1) Tendo considerado a natureza e o valor da expiação de Cristo, estamos
preparados para considerar a sua extensão. Alguma controvérsia poderia
ter sido evitada sobre este assunto, se tivesse havido sempre uma
compreensão quanto ao significado das palavras. Nós devemos, portanto,
em primeiro lugar, considerar este ponto. O termo “extensão” tem dois
sentidos em uso no inglês.
(A) Ele tem um sentido passivo, e é equivalente a “valor”. A "extensão" da fazenda de um homem significa o número de hectares que contém. A "extensão" dos recursos de um homem denota a quantidade de bens que ele possui. Neste sentido da palavra, a "extensão" da expiação de Cristo seria o valor intrínseco e real dela para fins de satisfação judicial. Nesse uso do termo, todos as partes que defendem a expiação em algum sentido evangélico concederia que a "extensão" da expiação é ilimitada. A morte de Cristo é suficiente em valor para satisfazer a justiça eterna pelos pecados de toda humanidade.
Se esse fosse o único
significado de "extensão", não deveríamos ser chamados a discutir mais
nada. Pois tudo que foi dito sob o título da natureza e do valor da
expiação responderia à pergunta: Qual é a extensão da expiação? Sendo
uma expiação infinita, tem um valor infinito.
(B) A palavra tem uma
significado ativo. Ela denota o ato de estender. A "extensão" da
expiação, nesse sentido, significa a sua aplicação pessoal aos
indivíduos pelo Espírito Santo. A extensão é agora a intenção. A
questão: Qual é a extensão da expiação? Agora significa: Para quem a
expiação é efetivamente estendida? O questionamento já não é “Qual é o
valor da expiação?” mas, para quem o Deus propôs aplicar os seus
benefícios? *
[ Nota de rodapé:] “Estender” a
expiação pode ser entendido como sendo "oferecer" a expiação. Mas não é
este o sentido nessa conexão. Estender, no sentido que está sendo
considerado, não é apenas oferecer a expiação, mas também torná-la
pessoalmente eficaz pela graça regeneradora. Shedd, Dogmatic Theology,
2: 464.
2) No inglês moderno, o termo
"extensão" é tão geralmente empregado no sentido passivo de valor que o
sentido ativo se tornou praticamente obsoleto, e exige explicação.
Escritores sobre a "extensão" da expiação, por vezes, tem negligenciado
considerar a história da palavra, e equívocos surgiram entre
oponentes, que, na verdade, estavam de acordo uns com os outros.
Assim, em resposta à questão
sobre a "extensão" da expiação de Cristo, deve primeiro ser resolvido se
“extensão” significa a intenção da aplicação, ou o seu valor
intrínseco. Se o sentido ativo ou passivo da palavra está na mente do
questionador. Se a palavra significa valor, então a expiação é
ilimitada, se ela significa estender, isto é, aplicar, então a expiação é
limitada.
A
disputa também gira em torno do significado da preposição "por". Um
teólogo afirma que Cristo morreu "por" todos os homens, e outro nega que
Cristo morreu "por" todos os homens. Pode haver uma diferença entre os
dois que é reconciliável, e pode haver uma diferença irreconciliável. A
preposição "por" denota uma intenção de algum tipo. Se, no caso que está
sendo considerado, a intenção é entendida como o propósito da parte de
Deus, tanto para oferecer quanto para aplicar a expiação por gerar a fé e
o arrependimento no coração do pecador, pela operação do Espírito
Santo, então quem afirma que Cristo morreu "por" todos os homens está em
erro, e aquele que nega que Cristo morreu "por" todos os homens defende
a verdade. Essas duas partes são irreconciliáveis.
Porém, quem afirma que Cristo
morreu "por" todos os homens pode compreender que a intenção significada
pela preposição como sendo o propósito da parte de Deus de apenas
oferecer a expiação, deixando ao pecador se apropriar ou não dela por
meio da fé e do arrependimento. A intenção, neste último caso, não se
inclui tanto como na anterior, e o significado da preposição é mais
restrito. Quando a palavra "por" é assim definido, a diferença entre as
duas partes é conciliável. [...]
Novamente, a preposição "por" às
vezes é entendido como não denotando a intenção, mas o valor ou a
suficiência. Dizer que Cristo morreu "por" todos os homens, então
significa que sua morte é suficiente para expiar a culpa de todos os
homens. Aqui, novamente, a diferença é possivelmente conciliável entre
as partes. Aquele que nega que Cristo morreu "por" todos os homens, toma
o termo "por" no sentido de intenção de efetivamente aplicar. O outro
que afirma que Cristo morreu "por" todos os homens, toma o termo "por"
no sentido de valor. Então fica a questão: “Qual é o uso mais adequado
da palavra "por"? É claro que com mais naturalidade transmite a noção de
intenção, do que de suficiência ou valor.
Se for dito a uma pessoa: "Esse
dinheiro é por você". Ele não compreende apenas que é suficiente em
termos de valor para pagar sua dívida, mas que realmente produz
beneficio para ele no pagamento. Na declaração das Escrituras que Cristo
"deu a Si mesmo em resgate por todos" (1 Timóteo 2:6), se a palavra
"por" for considerada como indicando o valor, de forma que ao ler texto
como, Cristo "deu a Si mesmo em resgate suficiente por todos", uma
perífrase é introduzida. A preposição "por" não expressa a idéia de
suficiência ou valor diretamente, mas apenas através de uma explicação.
Mas ela expressa a idéia de intenção de imediato e sem perífrase. E
isso concorda melhor com o termo “resgate", o qual denota a redenção
subjetiva, ao invés de satisfação objetiva. Esta observação aplica-se a
textos como aqueles que dizem que Cristo "provou a morte por todos os
homens" (Hebreus 2:9), que é explicado por "muitos filhos", no versículo
10. Se nós fizermos uma interpolação e dissermos que Cristo
experimentou uma morte que é suficiente por cada homem, nós certamente
declaramos uma verdade, mas injetamos na preposição "por" um sentido
maior do que confere o seu estrito uso idiomático. Shedd, Teologia
Dogmática, 2: 466-468.
Fonte: http://calvinandcalvinism.com/?p=152

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