O supralapsarianismo cristológico de Thomas Goodwin(4/4)


O supralapsarismo cristológico de Thomas Goodwin (2/4)



A ordem dos decretos Ao contrário da alegação de Horton de que o debate infralapsarismo versus supralapsarismo tratou do meio de se chegar ao fim (finalidade), o debate foi na verdade sobre a sequência lógica dos decretos.'"’ Goodwin entende que a distinção entre o fim e o meio é “amplamente reconhecida”. Ele defende a posição de que, no que diz respeito ao fim. Deus via a humanidade como não caída em sua eleição de seres humanos, mas a via como caída em seus decretos sobre o meio para alcançar aquele fim.'“ Mas Goodwin reconhece que o meio e 0 fim precisam ser explicados. O objetivo é a glória de Deus, que Goodwin chama de “fim supremo” ou “fim último”, a saber, a perfeição gloriosa que Deus pretendeu para os eleitos.'*^ A perfeição dos eleitos é o que Goodwin tem em mente quando sustenta que o decreto acerca do fim não se baseou numa consideração sobre a Queda.''^ Contudo, o decreto sobre o meio que leva ao “fim último”, ou seja, o meio pelo qual os eleitos são levados à perfeição na glória, considerou o homem como caído.

Goodwin identifica a posição dos supralapsarianos puros: “O supralapsariano genuíno entende que a criação e a permissão para a Queda são o meio de atingir esse fim e os chama de meio que produz aquilo que o propósito ou decreto especificaram como fim ou glória últimos Mas Goodwin alega que 0 meio se refere àquilo que Cristo, como redentor dos eleitos de Deus, realizou pelo seu povo, o que também é conhecido como obras transientes em contraste com obras imanentes. Os benefícios salvíficos da obra de Cristo são “preparativos para a glória” (Rm 9.23; Ef 2.10).'"’ Esse meio que prepara os eleitos de Deus para a glória “pressupõe uma Queda”

Adão, em seu estado anterior à Queda, possuía uma santidade natural e inerente, mas não era um meio que o preparava para a glória da eleição, pois ela não tinha uma base cristológica. Nem o pecado de Adão foi um meio para possuir tal glória, mas “um mero [...] recurso pelo qual a eleição se transformou numa nova ampliação [...] e expansão da graça [...] para com os eleitos [...] na sua condição de pecadores”.'*^ Desse modo, pecadores caídos recebem graça redentora a fím de produzirem o fim último, a saber, sua glorificação. Existe, no entanto, uma graça anterior [i.e., a própria eleição), em que os eleitos são considerados seres não caídos. Goodwin está apresentando o argumento de que a Criação e a permissão para a Queda são atos da providência de Deus e não meios diretos para o “fim último”. Por isso, os meios se referem à obra redentora de Cristo; eles possuem uma influência imediata em conduzir os eleitos à glória. Como consequência, Coodwin sustenta que, no decreto que diz respeito ao fim. Deus considerou o homem um ser não caído. Ele cita o teólogo ortodoxo reformado alemão Amandus Polanus (1561-1610):

Em seu decreto de eleição. Deus contemplou (ou olhou para) seus eleitos na condição final a que os predestinou, como homens vistos essencialmente como grupo, sem nenhuma consideração de virtudes neles. Mas, se pensarmos no meio que conduz ao fim, ele considerou os homens não em sua condição justa (antes da Queda), mas como seres que pela Queda seriam corrompidos por si mesmos e em si mesmos e por sua imperfeição despencariam livremente na morte eterna.

A questão, conforme assinalado por Coodwin, não é se a eleição diz respeito aos meios. Antes, a controvérsia é se o decreto de Deus tanto acerca do fim quanto dos meios foi “inteiramente decidido com base na multidão criável [i.e., seres humanos em potencial, que ainda seriam criados] antes da Queda ou então inteiramente decidido com base no conjunto da humanidade considerada e vista primeiramente como caída no pecado”.' Depois de ler vários autores, Goodwin reconhece que muitos “de fato julgam que é incompatível que as duas idéias coexistam ”.®“ Acerca da compatibilidade das duas posições, Goodwin defende que “Deus considerou as duas condições ao mesmo tempo, de modo que, quanto ao tempo, uma não aconteceu antes da outra”. Numa tentativa de fazer “ambas coexistirem”, Goodwin comenta:

