Como conhecemos Deus? A Escritura como fundamento do conhecimento
Como podemos conhecer Deus? Essa é uma das perguntas fundamentais da filosofia da religião e da teologia cristã. Antes de apresentar uma doutrina sobre os atributos divinos, a criação ou a salvação, precisamos considerar como podemos conhecer a verdade a respeito desses assuntos. Entretanto, por trás dessa pergunta existe outra ainda mais abrangente: como podemos conhecer qualquer coisa? Se não conseguimos explicar o fundamento do conhecimento, a dificuldade não se limita à religião. Ela alcança igualmente a moralidade, a ciência, a história e todas as demais áreas nas quais distinguimos a verdade do erro.
A investigação desse problema recebe o nome de epistemologia, ou teoria do conhecimento. Sua importância está no fato de que qualquer afirmação que pretenda comunicar uma verdade já pressupõe alguma compreensão do que significa conhecer. Quando alguém afirma que determinada crença é verdadeira, precisa considerar por que ela deve ser aceita e qual é o fundamento de sua justificação. A palestra examina essa questão por meio de três caminhos: o empirismo, o irracionalismo e uma posição que pode ser chamada de dogmatismo ou pressuposicionalismo, cujo princípio fundamental é a verdade das Escrituras.
O empirismo parece, inicialmente, a posição mais próxima do senso comum. Aprendemos pela experiência: percebemos cores, sentimos dor, reconhecemos objetos e observamos acontecimentos. A partir disso, conclui-se que todo conhecimento procede das sensações. A palestra reúne nessa discussão autores como Aristóteles, Tomás de Aquino e John Locke, embora suas filosofias apresentem diferenças importantes. O aspecto colocado em questão é a tentativa de fazer da experiência sensível o fundamento a partir do qual se explicam o conhecimento dos objetos, a formulação de princípios gerais e, finalmente, o conhecimento de Deus.
A primeira dificuldade aparece na própria sensação. Nem todas as pessoas percebem as cores da mesma maneira, e a percepção pode variar conforme as condições dos órgãos sensoriais, o estado de saúde e o contexto em que o objeto é observado. Uma mesma faixa de tinta cinza pode parecer diferente quando atravessa fundos de cores distintas. O que se vê, portanto, depende também das condições da observação. A experiência sensível não se apresenta como um conjunto de informações inteiramente independente de interpretação.
As ilusões visuais tornam esse problema especialmente evidente. O palestrante relata que, durante uma viagem, acreditou avistar um caminhão próximo a um celeiro. Ao se aproximar, percebeu que aquilo que havia identificado como um veículo era uma caixa de correio. O exemplo suscita uma questão epistemológica: o que permite distinguir uma percepção correta de uma interpretação equivocada? Se ambas foram acompanhadas da impressão de estar vendo determinado objeto, a simples presença dessa impressão não pode constituir, por si só, um critério suficiente de verdade.
O argumento pretende mostrar que a sensação não explica sozinha o conhecimento. Reconhecer um objeto já envolve interpretação, distinção e juízo. Não recebemos apenas uma impressão e, automaticamente, possuímos uma proposição verdadeira sobre o mundo. Precisamos identificar o que percebemos e avaliar a validade dessa identificação. Para o palestrante, o empirismo enfrenta dificuldades justamente na passagem entre a ocorrência de uma sensação e a justificação de uma afirmação.
Uma segunda dificuldade envolve a memória e as imagens mentais. Algumas teorias explicam a permanência do conhecimento por meio de imagens que seriam conservadas depois que a sensação desaparecesse. Contudo, a palestra observa que nem todas as pessoas relatam possuir imagens mentais da mesma maneira. Se alguém consegue pensar sem reproduzir interiormente uma figura visual correspondente, torna-se problemático apresentar essa reprodução como condição universal do pensamento. Além disso, mesmo quando existe uma imagem, ainda é necessário explicar como ela pode fundamentar conceitos e juízos verdadeiros.
A discussão alcança, então, o problema da abstração. Como se passa de experiências particulares a conceitos universais? Uma sensação ocorre em circunstâncias determinadas, mas um conceito pretende aplicar-se a muitos casos, inclusive àqueles que nunca foram observados. O palestrante recorre à crítica de George Berkeley às ideias abstratas para questionar se o empirismo consegue justificar essa passagem. O problema central permanece: acumular experiências particulares não explica automaticamente a universalidade das proposições que afirmamos conhecer.
Outra objeção diz respeito às normas. Mesmo que admitíssemos que a experiência consegue informar o que acontece, ainda seria necessário explicar como dela se extraem princípios sobre o que deve acontecer. Observar um comportamento não demonstra que ele seja moralmente correto. A frequência de uma prática tampouco estabelece sua legitimidade. Uma descrição dos fatos, tomada isoladamente, não produz uma obrigação moral; para chegar a uma conclusão normativa, é necessário algum princípio que ultrapasse a simples descrição.
