O Sistema Teológico de Vincent Cheung - André de Mattos Duarte

 


 

 

Enfim concluí a leitura de todos os 43 livros do Vincent Cheung. Segue um resumo das ênfases dele.

 

1. EPISTEMOLOGIA:

 

1.1. A revelação de Deus é a única base e a única fonte de todo conhecimento.

1.2. A revelação escrita na Bíblia é inerrante e infalível, logo é a única fonte de autoridade para validar qualquer proposição.

1.3. Jesus é o Logos, isto é, ele é a Razão, a Lógica e a Sabedoria. Ele é que comunica toda apreensão de conhecimento à mente humana, e é pelo poder dele que mente e corpo se unem no ser humano.

1.4. Isso significa que razão e lógica é a descrição de como Deus pensa. Significa também que fé, a verdadeira fé que se baseia na revelação bíblica, é razão - não algo além da razão ou contra a razão.

1.5. Assim, obviamente, o conhecimento de Deus é unívoco. Não há base bíblica para se inserir um caráter analógico no conhecimento. A ênfase bíblica é sempre que o homem espiritual pode conhecer Deus uma vez que ele se revelou. Não há nada escrito sobre a incapacidade do homem conhecer Deus mesmo que ele tenha se revelado.

1.6. Sendo a revelação o único modo possível de conhecimento, o empirismo não é válido. Absolutamente nenhum silogismo pode começar com uma experiência sensorial e concluir com uma proposição racional válida.

1.7. O método científico, portanto, é pura superstição. Não pode descobrir verdade alguma, pois padece das falácias inerentes da confiabilidade dos sentidos, da indução e da afirmação do consequente sistemática.

1.8. Não resolve o problema dizer que a Bíblia fornece a cosmovisão em que o método científico é consistente. Ela não faz isso. Uma coisa errada não pode nunca derivar de premissas bíblicas.

1.9. Inclusive, é falso dizer que precisamos usar os olhos para ler a Bíblia e então inferir que precisamos confiar nos sentidos para afirmar a fé bíblica. Podemos, se Deus quiser,  ler a Bíblia enquanto sonhamos, sem usar nenhum sentido.

1.10. A única relação da experiência sensorial com o conhecimento é a ocasional: o Logos comunica as verdades da fé diretamente na nossa mente NA OCASIÃO em que usamos os olhos para ler a Bíblia (ou os ouvidos para ouvir a pregação). Isso é bem diferente de dizer que o conhecimento vem através dos sentidos. Essa posição se chama ocasionalismo.

1.11. De modo que não podemos confundir cérebro com mente. Aliás, é errado dizermos "cabeça" ou "massa cinzenta" como sinônimos de inteligência. Nossa mente não está alojada no nosso cérebro. Inclusive, nem precisamos do cérebro para pensar, do contrário nossas almas não pensariam após a morte. A verdade é que Deus causa que nós pensemos enquanto ele causa alterações no cérebro - novamente o ocasionalismo - mas não há nenhuma interação entre mente e corpo que seja em si necessária.

1.12. Cabe ainda observar que todo conhecimento é proposicional e teórico. Ninguém conhece nada pela experiência de vida ou por ações. Qualquer vivência ou comportamento só pode ser compreensível se explicado por palavras.

 

2. METAFÍSICA:

 

2.1. O Deus bíblico é soberano sobre tudo. Ele criou todas as coisas e causa todos os eventos. Ele determina tudo quanto acontece e não pode ser julgado por ninguém.

2.2. Logo, Deus é soberano sobre a salvação. Ele é quem predestina, quem regenera, quem concede a fé e quem preserva os eleitos em santidade até o fim.

2.3. Ele também é quem predestina os réprobos para o endurecimento e para a perdição eterna no inferno. Ele faz todas essas coisas para a própria glória.

2.4. Essa predestinação só pode ser supralapsariana. Tanto quanto Deus predestina os eleitos para a glória sem levar em conta sua futura fé e obediência, ele predestina os réprobos para o inferno sem levar em conta a sua futura rebelião. O modo de vida dos homens é consequência, não a causa dos decretos de Deus.

2.5. Isso tem de ser assim porque, para qualquer propósito intelectual, a ordem histórica é o inverso da ordem lógica. Quem planeja sempre planeja dos fins para os meios - essa é a única forma de se pensar qualquer ação. Mas a ordem das ocorrências parte do meio para os fins. Não há nenhuma razão para acharmos que seria diferente com Deus. O infralapsarianismo confunde essas coisas e faz com que Deus nunca saiba pra quê ele intenta algo até que o algo aconteça.

2.6. Quanto à responsabilidade humana, deve ficar claro que responsabilidade não pressupõe liberdade. Essa relação é inventada e não é bíblica. Pelo contrário: uma pessoa é responsável porque alguém superior a ela a obriga a prestar contas, de modo que o homem é responsável precisamente porque não é livre.

2.7. Logo, não há nenhuma necessidade de explicar por que a soberania de Deus é compatível com a liberdade do homem. O homem não é livre de Deus. Simples assim.