Tendo tudo diante de si por causa de seu imenso entendimento. Deus, no seu propósito de eleger o homem com vistas a um fim, considerou o homem como alguém não caído, mas quanto aos meios o considerou caído e decretou tanto o fim quanto os meios, tudo numa única e mesma decisão de sua divina vontade.
Aqueles versados nesta controvérsia sabem muito bem que há alguns teólogos eminentes que procuraram conciliar essas diferentes opiniões, isto é, sobre se o objeto da predestinação foi o homem caído ou o não caído.

Tanto o fim quanto os meios estavam simultaneamente na mente de Deus; “nem um nem outro veio primeiro ou depois”. Apesar disso, Goodwin sustenta que na mente e vontade divinas o decreto que trata do fim, no qual o homem é considerado não caído, é o ponto de partida [term inus a quo). Goodwin cita o escolástico reformado alemão Bartholomäus Keckermann (c. 1572-1609), que sustenta de modo parecido que o decreto de eleger tem de ser considerado de duas maneiras. Em primeiro lugar, quanto ao fim (i.e., a vida eterna), “a Queda não era necessária, pois a Queda não era um meio para atingir o fim, mas um impedimento”.^'' Em segundo, também é possível entender que o decreto de eleger diz respeito ao homem caído, o que Deus anteviu como o meio. Tendo em vista a redenção, a eleição “inclui necessariamente uma consideração e uma ponderação sobre a Queda”.^^ Gonforme assinalado anteriormente, Goodwin faz uma distinção crucial entre eleição e predestinação. A eleição diz respeito ao fim; assim, na eleição. Deus, sem considerar a Queda, decreta dar vida eterna aos homens. Mas a predestinação faz parte do decreto divino que considera que 0 homem está no pecado, ou seja, caído. A predestinação envolve, então, 0 meio para se atingir o fim. Por esse motivo, o debate infralapsarismo versus supralapsarismo não pode ter em vista apenas a predestinação, tampouco se o homem é considerado caído ou não caído. Proceder assim é fazer uma leitura errônea da posição de Goodwin, pois em seu esquema eleição e predestinação não são sinônimos.

O supralapsarismo de Goodwin é esclarecido também em sua distinção entre amor e misericórdia. Quando Deus demonstra amor a uma criatura, ele 0 faz “não pensando nos homens caídos, mas naquela multidão total ainda não caída"} Q amor necessariamente precede a misericórdia, de modo que Deus demonstra misericórdia para com criaturas caídas a fim de mostrar como ele as amou quando ainda não tinham caído “e, por isso, ele as deixa cair no pecado para poder ser misericordioso”.'' Com base na distinção que estabelece entre eleição e predestinação, Goodwin deixa claro que a eleição não foi um ato de misericórdia, mas de amor. Certamente Deus também decretou demonstrar misericórdia, mas a eleição é estritamente um ato de amor. Aliás, Goodwin ressalta que todos os atributos de Deus estão sujeitos ao seu amor.®^ Deus tem misericórdia de alguns e não de outros porque amou alguns e não outros. Deus mostra seu amor no mediador, Jesus Cristo, que em sua natureza humana personificou o amor que o Pai tem pela igreja. Foi o amor que “o levou dos céus ao ventre, e do ventre à cruz, e o amor fez com que ficasse na cruz [...] Foi seu amor que o manteve ali”.“ O amor que estava no coração de Cristo — no que diz respeito a sua natureza humana — era com certeza menor do que o amor de Deus, uma vez que o finito não consegue conter 0 infinito. Mesmo assim, “se houvesse mundos infinitos feitos de criaturas amorosas, elas não teriam tanto amor em si quanto houve no coração daquele homem Cristo Jesus”.“ O amor que Deus e Cristo têm pela igreja se manifesta na salvação dos eleitos. Em seu estudo sobre a eleição, Goodwin mostra que ela envolve a união dos eleitos com Deus e com Cristo; essa união é a bênção espiritual mais destacada que decorre da eleição.





