LUCAS E LÍNGUAS - Robert P. Menzies

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INTRODUÇÃO

Nos dois capítulos seguintes, gostaria de explorar, da perspectiva de Lucas, o papel das línguas na vida da igreja e do crente individual. Em primeiro lugar, destacarei a importância de começar a nossa investigação com a mentalidade certa, descrevendo as suposições sobre as línguas que devem informar o nosso estudo. Então, no Capítulo Um, tentarei elucidar a perspectiva de Lucas sobre as línguas, particularmente sua atitude em relação ao papel das línguas na igreja. Então, no Capítulo Dois, procurarei descrever a compreensão de Lucas sobre o papel das línguas na vida do crente individual. Por fim, resumirei minhas descobertas e seu significado para os cristãos contemporâneos.

Suposições Importantes: Línguas ou Idiomas?

Muitos cristãos que buscam examinar o ensino bíblico sobre línguas começam com suposições errôneas. A principal delas seria a noção de que a glossolalia era inexistente na igreja primitiva, ou no máximo, que era muito raramente experimentada por alguns poucos. O ensinamento, predominante em alguns setores, de que as referências a "falar em línguas" no Novo Testamento normalmente denotam a capacidade sobrenatural de pregar em uma língua estrangeira até então desconhecida pelo falante (xenolalia) lançou uma longa sombra. Além disso, muitas vezes se dá a impressão de que os autores do NT raramente discutem essa prática estranha e que, quando o fazem, o fazem com grande hesitação e são em grande parte negativos e condescendentes em suas observações. No entanto, uma revisão da evidência bíblica, como veremos, sugere que essas suposições são falhas e precisam ser reconsideradas.

O fenômeno de falar em línguas é descrito em numerosas passagens do Novo Testamento.[49] Em 1 Coríntios 12-14 Paulo se refere ao dom de línguas ( γλώσσαις )[50] e usa a frase λαλέω γλώσσαις para designar enunciados ininteligíveis inspirados pelo Espírito.[51] O fato de que este dom de línguas se refere a enunciados ininteligíveis (por exemplo, a glossolalia experimentada em igrejas pentecostais contemporâneas) ao invés de línguas humanas conhecidas (xenolalia) é confirmado pelo fato de que Paulo explicitamente declara que essas línguas devem ser interpretadas se forem para ser entendidas (1Co 14.6-19,28;[52] cf. 12,10, 30).[53] Além disso, Paulo claramente acredita que só se pode interpretar essas línguas se alguém tem um dom especial do Espírito para fazê-lo (1Co 12.10). Em outras palavras, como Paulo não tem a possibilidade de que alguém com o conhecimento da língua em particular possa estar presente e, portanto, ser capaz de interpretar, é evidente que linguagens humanas inteligíveis não estão à vista neste ponto.
Em Atos 10.46[54] e 19.6[55] Lucas também usa a frase λαλέω γλώσσαις para designar enunciados inspirados pelo Espírito. Em Atos 10.46, Pedro e seus colegas ouvem Cornélio e sua família 'falando em línguas e louvando a Deus'.[56] Atos 19.6 afirma que os discípulos de Éfeso "falaram em línguas e profetizaram". Os paralelos literários entre as descrições de falar em línguas nessas passagens e 1 Coríntios 12-14 são impressionantes. Todos esses textos: (1) associam falar em línguas com a inspiração do Espírito Santo; (2) utilizar vocabulário semelhante (λαλέω γλώσσαις); e (3) descrevem discurso inspirado associado a louvor e pronunciamentos proféticos. Além disso, desde 1 Coríntios 12-14 fala claramente de declarações ininteligíveis e não há nenhuma indicação em qualquer uma das passagens de Atos que línguas conhecidas estão sendo faladas - de fato, não há nenhuma necessidade aparente de um milagre de xenolalia em qualquer instância (que língua estrangeira eles falavam?) - a maioria das traduções inglesas [portuguesas], incluindo o NRSV, traduz as ocorrências de λαλέω γλώσσαις nesses textos com referência ao falar em línguas.

