Até
agora nós temos tratado da morte de Cristo a considerando em relação a
toda raça humana, no universal circuito de seu poder vivificador para
ser trazido a efeito sob a condição de fé, assim para todo homem.
Porque embora pela falta dessa
condição, a morte de Cristo não manifeste essa virtude salvadora na
maior parte dos homens, ainda assim não deve ser negado, nem posto em
dúvida, que as Escrituras, por toda a parte, claramente testificam que Deus
teve em Si as mais justas e sábias razões de Seu conselho, para que ao
determinar que a morte de Seu filho seria aplicável para todo homem sob a
condição da fé, no entanto não determinar efetivar ou fazer com que ela
fosse aplicada para todos pela dádiva da fé.
Nós não devemos, portanto, opor ou chocar esses decretos divinos um contra o outro:
“Eu desejo que meu Filho Se ofereça na Cruz pelos pecados de toda raça
humana, para que todos os homens individualmente possam ser salvos pela
fé Nele” e “Eu desejo dispensar minha graça eficaz para que não todos,
mas apenas os eleitos, possam receber essa fé salvadora, pela qual eles
podem ser salvos”.
Se esses dois decretos
parecem, para alguém, como opostos um ao outro, esse deve reconhecer a
debilidade de sua própria compreensão, ao invés de negar qualquer dessas
coisas que são claramente contidas nas Santas Escrituras. Que,
então, seja fixado e estabelecido que, de acordo com o decreto do
próprio Deus, Cristo foi oferecido na Cruz por todos os homens, porque
sua morte é um tipo de remédio universal designado para todos os homens
individualmente, a fim de obter remissão de pecados e vida eterna, para
ser aplicado pela fé.
Mas agora, para que sob essa
universal virtude da morte de Cristo, a qual se estende para todas as
criaturas racionais [1], nós não destruamos sua eficácia especial, a
qual, na verdade, pertence somente aos predestinados, nós devemos entrar
em outra parte da discussão que nós empreendemos, a qual explanará e
defenderá a especial prerrogativa dos eleitos na morte de Cristo, tanto
em relação a vontade de Deus em dar Seu Filho para morrer, quanto em
relação a vontade do Filho em oferecer a Si mesmo.
Porque nós não devemos afirmar,
como crêem os pelagianos, que Cristo morreu por todos para que a
eficácia vivificante de Sua morte fosse ao mesmo tempo comum para todos,
da intenção da Divina vontade, mas que no evento se torna salvífica
para alguns e não para outros, não de outro modo do que do uso
contingente da liberdade humana.
Nem devemos fantasiar com os
arminianos que Deus dá Seu Filho para morrer intentando absolutamente
nada mais do que por meio disso ter um mero poder de salvar alguns
pecadores, não obstante Sua justiça, e para que alguns pecadores
pudessem ter um meio ou uma maneira pela qual eles possam ser salvos,
não obstante seus próprios pecados.
Disso surge o celebrado corolário de Grevinchovius, em sua dissertação sobre a morte de Cristo (p. 9):
“Para que a dignidade, necessidade e utilidade da redenção pudesse aparecer abundantemente para ela ser obtida, mesmo que ela nunca fosse realmente aplicada para qualquer individuo”.
Novamente (p. 14):
“Para que a redenção pudesse ser obtida para todos, e ainda assim não aplicada para ninguém por causa de sua incredulidade” .
Mas nós, de nenhuma maneira
pensamos que a morte de Cristo foi como um lançar de dados, mas que ela
foi decretada da eternidade por Deus, o Pai, e por Cristo, por meio do
mérito de Sua morte, infalivelmente salvar alguns pessoas específicas,
aos quais a Escritura chama pelo nome de eleitos; e, portanto, que, de
acordo com a vontade de Deus, a morte de Cristo foi, por algum
específico modo e conselho, oferecida e aceita para sua redenção.
Nem é aqui necessário, para a
defesa desse conselho especial, definir essa espinhosa questão que tem
sido lançada sobre muitos e enfadado todos que tem empreendido
discuti-la, isto é, se esse decreto foi o primeiro, pelo qual certas
pessoas são predestinadas à infalível participação da vida eterna; ou o
outro, pelo qual Cristo foi ordenado para Seu oficio mediatório. Pois
embora nós sejamos compelidos a conceber de algum dos decretos eternos
de Deus como anterior e outro como posterior, devido a debilidade de
nossa compreensão humana, ainda assim parece ser algo perigoso e
escorregadio fazer uso desses imaginários signos de nossa razão para
estabelecer ou refutar questões de fé.
Na verdade, deve ser colocado
além de toda dúvida que esses decretos de Deus, os quais são pensados
por nós com uma ordem de anterior e posterior, com relação ao próprio
Deus consistem de uma mesma eternidade infinita; não se pode conceber
um momento no qual tendo sido um decreto estabelecido o outro ainda não
havia sido previsto e estabelecido.
Conceba, portanto, que o
primeiro na ordem tenha sido o decreto de Deus com relação á designação e
envio de um Mediador (o qual parece ser mais adequado ao nosso modo de
pensar) e que, depois, tenha sido o decreto com relação a escolha de
certas pessoas para o infrustrável atingimento da vida eterna por meio
do Mediador designado. Ainda assim você nunca poderia separá-los, como se a paixão do Mediador não tivesse sido prevista da eternidade
como oferecida de alguma maneira especial em relação àquelas pessoas
que foram escolhidas e aceitas como sendo oferecida especialmente por
eles, e isso da eternidade.
Por outro lado, conceba que o
primeiro em ordem tenha sido o decreto com relação a eleição de certas
pessoas para salvação e que, depois, tenha sido o decreto com relação a
destinação de Cristo para o ofício de Mediador. Ainda assim você nunca poderia separá-los,
como se a paixão de Cristo, a qual foi especialmente oferecida e aceita
por eles, não fosse a causa da preparação e da dádiva tanto da graça
eficaz quanto da salvação para essas pessoas eleitas
Portanto, uma vez que ambas opiniões são as mesmas para nosso propósito, nós devemos desviar a discussão de coisas tão desnecessárias,
e propor e confirmar somente a tese da morte de Cristo como limitada
por alguma especial consideração somente para os predestinados.
John Davenant, A Dissertation on the Death of Christ, 513-516.
Notas do blog:
[1]Em outra parte da sua dissertação Davenant faz questão de esclarecer que se refere somente à raça humana.
Fonte: http://calvinandcalvinism.com/?p=464
Via: http://mortoporamor.blogspot.com

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