Segundo a palestra, uma dificuldade semelhante aparece na fundamentação das leis lógicas. A lei da não contradição não é apresentada como uma regularidade observada em alguns acontecimentos, mas como condição da própria argumentação. Não podemos afirmar e negar a mesma proposição, ao mesmo tempo e no mesmo sentido, preservando ambas como verdadeiras. Se essa distinção for abandonada, os argumentos perdem a capacidade de diferenciar uma conclusão de sua negação. Até mesmo uma tentativa de refutar a lógica depende de distinções lógicas para comunicar aquilo que pretende sustentar.
É nesse ponto que a palestra passa à crítica do irracionalismo. Sua objeção dirige-se especialmente às concepções religiosas que fazem da contradição, do absurdo ou de uma experiência inexprimível o fundamento da fé. Na interpretação apresentada pelo palestrante, determinadas tendências associadas a Søren Kierkegaard e à teologia neo-ortodoxa enfraquecem a importância do conteúdo verdadeiro da crença e atribuem prioridade à intensidade da experiência subjetiva.
A encarnação é um dos exemplos discutidos. Na leitura criticada, a entrada do eterno na história seria uma contradição que o cristão precisaria aceitar precisamente como absurda. A objeção do palestrante é que, se a fé exige aceitar contradições reais, torna-se difícil explicar como ela pode comunicar uma verdade determinada. Afirmar que não compreendemos exaustivamente uma doutrina não equivale a afirmar que essa doutrina é contraditória. Nossa limitação intelectual não torna verdadeira a negação daquilo que Deus revelou.
A crítica também aparece na discussão sobre a sinceridade religiosa. A palestra retoma uma ilustração de Kierkegaard que contrasta alguém com uma concepção doutrinária correta, mas que ora de maneira inadequada, e um idólatra que ora com intensa paixão. O palestrante reconhece que a condenação da hipocrisia seria legítima, mas contesta a conclusão de que a maneira de crer poderia substituir a verdade daquilo em que se crê. A intensidade da convicção não transforma automaticamente seu objeto em verdadeiro.
Essa distinção é decisiva para a fé cristã. A sinceridade não torna irrelevante a identidade de Deus, assim como a força de uma experiência não demonstra, por si mesma, a verdade de uma doutrina. A fé possui conteúdo: ela se refere a quem Deus é, ao que realizou e ao que prometeu. Se esse conteúdo puder ser substituído por qualquer outro, desde que acompanhado de suficiente paixão, desaparece o critério que permite distinguir a adoração verdadeira da idolatria.
O mesmo problema é identificado nas concepções que deslocam a revelação para um encontro existencial separado de um conteúdo histórico e conceitual definido. A palestra dirige essa crítica a posições que associa a Karl Barth, Emil Brunner e Rudolf Bultmann. Seu argumento central é que o cristianismo não pode prescindir de afirmações verdadeiras sobre os atos de Deus na história. A morte e a ressurreição de Cristo não podem perder seu conteúdo objetivo e permanecer apenas como expressões da experiência religiosa do indivíduo.
Se a contradição for aceita como princípio, torna-se impossível preservar a diferença entre afirmar que Cristo realizou a expiação e afirmar que não a realizou. A dificuldade ultrapassa a teologia: até a comunicação cotidiana pressupõe que uma afirmação tenha um significado distinto de sua negação. Por isso, a lógica não é tratada como um obstáculo à revelação, mas como inseparável de sua inteligibilidade. Para compreender uma mensagem, precisamos distinguir o que ela afirma daquilo que exclui.
Diante dessas dificuldades, a palestra apresenta a terceira possibilidade: reconhecer que todo sistema de pensamento depende de princípios fundamentais. Nenhuma demonstração pode prosseguir indefinidamente sem um ponto de partida. Para provar uma conclusão, recorremos a premissas; se todas as premissas exigissem uma prova anterior, jamais chegaríamos a um fundamento. Assim, todo sistema assume algum princípio que não é demonstrado a partir de uma autoridade ainda mais elevada dentro desse mesmo sistema.
O empirismo também possui pressupostos. A afirmação de que todo conhecimento procede da experiência não é simplesmente uma cor, um som ou uma sensação. Ela é uma proposição geral sobre o conhecimento. Da mesma forma, o princípio segundo o qual somente possuem significado as afirmações verificáveis pela experiência enfrenta a dificuldade de justificar seu próprio significado por esse critério. A observação não pode demonstrar sua confiabilidade sem que alguma confiança nela já esteja pressuposta.