União com Deus e Cristo

Um importante tema na teologia de Goodwin diz respeito ã glória de Jesus Cristo. Deus elegeu o Filho para ser o Deus-homem, tendo em vista fins mais elevados do que a salvação da humanidade. Os eleitos foram escolhidos para serem o prazer de Cristo, mas Cristo foi eleito para ser o Deus-homem para o prazer de Deus. Dessa maneira. Deus vê em Jesus Cristo a imagem de si mesmo (Cl 1.15-18). Na pessoa de Jesus Cristo, Deus se comunica “de tal forma grandiosa e superior que não poderia haver outra forma de comunicar a si mesmo a meras criaturas”.“ Esse fim, conforme assinalado anteriormenfe, transcende em muito o fim de Cristo ser mediador de seu povo. Na condição de Deus-homem escolhido. Cristo é dotado de realeza para ser o fim soberano de todas as coisas. Em outras palavras. Cristo foi “predestinado para sua própria dignidade; mas nós fomos predestinados para a glória de Deus e de Cristo”

A glória de Cristo não depende em primeiro lugar da glória que ele recebe de seu povo redimido, mas da dignidade de sua pessoa. Cristo mantém uma relação dupla com os eleitos, a de cabeça e a de Salvador. Cristo é cabeça de seu povo quando este é considerado na condição de não caído [in m assa p u m ]. Cristo é visto como salvador de seu povo quando este é considerado caído. Goodwin assim resume sua posição sobre esse assunto no que diz respeito aos decretos:

E essas duas relações de Cristo, como cabeça e como Salvador, são simultâneas com nossa eleição por Deus [...] quanto à nossa compreensão não ocorrem nem antes nem depois, nem no tempo (pois em Deus nenhum decreto vem antes ou depois de outro) nem na ordem. Pois não poderia ser nosso cabeça se não houvesse seu correlativo, seu corpo; e isso também vale para o outro aspecto, o de ser redentor. E Cristo não teria sido ordenado para ambos, se não fosse por nossa causa e de nossa salvação. Mas ainda assim no objetivo básico e inicial a eleição da pessoa de Cristo continua sendo absoluta em si mesma e possui fins mais elevados do que aqueles que são mencionados; e isso não dependeu em nada de nós nem de nossa eleição.

Mais uma vez Goodwin deixa claro que a glória da pessoa de Cristo mantém o lugar de preeminência no que diz respeito à finalidade da Criação. Mas, no que diz respeito aos eleitos, a finalidade suprema da eleição é Deus escolher crentes para “uma união sobrenatural consigo mesmo e para uma comunicação de si m esm o”.“ Para os crentes o objetivo final é a união com o Deus triúno. Goodwin menciona a máxima de que “o que vem por último na execução é o que vem primeiro na intenção [...] E [...] conforme vedes, isso é 0 que vem por último na execução. Ele nos escolheu para si mesmo; essa foi sua intenção primeira. E ele nos apresenta para si mesmo, como a última coisa que acontece na execução A união de Deus com os crentes tem, conforme esperado, uma ênfase cristológica peculiar. Antes de Deus poder se comunicar com meros homens, a união hipostática teve de acontecer, mediante a qual 0 homem Gristo Jesus, que é o primogênito entre muitos irmãos (Rm 8.29), desfruta da mais sublime união possível com Deus porque ele é tanto Deus quanto homem. A encarnação torna possível uma “união de supercriação” entre os eleitos e Deus. O auge da salvação não é a justificação nem a santificação, mas a união com Deus.“ Goodwin emprega João 17.20-26 como base exegética para entender a natureza da união entre Deus e os homens.

