
A
ordem dos decretos Ao contrário da alegação de Horton de que o debate
infralapsarismo versus supralapsarismo tratou do meio de se chegar ao fim
(finalidade), o debate foi na verdade sobre a sequência lógica dos
decretos.'"’ Goodwin entende que a distinção entre o fim e o meio é
“amplamente reconhecida”. Ele defende a posição de que, no que diz respeito ao
fim. Deus via a humanidade como não caída em sua eleição de seres humanos, mas
a via como caída em seus decretos sobre o meio para alcançar aquele fim.'“ Mas
Goodwin reconhece que o meio e 0 fim precisam ser explicados. O objetivo é a
glória de Deus, que Goodwin chama de “fim supremo” ou “fim último”, a saber, a
perfeição gloriosa que Deus pretendeu para os eleitos.'*^ A perfeição dos
eleitos é o que Goodwin tem em mente quando sustenta que o decreto acerca do
fim não se baseou numa consideração sobre a Queda.''^ Contudo, o decreto sobre
o meio que leva ao “fim último”, ou seja, o meio pelo qual os eleitos são
levados à perfeição na glória, considerou o homem como caído.
Goodwin
identifica a posição dos supralapsarianos puros: “O supralapsariano genuíno
entende que a criação e a permissão para a Queda são o meio de atingir esse fim
e os chama de meio que produz aquilo que o propósito ou decreto especificaram
como fim ou glória últimos Mas Goodwin alega que 0 meio se refere àquilo que
Cristo, como redentor dos eleitos de Deus, realizou pelo seu povo, o que também
é conhecido como obras transientes em contraste com obras imanentes. Os
benefícios salvíficos da obra de Cristo são “preparativos para a glória” (Rm
9.23; Ef 2.10).'"’ Esse meio que prepara os eleitos de Deus para a glória
“pressupõe uma Queda”
Adão,
em seu estado anterior à Queda, possuía uma santidade natural e inerente, mas
não era um meio que o preparava para a glória da eleição, pois ela não tinha
uma base cristológica. Nem o pecado de Adão foi um meio para possuir tal
glória, mas “um mero [...] recurso pelo qual a eleição se transformou numa nova
ampliação [...] e expansão da graça [...] para com os eleitos [...] na sua
condição de pecadores”.'*^ Desse modo, pecadores caídos recebem graça redentora
a fím de produzirem o fim último, a saber, sua glorificação. Existe, no
entanto, uma graça anterior [i.e., a própria eleição), em que os eleitos são
considerados seres não caídos. Goodwin está apresentando o argumento de que a
Criação e a permissão para a Queda são atos da providência de Deus e não meios
diretos para o “fim último”. Por isso, os meios se referem à obra redentora de
Cristo; eles possuem uma influência imediata em conduzir os eleitos à glória.
Como consequência, Coodwin sustenta que, no decreto que diz respeito ao fim.
Deus considerou o homem um ser não caído. Ele cita o teólogo ortodoxo reformado
alemão Amandus Polanus (1561-1610):
Em seu decreto de
eleição. Deus contemplou (ou olhou para) seus eleitos na condição final a que
os predestinou, como homens vistos essencialmente como grupo, sem nenhuma
consideração de virtudes neles. Mas, se pensarmos no meio que conduz ao fim,
ele considerou os homens não em sua condição justa (antes da Queda), mas como
seres que pela Queda seriam corrompidos por si mesmos e em si mesmos e por sua
imperfeição despencariam livremente na morte eterna.
A
questão, conforme assinalado por Coodwin, não é se a eleição diz respeito aos
meios. Antes, a controvérsia é se o decreto de Deus tanto acerca do fim quanto
dos meios foi “inteiramente decidido com base na multidão criável [i.e., seres
humanos em potencial, que ainda seriam criados] antes da Queda ou então
inteiramente decidido com base no conjunto da humanidade considerada e vista
primeiramente como caída no pecado”.' Depois de ler vários autores, Goodwin
reconhece que muitos “de fato julgam que é incompatível que as duas idéias
coexistam ”.®“ Acerca da compatibilidade das duas posições, Goodwin defende que
“Deus considerou as duas condições ao mesmo tempo, de modo que, quanto ao
tempo, uma não aconteceu antes da outra”. Numa tentativa de fazer “ambas
coexistirem”, Goodwin comenta:
Tendo tudo diante de
si por causa de seu imenso entendimento. Deus, no seu propósito de eleger o
homem com vistas a um fim, considerou o homem como alguém não caído, mas quanto
aos meios o considerou caído e decretou tanto o fim quanto os meios, tudo numa única
e mesma decisão de sua divina vontade.