O argumento pressuposicionalista sustenta, portanto, que a presença de um fundamento não demonstrado por um princípio superior não constitui uma peculiaridade embaraçosa do cristianismo. Trata-se de uma característica dos sistemas de pensamento. A questão é qual princípio deve ser reconhecido como fundamental e quais consequências decorrem de sua adoção. A proposta da palestra é assumir como axioma cristão a verdade das Escrituras.
Nessa formulação, a Escritura é recebida como o princípio pelo qual as demais pretensões de conhecimento devem ser examinadas. O palestrante relaciona essa posição ao sola Scriptura, rejeitando a ideia de que a teologia dependa de diversas fontes independentes com igual autoridade. Tradições, sistemas filosóficos e interpretações da experiência não podem ocupar a posição de tribunal supremo diante da Palavra de Deus. Seu valor deve ser avaliado à luz da revelação.
A afirmação da verdade das Escrituras inclui sua inteligibilidade. A verdade não pode ser identificada com a contradição. Deus é verdadeiro, Cristo é apresentado como o Logos e a sabedoria de Deus, e a revelação comunica algo que deve ser compreendido. A razão humana não aparece como uma autoridade autônoma acima da revelação, mas como a capacidade pela qual distinguimos, compreendemos e relacionamos aquilo que Deus comunica.
Essa compreensão conduz à doutrina da imagem de Deus. Para o palestrante, a possibilidade do conhecimento humano deve ser explicada a partir da criação do homem à imagem divina. O ser humano pode receber uma revelação inteligível porque foi criado com capacidades correspondentes à compreensão dessa revelação. Na interpretação defendida na palestra, a racionalidade ocupa o centro dessa imagem: o homem pensa, formula juízos, reconhece obrigações e compreende proposições.
O argumento recorre ao relato da criação e às passagens que apresentam a renovação do homem em conhecimento e justiça. Colossenses 3:10 e Efésios 4:24 são especialmente relevantes para essa leitura. A renovação espiritual envolve conhecimento da verdade e transformação moral. Por isso, a vida cristã não pode ser reduzida a sensações ou impulsos destituídos de conteúdo. Ela envolve entendimento, fé e obediência à Palavra de Deus.
A própria forma das Escrituras reforça esse ponto. A Bíblia comunica doutrinas, mandamentos, promessas e acontecimentos históricos. Até passagens que parecem distantes de grandes controvérsias teológicas pressupõem leitores capazes de compreender pessoas, lugares, ações e relações. Quando Paulo afirma que toda a Escritura é proveitosa para o ensino e para a instrução em justiça, esse proveito envolve a compreensão do que foi escrito. A edificação pressupõe uma mensagem inteligível.
A palestra aplica o mesmo princípio à orientação de Paulo sobre as línguas em 1 Coríntios 14. A ausência de interpretação impede que a congregação compreenda e seja edificada. Como alguém poderá dizer “amém” a uma oração cujo conteúdo não entende? A preocupação apostólica mostra que a participação espiritual da igreja não dispensa o entendimento. A inteligibilidade pertence à própria finalidade da comunicação no culto.
Resta uma objeção: se os sistemas filosóficos partem de axiomas distintos, como pode existir diálogo entre seus defensores? A resposta da palestra distingue a exposição de uma posição da pretensão de demonstrar seu fundamento a partir de um princípio supostamente neutro. O cristão pode apresentar o evangelho, explicar seu conteúdo histórico, desenvolver suas relações lógicas e responder a objeções. A existência de pressupostos diferentes não impede que uma mensagem seja comunicada e discutida.
Entretanto, a conversão não é apresentada como um resultado que o argumentador consiga produzir por sua própria capacidade. A tarefa cristã consiste em anunciar e explicar fielmente o evangelho. A mudança interior pela qual uma pessoa passa a crer é atribuída à ação do Espírito Santo. Assim, a argumentação e a exposição doutrinária são acompanhadas da oração para que Deus conceda arrependimento, fé e nova vida em Cristo.
A resposta desenvolvida pela palestra à pergunta sobre como conhecemos Deus repousa, portanto, na revelação divina. Deus comunica a verdade, o homem foi criado para compreender essa comunicação e o Espírito Santo atua para que a Palavra seja recebida com fé. Nessa perspectiva, a Escritura fornece o fundamento do conhecimento de Deus, a lógica pertence à compreensão de seu conteúdo e a ação divina torna eficaz a proclamação do evangelho.
Palestra: Cosmovisão Bíblica | História da Filosofia Ocidental
Esta mensagem foi gravada por Gordon Clark em 1977. Ela serve como um excelente exemplo da mensagem central de Clark: a de que a fé somente na Palavra de Deus é a chave para conhecer a Deus, em particular, e para o conhecimento, em geral. Clark dialoga com diversas tradições filosóficas para expor seu argumento.

Comentários
Postar um comentário