2.8. Tampouco há qualquer "mistério" ou "paradoxo" ou "tensão" nisso. Essa é uma das doutrinas mais claras e fáceis da Bíblia, e ela nunca é ensinada como se houvesse uma dimensão incompreensível.

2.9. E não é mistério nenhum a origem do pecado. Criaturas originalmente boas pecaram porque Deus causou que elas pecassem, ponto. E não há assim nenhum problema em dizer que Deus é o autor do pecado, uma vez que estamos falando de metafísica, e não de ética.

2.10. Deus não "permite" passivamente nada. Ele é a única causa ativa metafísica de tudo. Qualquer atenuação disso resulta em uma afirmação de outro princípio metafísico independente de Deus e cai em idolatria.

2.11. Se alguém reclamar que Deus é injusto, é só ir ler Romanos 9 de novo.

 

3. ÉTICA:


3.1. Deus é o único legislador e revelou todas as suas leis na Bíblia. Ele julgará todos os homens no último dia.

3.2. Os mandamentos de Deus valem para todas as eras e não podem ser postos de lado por tradições.

3.3. O conceito de certo e errado, de justo e injusto, flui desses mesmos mandamentos. Isso significa que somente Deus, o legislador, pode impor esses conceitos.

3.4. Essa é a razão por que Deus pode causar o pecado, mas não pode tentar ninguém a pecar. A tentação está no nível do preceito ético. Logo, como tudo o que Deus preceitua é certo, uma tentação vinda de Deus destruiria o próprio conceito de pecado. Mas isso não tem nada a ver com metafísica.

3.5. Todos os mandamentos devem ser obedecidos e eles nunca se contradizem. Não existem dilemas morais. A ideia de "mentir para salvar uma vida", de que não tem problema pecar para que um mandamento maior seja cumprido, é um atentado contra a sabedoria de Deus. A nós cabe obedecer, e não prever e controlar os resultados. Por isso a teoria do "absolutismo gradativo" é apenas relativismo.

 

4. ANTROPOLOGIA:

 

4.1. A identidade do homem está na sua alma, não no corpo. Ele não deixa de ser ele mesmo após a morte.

4.2. Por isso, a ênfase na unidade entre corpo e alma não pode ser levada ao extremo de que o corpo é tão importante quanto alma. A Bíblia ensina que o corpo é sim bom como criação de Deus, mas a alma é bem mais importante. E não interessa se isso é grego, platônico ou maniqueu, só interessa o que a Bíblia ensina.

4.3. Os ímpios são descritos na Bíblia sempre com os piores termos. Eles não são inteligentes. Eles são extremamente estúpidos - todos eles. Os cristãos nunca devem achar que um ímpio é imoral apesar de ser inteligente - ele é tanto imoral quanto idiota.

4.4. Já os cristãos são descritos como os que conhecem a verdade e vivem em santidade. Portanto, os cristãos são sim superiores aos não cristãos. Não é humildade afirmar que somos todos iguais, mas é uma blasfêmia contra a diferença que Cristo fez em nós. Nós éramos como os ímpios devido à nossa natureza caída comum, mas agora não somos mais.

 

5. APOLOGÉTICA:

 

5.1. A apologética bíblica é a pressuposicionalista. Devemos atacar os ímpios mostrando que os seus pressupostos são irracionais e injustificados.

5.2. O cristão é invencível. Mesmo uma criança cristã pode sempre vencer e humilhar um doutor ímpio. A única possibilidade de um cristão sair perdendo em um debate é se ele abandonar as premissas bíblicas no meio da conversa. Fora isso, ele pode ter certeza de que sempre irá vencer.

5.3. É importante dar a prioridade lógica à metafísica sobre a ética. Nós não podemos dizer que Deus é a justificativa para que um preceito ético se mantenha (ex: matar é errado e só a existência de Deus pode provar isso). Deus não é o "seguro" para que possamos afirmar a ética que queremos. Antes, temos de demonstrar a validade de Deus por si mesma, e só então derivar dele a ética.

5.4. Não há problema nenhum em chamar os ímpios dos mesmos nomes que a Bíblia chama. Qualquer ideia de "gentileza", "respeito" e "falar a verdade em amor" precisa incluir os termos que Jesus, os profetas e os apóstolos usaram, como raça de víboras, animais, cães, estúpidos, etc. Não há por que considerar os homens da Bíblia como exceções. A etiqueta mundana não deve ser imposta a nós.

 

6. IGREJA:

 

6.1. A igreja é a congregação dos indivíduos cristãos. Ela não é uma coisa com vida própria, não é a nossa mãe.

6.2. O principal dever da igreja é o ensino da doutrina. E não apenas em nível de evangelismo, mas para o fim maior de "apresentar todo homem perfeito para Cristo". O certo mesmo é o ensino da igreja ser de qualidade de seminários. Não é possível exagerar esse ponto.