Aqueles versados
nesta controvérsia sabem muito bem que há alguns teólogos eminentes que
procuraram conciliar essas diferentes opiniões, isto é, sobre se o objeto da
predestinação foi o homem caído ou o não caído.
Tanto
o fim quanto os meios estavam simultaneamente na mente de Deus; “nem um nem outro
veio primeiro ou depois”. Apesar disso, Goodwin sustenta que na mente e vontade
divinas o decreto que trata do fim, no qual o homem é considerado não caído, é
o ponto de partida [term inus a quo). Goodwin cita o escolástico reformado
alemão Bartholomäus Keckermann (c. 1572-1609), que sustenta de modo parecido
que o decreto de eleger tem de ser considerado de duas maneiras. Em primeiro
lugar, quanto ao fim (i.e., a vida eterna), “a Queda não era necessária, pois a
Queda não era um meio para atingir o fim, mas um impedimento”.^'' Em segundo,
também é possível entender que o decreto de eleger diz respeito ao homem caído,
o que Deus anteviu como o meio. Tendo em vista a redenção, a eleição “inclui
necessariamente uma consideração e uma ponderação sobre a Queda”.^^ Gonforme
assinalado anteriormente, Goodwin faz uma distinção crucial entre eleição e
predestinação. A eleição diz respeito ao fim; assim, na eleição. Deus, sem considerar
a Queda, decreta dar vida eterna aos homens. Mas a predestinação faz parte do
decreto divino que considera que 0 homem está no pecado, ou seja, caído. A
predestinação envolve, então, 0 meio para se atingir o fim. Por esse motivo, o
debate infralapsarismo versus supralapsarismo não pode ter em vista apenas a
predestinação, tampouco se o homem é considerado caído ou não caído. Proceder
assim é fazer uma leitura errônea da posição de Goodwin, pois em seu esquema
eleição e predestinação não são sinônimos.
O
supralapsarismo de Goodwin é esclarecido também em sua distinção entre amor e
misericórdia. Quando Deus demonstra amor a uma criatura, ele 0 faz “não
pensando nos homens caídos, mas naquela multidão total ainda não caída"} Q
amor necessariamente precede a misericórdia, de modo que Deus demonstra
misericórdia para com criaturas caídas a fim de mostrar como ele as amou quando
ainda não tinham caído “e, por isso, ele as deixa cair no pecado para poder ser
misericordioso”.'' Com base na distinção que estabelece entre eleição e
predestinação, Goodwin deixa claro que a eleição não foi um ato de
misericórdia, mas de amor. Certamente Deus também decretou demonstrar
misericórdia, mas a eleição é estritamente um ato de amor. Aliás, Goodwin
ressalta que todos os atributos de Deus estão sujeitos ao seu amor.®^ Deus tem
misericórdia de alguns e não de outros porque amou alguns e não outros. Deus
mostra seu amor no mediador, Jesus Cristo, que em sua natureza humana
personificou o amor que o Pai tem pela igreja. Foi o amor que “o levou dos céus
ao ventre, e do ventre à cruz, e o amor fez com que ficasse na cruz [...] Foi
seu amor que o manteve ali”.“ O amor que estava no coração de Cristo — no que
diz respeito a sua natureza humana — era com certeza menor do que o amor de
Deus, uma vez que o finito não consegue conter 0 infinito. Mesmo assim, “se
houvesse mundos infinitos feitos de criaturas amorosas, elas não teriam tanto
amor em si quanto houve no coração daquele homem Cristo Jesus”.“ O amor que
Deus e Cristo têm pela igreja se manifesta na salvação dos eleitos. Em seu
estudo sobre a eleição, Goodwin mostra que ela envolve a união dos eleitos com
Deus e com Cristo; essa união é a bênção espiritual mais destacada que decorre
da eleição.
União com Deus e
Cristo
Um
importante tema na teologia de Goodwin diz respeito ã glória de Jesus Cristo.