As referências para ‘as línguas’(γλώσσαις) em Atos 2.1-13,[57] no entanto, levantam questões interessantes para aqueles que buscam entender essa passagem. A primeira ocorrência de γλώσσαις é encontrada em Atos 2.3, onde se refere às “línguas de fogo” visionárias que aparecem e depois se separam e repousam sobre cada um dos discípulos presentes. Então, em Atos 2.4 lemos que todos os presentes estavam cheios do Espírito Santo e começaram a ‘falar em outras línguas’ ( λαλεῖν ἑτέραις γλώσσαις) conforme o Espírito os capacitava. Este fenômeno cria confusão entre os judeus da multidão que, nos dizem, representa 'toda nação debaixo do céu' (Atos 2.5). A multidão reuniu-se espantada porque “cada um deles ouviu falar em sua própria língua” ( διαλέκτῳ; Atos 2.6). Esses detalhes são repetidos quando Lucas narra a resposta do grupo atônito: “Não são todos esses homens que estão falando galileus? Então, como é que cada um de nós os ouve em sua própria língua nativa” (διαλέκτῳ; Atos 2.7-8)? Depois que a multidão lista com espanto as várias nações representadas pelos presentes, eles declaram: “nós os ouvimos declarando as maravilhas de Deus em nossas próprias línguas” (γλώσσαις ; Atos 2.11)!

Como Atos 2.11 claramente relaciona γλώσσαις às várias línguas humanas daqueles presentes na multidão, a maioria dos estudiosos interpreta as 'línguas' (γλώσσαις) dos Atos 2.4 e 2.11 como se referindo à fala inteligível. Os discípulos são capacitados pelo Espírito a declarar “as maravilhas de Deus” em línguas humanas que eles não haviam aprendido anteriormente.[58] Esta leitura do texto encorajou alguns tradutores, incluindo aqueles que produziram o NRSV, a traduzir γλώσσαις em Atos 2.4 e 2.11 com o termo 'linguagem' em vez de 'língua'.
Embora possamos entender por que os tradutores são tentados a traduzir as mesmas palavras nessas passagens de forma diferente - eles realmente se referem a atividades diferentes (xenolalia em Atos 2.4 e glossolalia em Atos 10.46 e 19.6) - esse tipo de tradução cria um problema real. Isso obscurece o fato de que Lucas usa os mesmos termos gregos para descrever o que ocorre quando o Espírito é recebido em Atos 2.4, Atos 10.46 e Atos 19.6. Por que, podemos perguntar, Lucas usa a mesma linguagem para descrever cada um dos eventos, embora eles realmente se refiram a atividades diferentes? Essa impressionante conexão literária sugere que Lucas moldou intencionalmente sua narrativa para destacar essa ligação. Em outras palavras, o padrão é importante para ele. Lucas desejou fazer a conexão: ele desejou para estabelecer Atos 2 como modelo.

O significado das conexões verbais entre as γλώσσαις (línguas) dessas três passagens torna-se aparente quando examinamos a compreensão de Lucas do papel das línguas na vida da igreja. Para esta tarefa, agora nos voltamos.

O SIGNIFICADO DAS LÍNGUAS PARA O MOVIMENTO PENTECOSTAL MODERNO

Pode-se, sem dúvida, citar muitas razões para o papel proeminente que o falar em línguas desempenhou na vida desse movimento dinâmico, mas duas são especialmente significativas. A PRIMEIRA RAZÃO tem a ver com o modo como os pentecostais leem a Bíblia; A SEGUNDA RAZÃO, com seu foco evangelístico ou missiológico único. Vamos começar com o primeiro motivo.

Nós Pentecostais sempre lemos a narrativa de Atos, e particularmente o relato do derramamento Pentecostal do Espírito Santo (Atos 2), como um modelo para nossas próprias vidas. Nós achamos encorajamento na maneira que Deus usa pessoas "não-escolarizadas" e "comuns" para promover Sua causa. Nós nos divertimos com histórias de simples pescadores que são chamados e capacitados a dar testemunho corajoso para Jesus. Nós nos deliciamos com o relato de camponeses pobres perseverantes em meio a grande oposição e sofrimento. Essas histórias se tornam nossas histórias e nos encorajam a viver uma vida marcada pela fé extraordinária, a disposição para assumir riscos e um desejo profundo de exaltar o nome de Jesus. Em todo o mundo os pentecostais se identificam com essas histórias, especialmente porque muitos enfrentam desafios semelhantes. Esse senso de conexão com o texto nos encoraja a permitir que a narrativa modele nossas vidas, nossas esperanças e sonhos. Então, nós ansiosamente lemos essas histórias com um profundo sentimento de expectativa.