6.3. É errado dizer que um cristão precisa frequentar a igreja para se manter fiel a Deus e não apostatar. Claro que é bom, desejável e mandatório frequentar uma igreja, mas não por isso. Os crentes precisam uns dos outros para que o trabalho da igreja como um todo seja realizado, mas não para se preservar a salvação. Antes, a salvação é garantida por Cristo, e a igreja não é mediadora. (Só lembrar de Robinson Crusoe)

6.4. Inclusive, um crente não precisa ficar escolhendo a igreja menos ruim. É melhor não frequentar nenhuma a frequentar uma menos péssima do que as outras, se ele realmente não tiver outra opção.

6.5. Todo crente deve apoiar financeiramente uma igreja boa. Seus dízimos e ofertas devem ser pagos fielmente. É um terrível pecado desamparar os ministros. Por outro lado, é também um pecado apoiar financeiramente as igrejas hereges.

6.6. A autoridade do ministro é fundamentada unicamente no chamado de Deus e é verificada pelos requisitos bíblicos para um ministro. O pertencimento a uma denominação, um grau de seminário ou o reconhecimento dos pares podem ser úteis para a ordem, mas não validam o chamado. Do contrário, não haveria reformadores, nem os profetas, nem Jesus.

6.7. Os ministros administram os sacramentos por uma questão de organização. Mas em princípio qualquer cristão poderia.

 

7. EDUCAÇÃO:

 

7.1. A principal atividade humana é o estudo da teologia. Isso é até mais importante do que a oração. Pelo simples fato de que absolutamente nada pode ser compreendido, avaliado e regulado sem o entendimento teológico prévio.

7.2. O mandato cultural é frequentemente abusado como se ele validasse qualquer coisa com a mesma importância. Uma coisa é dizer que a matéria é boa em si mesma, outra coisa é dizer que tudo que é material é tão bom quanto as coisas espirituais.

7.3. Assim, devemos manter que o trabalho mais importante é o do doutrinador, do ministro da palavra. Os outros trabalhos também são importantes e glorificam Deus, mas o do ensino da Palavra é o maior.

7.4. Do mesmo modo, é bobagem querer justificar todos os divertimentos e prazeres como "mandato cultural". Essas coisas não se tornam espirituais só porque você diz "coram Deo". Os exercícios espirituais sempre devem ter prioridade.

7.5. Os pais devem ensinar teologia sistemática e pesada pros filhos. Se os filhos não souberem mais do que o BCW até a adolescência, os pais fracassaram.

7.6. Nunca diga a alguém que uma doutrina é "difícil de entender". Nunca diga que a "nossa mente finita" não entende alguma doutrina bíblica. Deus nunca disse que uma doutrina é difícil de entender ou que é misteriosa mesmo após ele ter explicado. Pode ser que a sua mente é que seja mais finita do que as outras. Não meça os outros pela sua incompetência, do contrário a sua aparente humildade é arrogância disfarçada. Nem mesmo às crianças você deve dizer que algo é difícil, mas espere que elas mesmas digam.

 

8. CESSACIONISMO:

 

8.1. A sola scriptura nunca pode ser usada para desbancar a continuidade de línguas e profecias. Pois é a própria Bíblia que nos ordena a buscar essas coisas.

8.2. O cessacionismo erra o alvo porque os dons nunca foram imprescindíveis para a operação de milagres. Jesus promete que a fé operaria milagres, não os dons. Tiago diz que a oração com fé levantaria o enfermo, não o dom da cura. E diz que muito pode a oração do justo pela sua eficácia, não a oração do apóstolo. Pedro diz que foi a fé no nome de Jesus que levantou o paralítico, não o dom apostólico.

8.3. Portanto, mesmo que os dons houvessem cessado e os apóstolos tenham ido embora, ainda podemos operar curas, línguas, profecias e todo tipo de milagres do mesmo jeito.

8.4. Esqueça o que os carismáticos fazem. Se eles abusam de alguma coisa, problema deles. Afirme sem titubear o que a Bíblia afirma. Se Jesus afirma que foi por falta de fé que Pedro falhou em andar sobre as águas, então pronto, a culpa é da falta de fé sim.

8.5. Jesus levou sobre si as nossas enfermidades tanto quanto levou nossos pecados. E ele provou isso quando fez milagres de curas (Mt 8.17). Então nenhum crente deveria achar normal conviver com uma doença.

8.6. O sofrimento válido é apenas aquele que vem como perseguição por servirmos a Cristo. Qualquer outro sofrimento pode ser vencido pela fé. Se Jesus prometeu alegria e paz transbordantes, então o crente tem a obrigação de viver sem depressão.

8.7. E sim, Jesus anunciou um evangelho de prosperidade. Ele disse que Deus nos daria aquilo que os pagãos buscam - comida, roupas e dinheiro. Davi diz não apenas que "nada me faltará", mas que Deus fazia o cálice dele transbordar e lhe dava um banquete na frente dos seus inimigos. O Salmo 112 também diz que a prosperidade está na casa do homem que teme a Deus. Um ensino bíblico não pode ser espiritualizado ou relativizado só porque os neopentecostais estão fazendo alguma besteira.

8.8. Se tudo isso significar que os "melhores líderes cristãos da história" estavam errados, que seja. Nenhum deles foi crucificado em nosso lugar e no nome de nenhum deles nós fomos batizados.

 

 

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