Deus elegeu o Filho para ser o Deus-homem, tendo em vista fins mais elevados do
que a salvação da humanidade. Os eleitos foram escolhidos para serem o prazer
de Cristo, mas Cristo foi eleito para ser o Deus-homem para o prazer de Deus.
Dessa maneira. Deus vê em Jesus Cristo a imagem de si mesmo (Cl 1.15-18). Na
pessoa de Jesus Cristo, Deus se comunica “de tal forma grandiosa e superior que
não poderia haver outra forma de comunicar a si mesmo a meras criaturas”.“ Esse
fim, conforme assinalado anteriormenfe, transcende em muito o fim de Cristo ser
mediador de seu povo. Na condição de Deus-homem escolhido. Cristo é dotado de
realeza para ser o fim soberano de todas as coisas. Em outras palavras. Cristo
foi “predestinado para sua própria dignidade; mas nós fomos predestinados para
a glória de Deus e de Cristo”
A
glória de Cristo não depende em primeiro lugar da glória que ele recebe de seu
povo redimido, mas da dignidade de sua pessoa. Cristo mantém uma relação dupla
com os eleitos, a de cabeça e a de Salvador. Cristo é cabeça de seu povo quando
este é considerado na condição de não caído [in m assa p u m ]. Cristo é visto
como salvador de seu povo quando este é considerado caído. Goodwin assim resume
sua posição sobre esse assunto no que diz respeito aos decretos:
E essas duas relações
de Cristo, como cabeça e como Salvador, são simultâneas com nossa eleição por
Deus [...] quanto à nossa compreensão não ocorrem nem antes nem depois, nem no
tempo (pois em Deus nenhum decreto vem antes ou depois de outro) nem na ordem.
Pois não poderia ser nosso cabeça se não houvesse seu correlativo, seu corpo; e
isso também vale para o outro aspecto, o de ser redentor. E Cristo não teria
sido ordenado para ambos, se não fosse por nossa causa e de nossa salvação. Mas
ainda assim no objetivo básico e inicial a eleição da pessoa de Cristo continua
sendo absoluta em si mesma e possui fins mais elevados do que aqueles que são
mencionados; e isso não dependeu em nada de nós nem de nossa eleição.
Mais
uma vez Goodwin deixa claro que a glória da pessoa de Cristo mantém o lugar de
preeminência no que diz respeito à finalidade da Criação. Mas, no que diz
respeito aos eleitos, a finalidade suprema da eleição é Deus escolher crentes
para “uma união sobrenatural consigo mesmo e para uma comunicação de si m esm
o”.“ Para os crentes o objetivo final é a união com o Deus triúno. Goodwin
menciona a máxima de que “o que vem por último na execução é o que vem primeiro
na intenção [...] E [...] conforme vedes, isso é 0 que vem por último na
execução. Ele nos escolheu para si mesmo; essa foi sua intenção primeira. E ele
nos apresenta para si mesmo, como a última coisa que acontece na execução A
união de Deus com os crentes tem, conforme esperado, uma ênfase cristológica
peculiar. Antes de Deus poder se comunicar com meros homens, a união
hipostática teve de acontecer, mediante a qual 0 homem Gristo Jesus, que é o
primogênito entre muitos irmãos (Rm 8.29), desfruta da mais sublime união
possível com Deus porque ele é tanto Deus quanto homem. A encarnação torna
possível uma “união de supercriação” entre os eleitos e Deus. O auge da
salvação não é a justificação nem a santificação, mas a união com Deus.“
Goodwin emprega João 17.20-26 como base exegética para entender a natureza da
união entre Deus e os homens.