Esta abordagem simples e narrativa do livro de Atos é uma das grandes forças do movimento pentecostal.[21] É, sem dúvida, uma grande razão para o seu rápido crescimento em todo o mundo. A simplicidade de ler o texto como um modelo para nossas vidas, sem angústia sobre o milagroso ou como tudo se encaixa em sistemas teológicos complexos claramente permite que a mensagem seja prontamente entendida por pessoas em culturas pré ou semi-letradas, pessoas que são mais experienciais do que cognitivo em sua orientação. Não devemos esquecer que essas pessoas representam a maioria dos habitantes do nosso planeta. Elas também demonstram pouca preocupação com histórias cheias de milagres, mas prontamente se identificam com elas.

Eu também acredito que essa simples hermenêutica, esta abordagem direta à leitura de Atos como um modelo para a igreja hoje, é uma das principais razões pelas quais a ênfase em falar em línguas desempenhou um papel tão importante na formação do moderno movimento pentecostal.

Certamente, permitiu que os pentecostais lessem o livro de Atos sem as noções preconcebidas que levam muitos cristãos a limitar as línguas à era apostólica. No entanto, igualmente significativo é o modo pelo qual a experiência de línguas afirma e valida essa leitura pentecostal da Bíblia e especialmente do livro de Atos. Quando os pentecostais falam em línguas, este evento serve como prova de que a experiência da igreja apostólica, junto com seu chamado e poder, está de fato disponível hoje. Nosso próprio encontro com essa experiência dramática e incomum descrita nas páginas de Atos valida nossa hermenêutica e nos chama a nos identificar com as histórias que lemos aqui. A experiência reforça nosso senso de expectativa. Então, compreensivelmente, para Pentecostais o Livro de Atos, não é simplesmente um documento histórico; ao contrário, Atos apresenta um modelo para a vida da igreja contemporânea. Em suma, falar em línguas serve como um sinal de que "sua experiência" é "nossa experiência" e que as páginas de Atos devem servir como nosso guia.

Isso nos leva à SEGUNDA RAZÃO pela qual as línguas marcaram e moldaram o movimento pentecostal. Falar em línguas não apenas incorpora e valida nossa leitura da Bíblia, mas também nos chama a reconhecer quem somos. Ele chama a igreja para reconhecer e lembrar sua verdadeira identidade. Isso nos lembra que somos nada menos que uma comunidade de profetas do tempo do fim, chamados e capacitados para dar testemunho corajoso de Jesus (Atos 2.17-21). [22] No dia de Pentecostes, os discípulos de Jesus do primeiro século foram milagrosamente autorizados a declarar "as maravilhas de Deus" nas várias línguas maternas de todos os presentes. Lucas descreve esta notável experiência com estas palavras: "Todos eles estavam cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os capacitava" (Atos 2.4). Embora este seja provavelmente o único exemplo no Novo Testamento em que falar em línguas é manifesto como xenolalia – a capacidade miraculosa e espontânea de falar uma língua humana até então desconhecida – esse notável milagre linguístico está repleto de significado simbólico. Serve para lembrar a igreja primitiva e os leitores de Atos, bem como as gerações subseqüentes de falantes de línguas cristãs, que a igreja é chamada a atravessar todas as barreiras lingüísticas e culturais em sua busca para dar testemunho ousado de Jesus até os confins do mundo. Não é de admirar, portanto, que o movimento pentecostal moderno tenha sido marcado, não simplesmente por falar em línguas, mas também por um notável zelo missionário. Enquanto esta paixão por compartilhar as boas novas de Jesus com os outros é energizada pelo Espírito Santo, é simbolizada e incorporada na experiência de falar em línguas. Toda experiência privada e comunitária de glossolalia serve para lembrar ao crente individual e ao corpo maior da igreja o chamado que todos nós recebemos e a capacitação que todos nós fomos prometidos (At 1.8). [23] Para os pentecostais, então, as línguas servem como um sinal de que o chamado e o poder da igreja apostólica são válidos para os crentes contemporâneos.

Tradução: Ivan Teixeira
 

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