Em sua oração sacerdotal em João 17, Cristo pede ao Pai que lhe conceda desfrutar de uma união mística com aqueles que o Pai lhe deu.“ Outros pedidos são feitos, mas a união mística entre Cristo e a igreja é o “grande tem a” de seus pedidos, “o oceano em que deságuam todos os demais [pedidos]’° Mas 0 que Coodwin quer dizer com “união mística”? A principal preocupação da oração de Cristo não é que os santos desfrutem da união uns com os outros, embora isso fique implícito no texto, mas que os crentes desfrutem de uma união com o Pai e com o Filho, porque o Pai e o Filho estão neles (Jo 14.20; IJo 4.15). Com exceção da união entre as duas naturezas de Cristo, a união que os eleitos partilham com Cristo e com Deus é a mais sublime união que uma criatura pode ter. Essa união era primordial na mente de Paulo: “para que possa ganhar Cristo e ser achado nele” (Fp 3.8,9). Coodwin mostra a prioridade da união com Cristo e Deus mediante um contraste entre aquela união e outros benefícios salvíficos:

Orais pela redenção, pelo perdão dos pecados e por muitas outras coisas. E procedeis bem, pois necessitais disso. E, quanto aos pecadores, quando estão sobrecarregados e oprimidos por seus pecados, é isso que o Espírito primeiramente lhes apresenta e lhes expõe na palavra. Mas deixai-me dizer a vós que existe algo mais remoto e distante que está inicialmente oculto de nossos pensamentos; a união com Cristo e com Deus, sendo que o prazer supremo dessa união acontecerá no outro mundo, quando o pecado será esquecido.

Na teologia de Coodwin, a união com Cristo e com Deus tem uma clara prioridade escatológica. Conforme fica claro em Works, Coodwin não minimiza a justificação nem a santificação, mas não há nenhuma dúvida de que ele pensava que a comunicação sobrenatural que Deus faz de si mesmo por meio de Cristo era a bênção mais sublime e mais gloriosa que os crentes receberam, a qual é em sua totalidade fruto da eleição em Cristo.

Conclusão

A melhor maneira de entender as idéias de Thomas Goodwin sobre a ordem dos decretos de Deus é enxergá-las como uma forma cristológica de supralapsarismo. Ele, talvez mais do que qualquer outro de seus contemporâneos britânicos, dava enorme atenção à glória do Deus-homem, Jesus Cristo. Todas as coisas estão subordinadas a ele, inclusive a salvação dos eleitos. A encarnação é o grande ato de Deus, que tem prazer no homem Cristo Jesus, o qual é a imagem visível do Deus invisível. Goodwin podia até mesmo dizer que a encarnação deu mais glória a Cristo do que sua morte e ressurreição.^^ Com respeito à eleição e à predestinação, Goodwin estabelece uma distinção importante entre os dois termos. A eleição de pessoas em Cristo, que é o cabeça delas, se baseia numa ordem supralapsariana dos decretos; ou seja, são eleitos como pessoas não caídas. Mas a predestinação tem em vista os meios para 0 fim — os denominados atos transientes da mediação de Cristo — e, desse modo, as pessoas estão representadas em Cristo, seu Salvador, como pessoas caídas. Falando em termos antropocêntricos, o telos ou a finalidade dos decretos de Deus é a união dos eleitos com Deus e Cristo, o que se consuma no céu. O que vem por último na execução é o que vem primeiro na intenção, de modo que a união com Deus e com Cristo pode ser chamada de a bênção eminente dada aos eleitos. As palavras abaixo, de autoria de Goodwin, são um resumo apropriado do argumento fundante deste capítulo:

Muito menos importantes foram os méritos de Cristo considerados como motivo para Deus agir. Não passam de ações que são o meio para a glória de Cristo e, por esse motivo, são bem menos significativos do que a glória de sua pessoa. Por isso, são para ele apenas o que as obras de Deus são para o próprio Deus. Portanto, no assunto de que agora tratamos, é apenas a glória de sua pessoa que pode de alguma forma ser chamada de motivo.

O teólogo escocês Robert Leighton (1611-1684) pode ter depreciado o fato de que alguns “homens doutos” falaram “presunçosamente sobre a ordem dos decretos divinos”, mas no caso de Thomas Goodwin com certeza algo mais nobre estava em operação. A glória de Cristo foi o grande motivo por trás de seu argumento para sua construção particular do supralapsarismo. Quer se concorde com ele quer não, parece difícil culpar Goodwin por seu desejo de destacar a glória da pessoa de Cristo e o ato soberano de Deus em que os eleitos são levados à união com seu Criador e Redentor.

Fontes: Teologia Puritana, Doutrina para Vida, Joel Beek e Mark Jones


Comentários