Em
sua oração sacerdotal em João 17, Cristo pede ao Pai que lhe conceda desfrutar
de uma união mística com aqueles que o Pai lhe deu.“ Outros pedidos são feitos,
mas a união mística entre Cristo e a igreja é o “grande tem a” de seus pedidos,
“o oceano em que deságuam todos os demais [pedidos]’° Mas 0 que Coodwin quer
dizer com “união mística”? A principal preocupação da oração de Cristo não é
que os santos desfrutem da união uns com os outros, embora isso fique implícito
no texto, mas que os crentes desfrutem de uma união com o Pai e com o Filho,
porque o Pai e o Filho estão neles (Jo 14.20; IJo 4.15). Com exceção da união
entre as duas naturezas de Cristo, a união que os eleitos partilham com Cristo
e com Deus é a mais sublime união que uma criatura pode ter. Essa união era
primordial na mente de Paulo: “para que possa ganhar Cristo e ser achado nele”
(Fp 3.8,9). Coodwin mostra a prioridade da união com Cristo e Deus mediante um
contraste entre aquela união e outros benefícios salvíficos:
Orais pela redenção,
pelo perdão dos pecados e por muitas outras coisas. E procedeis bem, pois
necessitais disso. E, quanto aos pecadores, quando estão sobrecarregados e
oprimidos por seus pecados, é isso que o Espírito primeiramente lhes apresenta
e lhes expõe na palavra. Mas deixai-me dizer a vós que existe algo mais remoto
e distante que está inicialmente oculto de nossos pensamentos; a união com
Cristo e com Deus, sendo que o prazer supremo dessa união acontecerá no outro
mundo, quando o pecado será esquecido.
Na
teologia de Coodwin, a união com Cristo e com Deus tem uma clara prioridade
escatológica. Conforme fica claro em Works, Coodwin não minimiza a justificação
nem a santificação, mas não há nenhuma dúvida de que ele pensava que a
comunicação sobrenatural que Deus faz de si mesmo por meio de Cristo era a
bênção mais sublime e mais gloriosa que os crentes receberam, a qual é em sua totalidade
fruto da eleição em Cristo.
Conclusão
A
melhor maneira de entender as idéias de Thomas Goodwin sobre a ordem dos
decretos de Deus é enxergá-las como uma forma cristológica de supralapsarismo.
Ele, talvez mais do que qualquer outro de seus contemporâneos britânicos, dava
enorme atenção à glória do Deus-homem, Jesus Cristo. Todas as coisas estão
subordinadas a ele, inclusive a salvação dos eleitos. A encarnação é o grande
ato de Deus, que tem prazer no homem Cristo Jesus, o qual é a imagem visível do
Deus invisível. Goodwin podia até mesmo dizer que a encarnação deu mais glória
a Cristo do que sua morte e ressurreição.^^ Com respeito à eleição e à
predestinação, Goodwin estabelece uma distinção importante entre os dois
termos. A eleição de pessoas em Cristo, que é o cabeça delas, se baseia numa
ordem supralapsariana dos decretos; ou seja, são eleitos como pessoas não
caídas. Mas a predestinação tem em vista os meios para 0 fim — os denominados
atos transientes da mediação de Cristo — e, desse modo, as pessoas estão
representadas em Cristo, seu Salvador, como pessoas caídas. Falando em termos
antropocêntricos, o telos ou a finalidade dos decretos de Deus é a união dos
eleitos com Deus e Cristo, o que se consuma no céu. O que vem por último na
execução é o que vem primeiro na intenção, de modo que a união com Deus e com
Cristo pode ser chamada de a bênção eminente dada aos eleitos. As palavras
abaixo, de autoria de Goodwin, são um resumo apropriado do argumento fundante
deste capítulo:
Muito menos importantes
foram os méritos de Cristo considerados como motivo para Deus agir. Não passam
de ações que são o meio para a glória de Cristo e, por esse motivo, são bem
menos significativos do que a glória de sua pessoa. Por isso, são para ele
apenas o que as obras de Deus são para o próprio Deus. Portanto, no assunto de
que agora tratamos, é apenas a glória de sua pessoa que pode de alguma forma
ser chamada de motivo.
O
teólogo escocês Robert Leighton (1611-1684) pode ter depreciado o fato de que
alguns “homens doutos” falaram “presunçosamente sobre a ordem dos decretos
divinos”, mas no caso de Thomas Goodwin com certeza algo mais nobre estava em
operação. A glória de Cristo foi o grande motivo por trás de seu argumento para
sua construção particular do supralapsarismo. Quer se concorde com ele quer
não, parece difícil culpar Goodwin por seu desejo de destacar a glória da
pessoa de Cristo e o ato soberano de Deus em que os eleitos são levados à união
com seu Criador e Redentor.
Fontes: Teologia
Puritana, Doutrina para Vida, Joel Beek e Mark Jones
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