habilidade, não são cristãos. Por
quê? Bem, eles não creram no Senhor Jesus Cristo, se “tivessem conhecido,
jamais teriam crucificado o Senhor da glória”.
Como então acreditamos; como alguém acredita nele? Bem, ele
diz: “Deus nos revelou pelo Espírito;porque o Espírito todas as coisas
perscruta, até mesmo as profundezas de Deus”. E novamente ele diz: “nós não
temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que
conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente”.
Ele diz que somos cristãos porque o Espírito Santo trabalhou
em nós e nos deu essa iluminação,conhecimento e compreensão, essa capacidade de
crer. Um homem não pode crer sem a obra do Espírito Santo. Em todo crente, o
Espírito Santo é necessariamente um residente. Essa é uma declaração fundamental
de toda a Escritura. É o Espírito quem nos convence e nos dá a iluminação e
a capacidade de crer. Nenhum homem pode crer no evangelho de forma natural. Isso
é fundamental em toda a Bíblia.
Mas então podemos ir mais longe. É o Espírito Santo que nos
regenera, é ele quem nos dá nova vida. O cristão é um homem que nasceu de novo.
Sim, ele é um homem que é “nascido do Espírito”. Agora, no Evangelho de João,
como vamos descobrir, há um grande ensinamento sobre isso. Você obtém isso
de uma só vez nos ensinamentos de nosso Senhor a Nicodemos e a todos os homens.
“Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus” (Jo
3.5). É isso. É algo que acontece como resultado da operação do Espírito Santo.
Regeneração é a obra do Espírito Santo; é uma obra secreta dele. Não é algo
experimental, mas é um trabalho secreto, e somente a pessoa sabe que isso
aconteceu com ela.
Trecho do livro O BATISMO E OS DONS DO ESPÍRITO, próximo
lançamento da Editora Carisma.
1Membros da denominação conhecida como Sociedade Religiosa
dos Amigos, um grupo cristão de orientação puritana surgida no século 17 na
Inglaterra [N.T.].
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